quinta-feira, 24 de julho de 2014

Capítulo 52 - “Nós vamos vencer isso juntos”

    De volta à rotina. 
 Para alguns isso deve ser terrível, ainda mais depois de um recesso tão maravilhoso como o meu mas pra falar a verdade estava com saudades do meu trabalho, do CT, das pessoas de lá... enfim, do ambiente em si. Só não sentia falta mesmo do trânsito caótico de toda manhã e final de tarde. Mas os primeiros dias de janeiro foram tranquilos. Assim que abriram as vagas, matriculei a Dudoca na mesma escola e suas aulas começarão em breve. A Manu já fez o que ela mesma chamou de primeira loucura do ano: duas tatuagens, uma que significa amor e outra que significa resistência. Entrei na academia do prédio mesmo assim que voltamos do Guarujá, e quando chego do trabalho não tão cansada, me troco e desço. Como estava sem fazer atividade física a bastante tempo quando saio de lá, ainda fico meio dolorida, mas nada insuportável. Porém, o Júnior zoa comigo mesmo assim, nem ligo. Já a Manu só falta pular de felicidade quando dá para malharmos juntas. Assumo que também gosto, o tempo passa mais rápido. Seu sucesso profissional também é cada vez maior, o que me enche de orgulho. Ela foi promovida no primeiro dia de trabalho após o recesso e pôde escolher com qual turno queria ficar. Preferiu o da manhã, só pra não ter que me deixar na mão pra ir buscar a Dudoca na escola. Como posso não amá-la?
 O estado do meu avô ainda é o mesmo. Agora ele evita ambientes com aglomeração de pessoas, a pedido do médico também reduziu certas atividades que potencialmente podem trazer riscos de acidentes e, consequentemente, provocar sangramentos. E claro, continua o tratamento com medicamentos imunossupressores, que faz com que os sintomas da doença diminuam. Menos mal.
 Eu e o Júnior estamos mais unidos do que nunca. Acho que começar o ano ouvindo ele dizer que os nossos corações se pertencem era tudo que eu queria e precisava. Agora que a nossa rotina voltou ao normal, já que a folga também acabou pra ele, é bem mais difícil eu dormir na sua casa, mas ele quase sempre dorme na minha. Já nos acostumamos com isso. No entanto, também temos que lidar com aqueles dias mais puxados que não dá para nos vermos, afinal ele tem que estar em tantos lugares em tão pouco tempo, gravar comerciais, dar entrevistas... além de ter o direito de rever amigos que não moram em Santos também. Aprendi a me conformar que ele conhece muita gente, e claro que existe um certo ciúme, estaria mentindo se dissesse que não existe, mesmo que eu não queira, é incontrolável. Mas ele sabe (e porque adora me provocar, diz que gosta quando assumo isso, eu não acho nada engraçado) e não vou privá-lo de nada, nós dois sabemos nossos limites. Não falamos sobre o episódio “casa comigo?” do Réveillon, o que só veio confirmar as minhas suspeitas de que ouvi muito mal.
 Ele nem imagina, mas já tenho o presente do seu aniversário em minhas mãos. Não é nada demais, nem muito extravagante, mas acho que vai lhe proporcionar alguns bons minutos no seu dia. Foi uma ideia que tive do nada durante o ano novo, mas ainda é sigilo, apenas eu e duas pessoas sabem, ou devo dizer três, incluindo a Dudoca? É, acho que sim. Afinal, o presente é nosso. E fazê-lo também foi maravilhoso. 

    ****
      10 de janeiro de 2014, sexta-feira - let's go work!
Acordei com o toque do meu despertador (não, dele não estava com saudades, já que sempre toca nas melhores partes dos meus sonhos, é irritante). Levantei e espreguicei-me. Estava animada e não era só por ser sexta-feira. Muito provavelmente hoje chegaria um exemplar de uma capa da Santástico que começamos a elaborar na segunda e eu estava doida pra saber como ficou, apesar de saber que ia precisar de uns retoques básicos. A primeira revista do ano tinha tudo para agradar a todos. Eu particularmente amei o tema escolhido para a edição, que não por acaso, é o camisa onze do time. Obviamente foi uma decisão tomada em equipe mas não consegui evitar sorrir ao falar dele, então zoação não faltou durante toda a semana. Queria muito ver a capa. Arrumei a cama, peguei a roupa que já tinha escolhido na noite passada e estirei-a ali. Tirei o pijaminha, prendi o cabelo de qualquer jeito, entrei no banheiro, tomei um banho delicioso e escovei os dentes. Enxuguei-me, passei hidratante no corpo, me vesti, soltei e penteei o cabelo. Confirmei as coisas que estavam na minha bolsa, abri um pouco as persianas, me perfumei, peguei o celular e saí do quarto. A Dudoca ainda está aproveitando os últimos dias de férias, e foi dormir com o pai ontem, já que ele só precisa estar no CT no final da tarde para realizar alguns exames rotineiros de início de ano. Acho que eles vão aproveitar o dia para visitar o Instituto Neymar Jr novamente, parece que algumas crianças vão fazer uma apresentação de dança. Só estive lá uma vez, mas amei o que vi. A Manu estava na cozinha tomando o seu precioso café forte de toda manhã. 
Clara - Bom dia - deixei minha bolsa em cima do balcão e dei um beijo no seu rosto -
Manu - Bom dia - sorriu. Abri a geladeira, peguei um iogurte natural desnatado, peguei uma colher no escorredor e sentei ao seu lado. Não que estivesse com fome, mas não tinha escolha - Quando cheguei ontem você já estava dormindo, estranhei
Clara - Culpa da academia. Sinceramente, acho que isso não é pra mim - gargalhou -
Manu - Nem pense em sair
Clara - Acha que manda - revirei os olhos e ela riu novamente - Fatinha já achou uma casa que lhe agrade?
Manu - Parece que sim. Me ligou ontem pedindo pra ir conhecer
Clara - Onde dessa vez?
Manu - Vila Belmiro, eu acho
Clara - Não conheço muito, é um bairro pequeno, mas residencial... deve ser um bom lugar
Manu - Do jeito que ela falou acho que gostou também. Disse que a casa tem até uma edicula, então deve ser grande, não é?
Clara - Ou seja, a cara da Fatinha - rimos. Terminei meu iogurte, ela terminou seu café, coloquei ração pro Luck e saímos. Descemos juntas e nos despedimos no estacionamento. Destravei as portas do meu carro, entrei, joguei a bolsa no banco do passageiro e liguei a rádio.
 clarabarcelar_: Fridayyy!!
Dei partida, e não deixei o trânsito abalar o meu humor. Dificilmente isso acontece. Cheguei ao CT, estacionei naquela que já é praticamente minha vaga, peguei minha bolsa, saí, travei as portas do carro, entrei e subi.
Clara - Bom dia, Gio - cumprimentei-a alegremente -
Giovanna - Bom dia, Clarinha - a Gio era uma das poucas pessoas que me chamavam assim por ali, na verdade eu nem gostava, mas tem um carinho tão grande no seu jeito de falar que terminei me acostumando - A Jú chegou, pediu pra você ir falar com ela
Clara - É algo sério?
Giovanna - Não. Suponho que ela só queira te sufocar com um abraço, como fez comigo - gargalhei -
Clara - Vou lá - tirei o casaquinho, pendurei-o na minha cadeira, deixei minha bolsa em cima da mesa e fui até a sala da Jú. Nos vimos pela última vez bem antes das festas de fim de ano. Dei dois toques na porta e ela mandou entrar - Oi, madrinha - entrei e fechei a porta -
Juliana - Meu amor - tirou o óculos, jogando-o de qualquer jeito em cima da mesa e levantou, abrindo os braços. Ri e me aproximei para abraçá-la. Bom, a Gio não estava errada e isso me fez rir ainda mais por dentro - Que saudades - sorri -
Clara - Confesso que até estava com saudades também
Juliana - Que consideração, não falo mais nada
Clara - Dramática desde sempre - rimos -
Juliana - Senta aí - apontou para uma cadeira e sentou também. Fiz o mesmo - Como você está? - perguntou séria, de repente, sabia o motivo mas preferi fingir que não tinha entendido -
Clara - Estou bem - meu tom de voz também mudou. Sabia onde ela queria chegar. Pelo telefone não falamos muito sobre isso, inclusive ela ficou sabendo pela minha mãe -
Juliana - Desculpa - ficou um pouco constrangida, e eu ri levemente -
Clara - Não precisa se desculpar, madrinha. Meu avô está... na mesma. Então posso dizer que está bem, logo, eu também estou - sorri fraco -
Juliana - Sabe que estou aqui para tudo, não sabe? Se bem que nada me tira da cabeça que mais cedo do que a gente imagina essa doença vai embora
Clara - Deus te ouça! - pensei, talvez, alto demais -
Juliana - Era só isso. Queria apenas dá um abraço na melhor afilhada do mundo
Clara - Melhor e única
Juliana - Literalmente - rimos -
Clara - Esse excesso de carinho vai me deixar mal acostumada - levantei, contornei a mesa e dei um beijo no seu rosto - Obrigada - ela piscou e sorriu -
Juliana - Quero ver a capa da Santástico, heim?! Ouvi dizer que você caprichou nessa edição, só não sei por que - falou quando eu já estava com a mão na maçaneta. Olhei pra trás, ergui uma das sobrancelhas e ela gargalhou - Ok, pode ir. Não está mais aqui quem falou - tentei não rir, saí e fechei a porta. Voltei para minha linda sala e os meninos já estavam todos em suas mesas. A Gio estava na minha, por sinal, balançando uma caixa retangular -
Giovanna - Adivinha o que chegou? - perguntou com um sorriso de orelha a orelha -
Clara - Mentira! Já? - os meninos pararam o que estavam fazendo para rir de mim, eles fazem isso com frequência -
Caio - E só porque somos ótimos colegas de trabalho, deixamos pra você abrir
Clara - Isso é sério? - gargalhei - Não precisava - sentei de frente pra Gio -
Pedro - Não? Então passa pra cá que eu abro - levantou e estendeu as mãos -
Clara - Não, que isso. Já que vocês fizeram o favor de me esperar, eu abro - peguei a caixinha da mão da Gio - Nem sei como agradecer, sinceramente - tentei falar sério, enquanto retirava um pequeno lacre mas terminamos gargalhando de novo - Uau! - disse assim que abri a caixa. A capa tinha ficado muito mais perfeita do que tínhamos imaginado. Sim, porque a zoação pode ser muita mas quando estamos trabalhando só queremos tudo o mais perto do maravilhoso possível -
Gio - Eu amei. Pra mim não precisa tirar nem acrescentar nada
Caio - Eu acho que se o personagem principal não estivesse na capa... - começou a falar distraidamente, segurando o riso, mas parou quando olhei-o - Mudar pra que né? Está perfeito assim - rimos -
Clara - É sério, o que você achou?
Caio - Falei sério dessa vez. Você sabe que arrasa sempre
Clara - Nós arrasamos
Pedro - Modéstia à parte, né? - rimos - Mas eu preciso concordar - voltei a olhar pra capa. Estava digna de uma edição especial, e minha opinião não tinha nada a ver com a minha vida pessoal, até porque não fiz nada sozinha e nem devo misturar as coisas. Isso está no topo das minhas regras para um bom desempenho profissional.
 gioalencar: Ainda não é assinante? Acessa lá: santastico.webstorelw.com.br 
Depois de discutirmos um pouco e chegarmos a conclusão que não precisaria ser feito nenhum retoque, liguei para gráfica para confirmar a capa. Era só isso que estava faltando. Então em poucos dias - assim esperávamos, pelo menos - a revista já estaria totalmente pronta para ser entregue aos assinantes. E por ser uma edição especial, ia para algumas bancas também. Se acontecesse o que queríamos: muita gente comprando-a, íamos começar a pensar em como deixá-las mais acessíveis para todos. A manhã foi cheia, tínhamos muita coisa pra fazer e colocar em ordem: editar o site da Santástico, responder e-mails, atender e fazer telefonemas, enviar prêmios de promoções do site oficial aos sócios, nos reunir com o pessoal da comunicação, além de concluir ideias, já pensando em outras. Foi um começo de dia agitado mas por incrível que pareça, passou bem rápido. Na hora do almoço, desci, comi rapidinho (sem os jogadores aquele restaurante parece ser quatro vezes maior), e quando subi novamente, como ainda tinha um tempinho livre, peguei meu celular. Havia uma mensagem do Júnior apenas dizendo que estava com saudade. Obvio que aquilo me deixou com um sorriso estupidamente bobo - ainda bem que estava sozinha na sala. Respondi, entrei no instagram e curti as fotos que ele e a Rafa postaram rodeados de crianças no Instituto. Sorri ao ver o sorriso da minha pequena também. Eles ainda deviam estar lá, mas o Júnior não demorou nada para responder, depois começou com suas brincadeirinhas que, admito, me fazem rir sempre, mas ele não precisa saber se não estiver vendo. 
Tinha que voltar ao trabalho, então antes que perdesse a noção do tempo falando com ele, porque certamente isso iria acontecer. Estava perto, inclusive. Tivemos que nos despedir. A Gio e os meninos subiram e retomamos nosso trabalho, dessa vez terminando o que a diretoria tinha começado: fechando com mais um patrocinador; por isso ficamos horas conversando com os encarregados da empresa. Tudo só estava devidamente resolvido às 15h, mas valeu a pena. Era bom ver tanta empresa grande querendo ver suas marcas estampadas nos uniformes do Santos, não podia deixar de sentir um certo orgulho do meu clube. Depois tivemos uma reunião com o comitê de gestão, mas foi rápida, menos de meia hora. Eu amo reuniões com o comitê, não só pelos assuntos importantes sempre abordados mas também porque é uma oportunidade de ver outro lado da Jú: o sério, estritamente profissional. Até o seu olhar quando está em uma reunião é diferente e acho que me espelho nela de vez em quando, mesmo sem perceber. Quando voltamos para nossa sala, tirei o celular do bolso, estava no silencioso. Mas abri um sorriso na mesma hora. Eu não tinha como controlar. Ele estava longe e mesmo assim parecia comandar até as minhas feições. Se isso era uma coisa normal ou não, não sei, mas já era mais do que um hábito. Parecia ser mais intuitivo, automático... não sei, eu amava. Ele me fazia feliz sem fazer nada, até sem saber ou querer. Na verdade, acho que ele me fazia feliz apenas por existir. Eu sabia que ia vê-lo, ou falar com ele em alguma hora do meu dia e isso já me fazia sorrir.
 clarabarcelar_: "Estar apaixonado pode ser muito engraçado..."  
O resto da tarde passou normalmente. Estava arrumando minhas coisas pra ir embora quando meu celular tocou. Achei que fosse o Júnior decidido a me deixar corada pela terceira vez no dia, mas me enganei. Era minha mãe.
 - início -
Clara - Oi, mãe
Débora - Filha... - seu tom de voz me deixou em alerta na mesma hora. Às vezes parece não ser tão bom conhecer demais uma pessoa -
Clara - Que foi?
Débora - Prometi que não ia mais te deixar de fora de nada, por isso estou ligando
Clara - Tudo bem, mãe. Fala
Débora - Estamos no hospital de novo - sabe quando uma onda te pega totalmente de surpresa, chegando até a te deixar sem ar, e você fica sem saber como voltar a superfície? Então, foi exatamente como me senti -
Clara - Por quê? O que aconteceu?
Débora - Na verdade, eu também não sei direito. Meu pai acordou com umas manchinhas pelo corpo. Minha mãe disse que elas surgiram desde ontem mas ele não queria vim pra cá e não nos disse nada
Clara - Meu avô acha que sabe o que é melhor pra todo mundo, menos pra ele mesmo, não é?
Débora - Fica calma, minha filha
Clara - É bem fácil falar. Eu sei que você também não está
Débora - Não estou mesmo, mas não vamos antecipar o andamento dos fatos. Ainda não sabemos de nada, acabamos de chegar. Só queria te avisar logo
Clara - Ok, chego aí o mais rápido que consegui
Débora - Cuidado!
Clara - Tudo bem
 - término -
Sentei e afundei o rosto nas mãos. Não tinha mais ninguém na sala. 
Clara - Fica calma, vai ver são efeitos colaterais dos remédios. Só pode ser isso - falei comigo mesma, me agarrando com tudo nessa hipótese. Era, de longe, a melhor - Não chora! - olhei pro teto e respirei fundo. Passei as mãos no rosto, terminei de arrumar minhas coisas, vesti meu casaquinho e desci a escada mais devagar do que realmente queria. Minha cabeça já estava no hospital. Não havia quase ninguém no térreo, além de dois jogadores que nunca tinha visto por ali. Só sabia que eram jogadores porque estavam com o uniforme. Deviam fazer parte das novas contratações. Já passava das 17h, então era normal que muita gente já tivesse ido embora. Estava indo em direção ao estacionamento quando ouvi um psiu. Não precisava virar pra saber quem era, mas queria. Precisava vê-lo. De repente pareceu ser uma necessidade absurda ouvir a sua voz dizendo que ia ficar tudo bem. Girei o corpo e o vi se despedindo do Emerson Palmieri na porta do CEPRAF. Acenei discretamente pro Emerson e ele retribuiu sorrindo. Bom, pra eu sorrir ia ser um pouco mais difícil naquele momento, estava tensa até o último fio de cabelo -
Neymar - Oi - sorriu e se aproximou para me beijar, só no último segundo lembrou de onde estávamos e desviou um pouco, beijando demoradamente a minha bochecha. Suspirei e senti o seu perfume. Por impulso enlacei os braços no seu pescoço, abraçando-o. Ele ficou surpreso mas passou os braços pela minha cintura também, retribuindo e me apertando. Soltei outro suspiro longo, liberando pelo menos metade da tensão que carregava - Seu avô está bem? - mordeu o lábio inferior com receio -
Clara - Não sei. Mas preciso ir pro hospital
Neymar - Eu levo você, e dessa vez não tem desculpa
Clara - Já fez os exames?
Neymar - Sim, estava te esperando
Clara - E a Duda?
Neymar - Foi pra Elleven com a Rafa, depois a gente passa pra pegar ela - assenti - Vamos, deixo meu carro aqui mesmo - apenas assenti novamente e entreguei minha chave pra ele. Entramos no meu carro e ele deu partida. Joguei a cabeça pra trás, fechei os olhos e tentei não pensar em nada, apenas na presença dele ali ao meu lado. Se começasse a pensar besteira certamente enlouqueceria antes de chegarmos ao hospital - Vai ficar tudo bem - disse as palavrinhas mágicas que eu tanto queria escutar quando parou no sinal e colocou uma das mãos na minha perna. Exibi o melhor sorriso que consegui, lhe dei um selinho e deixei minha cabeça repousar no seu ombro, de um modo que não te atrapalhasse. Fomos o resto do caminho calados e me dei conta que ele nem sequer perguntou o que estava acontecendo, simplesmente deduziu e se prontificou a me acompanhar. Meu coração aqueceu um pouco, não muito, só o suficiente para não me deixar pensar no que não devia. Quando chegamos ao estacionamento do hospital, lembrei da última vez que tinha entrado ali e do jeito que saí... um arrepio percorreu o meu corpo quase instantaneamente. Não sei a quanto tempo o Júnior estava ao meu lado esperando que eu saísse do carro também, mas mais uma vez agradeci a Deus por tê-lo ali. Saí finalmente, ele travou as portas e segurou as minhas mãos que estavam suando frio. Entramos, chamei o elevador, e subimos. Vi meu pai, minha mãe e minha avó no mesmo lugar da última vez. Isso não podia ser sinal de coisa boa... mas tentei pensar que seria. Cumprimentamos todos e nenhum deles tinha um semblante calmo, muito pelo contrário -
Débora - Que bom que não veio sozinha - tentou sorrir pro Júnior e ele fez o mesmo -
Clara - Já sabem de alguma coisa?
Débora - Não. O Dr. Marcelo passou por aqui agora a pouco, disse que já vem nos dizer algo - assim que ela fechou a boca, um homem alto que devia ter apenas uns dois anos a mais que o meu pai saiu de uma sala próxima a recepção e se aproximou de nós com alguns papéis nas mãos. Minha avó era a única que ainda estava sentada, mas levantou imediatamente. Ele cumprimentou a mim e ao Júnior com um breve aceno -
Glória - Então, Dr?
Dr. Marcelo - Como eu já suspeitava, as manchas escuras na pele dele são consequências da diminuição do número de plaquetas - minha avó pareceu ter ficado ainda mais confusa -
Clara - Essa diminuição é efeito da aplasia, certo?
Dr. Marcelo - Sim
Clara - Mas os remédios que ele está tomando não são justamente para abrandar um pouco esses efeitos?
Dr. Marcelo - Exatamente
Clara - Então isso quer dizer alguma coisa - minha mãe olhou pra mim assustada, ela já tinha entendido o que infelizmente passava pela minha cabeça -
Dr. Marcelo - Sim... - ele parecia estar procurando o jeito certo de falar o inevitável - Bom... esses medicamentos que agem estimulando a produção de células sanguíneas pela medula óssea que está falida não são mais suficientes para curar a aplasia do paciente
Glória - Como não são mais suficientes? - falou um pouco alto demais -
Dr. Marcelo - Isso pode acontecer, dada a gravidade da doença. Uma boa parte dos pacientes podem responder muito bem ao tratamento imunossupressor e levar uma vida normal. Outros podem não apresentar uma boa resposta e acabar até se tornando um dependente de transfusões
Débora - Então como é que o meu pai fica? Ele vai virar um dependente de transfusões também?
Dr. Marcelo - Não, e nem é por isso que vamos deixar de alcançar a melhora dele. Mas vai ser necessário um transplante de medula óssea. É o mais aconselhável - levei as mãos a boca, transtornada, e caí sentada em uma cadeira que se encontrava atrás de mim. Acho que o Júnior sentou ao meu lado, não tenho certeza. Minha visão parecia embaçada, apesar das lágrimas estarem presas. Eu estava em choque. Minha avó começou a chorar, incapaz de falar mais alguma coisa, meu pai tentou acalmá-la, mas totalmente em vão. Minha mãe permanecia de pé. Não sei por quanto tempo ela também aguentaria -
Débora - Como é que isso é feito? - eu quase não ouvi a sua voz -
Dr. Marcelo - O transplante pode ser realizado com a medula doada por um parente, um irmão ou irmã, talvez
Débora - Ele não tem irmãos - ela deu sinais de que ia começar a chorar. Eu ainda não conseguia falar nada -
Dr. Marcelo - Sendo assim, eu preciso dizer que as chances de se conseguir um doador compatível na família são pequenas, mas existem. Se vocês quiserem saber se são compatíveis, os exames podem ser feitos aqui mesmo
Murilo - Sim, nós vamos fazer - meu pai respondeu por todos. Sim, porque minha mãe já tinha desistido de tentar parecer forte -
Dr. Marcelo - Ótimo. O doador reconstituirá o que doou rapidamente e poderá voltar às atividades normais também, não há nenhum risco. E não se preocupem, porque vamos começar uma busca no banco de doadores também. Enquanto isso o tratamento com medicamentos continuará, mas recomendo que ele permaneça aqui
Murilo - Aqui? Até quando?
Dr. Marcelo - Sim, até que tudo esteja mais normalizado - um silêncio terrível se formou ali, o que chegava a ser estranho, já que os telefones da recepção não paravam de tocar - Posso responder mais alguma pergunta?
Clara - Sim - ele me olhou esperando que eu continuasse - Acho que li uma vez... quer dizer, não lembro se vi em algum lugar ou me disseram - tinha noção de que não estava falando coisa com coisa, por isso parei e respirei fundo - Desculpa. Enfim, eu tenho tatuagens. Posso doar mesmo assim? - ele deu um meio sorriso, não deve ter sido a primeira vez que ouviu essa pergunta -
Dr. Marcelo - São recentes?
Clara - Não
Dr. Marcelo - Certo, vou tentar esclarecer tudo da melhor forma. O que vocês vão fazer agora é uma espécie de tipagem sanguínea, em outras palavras, um teste que vai nos dizer se algum de vocês é compatível com o paciente. E essa amostra servirá apenas para descobrirmos o código genético de vocês e depois podemos armazená-la no banco de dados. Isso se vocês quiserem doar para alguma outra pessoa posteriormente. Então sim, pessoas com tatuagens ou piercings podem fazer esse teste. Mas é muito bom que elas não sejam recentes, se você for compatível isso vai ajudar muito - só consegui assenti - Outra dúvida muito constante são os riscos para o doador. Como já falei, são praticamente inexistentes. A quantidade de medula extraída é de menos de 10% então dentro de poucas semanas a medula transplantada estará produzindo células novas. Costumo dizer que tudo seria muito simples e fácil, se não fosse o problema da compatibilidade porque é um processo seguro, não causa riscos ao doador e salva vidas mas... - mas tínhamos que achar o doador, completei o seu raciocínio mentalmente. Eu estava lutando pra fazer a ficha cair, estava difícil mesmo depois de ouvir tanta coisa. Minha garganta parecia ter um nó gigante, minha cabeça já girava loucamente, e ainda bem que estava sentada - Em alguns instantes uma enfermeira vem buscá-los para o exame, com licença - se afastou e então o silêncio voltou com força total. Meus olhos ardiam mas as lágrimas não desciam. Minha avó e minha mãe já haviam se acalmado mais, nem por isso tinham parado de chorar. Eu olhava pra elas e não sabia o que fazer, ou até mesmo o que falar. Queria poder consolar as duas, mas não conseguia nem me mexer por estar tão abalada quanto elas, inclusive acho que as lágrimas também se recusavam a acreditar em tudo que foi ouvido, por isso ainda não tinham rolado. Não sabia se isso era bom ou ruim. Senti uma mão apertar a minha e arrisquei olhar pro lado. Ele parecia bem pensativo -
Neymar - Eu vou fazer o teste também
Clara - Vai? - franzi a testa sem saber muito bem o que pensar -
Neymar - Sim
Clara - Tudo bem - respondi de modo automático, mas minha cabeça estava começando a colocar as informações recebidas nos eixos, por isso olhei pra ele de repente, quase assustada - Você vai fazer o teste?
Neymar - Vou
Clara - Mas... você pode? Quer dizer, o campeonato paulista daqui a pouco está aí. Isso não vai te prejudicar?
Neymar - O médico disse que não há riscos
Clara - Mesmo assim. É da sua carreira que estamos falando, o seu sonho. Não dá pra arriscar
Neymar - Não. É da vida do seu avô que estamos falando. Eu vou fazer - pisquei algumas vezes, sem saber o que falar. Era muita coisa pra processar. Então, ele ia fazer o teste para possivelmente ser o doador do meu avô, sem se importar com mais nada? Sem se importar com aquilo que sonhou desde muito pequenininho? Ia fazer simplesmente. Pelo meu avô... por mim. O que eu podia fazer? O que eu devia falar? -
Clara - Eu te amo - foram as únicas palavras que me permiti dizer, e achei que fosse começar a chorar. Vi um pequeno sorriso se formar nos seus lábios. Pequeno. Mas era um sorriso. Abracei-o bem forte e beijei-o demoradamente, quis mesmo aproveitar cada segundinho ao máximo. Seu beijo era a minha melhor terapia, disso já não tinha dúvidas. Depois fiquei um pouco ao lado da minha avó e da minha mãe - não falamos nada, apenas... nos olhamos e foi o bastante - até que uma enfermeira, que tinha Cristina escrito no seu crachá, apareceu perto de nós. Explicou novamente como que tudo ia funcionar, depois nós, um a um, exceto a minha avó, fizemos o exame. O procedimento da coleta foi bem simples e rápido, ainda bem. Depois disso ficamos durante um longo tempo sentados, em silêncio, por isso que quando o Dr. Marcelo reapareceu foi um alívio, mas ele pareceu surpreso por nos ver ali ainda -
Débora - Então? Já tem os resultados?
Dr. Marcelo - A enfermeira não disse?
Clara - O que?
Dr. Marcelo - As amostras vão ser submetidas a exames laboratoriais e o resultado será encaminhado para o endereço de vocês
Clara - Como assim? Quanto tempo isso demora?
Dr. Marcelo - Não muito
Clara - Dr. Marcelo, nós ainda não conseguimos nem digerir tudo direito. Acha mesmo que vamos conseguir dormir sem saber quando é que esses exames vão chegar nas nossas casas? Por favor, eu sei que nós não somos a única família enfrentando problemas aqui nesse hospital, mas não tem como vermos esses resultados logo? - ele suspirou, acho que ficou com pena de mim, não sei -
Dr. Marcelo - Estejam aqui amanhã pela tarde, se tudo der certo vou estar com os resultados em mãos
Clara - Muito obrigada - ele assentiu -
Glória - Não podemos vê-lo agora?
Dr. Marcelo - Depois de muito tentar resistir, ele pegou no sono. Vocês podem vê-lo, se puder ser um de cada vez é ainda melhor pra evitar agitação. Ah, e alguém pode passar a noite também - depois de esclarecer mais algumas pequenas dúvidas, ele levou primeiro a minha avó até o quarto. Ela ficou uns dez minutos lá, o mesmo tempo que meus pais ficaram depois. O Júnior entrou comigo porque eu pedi, ainda estava segurando a sua mão e, sinceramente, não queria soltá-la. Observei todo o quarto. Era diferente daquele que ele tinha ficado da última vez. Era mais amplo, branco com cortinas em tons amarelos bem fraquinhos, uma TV, uma poltrona grande e reclinável que parecia bem confortável ficava ao lado da cama, e um sofá-cama estava do lado oposto, perto de uma porta que provavelmente era o banheiro. Resumindo: um quarto feito para que alguém passasse a noite ali com o paciente. Meu avô dormia tranquilamente, parecia absorto a tudo aquilo que estava acontecendo ao nosso redor. Suspirei de alívio ao ver que não tinha nenhuma agulha no seu braço dessa vez, ele parecia... bem. Então eu vi as manchinhas escuras nos seus braços que estavam descobertos, instintivamente a primeira lágrima caiu. Sabia que atrás dessa viriam muitas outras mas passei a mão que tinha livre no rosto e respirei fundo. Me inclinei um pouco e dei um beijo no rosto dele -
Clara - Nós vamos vencer isso juntos! - sussurrei a passei a mão levemente no seu rosto. Quando saímos do quarto, meus pais e minha avó estavam no meio de uma pequena discussão para saber quem ia ficar. Mas a Dona Glória foi irredutível e ela mesma acabou ficando, com uma condição: no dia seguinte, pela manhã, meu pai iria ficar no seu lugar pra ela poder ir em casa tomar um banho e arrumar uma mala com algumas coisas essenciais. Infelizmente não tínhamos mais nada para fazer, apenas esperar.
    ****
Ele estacionou na garagem do seu prédio e juro que quase pedi pra ficar ali mesmo esperando, minha cara não ia enganar ninguém e ainda não sabia se já estava disposta a falar. Mas... subimos. Ele abriu a porta, e a Duda pulou do sofá, onde estava com a Rafa e a Tia Ná, assim que nos viu. Com passinhos largos e apressados, se aproximou de mim e enlaçou a minha perna com seus bracinhos. Abaixei e abracei-a apertado, sentindo seu cheirinho gostoso. 
Eduarda - Vocês demoraram. Já estava com saudades - fez beicinho -
Clara - Já estamos aqui, boneca. Você está bem?
Eduarda - Eu tô ótima, mãe - respondeu de um jeito engraçado e se fosse em outra situação com certeza iria rir, mas só tentei sorri - E você? - existiam várias respostas para aquela simples pergunta, mas nenhuma era boa. Como eu estava no momento? Arrasada, devastada, consternada, e sufocada pelas lágrimas que iam sair a qualquer momento. Meu estado emocional era apenas deplorável. Mas privei a minha filha disso tudo e assenti tentando parecer o mais convincente possível. Ela sorriu e depois de dar o meu beijo, foi falar com o pai, que permanecia quieto atrás de mim. Saí do hall de entrada, e o meu corpo foi atraído imediatamente pelo sofá -
Rafa - Vocês demoraram mesmo, já estava ficando preocupada - procurei por um relógio pela sala, mas lembei que tinha um no meu pulso e me assustei com o horário: 20h50 - Aconteceu alguma coisa? - até tentei falar mas não saia nada e como não respondi o Júnior olhou pra mim, como que pedindo permissão para falar, concordei. A Rafa percebeu a nossa troca de olhares - Dudoca, você não quer ir lá em cima pegar as coisinhas que a gente comprou pra sua mãe ver?
Eduarda - Sim - respondeu entusiasmadíssima - Eu volto rapidinho - olhou pra mim e sorriu -
Rafa - Mas não precisa correr, estou de olho
Eduarda - Tá - riu e foi em direção a escada. Ela subiu e as atenções se voltaram para nós dois. Felizmente o Júnior falou tudo por mim, permaneci calada e à medida que ele ia contando os fatos, eu percebia que a realidade era realmente aquela e as lágrimas começaram a fluir sem dó nem piedade. Rompi em um choro que parecia não ter fim. Queria parar pra Duda não me ver daquele jeito, mas já tinha segurado tanto que não tinha mais controle. A Tia Ná me puxou para o seu colo e chorei ainda mais quando ela disse que também queria fazer o teste de compatibilidade porque... se meu avô soubesse quanto é amado não tinha escondido a doença por tanto tempo. Quando ouvimos os passinhos da Duda nos primeiros degraus da escada, levantei e fui ao banheiro. Teria outra batalha pela frente: conversar com ela, mas preferia que fosse em casa. Lavei o rosto e coloquei na cabeça que não podia, nem queria assustá-la então tinha que aguentar firme um pouco mais. Voltei pra sala e ela mostrou tudo que tinha comprado com a Rafa pra mim e pro Júnior, tentei não me distrair pensando em outras coisas, depois fomos jantar. Quer dizer, minha garganta ainda parecia ter um nó gigantesco, então não desceu nada além de um copo de suco forçado -
Tia Ná - Vocês estão pensando em contar pra ela? - perguntou quando a Duda subiu pra pegar sua bolsinha e o Júnior olhou pra mim -
Neymar - Eu acho melhor contar
Clara - É... estava pensando nisso mesmo
Tia Ná - Ela já está começando a entender tudo que acontece ao seu redor, então é o melhor a fazer. Conta com jeitinho, omitindo apenas o que ela não precisa saber, ou não entenderia de qualquer forma
Clara - Você vai me ajudar, não vai?
Neymar - Claro que vou, meu amor - me abraçou e deu um beijo na minha testa. Estava ciente de que parecia mais uma criança com medo de alguma coisa naquele momento (e realmente estava com medo) mas não me importei. A Duda desceu, nos despedimos e descemos. No caminho pro apê recebi duas mensagens da Manu, uma era uma selfie dela em frente a uma casa enorme e em outra ela dizia que estava ajudando os pais na mudança. Não queria atrapalhar os planos dela, muito menos falar nada por mensagem, então respondi normalmente pra não preocupá-la. Chegamos ao apê rapidinho, a Duda ainda brincou um pouco com o Luck mas como já estava tarde, pedi pra ela trocar de roupa e vestir logo o pijaminha. Eu só tinha tirado o salto e o casaquinho, mas queria muito um banho - Quer falar com ela agora? - ele me tirou do transe em que me encontrava, sentada no sofá com o Luck no colo, olhando pro nada. Pensei sobre a sua pergunta. Quando saí do quarto, deixei-o lendo “as aventuras dos filhotes” pra Duda, um dos seus livros prediletos, então achei que ela já estivesse dormindo, mas pensando bem... seria bom contar logo -
Clara - Quero! - coloquei o Luck no sofá, respirei fundo pela milésima vez no dia e levantei. Fomos para o quarto da minha pequena, ela sorriu ao nos ver entrar e sentar, um de cada lado, da sua pequena cama. Estava com a sua inseparável Minnie nas mãos -
Neymar - Amor, eu e a sua mãe precisamos falar com você e queremos que você preste bastante atenção. Tudo bem?
Eduarda - Tudo bem - fez uma carinha confusa - O que foi?
Neymar - O vovô Marcos está doente
Eduarda - Doente? - sua voz ganhou uma pontinha de tristeza e surpresa -
Neymar - Sim
Eduarda - Por quê? - ele olhou pra mim. Claro que ela ia fazer essa pergunta -
Neymar - Porque... eu não sei, filha. Ninguém sabe. Essas coisas acontecem. Todo mundo pode ficar doente - simplificou e eu fiquei encantada com o seu jeitinho de lidar com ela -
Eduarda - Eu sei, mas por que o biso? O que ele tem? - suspirei pesadamente. O que podia falar pra ela? Estava me sentindo totalmente perdida - A vovó já fez aquele remédio ruim e amargo pra ele? Se ele tomar vai ficar bom rapidinho - não tive como segurar e meus olhos encheram de lágrimas de novo. Ela estava falando dos chás da minha avó. Tão inocente... Quem dera tudo fosse resolvido com um simples chá -
Clara - Infelizmente o chá da vovó não adiantou, amor... por isso que agora ele está no hospital - ela arregalou os olhinhos - Mas ele só vai ficar lá por um tempinho, até ficar bom
Eduarda - E isso vai demorar? - fez uma careta -
Clara - Eu espero muito que não
Eduarda - Mas eu vou poder ir ver ele? - não tinha pensando nisso -
Neymar - Claro. Te levo lá pra você dá um beijo nele - piscou e ela sorriu -
Clara - Isso, mas agora está na de dormir, mocinha - puxei o seu cobertor pra cima e aconcheguei-a. Me inclinei e dei um beijo na sua testa -
Eduarda - Vou pedir pro Papai do Céu cuidar do biso pra ele ficar bom logo, tá mãe? - outra lágrima rolou e ela carinhosamente passou as mãozinhas no meu rosto -
Clara - Faça isso, amor - ela deu um beijo no Júnior também, depois deitou novamente, juntou as mãos e fechou os olhos. Não conseguíamos ouvi-la mas já estávamos emocionados. Eu particularmente acho que alagaria o quarto se escutasse o que ela estava pedindo. Esperamos que ela pegasse no sono, o que não demorou muito e fomos para o meu quarto. Tomei o meu precioso banho depois do Júnior e vesti uma camisa de manga longa dele, tinha o seu cheirinho. Quando deitamos o silêncio parecia... ensurdecedor. O pior de todos, daquele tipo que consome por dentro porque o barulho que faz é cru, duro... real demais. Claro que comecei a chorar. Sabia que quando começasse não ia parar -
Neymar - Você não está sozinha, entendeu? - tentava controlar meus soluços, mas sabia que tinha sido um pergunta retórica - Seu avô também não. E ele vai sair dessa
Clara - Obrigada - murmurei -
Neymar - Está me agradecendo por quê? - levantou o meu rosto e o acariciou, enxugando algumas das minhas lágrimas. Apenas encolhi os ombros pronta para voltar a choramingar. E chorei. Talvez estivesse sendo uma fraca mas isso era a última coisa que importava pra mim, só queria que o dia seguinte chegasse logo. 


 Read  

Hello, babys! 
Vocês acabaram com meu emocional, muito obrigada!!

Leitoras novas, sejam sempre muito bem-vidas! <3
Preciso confessar uma coisa seríssima: me derreto muito toda vez que vocês escrevem "ClaMar", tipo, meu sorriso nem cabe no rosto, só pra vocês saberem mesmo. Isso é sério!! 
Agora, em relação aos livros da Clarinha, acho que até agora só cheguei a citar três: o que ela leu vindo para Santos não posso dizer o nome porque acho que não existe, peguei apenas uma mensagem muito linda do Charles Chaplin (se não me engano o título é "Tua Caminhada") e encaixei-a ao capítulo. Tem o da Jessie, sim esse existe! ️ 
 E esse último, do Augusto Cury, "O Colecionador de Lágrimas". Acho que é só, mas me corrijam se eu estiver errada, ok? Ok.
Beijinhos!! 

PS:. Playlist com Maroon 5 e o Mars dedicada à Ju França!  

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Capítulo 51 - “Nossos corações se pertencem”


A sexta-feira amanheceu nublada, por isso a vontade de sair da cama era quase nenhuma. Parecia que enquanto estava ali nos braços dele o mundo estava parado lá fora e só ia voltar a girar quando levantássemos. Bela teoria, pena que não era verdade. Acordamos juntos (ou eu o acordei com a minha inquietação, mas se foi isso ele não disse), levantamos apenas para escovar os dentes e deixar o Luck sair já que ele dormiu com a gente de novo. Ficamos enroscados, trocando carinhos, beijinhos aqui e ali que incitavam outros ainda mais intensos e no meu estado vulnerável era o suficiente para me fazer suspirar. Não queria que aquilo terminasse mas ele parou repentinamente depois que colocou as mãos por baixo do meu pijama e eu estremeci. Percebi o quão foi difícil pra ele parar por causa da sua respiração anelante e também porque o senti relativamente animado. Sabia por que ele tinha parado. Sabia e o admirava por isso... por pensar em mim antes de pensar nele e por ter receio de me magoar achando que estaria me forçando a fazer algo que não queria depois de me ver tão frágil no dia anterior e sabendo que ainda estava. Mas naquele momento era o que eu mais queria e precisava: me sentir amada. Isso ia fazer a mágoa e o dissabor diminuírem (talvez provisoriamente, ou não) e eu necessitava tanto disso...tanto. Olhei nos seus olhos, peguei as suas mãos e coloquei-as na minha cintura novamente. 
Neymar - Eu não... - beijei-o antes que pudesse terminar de falar e como ele não ofereceu nenhuma relutância, nossas línguas envolveram-se imediatamente, enroscando-se uma na outra, avivando ainda mais meu anseio de amar e ser amada o quanto antes - Amor... - o seu tom foi receoso e eu sabia o que vinha a seguir por isso me antecipei -
Clara - Por favor... - sussurrei contra seus lábios entreabertos e isso foi o bastante para convencê-lo. Sua boca encontrou a minha novamente e por um curto espaço de tempo os problemas nem existiam mais.
    ****
Estava terminando de me vestir quando ele começou a rir olhando para o celular.
Clara - Que foi?
Neymar - Você precisa ver o que a Duda e a Rafa fizeram na parede do quarto - franzi a testa -
Clara - Preciso ter medo? - riu e me entregou o celular.
 rafaella: Oi mãe, oi pai. Redecorei meu quartinho com a ajuda da titia, beijos!  @clarabarcelar_ @neymarjr
Clara - A cara da Eduarda é a melhor - rimos -
Neymar - É aquela típica "acabei de aprontar"
Clara - Que por acaso você conhece bem
Neymar - Aprontei quase nada
Clara - Claro, e a lua é verde
Neymar - Como? - gargalhou e só aí me dei conta do que tinha falo -
Clara - Meu avô costumava falar isso quando eu era criança e tentava esconder alguma coisa dele... eu também sempre ria e terminava contando a verdade - e lá estava eu mesma me trazendo de volta para a dura realidade -
Neymar - Ei, não fica assim - me puxou pra mais perto - Ele está bem e já deve até está em casa a essa hora
Clara - É... vamos comer. Depois vou ligar pra ter certeza - assentiu e fomos para cozinha - Será que devo me preocupar com a Manu também?
Neymar - Não. Gil mandou uma mensagem ontem à noite avisando que eles iam ficar na casa dele e ela ficou sem bateria. Vi agora de manhã
Clara - Ah, ótimo - fui colocar comida pro Luck, tomamos café, depois falamos com a Dudoca por telefone por um tempinho. Estava lavando a louça para depois ligar pro meu pai quando a campainha tocou. O Luck foi na frente e o Júnior atrás. Dois minutos depois ele estava de volta - Quem é? - olhei-o -
Neymar - Sua mãe - parei na hora o que estava fazendo e virei totalmente pra ele -
Clara - Aconteceu alguma coisa?
Neymar - Não, e como eu tinha dito, seu avô já está em casa - respirei de alívio - Mas ela quer conversar com você - enxuguei as mãos e encarei o chão sem saber muito bem pra onde olhar - Não faz isso, você sabe que ela não merece
Clara - É por isso mesmo que não sei se é o melhor momento. E se eu disser algo que me arrependa depois?
Neymar - Não fala nada, apenas escuta o que ela tem pra te dizer
Clara - Como ela está?
Neymar - Nada bem - meus olhos encheram de lágrimas - Mas tenho certeza que depois de se entender com a filha vai ficar muito melhor - aproximou-se de mim e pegou as minhas mãos - Vai lá. Vocês precisam estar mais unidos do que nunca agora - respirei fundo e concordei -
Clara - Você vem?
Neymar - Essa conversa é só de vocês. Eu fico aqui com meu parceiro - olhou pro Luck, que olhava para nós dois alternadamente e eu sorri. Saí da cozinha e assim que me viu, minha mãe levantou. Largou a bolsa no sofá e quando eu já estava perto o suficiente me abraçou forte. Eu queria, mas não esperava. Retribuí da melhor maneira possível, porque por mais magoada que estivesse nunca negaria um abraço à ela, nunca -
Débora - Me escuta - pediu com a voz rouca. Me perguntei se ela chorou a noite toda e meu peito doeu só de pensar nisso - Por favor - sua voz enfraqueceu ainda mais e só consegui pedir pra ela sentar, fiz o mesmo - Talvez hoje seja um dos piores dias da minha vida mas eu te amo. Eu te amo muito! Dediquei boa parte da minha vida te apoiando em uma decisão que você julgou como a melhor para todos, lembra? E não, não estou arrependida de nada. Só quero te fazer entender que eu, seu pai e seus avós fizemos o mesmo agora. Quando a gente ama muito uma pessoa queremos protegê-la de tudo
Clara - Me proteger? Por favor, isso é ridículo
Débora - Não fala assim
Clara - Desculpa. Mas é diferente, mãe. Totalmente diferente
Débora - Diferente por quê?
Clara - Não é obvio? Agora a vida do meu avô está em risco - doeu dizer essas palavras - Quem precisa ser protegido é ele
Débora - E é justamente por ser a vida dele que eu respeitei a decisão dele. Inconformada, indignada, com o coração na mão, mas respeitei. Ele é o meu pai...
Clara - Mesmo assim, isso não foi certo...
Débora - E você acha que foi fácil também? Acha que achei certo esconder isso de você? Sentia uma facada no meu coração toda vez que tinha que te enganar. Eles disseram que não iam conseguir fazer isso e sobrou pra mim... Virei a vilã da história mesmo sem querer
Clara - Todos vocês mentiram pra mim. Você não é vilã nenhuma
Débora - Eu ia te contar... eu queria tanto
Clara - Quando, mãe?
Débora - Eu até tentei um dia, mesmo contra a vontade do seu avô. Eu vim aqui pra te contar logo tudo de uma vez - pensei a respeito disso e minha memória me arrastou até um certo dia...
    Flashback on
 » A campainha tocou, levantei, olhei pro relógio e pensei que pudesse ser minha mãe. Saí do quarto, fui ligeiro atender e sim, era ela.
Débora - Oi, meu amor
Clara - E aí, mãezoca - riu levemente e me abraçou forte -
Débora - O que aconteceu aqui? - perguntou olhando ao redor e vendo tantas flores -
Clara - Isso aqui não é nada - ri e fechei a porta - Tem um buquêzinho até no banheiro - arregalou os olhos - É sério - ri -
Débora - Foi o Júnior? - perguntou ainda sem entender nada -
Clara - Sim, e olha - peguei o CD e entreguei pra ela -
Débora - Meu Deus, mas eu lembro de quando você fez esse CD... Quer dizer, é ele mesmo?
Clara - É ele - sorri -
Débora - Mas porque tudo isso? Me conta do início fazendo o favor
Clara - Senta - ri. Nos sentamos lado a lado e mesmo contra a minha vontade porque o assunto desde o início não me agradava nada, contei... tudo -
Débora - Ainda bem que tudo terminou da melhor maneira possível. E ainda bem que vocês estão felizes - pegou nas minhas mãos -
Clara - Mãe, você está bem?
Débora - Lógico - clareou a voz -
Clara - Hum, então me diz o que tem pra falar comigo
Débora - Esqueci - falou rapidamente -
Clara - Como assim, esqueceu, mãe? Parecia ser sério
Débora - A verdade é que estava com saudades de vocês e... fiz isso pra ter certeza de que te encontraria em casa
Clara - Mãe!
Débora - É sério. Cadê a Dudoca? - percebi claramente que ela mudou de assunto mas preferi não insistir porque se fosse sério mesmo ela falaria -
Clara - Foi pra casa da Rafa, deve voltar antes de anoitecer
Débora - Acho que não vou poder esperar... tenho uns assuntos do trabalho para resolver
Clara - Se precisar de alguma coisa...
Débora - Não precisa se preocupar, filha
Clara - Então tá - fomos até a porta - Não esquece que somos uma pela outra sempre
Débora - Eu sei - sorriu e me abraçou novamente, depois deixou um beijo pra Manu, outro pra Dudoca e saiu. Fiquei com a ligeira impressão de que ela não estava me contando algo... sua expressão quando chegou parecia séria demais pra ter ''esquecido'' o que queria me falar...mas o que quer que fosse, cedo ou tarde, eu iria descobrir. «
    Flashback off
Clara - E por que não fez isso? - só podia ser aquele dia... Não consegui segurar as lágrimas... quer dizer que eu já podia estar sabendo disso a muito tempo -
Débora - Porque quando cheguei aqui você estava com o maior sorriso do mundo. Tinha acabado de se reconciliar com o amor da sua vida. A casa estava cheia de flores, seus olhos brilhando... sua felicidade quase palpável. Aí as palavras dele vieram na minha mente de novo e não consegui
Clara - O que especificamente? - perguntei entalada pelas lágrimas -
    Flashback on » Débora 
 » Débora - A Clara nunca vai aceitar isso! Nunca! 
Marcos - A decisão é minha 
Débora - Ela precisa saber 
Marcos - Minha filha... você sabe bem o que as pesquisas apontam. Achar um doador já é difícil, na família então... E o Dr. ainda nem colocou essa hipótese, graças à Deus. Falar pra ela pra que?
Débora - Mas a hipótese pode surgir - não gostava de pensar nisso mas era a verdade - E nem é só isso, ela tem o direito de saber
Marcos - Eu preciso ver a Clara feliz! Com aquele sorriso lindo, com aquela energia contagiante... é disso que eu preciso. Não quero que ela olhe pra mim como se estivesse me vendo pela última vez porque sei que é isso que vai acontecer
Débora - Não fala assim, pai. A Clara não faria isso
Marcos - Faria... eu sei que sim. Porque você faz o mesmo, minha filha - fiquei sem reação
Débora - Eu... eu só tenho medo - ele me abraçou e acho que ouvi um "eu também tenho" mas só acho, não estava em condições de prestar atenção em nada
Marcos - Já entreguei nas mãos de Deus, o que tiver que ser, será 
Débora - Mas a Clara...
Marcos - A Clara precisa ser feliz porque já perdeu muito tempo longe de pessoas que também são importantes pra ela. E é na felicidade dela e da Duda que vou buscar ainda mais forças para vê-las crescer mais e mais. Se nada der certo e a minha hora chegar... é porque já vivi tudo que tinha pra viver 
Débora - Ela não vai nos perdoar... «
    Flashback off 
Débora - Não nos odeie, por favor - foi a única coisa que falou depois de me contar tudo e eu não sabia mais de onde vinha tantas lágrimas -
Clara - Você não entende, mãe? Eu amo vocês demais pra isso. Amo demais pra acreditar que isso está realmente acontecendo
Débora - Ah, filha... - sentou mais perto de mim e me abraçou novamente - Uma pela outra sempre, lembra? - só assenti e coloquei a cabeça no seu colo. Choramos juntas e abraçadas por um tempo porque foi isso que devíamos ter feito ontem e não fizemos.
 Minha mãe não estava em condições de dirigir e saiu de táxi, por isso o Júnior nos deixou no apartamento dela, nos despedimos e ele seguiu para sua casa depois de me avisar que mais tarde passaria para me pegar com a Duda. Meu dia foi praticamente todo dedicado ao meu avô, ele parecia melhor, apesar de achá-lo um pouco pálido ainda, mas minha avó disse que era normal, devido à diminuição das defesas do organismo. Fiquei todo tempo que pude ao lado dele, enchendo-o de carinho e querendo mais que tudo recompensá-lo de alguma forma. E o melhor foi vê-lo correspondendo tudo com o seu sorriso lindo e suas habituais brincadeiras. Seu bom humor é uma das suas melhores qualidades e por causa dela ninguém diria que ele está doente.
    ****
 No dia seguinte, 28, o Júnior acordou decidido a me convencer a adiantar nossa ida para o Guarujá (acho que era mais uma das suas técnicas de me distrair, e mesmo que não fosse esquecer a dura realidade, me animava um pouco saber que ele estava tentando de todas as formas fazer com que o nosso primeiro Réveillon juntos fosse tão perfeito quanto o Natal), e se ele sozinho já consegue ser bem persuasivo, com a ajuda da Duda então... fico quase sem saída. Mas aceitei. Falei com minha mãe antes apenas pra ter certeza que eles realmente iam também no dia seguinte, arrumamos nossas coisas e fomos só nós três (e o Luck, claro) para o nosso destino de Réveillon: Jardim Acapulco, lugar que apelidei secretamente de mansão. Passamos o sábado inteiro aproveitando todos os cômodos da casa do nosso jeito (ou seja, bagunçando), inclusive o quarto da Dudoca que já estava pronto a um tempinho mas ainda não tínhamos tido a oportunidade de ver. A propósito, ficou lindo. Foi maravilhoso passarmos um tempo juntos, só a gente mesmo. Por alguns momentos parecia que estava vivendo dentro dos meus melhores sonhos: uma casa linda, o amor da minha vida, a nossa filha e um cachorro. Pensando bem, acho que nem nos meus sonhos era tudo tão perfeito. 
 O dia 29 foi, literalmente, um domingão em família. Nossos pais e meus avós - que só foram porque eu insisti muito - chegaram logo pela manhã e um pouco mais tarde a Manu, o bonde, a Fatinha e o Théo chegaram também. O lado bom de ter uma casa exageradamente grande: sempre vai caber todo mundo. Já a última segunda-feira do ano (30) foi dia de praia. A Duda foi uma das que mais gostou da ideia porque já tinha um bom tempo que não ia e aproveitou muito, ficou até com as bochechas mais coradinhas.
 Acordei cedo no último dia do ano e dessa vez não tinha nada a ver com sonhos estranhos ou preocupações, até porque saber que meus avós estavam dormindo em algum quarto no mesmo corredor do meu era bem tranquilizador. Mas levantei para ir ao banheiro e o sono simplesmente evaporou. Ultimamente vinha dormindo pouco e como consequência, à noite já queria dormir antes de todo mundo. O Júnior ainda dormia serenamente, agora com uma das mãos no meu travesseiro vazio. Não queria acordá-lo e se permanecesse na cama era isso que ia acontecer. Peguei um short e um biquíni, entrei no banheiro, tomei um banho rápido, escovei os dentes e me vesti. Voltei pro quarto, peguei o celular e um dos livros que estava na minha bolsa. "O Colecionador de Lágrimas", do Augusto Cury, presente que ganhei do meu pai um tempinho depois de nos mudarmos para Florianópolis e eu nunca tinha vontade de ler por, erradamente, achar que era uma espécie de autoajuda e depois que a Duda nasceu não tive tempo para ler nada que não fosse livros para mamães de primeira viagem, guias e até manual de instruções do bebê, então acabei esquecendo. Mas arrumando as coisas para a viagem, encontrei-o e decidi colocar na bolsa. Foi um presente e o meu dever era pelo menos tentar ler. Comecei no dia que chegamos mesmo, antes de dormir, e percebi logo que não tinha nada relacionado a autoajuda, era mais como um... enriquecimento psicológico. Me entusiasmei um pouco, e coloquei na cabeça que tinha que terminar. Saí na pontinha dos pés, passei no quarto da minha pequena apenas por hábito e desci. Como já era de se esperar não havia mais ninguém acordado. Até o Luck ainda dormia na sua caminha. Fui para a área externa, o sol ainda fraquinho me deu bom dia, sorri e deitei em uma rede. 
 clarabarcelar_: Pra começar bem o dia...  
Continuei de onde o marcador estava e quando percebi as últimas páginas já se aproximavam, apesar de falar sobre a Segunda Guerra Mundial, não deixa de ser um romance e por esse motivo não consegui parar. Quando terminei e ainda estava assimilando o final, meu celular tocou, me tirando dos meus devaneios. Vi o nome na tela e sorri. Atendi sem demora. 
 - início -
Clara - Oi, Di
Diego - Te acordei?
Clara - Para sua sorte, não
Diego - Ótimo, preparada para me ouvir?
Clara - Não - gargalhou - Não me venha com discursos, por favor, eu não te esqueci coisa nenhuma
Diego - Mas não liga, né?
Clara - A gente se fala por mensagens sempre, ué - tentei me defender mas ele estava certo -
Diego - Não é a mesma coisa
Clara - É... eu sei - admiti - Venho falhando com você, desculpa
Diego - Ei, não é pra tanto também, estava brincando
Clara - Não, mas você tem razão. Precisava pedir desculpas mesmo
Diego - Está desculpada, então. Melhor?
Clara - Um pouco - rimos - Como você está, DJ?
Diego - Muito bem. Acho que não tenho do que reclamar do meu 2013
Clara - Que bom. Você merece só coisas boas, apesar de ser um chato
Diego - Nossa, feriu o meu ego - rimos - Mas obrigado, e digo o mesmo. Está tudo bem por aí também né?
Clara - Sim
Diego - Sim, só?
Clara - Sim... quer dizer, aconteceu algo meio inesperado nos últimos dias mas agora está tudo sob controle
Diego - Algo sério, porque o seu tom de voz mudou
Clara - É... - sabia que meu avô não queria que ninguém soubesse a princípio mas agora todos os nossos amigos mais próximos já sabiam e ele estava lidando muito bem com isso, graças à Deus. E o Diego... bom, confiava nele o suficiente para saber que ele não ia sair espalhando para Florianópolis inteira - Meu avô está doente, Di. Aplasia medular
Diego - Nossa! Já ouvi falar, mas é uma doença que surge assim, do nada? - perguntou depois de um tempo em silêncio, acho que estava procurando as palavras certas pra dizer depois de ouvir algo que não estava esperando -
Clara - Não, na verdade já tem algum tempo que ele descobriu, eu é que só fiquei sabendo por esses dias...
Diego - Entendi. Mas ele está fazendo o tratamento certinho e está tudo bem, certo?
Clara - Tudo na medida do possível, sim
Diego - Vou ficar torcendo daqui pra que ele melhore logo
Clara - Quanto mais energia positiva melhor - ele riu, mas só pra aliviar a tensão mesmo - E mudando totalmente de assunto, como vai o namoro?
Diego - Não vai, já foi
Clara - Ah, não acredito
Diego - Verdade, e sinceramente? Estou muito bem assim. E o seu? Vai tão bem quanto a mídia faz questão de mostrar?
Clara - Não sei o que mídia mostra, mas sim, está tudo muito bem
Diego - E a Duda?
Clara - Também - um sorriso surgiu automaticamente ao falar dela - Fiquei muito feliz por você ter ligado, sério. Obrigada por lembrar de mim
Diego - Como se fosse possível te esquecer - riu levemente - E você sabe que estou aqui para qualquer coisa sempre, não sabe?
Clara - Eu sei, precisando é só chamar também
Diego - Pode deixar - riu - Então é isso, que em 2014 a gente possa se ver mais e que ele te traga ainda mais sorrisos - sorri mesmo que ele não pudesse ver -
Clara - Pra você também, Di. Se cuida e vê se ganha juízo
Diego - Tenho de sobra - rimos - Se cuida você também, beijo
Clara - Beijos
 - término -
Encerrei a chamada, joguei o celular na rede, onde ele estava anteriormente e fechei os olhos. O sol começou a esquentar um pouco mais e mesmo assim estava me fazendo bem ficar ali, sozinha com meus próprios pensamentos, revivendo mentalmente todos os acontecimentos mais marcantes do meu ano e agradecendo a Deus por eles, que quando não me trouxeram sorrisos, me fizeram aprender algo. A começar pela minha demissão ainda em Florianópolis, que parece ter sido a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Sério, foi meio que o começo de tudo. Depois veio a entrevista de emprego para trabalhar no CT, minha vinda definitiva para Santos, o reencontro com o Júnior, a ajuda que ele me deu por duas vezes quase seguidas, primeiro com uma carona depois quando me viu desmaiada na minha sala, discussões atrás de discussões, o fato dele ter pensado em tirar a Duda de mim em um momento de raiva, o que me fez ir parar na emergência de um hospital, além de um resfriado repentino que me deixou cuidar dele por uma noite. Claro, ainda teve nosso beijo proibido no vestiário do CT que foi épico pra mim. Foram tantos altos e baixos. Tudo que falávamos ou fazíamos escondiam algo parecido com: Eu te odeio com todo o meu amor, te mantenho longe de mim com toda a minha vontade de te ter por perto e te ignoro com toda a minha vontade de falar com você. Seria cômico se não houvesse tanto sofrimento. Mas depois tudo foi recompensado e acho que não posso reclamar de monotonia na minha vida, agitada ela é. 
XxX - Rindo de quê? - a rede quase virou, me derrubando de bunda no chão por causa do susto que levei já que achava que ainda estava sozinha. A gargalhada estrondosa da Manu denunciou-a e eu revirei os olhos antes mesmo de vê-la -
Clara - Sem graça, isso é jeito de me dá bom dia?
Manu - Não queria te assustar, desculpa - deu um jeitinho de sentar na rede comigo - Bom dia - beijou minha bochecha - Melhor assim?
Clara - Muito melhor - rimos -
Manu - Mas estava rindo de que mesmo?
Clara - É sério que eu estava rindo?
Manu - Sim - riu -
Clara - Estava com o pensamento longe... lembrando da roda gigante que foi o meu ano
Manu - Realmente... foi cheio de altos e baixos... mas o saldo final é positivo?
Clara - É... sim
Manu - Hum, não senti muita firmeza
Clara - É um saldo positivo, só não posso dizer que é 100% porque a aplasia do meu avô mexeu e ainda vem mexendo comigo, sabe? Ele não quer que a gente sinta pena... e eu não consigo sentir mesmo. Mas as vezes bate um medo... sei lá
Manu - Ah, amiga - me abraçou (ou melhor dizendo: se jogou em cima de mim) - Você fica pensando nisso o tempo todo, não é?
Clara - Até que não, só em alguns momentos quando estou sozinha
Manu - Então vou me certificar de não te deixar mais sozinha - rimos - É sério
Clara - Deixa de ser louca
Manu - Não é loucura. E vai terminar tudo bem, você vai ver. Vô Marcos é forte
Clara - Eu sei - respondi convicta, mas lembrei da conversa com a minha mãe, onde ela me contou o que ele achava "Se nada der certo e a minha hora chegar... é porque já vivi tudo que tinha pra viver". Balancei a cabeça para afastar isso da mente - E a Fatinha e o Théo, estão gostando daqui? - mudei de assunto porque era a melhor opção -
Manu - Sim, ainda bem! - sorriu - Mas acho que só acredito que eles vão ficar aqui comigo no dia que me disserem que já acharam um lugar
Clara - Porquê esse pessimismo todo? Senti muita convicção no Tio Théo quando ele disse que quer ficar
Manu - Mas minha mãe é doida, e ele parece não saber dizer não pra ela
Clara - Deixa ela ouvir você a chamando de doida
Manu - Ah é, esqueci que não é doida e sim "espontânea" - gesticulou as aspas, tentou imitar a voz da Fatinha e eu gargalhei -
Clara - Acho seu pai um fofo
Manu - Sério? Por quê? - riu -
Clara - Ah, é difícil ver um homem que faz de um tudo para ver sua mulher feliz hoje em dia, principalmente depois de anos casados. É raro
Manu - Modéstia à parte, meu pai é um marido maravilhoso. E é bom que o Gil vá aprendendo algumas coisinhas porque quando eu casar... - interrompeu seu discurso ao me ver erguer uma sobrancelha - Se eu casar, é claro - eu ri - Quero um relacionamento como o deles
Clara - Você sabe que as pessoas que ficam com esses discursos de "se eu casar..." são as primeiras a trocar alianças, não sabe?
Manu - Não, não sei. Quem disse?
Clara - Eu estou dizendo
Manu - Nós duas sabemos que você vai casar primeiro que eu
Clara - Por quê?
Manu - Porque você é uma romântica incurável. Já te vejo entrando em uma igreja enorme, decorada por mim, com um vestido lindo de morrer. A Duda à sua frente. O Júnior te esperando no altar e eu diva como madrinha
Clara - Criatividade não te falta mesmo - rimos - Mas, só pra te contrariar eu acho que você casa primeiro. Um casamento em Las Vegas é a sua cara - gargalhou também -
Manu - É sério? Tipo, você acha? - sorriu e eu ri - Quer dizer, claro que não - tentou parecer séria - Daqui a alguns anos a gente conversa - sorri nos imaginando mais velhas conversando exatamente sobre isso. Mas mudamos de assunto de novo e ficamos fazendo o que mais gostamos: falando besteiras e rindo. Ela me fez prometer que em 2014 íamos sair mais juntas e já começou a fazer planos, pelo menos até ficarmos com fome e decidirmos entrar. 
 clarabarcelar: "Viva cada dia como se fosse o último. Renasça a cada manhã e faça suas 24 horas valerem a pena. Conserte seus erros, ou repita-os se julgar necessário. Felicidade não é fazer as coisas certas. A vida não é uma ciência exata, é humana..." 
Fomos pra cozinha, começamos a preparar o café da manhã, aos poucos todos foram acordando e casa voltou à sua agitação habitual. Passamos a manhã na piscina e depois do almoço decidimos começar a enfeitar a casa. Sim, isso mesmo. Ideia de quem? Da Emanuelle, é claro. E ela só precisou de alguns balões prateados que achamos em uma gaveta da sala, velas, aromatizadores e abajures (ah, e de mim e da Rafa para ajudá-la ). Enchemos os balões, depois de darmos o nó, amarramos pedacinhos de fitas de cetim da mesma cor e fomos colando no teto. Arrastamos sofás e outros móveis para ampliar um pouco o espaço da sala, compramos flores para espalhar pétalas pelos cômodos junto com as velas e os aromatizadores de ambiente e para finalizar, a Manu inventou de colocar lâmpadas coloridas nos abajures, o que, por incrível que pareça, foi bem fácil de encontrar em uma boutique de decoração que achamos aberta. A casa que já estava perfeitamente arrumada pela Joana, ficou ainda mais, só que com a nossa cara. E por causa dessa decoração inusitada saímos atrasadas para o salão com a minha mãe, a Fatinha, a Tia Ná e a Dudoca que pediu pra ir junto. Minha avó ficou cuidando do jantar com a Joana para poder liberá-la o quanto antes. Os meninos foram jogar futevôlei na praia. Meu pai, meu avô, Tio Théo e o Tio Neymar ficaram jogando caixeta. Fizemos apenas as unhas, cabelo e depilação (e deixei que a Dudoca pintasse as unhas com um rosa clarinho, o que a deixou em êxtase). O sol já estava indo embora quando chegamos em casa, e ela foi a primeira a entrar correndo disposta a mostrar suas unhas a primeira pessoa que visse - e a segunda, a terceira, enfim... - A Joana já tinha ido, e tudo estava quase pronto. Fui colocar minha bolsa no quarto, e aproveitei para separar logo minha roupa com a ajuda da minha mãe. Estava em dúvida entre um vestidinho branco e outro verde, e até já sabia qual ela escolheria, mesmo assim perguntei e acabei ficando com o que ela disse ser "a cor da esperança". Ultimamente era o que mais vinha alimentando... esperança. Seria bom começar o ano de verde então. Separei logo a roupinha da Duda também. Desci procurando pelo Júnior, encontrei-o do lado de fora, em uma rede com o Luck deitado ao seu lado. Aparentemente ouvindo música mas o olhar estava longe. Quando parei na sua frente, ele tirou seus enormes fones de ouvido e sorriu. 
Clara - Também fiz isso hoje mais cedo... só que naquela outra rede ali - apontei pra ela do lado oposto ao nosso -
Neymar - Fez o que? - franziu a testa -
Clara - Pensei na vida. Ou melhor, em como meu ano foi uma montanha russa cheia de oscilações - ele sorriu de novo mas não respondeu, em vez disso puxou um pouco um lado da rede e pediu para eu deitar ao seu lado. Fiz isso, ficamos grudadinhos, ele beijou meu cabelo e entrelaçou nossos dedos -
Neymar - Acho que estava tentando imaginar como seria o término do meu ano... - deixou a frase no ar - Em comparação, acho que seria um tédio - riu -
Clara - Se eu não tivesse voltado? - olhei-o e ele assentiu cuidadosamente - Acho que você ainda estaria com a atriz lá, e sim, seria um tédio
Neymar - Acha mesmo? - fez uma careta - Pensando bem agora, é muito óbvio que nós não tínhamos nada a ver
Clara - Absolutamente nada - revirei os olhos para o que eu mesma tinha dito antes, mesmo que tenha sido ironicamente, e não consegui evitar uma cara feia também ao lembrar do olhar superior daquela garota quando me viu pela primeira vez e o que me disse da última vez. Por que você ainda lembra disso, Ana Clara? Ele me olhou confuso -
Neymar - Então, por que você disse que... - cortei-o -
Clara - Você acreditou? - gargalhei -
Neymar - Ah, claro. Você e sua ironia
Clara - Sim, eu e ela. Temos um relacionamento maravilhoso
Neymar - Melhor que o nosso? - depositou um beijinho atrás da minha orelha -
Clara - Hum, pergunta difícil
Neymar - Casa com ela
Clara - Seríamos bem felizes, só pra você saber - tentei falar sério. Ele me olhou com as sobrancelhas erguidas tentando me fazer vacilar e conseguiu porque não resisti e ri. E ele riu também. Uma gargalhada tão gostosa que seria capaz de fazer sorrir até a pessoa mais triste do mundo. Puxei o seu rosto para mais perto do meu e beijei-o calmamente. Depois repousei a cabeça no seu peito novamente, ouvindo as batidas sossegadas do seu coração - Também tentei imaginar como seria o meu ano se não tivesse aceitado o emprego aqui. Na verdade, as coisas entre nós nunca aconteceram de uma maneira convencional - rimos - Então parar pra pensar em certas coisas de vez em quando é meio que inevitável...
Neymar - Você viria visitar seus pais mesmo que não aceitasse o emprego, não viria?
Clara - Sim! Não é incrível que tudo parecia interligado? Tudo parecia querer me trazer pra cá... e minha avó me disse algo uma vez que... sei lá, agora parece fazer sentido
Neymar - O que ela disse?
Clara - Que os nossos corações se pertencem
Neymar - Ela disse isso? - perguntou querendo sorrir -
Clara - Disse. Uns dias depois que eu aceitei o emprego, em uma das nossas muitas conversas. Na hora foi algo tão lindo de se ouvir... mas eu não entendia porque ela achava isso já que estávamos separados e eu não via nenhuma remota possibilidade de voltarmos... Achava que quando você descobrisse tudo... - parei de falar não querendo lembrar de coisas tristes e ele levantou o meu rosto para me olhar nos olhos -
Neymar - Ainda bem que sua avó sabe o que fala - me mostrou o seu sorriso mais lindo. Ficamos ali sei lá por quanto tempo, ouvindo músicas, contando os balões que enfeitavam a piscina, rindo ou apenas curtindo a companhia um do outro.
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A Dudoca ainda teve tempo de tirar um cochilo, só porque eu pedi muito e porque o Júnior deitou com ela (e terminou pegando no sono também, normal) mas ou era isso ou ela não ia estar acordada para ver os fogos de artifício que tanto gosta, e a Tia Ná já tinha dito que a visão do jardim é perfeita já que a praia é tão pertinho. Acordei-os perto das 22h. A Duda levantou com uma preguiça enorme, mas foi só falar em "fogos de artifício" pra ela acordar de vez. O Júnior continuou deitado na cama dela, nos observando e tirando fotos de nós duas. Fotos lindas, que vi assim que mandei a Duda pro chuveiro e passei todas pra mim.
 clarabarcelar_: Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a  
Clara - Posso saber o que o senhor ainda está fazendo aqui?
Neymar - Estava olhando vocês duas - colocou as mãos atrás da cabeça e encostou na cabeceira, totalmente relaxado -
Clara - Por que?
Neymar - Não pode? - coloquei as mãos na cintura e semicerrei os olhos, ele gargalhou - Gosto de ver vocês juntas também - sorri - Será que posso? - acrescentou, querendo que eu entrasse no seu jogo -
Clara - Claro que pode, amor - talvez eu tenha sido um pouco irônica, talvez - Mas deixa eu só te dizer uma coisa - saí da pontinha da cama e sentei mais perto dele - Hoje quem está comandando a cozinha é a minha avó e olha, a Dona Glória odeia atrasos. Isso significa que se você não sair daqui agora pra ir se arrumar, vai ficar sem jantar porque ela não vai te esperar - falei muito calmamente -
Neymar - Você acha que ela seria capaz?
Clara - Eu se fosse você não pagaria pra ver - ele se afastou da cabeceira e consequentemente se aproximou mais de mim mas antes que pudesse fazer o que tinha em mente, ouvimos a voz da Duda -
Eduarda - Mãe?
Clara - Oi - olhei pra porta do banheiro -
Eduarda - É pra molhar o cabelo?
Clara - Não. Já estou indo aí, mas não molha
Eduarda - Ok
Clara - Vai tomar banho você também, coisa chata
Neymar - Coisa chata? - fez beicinho, ri e fiz um coraçãozinho pra ele, que não resistiu e sorriu - Fico pronto em cinco minutos
Clara - Oi? Só que nunca, né? Demora mais do que eu
Neymar - Exagerada sempre - revirou os olhos -
Clara - Tá, então vai - levantei -
Neymar - Me ajuda? - esticou as mãos e eu sabia que provavelmente o seu plano era me fazer cair na cama de novo, mas arrisquei mesmo assim e só porque eu esperava uma coisa ele fez totalmente o contrário. Quando coloquei as minhas mãos nas suas e puxei-o, ele não resistiu e me puxou de volta, e sim levantou de vez nos deixando coladíssimos. De uma forma ou de outra, tudo ia terminar como eu havia imaginado (e queria) - Já falei que você fica linda fingindo não me amar por alguns segundos, e por isso adoro te ver irritadinha? - tenho quase certeza que corei, mas não tive tempo de falar nada porque ele me deu um beijo que me deixou meio tonta, atordoada mesmo, e saiu do quarto. Corri pro banheiro pra terminar a higiene da minha boneca, e ao terminar enrolei-a em uma toalha. Enxuguei-a e a vesti com seu vestidinho chiffon cor de rosa, sem manga e com uma gola redondinha, compramos ele juntas. Penteei seu cabelo fazendo uma trança meio lateral tipo espinha de peixe só que um pouco mais solta e deixei duas mechas torcidas. Calcei sua sapatilha, ela mesma se perfumou, passou um pouco do seu gloss e ficou do jeito que eu mais gosto de chamá-la: uma verdadeira boneca. Pra mim ela já é de qualquer jeito. Liguei a TV, e coloquei um DVD que ela escolheu pra ir se distraindo, já que com todo mundo se arrumando não queria que ela ficasse sozinha lá embaixo. Voltei pro quarto do Júnior e ele continuava do mesmo jeito que estava quando saiu do quarto da Duda, e olhava para suas roupas como se a qualquer momento elas fossem criar pernas ou algo do tipo. Ajudei-o selecionando dois looks pra ele escolher e fui tomar banho. Quando saí do banheiro enrolada em uma toalha ele já parecia mais decidido e eu ri porque achava que a pessoa mais indecisa do universo era eu - Essa roupa aqui - apontou para o look "calça branca, camisa branca" - Com esse boné vermelho - pegou-o - E aí? - olhou pra mim -
Clara - Perfeito - sorriu -
Neymar - Valeu - me deu um beijo rápido quando passou por mim e entrou no banheiro. Passei hidratante no corpo e me vesti ouvindo-o cantar no chuveiro: “Você é o primeiro pensamento do meu dia, se eu não te vejo quase morro de agonia. Sou dependente desse amor, seu beijo vicia, eu quero todo dia! A noite cai, o meu sonho é você, dizer te amo já tá virando clichê. Mas eu tô repetindo pra você saber, que eu adoro amar você.” Claro que ele escolheu a carreira certa, mas eu não menti quando disse que não me importo de tê-lo cantando pra mim. Gosto de verdade. Fiz uma maquiagem que destacasse meus olhos, penteei o cabelo pra um lado só, calcei o salto, coloquei a gargantilha que ele meu deu em Paris, me perfumei e estava pronta -
Clara - Já estou descendo
Neymar - Ok. Cinco minutos - interrompeu sua cantoria só pra me responder mesmo. Peguei a minha bolsinha, o celular, saí do quarto pra chamar a Duda e descemos. Só a Manu já estava na sala, e mexendo nos aparelhos de som -
Manu - Hoje é dia de todo mundo ouvir o que gosta, mas a primeira eu posso escolher, certo? - obviamente ela não estava me perguntando nada, apenas avisando - Não vou decepcionar, sou ótima como DJ - ri e ela me olhou - Sério, aprendi umas coisinhas com o Di. Até anotei no celular o nome de pelo menos uma música que todo mundo quer ouvir hoje
Clara - É sério? E por que não perguntou pra mim também?
Manu - Porque não preciso te perguntar pra saber - piscou e Not a bad thing, do Justin Timberlake preencheu o ambiente - Ah, meu amorzinho - suspirou com um sorriso enorme. Sim, esse amor dela pelo JT é antigo - Melhor música - abriu os braços, fechou os olhos e começou a cantar. Olhei pra Dudoca e rimos da cena hilária que tínhamos diante de nós. Quando a música acabou, ela sentou ao nosso lado e nos mostrou a playlist especial que preparou para noite. Fiquei feliz por conhecer quase todas. Depois deixamos a Dudoca na sala e fomos acender as velas decorativas e ligar os abajures espalhados por todos os cômodos, que rapidamente ganharam um clima mais aconchegante e descontraído - Preciso te mostrar algo - pegou a minha mão e me levou para uma parte do jardim - Olha - apontou para um canto meio escondidinho e arregalei os olhos -
Clara - Isso é...??
Manu - Sim. Exatamente o que você está pensando
Clara - Balões chineses? Você fez? Como assim? Quando? - ela gargalhou -
Manu - Não, calma. Meus pais trouxeram, só não me pergunte de onde - rimos - Pensei em só contar mais tarde, mas vai ser melhor cada um levar o seu
Clara - Vamos acender na praia?
Manu - Sim, é mais seguro - sorri - Coloca uma caneta na sua bolsa pra gente poder escrever nossos desejos, pode ser?
Clara - Ah sim, agora entendi porque está me contando - rimos - Pode deixar que eu levo
Manu - Obrigada - sorriu e passou um dos braços por meus ombros - Mais um ano juntas, quem diria, heim?!
Clara - Ninguém, e isso é que é bom - sorrimos e entramos novamente. Meus pais e avós já estavam na sala fazendo companhia pra Duda. Sentei ao lado deles e a Manu deu finalmente play em sua playlist. Quando todos já estavam na sala, subi correndo (ok, o mais rápido que os saltos permitiram) pra pegar minha câmera (aproveitei para pegar quatro marcadores também e coloquei na bolsa) e com o temporizador, tiramos uma foto linda, até o Luck apareceu nela meio sem querer. E atrás dessa vieram várias outras fotos, o que já foi o começo de uma noite que prometia ser maravilhosa e inesquecível. 
 clarabarcelar_: Que o novo ano não seja como o outono da vida onde as folhas caem deixando apenas lembranças de dias bons e ruins, mas que seja como a primavera da vida que produz frutos e dos frutos sementes onde podem ser plantadas a cada dia e colhidas a cada amanhecer... 
Jantamos com a playlist da Manu de fundo, e como o cardápio foi todo feito pela minha avó, tinha de tudo e para todos os gostos. Desde comidinhas frescas e leves, patês, geleias, queijos e frios, cestinhas de pães variados, focaccias, tortas, e empadinhas à saladas de folhas e grãos na companhia de carpaccio ou tender. Em relação as bebidas, havia vários coquetéis (com e sem sem álcool), espumantes e sucos. Minha avó sabe (e gosta) de fazer festa. Natal e Réveillon em Florianópolis era certeza de mesa cheia também, muita música e até a presença dos vizinhos mais próximos, mesmo que pra mim não significasse muito. Era apenas mais uma festa, pra no dia seguinte mudarmos o calendário. Mas aí veio a Eduarda. E é só o ano novo começar a se aproximar que penso muito em todas as coisas que ela conseguiu alcançar, no quanto cresceu, se desenvolveu, e em tudo que o próximo ano já tem reservado pra ela. Aprender a ler, escrever palavras maiores, tirar as rodinhas da bicicleta, conhecer novos coleguinhas. Resumindo: ganhar uma certa autonomia que faz parte do desenvolvimento natural de toda criança. Depois que ela nasceu, o Réveillon ganhou outro significado pra mim, sempre agradeço pelo ano que passou, pela minha saúde e daqueles que eu amo, por todas as conquistas profissionais, pelas pessoas maravilhosas que convivem comigo diariamente, mas acima de tudo agradeço por ela ter mudado a minha vida mesmo sem saber. Depois do jantar, fomos para o jardim e consequentemente a música ficou mais alta, o que era bom porque a Duda se distraia dançando e cantando com todo mundo e não pensava em dormir. Quando a contagem regressiva começou junto com Auld Lang Syne saindo das caixas de som, ela já estava elétrica e mais ainda ficou quando o Júnior carregou-a, girou-a no ar e me abraçou bem na hora que os os champagnes começaram a estourar junto com os fogos de artifício. Ela começou a rir e eu comecei a chorar. Os primeiros segundos de um novo ano tinham acabado de chegar e nós estávamos juntos. Juntos. No sentindo mais literal da palavra, grudadinhos. Definitivamente não era um sonho. Ele limpou as minhas lágrimas, me deu um beijo casto e tive que rir da risada da Duda por estar apertadinha entre nós dois. Beijamos a bochecha dela ao mesmo tempo e ela nos puxou para mais perto e fez o mesmo. Depois, obviamente, só tinha olhos para os fogos que continuavam colorindo o céu das mais variadas cores. Quando a colocou no chão, ele me puxou para um abraço mais forte, muito forte. E o mais incrível era gostar de saber que o meu primeiro abraço era dele e vice-versa. 
Neymar - Nossos corações se pertencem - sussurrou com uma intensidade que chegou a arrepiar, quase fez as lágrimas voltarem e a frase ficou se repetindo na minha cabeça durante uns bons segundos, pelo menos até ouvir outra coisa, quer dizer, eu acho que ouvi porque ele falou muito mais baixo. O barulho dos fogos, a música alta, todo mundo falando ao mesmo tempo... claro que ouvi errado, ele deve ter dito qualquer coisa, menos “casa comigo?”. O ano novo nem tinha chegado direito e já estava me pregando peças... mesmo assim só tive tempo de sussurrar um “eu te amo” com toda a franqueza que existia dentro de mim antes dos meninos se jogarem em cima de nós. E aí foram abraços atrás de abraços e desejos de coisas boas. Estava conseguindo segurar a emoção até chegar a vez do meu avô me abraçar -
Marcos - Eu quero que você tenha sonhos e que todos eles se tornem realidade, minha pequena. Quero que você aproveite ao máximo os momentos da sua vida e quero que você realmente entenda o quão única e rara você é, ok? - assenti com a visão meio turva por causa das lágrimas - Não esquece nunca que o sol pode desaparecer por alguns instantes, mas nunca vai se esquecer de brilhar - sorriu, limpando minhas lágrimas. Eu só consegui abraçá-lo de novo.
    ****
A praia estava bem movimentada quando chegamos, muita gente ainda pulava as sete ondas e faziam os seus pedidos. Mas nada que atrapalhasse os nossos planos. Tivemos apenas que caminhar um pouco para achar um local mais sossegado por ser mais seguro e como mudamos de ideia e resolvemos escrever os pedidos em casa mesmo, só tínhamos que terminar o que começamos. Não estava ventando muito, nem ameaçando chover, o que era ótimo. Deixei a Duda sentadinha, e formamos duplas porque é importante que outra pessoa ajude na hora de acender o balãozinho. Por pura coincidência eu e o Júnior ficamos juntos . Ele me ajudou primeiro, depois fiz o mesmo e à medida que o ar quente enchia o balão, aquecendo-o, víamos o céu se transformando, ganhando outro encanto. 
Enquanto os balões flutuavam, só conseguia pensar no desejo que escrevi no meu: 
 "Por favor Senhor, não o tire de mim. Eu o amo, amo muito! Por favor, não permita que ele vá, não antes de mim! Faz essa sensação de que eu vou perdê-lo a qualquer momento, passar logo. É só isso que eu quero, meu único e maior desejo é vê-lo bem!"
Fechei os olhos e reforcei o meu pedido, esperando que o ano novo trouxesse realmente coisas novas e boas. E a concretização do meu desejo. Mais do que tudo, a concretização do meu desejo.



Vocês são tão maravilhosas, socorro, nem sei o que falar  
Muito obrigada por cada palavrinha linda, vocês são as responsáveis por tudo!! Principalmente porque eu estava tão... sem rumo, sem saber o que fazer (não com a fic, mas comigo). É insuportável lembrar o que aconteceu com o Neymar, mexeu demais comigo e cheguei a pensar em coisas que nem vale a pena lembrar agora! Mas... dias de luta, dias de glória!! 

Agora, em relação à Copa... eu realmente não sei . Já estou bem convicta das minhas ideias, e quando pensei nelas não lembrei da Copa, então não sei mesmo. Agora então... mesmo que eu mude os acontecimentos, as lembranças atormentam. Mas vou ter que começar a pensar nisso, claro. Inclusive, obrigada por ter me lembrado. Espero que isso não seja um problema pra vocês... minha indecisão ultrapassa limites mesmo!

Ah, amei a sugestão, querida anônima. Está anotada! Tudo que vocês sugerem pode ser válido, fiquem à vontade para falar sempre!

PS:. Anninha, muito muito muito muito obrigada por ter compartilhado algo tão... seu. Algo tão íntimo comigo, com a gente... com a história. De verdade, muito obrigada. Me senti lisonjeada. 
PS²:. Merari Santos, sem mais. Tu realmente falou tudo aquilo que, acho eu, todas nós sentimos. 
Dois beijos pra vocês!