domingo, 26 de outubro de 2014

Capítulo 60 - “Só não quero imaginar você vivendo outros amores por aí...”

Dedicado ao JB's  
Não tive nenhuma novidade desagradável no domingo. Em outras palavras, não apareci em nenhum site, porém... o assunto de sábado ainda rendia. Claro que não respondi a nenhum comentário das redes sociais, tive vontade mas não fiz isso. Se os personagens principais não tinham se pronunciado até então, por que eu faria isso? Não devia nem estar envolvida nessa palhaçada de triângulo amaroso. Preferi passar o dia fora com a Duda. Percebi o quanto ela ficou triste depois de saber que o Júnior e eu não estávamos mais juntos e sua tristeza me deixou com o coração apertado. Mas era melhor assim, eu me sentiria pior mentindo e fingindo. Passamos o domingo no zoológico e só voltamos pra casa perto do final da tarde pra ela poder assistir Santos x Mogi Mirim. Tudo bem, eu também assisti, mas tínhamos motivos diferentes pra isso. 
 Na segunda-feira (10), acordei esperando toda aquela normalidade rotineira de sempre mas ela se tornou o melhor dia do meu ano conturbado. Ainda estava no CT quando minha mãe ligou me dando a melhor notícia do mundo: tinha finalmente aparecido um doador compatível pro meu avô. Chorei tanto que deixei a sala inteira preocupada, a Gio e os meninos ficaram desesperados com meu choro repentino, ainda mais depois de uma ligação, acho que devem ter pensado o pior, chegaram até a chamar a madrinha. Só aí contei o motivo e eles me abraçaram emocionados também. Minha mãe tinha dito que, segundo o Dr. Marcelo, o doador apareceu na sexta-feira, dia 7, mas ele resolveu dar a notícia apenas depois de confirmar tudo com o doador. Na segunda mesmo, houve uma reunião da equipe médica para discutir o caso do meu avô e na terça, a reunião foi com nós, os familiares (incluindo meu avô, claro), para esclarecer cada procedimento que seria realizado e para conhecermos a equipe. Recebemos muitas orientações, meu avô assinou o Termo de Consentimento Informado e por fim, a data do transplante foi agendada para 10 de abril. Não fiquei muito chocada com a data porque graças as minhas pesquisas (e a palestra que a madrinha organizou no CT), já sabia que existia um longo processo depois de achar o doador até a doação finalmente acontecer, inclusive muita gente desiste de doar nesse meio tempo, e eu só esperava que isso nem passasse pela cabeça do doador do meu coroa. Ele ainda teria que passar por uma pequena cirurgia pro médico instalar um cateter venenoso em uma veia de maior calibre de longa duração, pra ele receber altas doses de quimioterapia, e talvez, até radioterapia, para destruir todas as células imunes e poder receber a nova medula óssea. Seria por esse cateter que o transplante seria feito. Isso todos nós já sabíamos, mas quando o Dr. Marcelo marcou a primeira sessão, meu avô ficou meio reticente... aí tivemos que, mais uma vez, reunir forças para nós e para ele. Tudo que eu mais queria estava começando a acontecer e eu quase não conseguia acreditar. Era bom demais ver a esperança renovada nos rostos dos meus avós, pais e amigos (sim, porque eu fiz questão de contar pra todo mundo que nos ajudou quando precisamos, eles mereciam saber).
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 Os dias foram passando e o mês de fevereiro finalmente terminou. Sem dúvidas, ele conseguiu ser o pior e o melhor mês da minha vida. Acompanhei meu avô em algumas sessões de quimioterapia (mesmo contra a sua vontade), e os efeitos colaterais que seu corpo começou a apresentar nesse período de condicionamento (é meio que um período de preparação do seu corpo para receber as células sadias) foram: náuseas, vômitos, perda de apetite e alopécia (a perda dos cabelos). Mas levando em conta outros efeitos colaterais, como a mucosite (uma inflamação da parte interna da boca e da garganta que pode levar a úlceras dolorosas e feridas nessas regiões), tínhamos muito que agradecer porque sempre soubemos que não seria fácil.
 Os primeiros dias de março foram muito melhores do que os primeiros dias do mês anterior... Bom, é melhor não lembrar o motivo, quero dizer... é melhor tentar esquecer (o que continuava não sendo nada fácil). A minha relação com o Júnior não mudou, falamos apenas o básico mesmo. Ele pareceu não dar muita importância ao que pedi antes que saísse do meu quarto naquele fatídico sábado: “Mas eu desejo, do fundo do meu coração, que você não me esqueça”, não sabia se o pior era eu ter achado que ele levaria isso a sério ou o fato dele realmente não ter levado a sério. Sim, podem me chamar de burra de novo, dessa vez até deixo. Era muito obvio pra todo mundo que eu já tinha sido esquecida, afinal, ele e a atriz (não me julguem por preferir nem pronunciar o nome da dita cuja) não faziam mais questão de se esconderem dos fotógrafos, pelo contrário, pareciam chamar por eles. Não que eu ficasse atualizando sites e mais sites durante o dia para saber as últimas notícias do mais novo casal (sim, ela chegou a assumir isso, mas ele, ao ser perguntado depois de uma partida, se recusou a falar sobre a vida pessoal), gostaria até de viver em um mundo afastado do deles, mas era impossível não saber. E o que me deixava com mais raiva, é que eu sempre achava que já tinha superado tudo, até surgir uma nova foto deles. Elas nunca eram íntimas demais, digo, não eram fotos deles agarrados, abraçados, de mãos dadas ou algo assim, mas estavam juntos e isso já era suficiente para me deixar destruída. 
Ainda bem que o Júnior tinha, pelo menos, o bom senso de não levar a Duda para seus encontros. Procurei deixá-la de fora de toda essa palhaçada, até porque vez ou outra, ela ainda perguntava com uma vozinha triste, se eu e ele ainda voltaríamos. Não sei quem ficava pior toda vez que respondia, ela ou eu mesma porque me dei conta que o ruim não é sentir falta, o ruim é desejar algo que não se pode mais ter. O ruim… é que nada parecia ser bom novamente.
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21 de março de 2014 - sexta-feira, 06h30
Desliguei o despertador a tempo de ouvir o da minha pequena tocar também. A música que fazia ela acordar animada sempre continuava sendo da borboletinha, me peguei até cantando enquanto arrumava a cama. Separei minha roupa e saí do quarto do jeito que estava mesmo - um shortinho de dormir mega curto e um top - não corria o risco de encontrar o Gil pelo corredor porque ele e a Manu continuavam brigados e claro que essa situação só mudaria quando um dos dois resolvesse dar a cara à tapa, o que parecia estar muito distante de acontecer. Acho que eu precisava dar um jeito nisso, sem que a Manu soubesse, lógico. Entrei no quarto da Duda e fiquei parada na porta quando percebi que ela estava falando sozinha, ou como eu prefiro dizer: pensando alto. Não deu pra entender nada, apenas que ela falava olhando para o porta-retrato da sua cabeceira; eu, ela e o Júnior estávamos juntos ali, no dia do seu aniversário. Franzi a testa, e fiquei ainda mais intrigada quando ela beijou a foto. Arquejei e pisquei algumas vezes, queria pensar nos muitos significados que aquele gesto lindo podia ter, queria poder falar também mas não consegui nem uma coisa, nem outra. Meu cérebro bloqueou diante daquela cena. Não sei por que mas senti que aquilo não era sinal de algo bom... Ela me viu quando já ia entrar no banheiro e sorriu. 
Clara - Bom dia, amor
Eduarda - Bom dia, mãe - soprou um beijo e eu sorri, um pouco mexida com o que tinha visto ainda, mas balancei a cabeça, tentando não pensar mais no ocorrido. Ela tomou banho, escovou os dentes, se vestiu e calçou o tênis (fez tudo isso sozinha, eu só assisti, babando um pouco). Fiz "maria-chiquinha" em seu cabelo, ela se perfumou, pegou a mochila e fomos pra cozinha. Coloquei-a sentadinha em uma banqueta ao lado da Manu, que já estava terminando o seu café, e a servi com um pouco de salada de frutas (dá pra acreditar que foi a Manu quem fez? sim, ela está progredindo). Voltei pro meu quarto, fui direto pro banheiro, tomei banho, escovei os dentes, passei hidratante no corpo, me vesti e fiz um rabo de cavalo no cabelo. Preferi não usar nada no rosto além de um gloss clarinho porque tinha gravação de tutorial marcada para antes do meio dia. Peguei minhas coisas, tomei apenas um copo de suco de laranja e saí com as meninas. Descemos, a Manu entrou no seu carro e eu no meu, depois de ter prendido a Duda na cadeirinha. Era tão bom poder dirigir meu próprio carro, juro que achei que tinha desaprendido durante o tempo que não pude fazer isso. A propósito, como já era de se esperar, minha mão direita ficou com uma linda cicatriz. Tudo bem, tinha outras no coração também, só que pelo menos essas, eram invisíveis. Deixei a Duda no colégio e segui pro CT. Passei o início da manhã bolando um novo design gráfico para o site oficial do Santos com a Gio, foi bem trabalhoso, assistimos até alguns vídeos para nos inspirar e ter mais ideias, e o resultado final ficou incrível. Enquanto trabalhávamos nisso, pensamos em criar também um blog dentro do site para falar sobre moda e futebol. Foi só uma ideia que ainda precisaria amadurecer bastante, mas anotamos tudo. Queríamos mesmo que desse certo futuramente. Quando o Piratinha foi nos avisar que a sala estava pronta para a gravação, nós descemos e mais uma vez nos surpreendemos com a sua dedicação, estava tudo perfeito. 
 clarabarcelar_: ACTION!  
Dessa vez a Gio também participou e foi ao vivo. Ficou um vídeo bem descontraído, durou quase uma hora e apesar de, ao nosso ver, não sermos as mais indicadas para tal, demos dicas, truques, ensinamos técnicas e indicamos alguns cosméticos. Como não podia ser diferente, tudo tinha a ver com o Santos, até as cores que usamos. No final, sorteamos cinco estojos de maquiagem personalizados e com alguns autógrafos entre todas as torcedoras que haviam comentado o primeiro tutorial. Confesso que foi bem divertido. Quando terminamos tudo, a hora do almoço já estava no fim, mesmo assim acompanhei a Gio até o restaurante. Estava quase vazio, e eu preferia que estivesse lotado, porque as únicas pessoas ali presentes, tirando o pessoal da cozinha, eram o Júnior e o Gil. Não fiquei surpresa. Quero dizer, só com a presença do Gil, no entanto, não era assim tão fora do comum vê-lo pelos cantos do CT também. Mas me referi ao Júnior, não podia mais me dar ao luxo de achar que encontrá-lo aqui e ali era algo surpreendente, seria muita idiotice da minha parte. Vê-lo diariamente era algo que não tinha como evitar. E seria muito estranho se eu dissesse que ultimamente vinha vendo mais o Júnior do que o Gil? Talvez? Sim? Não? Pois, era a mais pura verdade. O Cebola não colocava os pés no apê desde que brigou com a Manu, até nos falamos por mensagem - sem nunca tocar no assunto que causou a crise em seu namoro - mas tínhamos uns bons dias sem nos vermos (a última vez foi na baladinha do aniversário da Rafa, dia 11, nem queria ir pra não ter o desprazer de encontrar certas pessoas mas a Manu meio que me obrigou a acompanhá-la. Pelo menos não esbarrei com ninguém desagradável. Explicando melhor, a atriz não foi e nem procurei saber se ela foi convidada). Minha vida estava uma loucura, a dele eu não tinha como saber, mesmo assim não me sentia no direito de julgá-lo. Sentia saudades, lógico, mas todo mundo precisa de um tempo às vezes, certo? Sei lá, acho que sim. 
Enfim, o Gil estava de costas para porta, foi o Júnior quem me viu primeiro, mas ignorei-o (como fazia sempre que podia). Nem um aceno ou um cumprimento, nada. Depois que a atriz assumiu o namoro que ele não negou, toda vez que o via, não sabia direito se queria bater nele, nela ou em mim mesma. Então, era preferível ignorá-lo. O Gil olhou pra trás e sorriu, retribuí. Ele fez um sinal com as mãos, do tipo "Quero falar com você depois", assenti e fui sentar com a Gio em uma mesa perto de uma das janelas. Almoçamos em silêncio, ela me conhecia o suficiente pra saber que não estava nada confortável ali, a comida nem descia direito, sentia que estava sendo observada o tempo todo. Depois de alguns minutos, vi que o Júnior saiu do restaurante e o Gil se aproximou. Cumprimentou primeiro a Gio, que logo arranjou uma desculpa para ir pra sala antes de mim.
Clara - E aí, Cebola. Você por aqui... - levantei -
Gil - É... Posso? - fez um gesto apontando para nós dois e eu ri -
Clara - Pelo amor de Deus, é claro que pode. Acha que eu levantei pra quê? - riu também e me abraçou apertado, como sempre fez. Ah, que saudade! - Nossa relação continua a mesma. Nada mudou
Gil - É que eu pensei que... você sabe. Ainda mais depois desse tempo todo
Clara - Eu sei
Gil - Mas olha...
Clara - Não precisa se explicar - interrompi-o - Eu também defenderia a Manu em qualquer circunstância
Gil - Por que só ela não entende isso? - percebi uma pontinha de decepção em seu tom de voz - Eu juro que não falei nada demais, só quis evitar uma cena desnecessária no balé. Ainda tinha a Duda que podia aparecer a qualquer momento e ouvir tudo
Clara - Eu te entendo, de verdade. Mas pelo visto não adiantou nada
Gil - Não adiantou. Quis evitar uma cena dela com ele, e ela fez comigo - sei que não devia, mas um riso leve acabou escapando -
Clara - Você não conhece a fera?
Gil - Manu é imprevisível demais, quando está com raiva então... Mas eu a conheço. Conheço tanto que sei que ela não vai mexer um único pauzinho pra gente resolver essa situação
Clara - Ainda bem que você sabe, porque não vai mesmo
Gil - E como é que ela está?
Clara - Ah, muito bem. Adora ver você curtindo fotos de suas amiguinhas, comentando que está com saudades e por aí vai. Ficou ainda melhor depois que você curtiu a indireta que era pra você mesmo
Gil - Ela só faltou me marcar
Clara - E ainda assim, você curtiu - ele colocou as duas mãos na nuca, depois passou-as pelos cabelos, claramente nervoso -
Gil - Você sabe que é tudo só para provocar, não sabe? - sorri -
Clara - Eu sei, ela também sabe. É obvio que vocês se amam, mas eu se fosse você parava com isso de querer provocar porque se ela resolver revidar...
Gil - Eu não sei o que fazer. Ela não me atende, quando responde as minhas mensagens é curta e grossa... tenho até medo de me aproximar. Você viu, no aniversário da Rafa ela nem olhou pra mim - isso é o que você acha, pensei. A Manu ficou ao meu lado a noite inteira, e de olho nele o tempo todo. Era só uma desconhecida chegar perto dele para eu ter que distraí-la com alguma conversa invetada na hora -
Clara - É exatamente por isso que ela faz essas coisas, Gil. Ainda está com raiva, sem motivo, eu sei, mas está. E tenta te afastar. Mas o que mais quer é que você a surpreenda
Gil - Você acha?
Clara - Ela sente sua falta
Gil - Eu também sinto a falta dela
Clara - Então reage. Surpreende a minha amiga porque até os vizinhos já devem estar cansados de ouvir what goes around comes around
Gil - Quê?
Clara - É uma música - ri suavemente -
Gil - Do Timberlake, eu aposto
Clara - Com certeza. Te aconselho a procurar a tradução dela, só pra perceber a dimensão do drama lá no apê. A qualquer momento aquele CD fura de tanto que ela ouve e adivinha de quem vai ser a culpa por isso também? - gargalhou - É sério. Nem sei se devia estar te falando essas coisas já que... daquela vez você foi tão... legal. Hoje eu estou no seu lugar, mas a diferença é que... eu e ele... enfim. Você e a Manu têm volta. Não podem ficar brigados por isso - ele pensou um pouco antes de responder -
Gil - Obrigado
Clara - Não há de quê - sorri - Mas eu preciso voltar ao trabalho agora. Pensa nisso tudo
Gil - Vou pensar - piscou. Abracei-o novamente, ele beijou a minha testa e sorriu também. Saí do restaurante, e subi com pressa, pedi desculpas aos meninos pela demora e foquei no que era mais importante naquele momento. Menos de uma hora depois, meu celular tocou e o número era da escola da Duda. Fiquei alarmada imediatamente. Meu Deus, será que a Manu esqueceu de pegar minha pequena? Isso nunca aconteceu. É claro que ela não esqueceria. Atendi quando já estava quase indo pra caixa de mensagem, era a professora. Pediu para falar comigo, se possível, depois do meu expediente. Claro que disse que iria, e perguntei o motivo mas ela não quis adiantar nada. Liguei pra Manu logo em seguida, mas ela disse que a Duda parecia estar muito bem, e estava fazendo as tarefas de casa. Não consegui esconder o meu nervosismo durante o resto da tarde. Podia não ser nada demais, ou uma simples reunião de pais, mas então pra que a urgência e por que tão em cima da hora? Não sabia mais o que pensar quando vi que finalmente podia sair. Sério, foi a primeira vez que contei até os segundos pra poder ir embora logo. Peguei a bolsa, me certifiquei de que estava tudo dentro dela, me despedi de todo mundo e desci. Já estava no estacionamento quando ouvi o meu nome, obvio que reconheci a voz, mesmo assim olhei pra trás e o vi correndo em direção a mim. O cabelo bagunçado e molhado me deu a certeza que o treino havia terminado a alguns minutos. Arqueei uma sobrancelha, esperando que falasse -
Neymar - Está indo pra escola da Duda também?
Clara - Como assim? Ligaram pra você?
Neymar - Sim
Clara - Ai, meu Deus!
Neymar - O que foi? - aproximou-se ainda mais -
Clara - Não sei. Esse é o problema, não sei o motivo dessa reunião de última hora
Neymar - A professora não adiantou nada pra você?
Clara - Não
Neymar - A Duda nunca aprontou nada, com certeza é por outro motivo
Clara - Também acho - franzi a testa. Conseguimos mesmo ficar por mais de dois minutos conversando civilizadamente? Que avanço -
Neymar - Vamos, então? - passou por mim exalando um perfume maravilhoso -
Clara - Vamos? - vi que destravou as portas do seu carro, e aí me dei conta do que disse - Ah, sim. Vamos! - fiz o mesmo com o meu carro, entrei e respirei fundo. O fato dele também ter que estar presente conseguiu me deixar ainda mais nervosa, mas tentei pensar apenas no caminho que teria que fazer e dei partida. Ele me seguiu, então chegamos juntos na escola; mais um momento constrangedor. Foi a diretora quem nos recebeu, olhei ao redor da sala e não vi mais nenhum pai ou mãe. Estávamos atrasados, adiantados, ou aquilo seria apenas com nós dois mesmo? -
Marisa - Olá. Como estão? - nos cumprimentou educadamente -
Clara - No momento, bem ansiosa, pra não dizer nervosa mesmo - ela sorriu um pouco -
Neymar - É algo muito sério?
Marisa - Eu prefiro que vocês conversem diretamente com a professora da Eduarda. Ela já está vindo pra cá, fiquem à vontade - saiu, nos deixando sozinhos e desconfortáveis (pelo menos eu estava). Sentei, abaixei a cabeça e permaneci assim por alguns minutos -
Neymar - Clara? - era a segunda vez no dia que ele me chamava e percebi o quanto sentia falta até de ouvi-lo falando o meu nome. Olhei-o e mais uma vez, esperei que prosseguisse - Desculpa - falou muito devagar, sem nunca desviar o olhar. Meu coração deu uma acelerada básica. Fiquei muito surpresa e não fiz questão de esconder isso. Suas expressões deixavam claro que ele fez um esforço enorme pra dizer isso, e eu suspeitava que só disse porque aquele era um dos pouquíssimos momentos em que estávamos sozinhos. Apenas nós dois -
Clara - Pelo o quê? - não sei nem como, mas sustentei o seu olhar -
Neymar - Por tudo. Não queria que seu nome ficasse envolvido em tantos sites, sei que não gosta disso - fiquei pasma, as lágrimas chegaram a me ameaçar mas não deixei que nenhuma rolasse. Apenas me perguntei silenciosamente o que aquele tudo abrangia e não consegui responder nada, queria apenas saber até onde aquilo iria e o motivo daquele pedido de desculpas - Fala alguma coisa
Clara - O que quer que eu diga?
Neymar - Qualquer coisa. Até um eu odeio você é melhor do que o seu silêncio
Clara - Ok - suspirei, fechando os olhos rapidamente, depois voltando a abri-los - Seu pedido de desculpas não vai apagar nenhuma das lágrimas que eu derramei. Não vai curar o vazio, não vai substituir a ausência, não vai fazer o tempo voltar, não vai me tirar o arrependimento, nem a mágoa. Resumindo, o seu pedido de desculpas não muda nada na minha vida agora - vi muito claramente o efeito que as minhas palavras tiveram, não foi porque eu quis (até porque nem sabia que ainda podia causar algum efeito nele). Simplesmente, desabafei - Não me olhe assim. Só estou fazendo o que você fez comigo, não se assuste se doer. Machuca, eu sei, mas não mata - ele continuou muito sério, assentiu depois de um tempo bem pensativo e desviou o olhar. A princípio, logo quando terminei de falar, estava orgulhosa de mim mesma, mas... saber que ainda o afetava mexeu comigo, e me vi quase pedindo desculpas por tudo que tinha dito. Ainda bem que a professora da Duda entrou na sala antes disso -
Anna - Boa tarde. Desculpem o atraso, tenho outra turma no turno da tarde - sorriu para nós dois e sentou-se -
Neymar - Tudo bem - falou ao mesmo tempo que eu, e ela riu levemente. Era só o que me faltava... Não ousei olhá-lo enquanto sentava ao meu lado, de modo que ficamos de frente para ela -
Clara - Professora, por favor. Qual é o motivo da nossa presença aqui?
Anna - Bom, eu não queria ter que dizer isso mas a verdade é que o rendimento da Duda caiu consideravelmente
Clara - Caiu? Mas como assim? Ela faz todas as tarefinhas de casa... - falei ainda sem acreditar no que tinha ouvido - Pelo menos quando está comigo
Neymar - Comigo ela também faz tudo - retrucou -
Anna - Eu sei - ficou visivelmente constrangida com a situação - Todos os deveres passados pra casa voltam feitos. Essa não é a questão, o problema é em classe. A Duda não quer fazer praticamente nada. Diz que está triste, não quer brincar com ninguém e prefere ficar sozinha, quieta
Clara - Desde quando isso vem acontecendo? - perguntei horrorizada. Aquela descrição não era da minha filha -
Anna - Venho percebendo que ela está tristinha a um tempo, mas achei que fosse algo passageiro, que estava doentinha ou algo assim. Mas quando percebi que não era nada disso, resolvi chamá-los. E olha, em todos esses anos lecionando, nunca vi nenhum aluno meu feliz por ter que chamar os pais aqui
Clara - Fe... Feliz?? - gaguejei mesmo -
Anna - Sim. Pelo que pude perceber, ela pareceu gostar de saber que eu ia chamá-los aqui - olhei pro Júnior, ele parecia tão surpreso quanto eu - Eu não sei o que está acontecendo, mas a Duda sempre foi uma das minhas melhores alunas. Muito prestativa e atenciosa. Tristeza nem combina com ela, até os coleguinhas já perceberam isso
Clara - E como é que a gente não? Por que nós não percebemos? - olhei pra ele novamente, confusa e prestes a ter um ataque nervoso - Meu Deus, perguntava pra ela como estava aqui e ela sempre respondia a mesma coisa, que estava tudo bem. Eu devia ter percebido que algo não estava certo
Neymar - Clara, calma - pegou na minha mão, e não consegui ficar calma (pelo contrário até, a situação piorou) mas paralisei - Nós sabemos o motivo disso
Clara - Ah, sabemos? - ironizei e puxei a minha mão de um jeito meio bruto -
Neymar - Tem certeza que quer discutir isso aqui? - corei, afinal... ele tinha razão. Não estávamos propriamente sozinhos -
Clara - Desculpa, professora
Anna - Tudo bem - sorriu levemente -
Neymar - Nós vamos conversar com a Duda e eu tenho certeza que a minha filha vai... voltar ao... normal - nossa filha, corrigi mentalmente, mas não falei nada. Já estava constrangida o suficiente - 
Anna - Eu acredito que sim. E gostaria de deixar claro, que só não chamamos vocês antes porque achamos que era algo que podia ser resolvido aqui - assentimos, antes de nos despedir e sair da sala. Estava me sentindo arrasada. Minha filha estava... sofrendo? Meu peito doía só de pensar nisso. Enquanto caminhava para o meu carro, minha mente me arrastou até de manhã, quando a vi beijando a foto... A Duda estava com... saudades! Claro que era isso! Mas por que não nos disse nada? Pior, por que não percebemos? -
Neymar - A culpa é toda minha - olhei pra ele, mas não estava com um pingo de vontade de discutir -
Clara - Sinceramente? Não é hora de procurar culpados
Neymar - Eu sei que você também pensa isso
Clara - Não, eu não penso - me olhou um pouco incrédulo - Eu criei a Eduarda durante três anos sem uma presença masculina pra ela chamar de pai... De repente você aparece, e nós construímos a família perfeita e feliz praticamente igual aquelas que ela assiste nos filmes e nos desenhos. Só que depois... de uma hora pra outra tudo desmorona, acaba e ela não entende o porquê - precisei parar um pouco para recuperar o fôlego e continuar - Isso não está certo, nós devíamos ter sido mais cuidadosos com ela. Hoje de manhã eu a vi beijando uma foto nossa - confessei, mesmo sem querer. Ele pensou em falar algo e desistiu, mas estava tenso - Olha, eu sei que nós fizemos um acordo quando... Enfim, quando começamos a namorar de novo, mas esse acordo tem que continuar de pé, independente de qualquer coisa. Nada entre mim e você pode afetar negativamente a nossa filha porque ela é mais importante que tudo
Neymar - Você está certa
Clara - Eu sei que estou - fiquei com a impressão de ter visto a sombra de um sorriso em seus lábios, e ele revirou os olhos na maior cara de pau -
Neymar - Estou indo lá no apê agora, tudo bem?
Clara - Você sabe o caminho - dei as costas e destravei as portas do meu carro. Entrei e saí logo do estacionamento, deixando-o parado no mesmo lugar. Ás vezes é bom ficar com a última palavra, dá uma sensação boa de vitória, não é? Mesmo assim, ainda conseguimos chegar juntos ao meu prédio. Quando saí do meu carro e travei as portas, vi que ele estava segurando elevador pra mim. Íamos subir sozinhos? Cogitei ir pelas escadas, mas seria muito infantil, ele foi educado, eu também tinha que ser. Entrei e agradeci em um murmúrio que nem sei se foi audível. Ele apertou no botão indicado, o elevador começou a subir lentamente e eu comecei a suar. Não que estivesse calor ali dentro, mas estava nervosa ao extremo. Achava que aquela tensão entre os casais dentro de elevadores era apenas coisa de filmes e novelas, mas era exatamente o que estava acontecendo ali. Não era mito, o espacinho minúsculo em que nos encontrávamos parecia diminuir ainda mais a cada andar que passava e ninguém entrava. Não consegui segurar o riso diante das ideias absurdas que minha mente fantasiava, isso chamou a atenção do Júnior, olhei-o de relance e o vi sorrindo. Juro, ele sorriu como a muito tempo eu não via, e quase me derreti ali mesmo. Balancei a cabeça, desviei o olhar e fiquei de olhos fechados até ouvir o blip do elevador - Finalmente! - sussurrei. Abri a porta, e ele entrou primeiro chamando pela Duda. Ela apareceu correndo com o Luck e se jogou nos braços dele. Fechei a porta, joguei a bolsa na poltrona e sentei no sofá - Manu! - chamei-a -
Manu - Oi, estou na área de serviço - gritou de lá mesmo, devia estar colocando suas roupas na máquina -
Clara - E eu? Não ganho abraço? - ela sorriu e passou os bracinhos envolta do meu pescoço, depois beijou a minha bochecha mas sua carinha não deixava mentir: ela já sabia o motivo de termos chegado juntos -
Neymar - Filha, a gente precisa conversar
Eduarda - Eu sei - falou muito baixinho -
Neymar - Senta aqui - ficou do outro lado do sofá e ela entre nós dois -
Eduarda - Eu sei o que é...
Clara - Então fala, Duda. O que está acontecendo na escola? - ela balançou a cabeça - Você sabe que está acontecendo algo sim, e nós também já sabemos mas precisamos que você fale
Neymar - Pode falar com a gente. Não vamos brigar com você
Eduarda - Tá - baixou a cabeça e começou a mexer nos dedinhos, uma mania nervosa - É que... eu não gosto de ficar triste na frente de vocês porque sei que vocês vão ficar triste também, então só fico assim na escola - falou um pouco rápido demais e encolheu os ombros -
Clara - Mas por que? Qual o motivo da sua tristeza?
Eduarda - Tenho saudades de vocês dois juntos - seus olhos ficaram rasos, e eu sabia que bastava a sua primeira lágrima rolar, pra começar a chorar também - Eu lembro de quando a gente saia, brincava, e o papai dormia aqui... - nós nos olhamos por um tempo que pareceu quase um século, enquanto ela permanecia de cabeça baixa -
Neymar - Duda... - começou a falar, mas creio que não sabia como (assim como eu), e parou -
Eduarda - Eu sei que vocês não namoram mais, eu sei - olhou para nós dois, e percebi que já estava chorando. Foi a gota d'água, as minhas lágrimas nem se preocuparam em ser discretas - Mas tenho saudades mesmo assim - o silêncio que se formou depois disso foi quase palpável, dava para ouvirmos a máquina de lavar e até os carros na rua. O Luck nos olhava com as orelhinhas em pé, sem entender o motivo de estarmos tão quietos -
Clara - Duda, olha pra mim - ela fez o que pedi, passou as mãos no meu rosto e eu sorri - Você não fez nada disso de propósito, não é? Não incentivou a sua professora a nos chamar achando que eu e o seu pai vamos ficar juntos de novo, não é?
Eduarda - Não! - respondeu com uma expressão confusa - Eu quero que vocês fiquem juntos, mas não foi de propósito - disse a última palavra bem devagar só para não errar, e eu sentia um orgulho enorme toda vez que ela fazia isso com as palavras novas que aprendia. Só que dessa vez não consegui sorrir, sua sinceridade me desarmou. Esperei que o Júnior dissesse alguma coisa, mas ele estava tão ou mais perdido do que eu - Tudo bem, eu prometo que nós vamos voltar a sair mais vezes
Eduarda - Nós três? - seus olhos ficaram enormes -
Clara - Sim, nós três - olhei pro Júnior e ele não esboçou nenhuma reação, na verdade, parecia muito surpreso com a minha atitude - Não sempre, porque nossos horários são muito doidos, você sabe
Eduarda - Mas é sério? - levantou, enxugando o rosto -
Clara - Sim
Eduarda - Pai, é sério também? - olhou pra ele -
Neymar - É sério - respondeu olhando pra mim -
Clara - Mas tem uma condição
Eduarda - Qual??
Clara - Tem que voltar a prestar atenção nas aulas, e a brincar com os coleguinhas. Nada de se isolar
Neymar - É isso aí, nada de tristeza também. Você nem tem idade pra isso ainda
Eduarda - Não vou ficar mais triste, oh - beijou os dedinhos - Juro!
Neymar - Melhor assim - sorriu -
Clara - E tem mais uma coisa, mocinha - ela olhou pra mim - Não tem que esconder nada de nós, entendeu? Sempre que estiver sentindo alguma coisa, conversa com a gente. Não guarda pra você, faz mal
Eduarda - Faz mal? - fez uma careta -
Clara - Faz, faz muito mal. Fala pra gente que vamos sempre tentar dar um jeito, ok?
Eduarda - Ok - sorriu de um jeito lindo e nos surpreendeu com um abraço. Não pareceu bem um abraço, mas era. Ela passou um dos bracinhos pelo pescoço dele e o outro pelo meu, resumindo de uma maneira bem simples: eu e o Júnior ficamos com os rostos muito próximos, podia até sentir a sua respiração e o pior foi que a Duda prolongou esse abraço mais do que o necessário. Por isso, quando nos soltou, dei uma desculpa de que precisava ir ao banheiro e fui pro meu quarto -
Manu - Que cena mais fofinha eu vi
Clara - Que susto!! - praticamente gritei e ela gargalhou - Palhaça - ia fechar a porta, mas ela não deixou e entrou mesmo -
Manu - Quero saber de tudo
Clara - Não tem nada pra saber
Manu - Claro que tem
Clara - Preciso de um banho
Manu - Eu espero aqui - deitou na minha cama. Revirei os olhos, peguei um roupa qualquer e entrei no banheiro. Me despi, entrei no box, liguei o chuveiro e procurei relaxar a mente e o corpo. Esqueci, por momentos, de tudo. Inclusive do tempo, tanto que ouvi a voz da Manu - Clara?
Clara - Que foi? - desliguei o chuveiro para ouvi-la melhor -
Manu - Ah, achei que tinha descido pelo ralo - gargalhou - Vou tirar a roupa da máquina, mas volto e você vai me contar tudo - foi impossível não rir -
Clara - Tá, Manu. Vai logo - respondi e prossegui com o meu banho. Quando terminei, hidratei minha pele, me vesti, saí do banheiro desembaraçando o cabelo e tomei outro susto, deixei o pente cair no chão na mesma hora, o que fez com que ele desviasse o olhar do meu mural de fotos para focar apenas em mim - Tá fazendo o que aqui? - só consegui formular essa pergunta porque era a mais obvia para se fazer. Estava quase indo beliscá-lo só para ter certeza de que ele realmente estava ali, naquele mesmo quarto onde decretou o final de tudo -
Neymar - Já estou indo embora - respondeu depois do que pareceu uma eternidade e parecia meio nervoso também. Com o quê? -
Clara - Ok - assenti sem entender muito bem o que estava acontecendo - Tchau (?) - quando eu já esperava que não dissesse mais nada e saísse logo do quarto, ele fez totalmente o contrário e se aproximou ainda mais de mim. Minha respiração ficou irregular e lutei pra tentar esconder isso - O que você está... - não terminei a frase porque ele me interrompeu -
Neymar - Só quero te pedir uma coisa
Clara - Que coisa? - perguntei morrendo de medo do que poderia ouvir -
Neymar - Por favor, não se apaixone por outro alguém - quase caí sentada e se isso acontecesse ia ser no chão mesmo, estava longe da cama -
Clara - Por que não? - perguntei antes que tivesse tempo de pensar em mais alguma coisa -
Neymar - Só não quero imaginar você vivendo outros amores por aí… - me arrepiei por completo e tenho quase certeza que até ele percebeu. Conhecia a música de onde ele havia tirado a frase, e não à toa ela se chamava "Distante" -
Clara - Por que isso agora? - murmurei com o que me restava de forças -
Neymar - É só um pedido. Assim como você fez o seu antes que eu saísse desse quarto pela última vez - meus lábios começaram a tremer em antecipação a um choro que seria inevitável -
Clara - Então eu também tenho o direito de ignorar esse pedido, certo? Assim como você fez - ele balançou a cabeça mas não disse nada. Ainda esperei por alguma desculpazinha esfarrapada mas nem isso eu merecia, me irritei - Você me tinha. Você me teve como ninguém mais teria. Mas você preferiu me deixar, ir embora. Você me teve todos dias. Eu era sua mesmo quando não queria. Eu era sua até mesmo quando era de outra pessoa. Você me tinha, Júnior. Você me teve nas suas mãos, mas preferiu me deixar escapar. Você me tinha tanto, que quando escolheu me perder, eu obedeci - ele tentou falar, mas não deixei, não fui eu quem começou então ele ouviria tudo - Eu te amei com todas as minhas forças, de todos os jeitos, gestos e formas possíveis. Lutei contra tudo e todos, sem ter medo do amanhã seguinte. E só não sabia que o “amanhã seguinte” ia separar nós dois
Neymar - Clara...
Clara - Você foi embora
Neymar - Você não me impediu - retorquiu. Fiquei petrificada e nem impedi as lágrimas de rolarem, não adiantaria mais -
Clara - Agora a culpa é minha? Tudo bem, eu devia ter dito algo. Mas, se o meu amor não foi o suficiente pra te fazer ficar, nada que eu dissesse teria mudado alguma coisa - fiquei surpresa com a calma que usei pra falar, aliás, estava surpresa por estarmos falando tão baixo... acho que já estávamos mais do que cansados de gritar e brigar (eu pelo menos, estava no meu limite) - Sou eu que estou pedindo por favor agora, vai embora - pedi, antes que a conversa se prolongasse ainda mais e eu não tinha estruturas para aguentar mais nada - Sobre as saídas com a Duda a gente conversa depois - não lhe dei oportunidade de falar mais, passei as mãos no rosto e fui até a porta. Abri-a e abaixei a cabeça, não queria saber se ia me olhar ou não. Ele demorou demais para girar os calcanhares, achei que já ia ter que pedir de novo quando finalmente passou por mim e saiu do quarto. Bati a porta, me joguei na cama, enfiei a cabeça no travesseiro e gritei. Era melhor do que quebrar um espelho. Que dia caótico! Ouvi quando a porta foi aberta novamente, enxuguei as lágrimas mas continuei do mesmo jeito -
Manu - Ei - deitou ao meu lado - Que foi?
Clara - Por que você deixou ele entrar aqui?
Manu - Não vi. Quando voltei vocês já estavam conversando, preferi não atrapalhar. Fiz mal? - neguei com a cabeça, levantei e sentei com as pernas cruzadas -
Clara - Ele já foi?
Manu - Já. Veio aqui pra te magoar de novo?
Clara - Não - respondi sem nem pensar duas vezes, não queria falar sobre o que tinha acabado de vivenciar, não podia falar. Respirei fundo, e usei a técnica da distração, contando o que ela queria saber sobre a cena que tinha visto na sala. Fiz um breve resumo, claro, e ela ficou tão surpresa com tudo quanto eu. Deixei de fora a parte do meu dia em que conversei com o Gil, e quando ela desceu pra academia, (até tentou me levar junto, mas, sem sucesso) liguei pra minha mãe pra saber do meu avô, e ela disse que como foi dia de quimioterapia, ele estava meio enjoado, mas bem. Isso era o mais importante. Fui pra cozinha me distrair cozinhando e a Duda me ajudou como pôde, sempre falando muito, já fazendo planos e mais planos. Eu sabia que estava completamente ferrada, então apenas fui concordando com tudo que ela ia dizendo, outra hora conversávamos melhor. Depois, com o jantar já pronto, dediquei o meu tempo a ela e ao Luck.
 clarabarcelar_: É por você que eu ainda tenho vontade de seguir vivendo. Por quem eu durmo, acordo, vivo e sou feliz todos os dias. Foi você quem trouxe paz, motivação e esperança a minha vida. Me transformou em uma pessoa capaz de sonhar e de saber ser feliz. Me ensinou a amar. Me transformou em uma pessoa melhor. Muito mais feliz. Já não me lembro como era minha vida antes de você aparecer, já não me lembro se eu tinha uma vida! HOJE sim afirmo que eu tenho uma vida de verdade e motivo suficiente para ser feliz. Me sinto completa e posso seguir adiante porque Deus me deu você, que é a razão da minha vida!  
Esperamos pela Manu para jantarmos e a nossa sexta-feira terminou com um amontoado de cobertores e travesseiros na sala para assistirmos Meu Malvado Favorito 1 e 2 com direito a pipoca doce (isso porque eu fiz, pois a primeira tentativa da Manu virou pipoca queimada). Nem nos demos ao trabalho de ir para os nossos quartos depois, dormimos ali mesmo.


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Olá, amores!
Fiz de um tudo para terminar esse capítulo de ontem pra hoje porque durante a semana não consegui nem pegar no caderninho, e a próxima (ou as próximas) serão assim mesmo ou pior. Ainda vem o Enem aí... Enfim, foi por isso que fiz de tudo pra postar hoje. Não tenho previsão do próximo, mas por favor não fiquem pensando que eu desisti. A criatividade pode sumir, o tempo também pode ficar escasso, porém, não pretendo abandonar vocês, nem tudo isso aqui. A repercussão que a fic vem tendo é tão... louca que eu nem sei mais como agradecer mas vou dar o meu melhor por vocês sempre!   
Se cuidem, e até a próxima!

PS: JB's obrigado por terem aparecido na minha vida, amo vocês!  

domingo, 19 de outubro de 2014

Capítulo 59 - “Para todos os efeitos você está sendo traída”

Dedicado à Bruna  
Passei a madrugada inteira com o Júnior na cabeça, sei que não devia, mas não deu pra evitar. Só conseguia pensar que era aniversário dele e estávamos separados, mais uma vez. Sinceramente? Começava a cogitar que o que ele disse podia sim ser verdade “talvez não fosse pra gente dá certo mesmo”. Ok, podia ser a insônia me perturbando, mas eu realmente cheguei a cogitar isso. Não, Clara! Não! Deu certo, só esqueceram de avisar o prazo de validade. Claro, simples assim! Revirei os olhos para os meus próprios pensamentos, ás vezes eles conseguiam ser bem inconvenientes. Voltemos então para o assunto inicial: o Júnior tinha dito que não queria festa, tentei fazê-lo mudar de ideia por suspeitar que era por causa do estado do meu avô e no final convenci-o a organizar algo depois, talvez no final do mês, quando a correria do campeonato paulista abrandasse mais, por isso nossos planos para o seu dia eram: eu ir trabalhar, lógico, ele ir para o treino da tarde e quando nós chegássemos íamos passar o resto do dia com a Duda, isso bastava para qualquer dia ser especial. Só que as coisas mudaram, e me perguntei diversas vezes quais eram os novos planos dele, sem mim. Enfim... qual o único resultado de uma noite mal dormida? Mal humor atingindo níveis altíssimos, claro. Acordei, se é que posso dizer isso, tão irritada que quando o despertador do celular tocou, em vez de desativá-lo, ativei o modo soneca, ou seja, dez minutos depois a musiquinha irritante estava tocando de novo. 
Clara - Só pode ser brincadeira... - murmurei, tapando os ouvidos. Sério, contei de um à dez, respirei fundo, e desliguei o despertador. Bela maneira de começar o dia! Arrumei a cama, separei minha roupa, e entrei no banheiro. Tomei um banho morno e bem demorado pra tentar relaxar um pouco, saí, me enxuguei, escovei os dentes, passei hidratante no corpo, me vesti, fiz um outro curativo na minha mão, penteei o cabelo, calcei o salto, arrumei a minha bolsa, e peguei o celular. Fui pra cozinha e a Manu, claro, já estava lá, inclusive já tinha enchido a minha xícara com café e bastante leite, além de ter preparado um sanduíche de queijo branco pra mim também. Ao meu ver, muita comida para as primeiras horas da manhã, mas não fiz desfeita -
Manu - Para aguentar firme o dia de hoje - piscou -
Clara - Obrigada - sussurrei, mas evitei olhá-la ou ela ia saber que não dormi nada. Comemos em silêncio, palavras são desnecessárias em determinados momentos, nós sabíamos o que cada uma estava pensando e apenas isso bastava. Quando terminamos, nos despedimos do nosso pequeno filhote e saímos. Chamei o elevador, descemos na garagem, ela destravou as portas do seu carro e entramos. Dessa vez fomos ouvindo uma rádio qualquer, estava bem distraída, não prestei atenção em nada até chegarmos ao Complexo Modesto Roma, mais conhecido como Centro de Treinamento Rei Pelé. Ela parou o carro, saí, dei a volta e parei perto da sua janela - Não precisa vim me buscar hoje
Manu - E vai voltar como?
Clara - Vamos fazer assim: Se eu não consegui uma carona aqui, te ligo
Manu - Liga mesmo?
Clara - Ligo
Manu - Não vai de táxi?
Clara - Não - revirei os olhos e ela sorriu -
Manu - Ok, bom dia
Clara - Bom dia - dei um beijo no seu rosto e esperei que arrancasse pra poder entrar. Caio, Pedro e Gio já estavam na sala discutindo algo, mas pararam de falar assim que me viram e tentaram - mas só tentaram mesmo - agir naturalmente. Mentem tão mal que devem ter aprendido comigo. Não perguntei do que estavam falando e fiz como eles, agi naturalmente, acho que sei fazer isso muito bem. Tento, pelo menos. Assim que sentei pra começar meu trabalho, meu celular vibrou com uma mensagem da Rafa. Estranhei, por causa do horário, mas lembrei que alguém teria que levar a Duda pro colégio. 
    O MELHOR PRESENTE!!!!
    Ele chorou, eu chorei, minha mãe chorou, meu pai chorou e a Duda riu de nós!
    Tu é foda, te amo!!!!  
Bem, parece que minha filha acordou todo mundo. Sorri, é bem a cara dela. Mas o sorriso sumiu ao reler a mensagem... ele chorou? Tá, isso não quer dizer nada, certo? Certíssimo. Afinal, até eu me emocionei vendo o resultado final do vídeo. Nada anormal. Mesmo assim não sabia direito o que responder pra Rafa, não sabia mesmo, claro que estava muito envolvida naquele presente, foi uma ideia minha, mas ele não era mais meu, apenas da Duda. Preferi não responder nada, deixei o celular de lado e me concentrei no trabalho. O Piratinha subiu pra falar comigo sobre possíveis produções de mais tutoriais para a SantosTV porque o primeiro teve muitos comentários positivos, e me comprometi a fazer mais assim que minha mão melhorasse completamente. Na hora do almoço, desci com o pessoal mas o restaurante estava estranhamente vazio. A Gio pareceu ter lido meus pensamentos enquanto olhava ao redor e não via ninguém.
Gio - A Jú está organizando alguma coisa pra depois do treino
Clara - Que coisa?
Gio - Não sei direito, acho que é uma palestra. E nós temos que estar presentes
Clara - Pra quê? - ela encolheu os ombros, levando mais uma garfada à boca, e eu sabia que estava deixando-a encurralada, ela não sabia mais o que responder, então parei de perguntar. O que é que a Juliana estava aprontando e todo mundo sabia, menos eu? Boa pergunta! Comemos, e quando voltamos pra sala, nos reunimos na mesa grande do centro para falarmos da Santástico, terminamos passando mais tempo do que o esperado ali, o que foi ótimo porque quando o treino começou, não assisti de camarote, até pensei ter ouvido a risada da Duda em algum momento, mas não olhei para o campo em momento nenhum e preferi pensar que era coisa da minha cabeça. Já estávamos quase terminando o expediente quando chegou o aviso que tínhamos que ir para o auditório. Deixamos tudo como estava e descemos. Assim que entrei no amplo espaço que ainda não conhecia completamente, percebi o quanto estava cheio - jogadores, comissão técnica, comitê de gestão, diretoria - e um banner grande me chamou à atenção. Mas antes que eu pudesse falar alguma coisa com os meninos, ouvi a voz da Duda ecoar pelo ambiante -
Eduarda - Mãe! - procurei por ela, achando que estava ficando louca, mas consegui encontrá-la no colo do Júnior, na segunda fileira. Sorri e soltei um beijo pra ela. Ele também olhou pra trás, mas não esperei que acontecesse outro momento hipnótico e desviei rapidamente -
Clara - Gio? - virou pra mim - O tema dessa palestra vai ser o que eu estou pensando? - ela sorriu, mas não respondeu e logo em seguida a Jú surgiu com um microfone e duas mulheres muito bem vestidas, deviam ter a mesma idade que ela -
Juliana - Boa tarde, queridos e queridas - falou do seu jeito cômico, e nós rimos - Chamei todos vocês aqui porque o assunto hoje é sério, e pra isso vou contar com a ajuda de duas profissionais maravilhosas - olhou para uma das mulheres, a mais baixinha - Dra. Carmen é médica hematologista e trabalha na Santa Casa de São Paulo - Carmen sorriu e nos cumprimentou com um aceno cordial - E a minha xará, Juliana - apontou para a outra mulher - É membro da AMEO, Associação de Medula Óssea - ela nos cumprimentou da mesma maneira. Então era isso que estavam me escondendo? Nem fiz questão de esconder minha surpresa, a Gio olhou pra mim mas não esbocei nenhuma reação, não consegui, já estava completamente concentrada na madrinha e nas suas acompanhantes, curiosa e intrigada - Como todos nós já sabemos, a nossa relações públicas, Ana Clara, está passando por um momento difícil na sua vida pessoal e isso levantou uma causa séria: a Doação de Medula Óssea. O Santos Futebol Clube não poderia ficar de fora de uma campanha tão importante, e tomou a iniciativa de realizar essa palestra, para esclarecer algumas questões, tirar dúvidas... Quem sabe, ao sair daqui, quem ainda não doou, possa mudar de ideia? - piscou e sorriu, terminei sorrindo também - Para não ficar algo muito massacrante, as meninas trouxeram uma caixa com as perguntas mais frequentes a respeito da doação e eu vou sorteando algumas - a Jú pediu para que elas sentassem, entregou-as dois microfones, e sentou também, entre elas ficou um banquinho com a tal caixa em cima - Vamos começar! - mexeu um pouco na caixa e tirou um papelzinho de lá - Nos outros transplantes, o receptor rejeita o órgão que não é totalmente compatível com seu organismo. Nos transplantes de medula óssea, o processo de rejeição tem características opostas. Você poderia explicar o que acontece quando o paciente recebe uma medula que não é inteiramente compatível?
Carmen - Toda a nossa resposta imune vem da medula óssea. Como no transplante de medula o paciente recebe um novo sistema imune, os glóbulos brancos do doador reconhecem como estranho o organismo do receptor e passam a agredi-lo. É o que se chama de doença enxerto versus hospedeiro, responsável pela maior causa de mortalidade nesse tipo de transplante, e que tem enorme impacto na sobrevida dos pacientes. Por isso, é indispensável que a compatibilidade entre doador e receptor seja absoluta para minimizar, o máximo possível, os danos que essa doença pode provocar
Juliana - Nesse sentido, o transplante de medula óssea é completamente diferente dos outros transplantes. Não é o receptor que rejeita o transplante. É a medula do doador que rejeita o hospedeiro. Na clínica, quais são os quadros associados a essa reação adversa?
Carmen - A agressão se manifesta em lesões de pele, de pulmão, de fígado, no trato gastrintestinal... enfim todo o organismo pode ser agredido. Além disso, pode ocorrer um retardo na recuperação do paciente e na produção dos glóbulos brancos responsáveis pela defesa do organismo - depois de tirar a sua dúvida, a Jú assentiu e pegou outro papelzinho -
Juliana - O que precisa fazer um doador voluntário de medula óssea?
Carmen - Primeiro, o doador voluntário precisa preencher um cadastro e colher uma amostra de sangue para um teste de compatibilidade. O resultado obtido por meio de um exame de laboratório bastante comum é colocado num banco de dados do Ministério da Saúde, o REDOME, no Rio de Janeiro. Sempre que houver um paciente que necessite de transplante e não tenha encontrado doador na família, os médicos podem consultar esse registro. Uma vez localizada uma pessoa compatível, ela será convocada para realizar novos exames de sangue e para uma avaliação clínica a fim de saber se pode de fato doar a medula
Juliana - Vamos supor que eu necessite de um transplante de medula óssea. Você testa as pessoas de minha família e não encontra nenhum doador compatível. Qual a minha chance de conseguir uma medula compatível na população como um todo?
Carmen - Depende de sua herança genética. Se for um tipo mais frequente, sua chance é uma em dez mil. Se for raro, será uma em um milhão. De qualquer modo, é sempre difícil encontrar um doador compatível - fiquei um pouco chocada, e outro papelzinho foi sorteado -
Juliana - O sangue dos doadores voluntários é colhido no Brasil inteiro?
Carmen - Sim, o sangue é colhido nos hemocentros de diversos estados
Juliana - Agora uma para você, xará - olhou-a e pegou o papelzinho - Vamos levantar uma hipótese. Eu doo uma amostra de sangue e meu nome vai para esse cadastro que a Carmen acabou de falar. Passam-se dois anos e alguém me telefona dizendo: “Estamos precisando de sua medula, porque ela é compatível com uma pessoa que precisa de transplante no Pará”. Qual é o procedimento burocrático daí em diante? Eu precisaria ir pra lá?
Juliana Serro - Não, você doaria sua medula no centro de transplantes mais próximo de sua casa. Se morasse em São Paulo, num dos centros de transplante registrados nessa cidade. O doador não precisa locomover-se até o local do transplante. É a medula que vai congelada num saco como se fosse sangue
Juliana - Chegando ao hemocentro mais próximo, qual é o procedimento seguinte?
Juliana Serro - Numa primeira etapa, é feita uma avaliação clínica do doador para saber se está em condições de doar a medula sem correr nenhum risco e os exames de sangue são repetidos
Juliana - Ok - colocou a mão na caixinha de novo - Como os potenciais doadores se comportam ao saber que basta tirar uma pequena amostra de sangue e preencher um cadastro para fazer parte do REDOME?
Carmen - O desconhecimento sobre a doação de medula óssea é enorme. Quando as pessoas são informadas de como é fácil ser doador voluntário ficam surpresas. Não podiam imaginar que doar a medula óssea fosse simples nem que pudesse ser feita em vida. Não sabiam que ela se reconstitui, e se regenera em pouco tempo. É por isso que nesse campo, a falta de informação é o principal problema
Juliana - E que tipo de abordagem vocês fazem para motivar a população para doar a medula óssea, uma vez que o ideal seria que todas as pessoas entre 18 e 55 anos fossem doadoras?
Juliana Serro - Em geral, as pessoas só se sensibilizam quando veem o desespero e o sofrimento de uma família que procura um doador para alguém muito próximo. Por isso, temos feito um trabalho com doentes e familiares que passaram por essa experiência na vida. Formamos com eles um grupo que divulga material informativo, distribui folhetos, faz palestras, e visita até faculdades para conseguir doadores voluntários. Se soubermos que numa cidade alguém precisa de transplante e não encontra doador, vamos para lá e iniciamos uma campanha de esclarecimento. Assim, além de informar corretamente a população, conseguimos registrar muita gente que se solidariza conosco e se engaja na campanha
Juliana - Quando vocês tentam convencer as pessoas a se cadastrarem como doadoras de medula óssea, quais são as dúvidas mais frequentes?
Juliana Serro - As pessoas costumam confundir medula óssea com medula espinhal e temem ficar paraplégicas caso façam uma doação da medula óssea. Outra dúvida é se a medula óssea pode ser doada mais de uma vez. Explicamos que, como a medula se recompõe após a doação, a pessoa pode doá-la tantas vezes quantas sejam necessárias, o que não é comum tendo em vista a dificuldade de servir como doadora. No entanto, se doar pelo REDOME e, mais tarde, descobrir que um parente seu precisa de sua medula, ela pode doar novamente sem nenhum problema
Juliana - E já aconteceu de alguém ter se cadastrado e desistido na hora em que foi convocado para doar a medula?
Juliana Serro - Às vezes, acontece. Por isso nosso esforço é para que as pessoas se inscrevam sabendo o que estão fazendo e tendo consciência da importância desse gesto. Como demora em média três meses o processo de busca até chegar ao doador e coletar a medula, a desistência pode representar a perda de um tempo que o paciente não mais dispõe na vida - foram surgindo perguntas e mais perguntas, terminei descobrindo coisas que realmente ainda não sabia -
Carmen - É importante deixar claro que a doação de medula é desprovida de qualquer complicação e que podemos doá-la sem que nos faça nenhuma falta
Juliana Serro - É isso. Doar a medula óssea é um procedimento simples que pode salvar vidas e como já dissemos, não traz nenhum risco para o doador, pois em pouco tempo sua medula estará completamente regenerada, pensem nisso - finalizou. A Gio me abraçou de lado, porque sim, fiquei emocionada demais, aquele assunto mexeria comigo para sempre. Nos levantamos para aplaudi-las, e depois de desejar uma boa tarde a todos, elas se retiraram com a Jú. As pessoas começaram a sair do auditório, seguimos o exemplo delas e voltamos pra nossa sala. Terminamos as anotações que tínhamos deixado pelo meio, depois os meninos se despediram de nós e foram embora, eu e a Gio continuamos arrumando nossas coisas também, alheias as duas pessoas que tinham acabado de entrar na nossa sala -
Neymar - Clara? - levantei o olhar imediatamente e o vi com a Duda. Pisquei algumas vezes pra ter certeza do que estava vendo e não consegui evitar a aceleração dos meus batimentos cardíacos, a sua presença ali era algo inesperado demais. Fiquei tensa, nervosa e me perguntei se ele também sentia essas coisas ou se a minha presença já era complemente indiferente. Seu rosto, como sempre desde que terminou tudo, era um código que eu não sabia desvendar, isso me irritava um pouco. A Duda se aproximou de mim, girei a cadeira pra ela poder me abraçar e dei um beijo no seu rosto -
Eduarda - Fiz tudo direitinho, mãe. O papai adorou o presente - falou animada, em alto e bom som e eu não soube onde enfiar a minha cara, mais vermelha que um tomate maduro. Até tentei sorrir, mas acho que nem isso consegui. Percebi que o Júnior sorria olhando pra ela. Por quê? Desnecessário! -
Gio - Oi, Dudoca - ouvir a voz da Gio me fez lembrar que ela ainda estava na sala também, menos mal. Minha pequena foi abraçá-la, e eu gesticulei disfarçadamente "não sai daqui", ela assentiu. Levantei finalmente e encarei quem ainda estava de frente para minha mesa. Ele me analisava atentamente, parecia até distraído. Dei uma olhada em mim mesma, baixei um pouco mais a minha saia e percebi que desviou os olhos de mim rapidamente. Juro por tudo, e o pior é que eu tive vontade de rir. Pelo amor de Deus, por que certas coisas só acontecem comigo? -
Clara - Quer falar comigo? - (eu não ri, só pra constar) -
Neymar - Obrigado - franzi a testa -
Clara - Não entendi
Neymar - Obrigado pelo presente maravilhoso - tentei esconder a minha surpresa, mas a minha demora em responder deve ter deixado isso muito obvio -
Clara - Foi um presente da Eduarda. Na verdade foi um presente de todos que participaram, eu só...
Neymar - Eu sei o que você fez, minha mãe me disse. Obrigado de qualquer forma - interrompeu-me e me deixou sem saber o que falar de novo -
Clara - De nada - sussurrei mais do que constrangida. Isso não devia estar acontecendo! -
Neymar - Vamos, filha?
Eduarda - Vamos - deu um beijo na Gio, e nesse momento o Júnior também a cumprimentou com um aceno e um sorriso - Você não pode ir com a gente mesmo, mãe? - pedinchou e tive vontade de contar logo tudo pra ela, mas ali não era o lugar certo, a hora da nossa conversa ia chegar -
Clara - Não amor, eu não posso
Eduarda - Poxa vida!
Neymar - Duda! 
Eduarda - Tudo bem - fez beicinho, deu um beijo no meu rosto, voltou pra perto do Júnior e segurou na mão dele. Eles já estavam no corredor quando (acho que a minha razão estava tirando um cochilo, trabalha demais, coitada) chamei-o novamente. Fechei os olhos, quase não acreditando na burrada que estava prestes a fazer e quando voltei a abri-los ele já estava na minha frente de novo -
Clara - Feliz aniversário! - falei casualmente e evitei o contato visual -
Neymar - Obrigado, de novo - queria ver o seu rosto, ver a sua reação, mas não fiz isso e afundei na minha cadeira quando ouvi os passos deles no corredor novamente, no mesmo instante a Gio apareceu ao meu lado -
Gio - Ela ainda não sabe de nada? - apenas balancei a cabeça, negando - Está tudo bem?
Clara - Está. Posso te pedir uma carona?
Gio - Claro, vamos - respirei fundo antes de levantar e terminar de arrumar minhas coisas. Me desconcentro totalmente toda vez que nos encontramos, fico fora do eixo por um tempo, tentando arrumar a bagunça que acontece dentro de mim, é uma coisa de louco! Desci com a Gio pro estacionamento, e nem vimos a Jú, queria agradecê-la por ter pensando em mim quando resolveu fazer a palestra mas ia ter que fazer isso depois. Não encontrei com mais ninguém também, se é que me entendem, porém, vi o seu carro no estacionamento. A Gio destravou as portas do seu lindo honda vermelho, (segundo ela, o seu xodó) entramos e durante o caminho até o apê não falamos sobre o ocorrido na nossa sala, trabalho foi o tema principal da nossa conversa. Ainda bem que já nos conhecemos o suficiente para saber quando falar e o que falar. Quando chegamos em frente ao meu prédio, agradeci, nos despedimos, saí do carro, o porteiro destrancou o portão pra mim e subi. Troquei de roupa pra ir malhar com a Manu e já era noite quando terminamos nossa série de exercícios e voltamos pro apê. Nosso jantar foi uma sopa bem levinha que fizemos juntas, e depois de responder alguns e-mails, decidi ir dormir. Meu bom humor não deu as caras durante o dia todo, eu sabia o motivo e isso me entristecia cada vez que lembrava, só me restava dormir mesmo. Deitei na minha cama com o Luck de um lado e o urso do outro, peguei o celular e fiquei mexendo nele, esperando o sono chegar. 
 clarabarcelar_: “Guardam no olhar e na pele as marcas da vida. Guardam em si uma infinidade de conhecimentos que nos transmitem, é com eles que aprendemos. Aprenderam a lidar com as feridas de uma forma admirável. Dão-se intensamente todos os dias… Devolver-lhes o amor é o mínimo que podemos fazer…”  
Maldita hora que postei a foto! Por que não pensei antes? Meus queridos seguidores começaram a me cobrar uma foto desejando feliz aniversário para aquele que, pra eles, continuava sendo o meu namorado. Será que iam começar a especular? Claro que sim, especulam sempre, até quando não há motivos. Revirei os olhos, mandei uma mensagem desejando boa noite pra minha mãe, apenas porque não nos falamos durante o dia e desliguei o celular. Abracei o urso e peguei no sono rapidinho. Incrível, não?!
    **** 
 A quinta-feira foi um tédio, passei o dia todo em casa e combinei com a minha vó de irmos à Florianópolis no sábado, meu pai comprou as nossas passagens. Liguei pro Tio Neymar para desejar feliz aniversário pra ele, e o meu bom humor voltou apenas quando a minha pequena chegou com a Rafa (ela não ficou muito, pois o Big Black estava esperando-a no carro). Eu tive que ouvir muito pacientemente, com detalhes, como é que foram os aniversários; resumidamente, não houve nenhuma festa, mas bolos sim, e ela contou alegremente que ajudou ambos a soprarem as velhinhas. Não me importei de ficar ouvindo ela falar do Júnior durante um bom tempo, afinal, foi a sua presença que fez do meu dia muito melhor. Seu sorriso ao falar dele e do vovô recompensava qualquer coisa. 
 A sexta-feira foi mais um dia puxado de trabalho, a única novidade foi que os pontos da minha mão saíram sozinhos, o que me deixou muito aliviada, (achei que isso não ia acontecer já que deixei de tomar o remédio) e fiz um pequeno curativo usando a pomada para cicatrizar mais rápido pra não precisar ficar fazendo um todos os dias. 
 No sábado, acordei mais cedo que a Manu e a Duda, - infelizmente perderia a primeira apresentação do ano da minha pequena no balé, mas expliquei os motivos de não poder ir, e sabia que com o Júnior presente ela não ficaria insegura (claro que não dei nenhuma satisfação pra ele, só avisei que não poderia ir e ele confirmou a sua presença como um bom pai que é). Então, tinha certeza que minha pequena arrasaria, mais uma vez. Arrumei minha cama, separei um vestido longo e uma rasteirinha, arrumei minha bolsa com todos os documentos necessários para a viagem e entrei no banheiro. Tomei um banho frio, escovei os dentes, passei hidratante no corpo, e me vesti. Deixei o cabelo solto mesmo, me perfumei, peguei meu óculos, a bolsa, o celular e saí do quarto. Pensei em dar um beijinho na minha pequena, mas fiquei com medo de acordá-la tão antes da hora, e me contentei apenas em olhá-la. A Manu ainda dormia também, estava cedo demais pra elas, a apresentação estava prevista para às 09h, já o voo estava marcado para às 07h. Não tinha porque acordá-las se elas já sabiam que eu ia sair cedo. Coloquei ração pro Luck, peguei minhas chaves e saí, chamei o elevador, desci, dei bom dia ao porteiro e esperei durante uns dez minutos por um táxi, o que não foi muito tempo, levando em conta o horário. Passei o endereço dos meus pais pro motorista, e com o trânsito livre conseguimos chegar lá bem rapidinho, ele estacionou em frente ao prédio, pedi para esperar um pouquinho, entrei e subi. Minha mãe também já estava acordada, mas não conversamos muito, minha vó não gosta de atrasos. Nos despedimos dela e descemos, entramos no táxi e seguimos para o Aeroporto de Congonhas. 
Glória - Como você está, amor? - olhou pra mim e eu sorri. Ela estava linda, com um vestido preto e branco e o cabelo curtinho bem penteado -
Clara - Levando, vó. Se tem uma coisa que já aprendi é que a vida segue e é cheia de chegadas e partidas. Ela não avisa quando alguém tem que ir, e nós temos que aprender a lidar com isso
Glória - Isso é verdade - concordou balançando a cabeça - Você se incomoda se eu falar dele? - perguntou receosa -
Clara - Depende - riu -
Glória - Só quero saber como está a convivência entre vocês, sei que têm se falado bastante
Clara - Não dá pra fugir disso, mas a convivência não é a melhor do mundo. Só falamos mesmo sobre a Duda
Glória - Só?
Clara - Só... - desviei o olhar, mas já era tarde demais -
Glória - Será que você tem alguma coisa pra me contar?
Clara - Por que acha isso?
Glória - Por que parou de olhar pra mim?
Clara - Você é terrível, vó - gargalhou -
Glória - Fala logo
Clara - Ele me agradeceu pelo presente
Glória - Aquele do vídeo?
Clara - Sim. E eu desejei feliz aniversário pra ele também - ergueu uma sobrancelha, surpresa -
Glória - E ele?
Clara - Agradeceu de novo
Glória - Interessante
Clara - Nem vou perguntar porquê - riu, e dessa vez eu a acompanhei - E o Seu Marcos, como está se saindo em casa?
Glória - Melhor do que esperávamos, mas ainda resmunga pra tomar os remédios, diz que são drogas e... não deixa de ter razão - suspirei. Se eu pudesse estar no lugar dele... -
Clara - Não vejo a hora de receber a notícia de que finalmente encontraram um doador pra ele - ela pegou a minha mão (a direita mesmo) e fez um carinho na parte superior dela -
Glória - Deus já preparou o tempo certo para cada coisa, basta entregar nas mãos Dele
Clara - Eu já entreguei - ela sorriu com os olhos lacrimejando e eu passei a mão no seu rosto. Encostei a cabeça no seu ombro e ficamos assim até chegarmos ao Aeroporto. Ela não me deixou pagar o táxi, alegando que eu já estava fazendo muito acompanhando-a. Dona Glória não existe! Fizemos o check in e sentamos para esperar a chamada do nosso voo, que por sinal, parecia estar atrasado. Minha avó se entreteve com o seu livro de bolso (nisso somos iguais, qualquer lugar é lugar pra ler) e eu ia pegar uma revista, mas desisti e preferi usar meu celular como distração mesmo. Mandei uma mensagem pro Di, depois entrei no instagram. 
 clarabarcelar_: “Não deixe que roubem sua paz, que matem seus sonhos ou que destruam o que há de bom em seu coração. Faça da felicidade uma rotina, distribua sorrisos para os desconhecidos, leia mais livros, dance na chuva mesmo correndo o risco de pegar um resfriado, ajude quem está pobre de ajuda, seja honesto e acima de tudo, humilde com o próximo. Aprenda a si amar, faça a si mesmo feliz, sorria sem precisar esconder as dores, chore de felicidade, cante sua música preferida o mais alto que puder, ame sem medo de se machucar, perdoe quem mais te feriu, admita que é falho, dê segundas chances. Vai de encontro aos seus sonhos, não espere pelo amanhã para realizar sua lista de desejos, afinal, pode ser que o amanhã não chegue. 
Li uns comentários meio estranhos, não entendi muito bem o que eles queriam dizer, será que ainda era por eu não ter postado nada pro Júnior no dia do seu aniversário? Ia procurar ler mais coisas quando a voz de uma mulher soou nos alto falantes anunciando o voo para Florianópolis. Mandei um áudio rápido pelo whatsapp pra Manu, desejando boa sorte pra minha boneca; sabia que a Manu mostraria pra ela. Queria estar pertinho, mesmo estando longe. Depois desliguei o celular e embarquei com minha avó, não dormimos e conversamos bastante. Quando aterrizamos no ‎Aeroporto Hercílio Luz, como não tínhamos nenhuma bagagem, saímos logo da sala de desembarque e para nossa grande (e boa) surpresa (mais da minha vó do que minha), o Diego estava ali, com um sorriso gigante que ficou ainda maior quando nos encontrou. 
Clara - Você é louco? Que horas chegou aqui? - quando mandei a mensagem, não disse a hora que chegaríamos, então ele é definitivamente louco, mas apenas gargalhou e me abraçou forte. Ele cresceu ainda mais, eu diminui ou era só a saudade querendo brincar comigo? O fato é que me senti pequenininha, mas era tão bom saber que a distância até pode ser grande mas sempre vou ter o meu amigo quando precisar. Seu braço é tão reconfortante quanto o do Gil, deve ser por isso que amo os dois da mesma forma. Depois de me soltar, ele abraçou minha vó também, ela sempre gostou dele -
Diego - Cheguei agora a pouco - sorriu - Só vieram vocês duas?
Clara - Sim, e você nem vai acreditar o que nos trouxe aqui hoje
Diego - O que?
Clara - Falo eu ou fala você, vó? - ela riu -
Glória - Vamos ficar em Santos agora
Diego - Tipo, morar lá? - nós duas assentimos e rimos, a cara dele era impagável - Como você conseguiu isso? - encolhi os ombros, balançando-os - Preciso saber o que tem em Santos que prende todo mundo lá, sério - rimos - Agora é que vou ser esquecido de vez - começamos a caminhar para o estacionamento -
Clara - Não fala besteira. Minha vó disse que aqui vai ser a nossa casa de férias - ele riu - Então, é claro que vamos vim sempre aqui
Glória - É isso mesmo. E é bom que você vá mais vezes a Santos, quem sabe não fica preso por lá também
Diego - Acho difícil - rimos - Mas prometo que vou tentar ir lá mais vezes sim - chegamos ao local onde o seu carro estava estacionado e eu e minha vó nem tivemos como recusar a carona que ele nos ofereceu, pelo menos aproveitávamos o pouco tempo que tínhamos. Durante o trajeto, ele quis saber mais notícias do meu avô, minha vó falou qual era o estado atual dele e o Di contou que também se cadastrou e colheu uma amostra de sangue no Hemosc (Hemocentro de Santa Catarina) mas não foi mais chamado, ou seja, nada de compatibilidade. Eu não sabia disso, ele não tinha me contado nada, mas fiquei feliz em saber. Ok, não ajudou o meu avô mas podia ajudar outra pessoa futuramente. Quando chegamos, ele estacionou no meio-fio mesmo, saímos do carro, minha vó destrancou o portão da frente e entramos. Abriu a porta e logo aquele cheirinho de lar nos invadiu. Que saudade daquela casa! Tudo continuava exatamente igual, nem tinha porque mudar. Fomos direto pro quarto deles pegar as três malas grandes que só foram usadas por eles uma vez, e começamos a enchê-las com tudo que minha vó achava importante, das roupas que tinham ficado dentro do guarda-roupa quando ela e meu avô foram pra Santos, até porta-retratos, enfeites de todos os tipos e cômodos, e claro, a sua mini máquina de costura portátil não podia faltar. Apenas uma mala ficou com roupas e sapatos, as outras duas ficaram cheias apenas de objetos. Depois que terminamos, ela lembrou das suas plantinhas e quase chorou só de pensar em abandoná-las. Algumas eu percebi que podiam ser transportadas como bagagem de mão ou despachadas, isso já a deixou mais alegrinha e rapidamente veio a ideia de dar as maiores as suas amigas-vizinhas. Seria uma boa, pelo menos alguém cuidaria delas. Minha vó nem esperou mais nada e com a ajuda do Di para carregar as mais pesadas, saiu distribuindo plantas as casas mais próximas, fiquei na porta de casa rindo com as caras surpresas das pessoas por ganhar a planta, mas depois os semblantes esmoreciam e esse devia ser o momento que minha vó contava que não moraria mais ali. Não tem como não gostar dos meus coroas e sentir falta deles, eu sempre soube. Ouvi ao longe o toque do meu celular e lembrei que tinha deixado-o no quarto, junto com a minha bolsa e as malas. Subi correndo, peguei-o e vi que era a Manu. 
 - início -
Manu - Até que enfim!
Clara - Desculpa, estava lá embaixo. Como foi a apresentação da minha princesa?
Manu - Foi linda, gravei pra você ver depois, e ela adorou o áudio do whatsapp
Clara - Obrigada - sorri, e ela ficou em silêncio. Achei até que a ligação tinha caído - Manu?
Manu - Preciso te falar uma coisa - sua voz estava tensa, só não percebi isso antes porque estava mais interessada em falar da Duda - Aliás, foi por isso que te liguei
Clara - Agora?
Manu - É, e é importante
Clara - Nossa, o que foi? - sentei na pontinha da cama -
Manu - De um jeito ou de outro você vai ficar sabendo. Prefiro que seja eu a te contar
Clara - Contar o que? O que está acontecendo? - claro que comecei a pensar em um monte de coisas, e nada era bom -
Manu - O Júnior foi visto no aeroporto com a Bruna ontem à noite - falou rápido demais e eu julguei ter ouvido mal, muito mal -
Clara - Como é?
Manu - É isso, desculpa. Daria tudo pra não está te dando essa notícia, mas já saiu em vários sites agora de manhã, você podia ficar sabendo de uma forma pior - fiquei muda, por pouco não deixei o celular cair no chão e se espatifar todinho - Clara? Ainda está aí?
Clara - Sim - respondi tão baixo que acho que ela não escutou - Sim, estou aqui
Manu - Infelizmente, você também está envolvida em algumas matérias
Clara - O quê?
Manu - Eles não sabem que vocês terminaram, para todos os efeitos, você... - parou de falar e ficou durante alguns segundos procurando as palavras certas para continuar, eu não queria mais ouvir mas também não consegui impedi-la - Para todos os efeitos você está sendo traída
Clara - Não pode ser... - sussurrei segurando o choro - Não pode ser! - tipo, gritei mesmo -
Manu - Fica calma
Clara - Como posso ficar calma?
Manu - Não sei, mas fica - não queria chorar, estava morrendo de raiva -
Clara - Quer saber? Não me importo com o que vão falar de mim, já falam até sem motivo. Não faz diferença, mas e se o meu lado profissional for afetado? Eu nem sei o que faço
Manu - Você não faz nada. Fica calma, tá? Eles só apareceram juntos, e os sites adoram essas coisas, você sabe
Clara - Eu já não sei mais de nada, queria poder sumir desse planeta, só isso
Manu - Não fala isso
Clara - Me manda um site
Manu - Tem certeza que quer ver?
Clara - Não, mas pode mandar
Manu - Clara...
Clara - Manda, Manu! Acho que se eu não ver com meus próprios olhos, não vou consegui acreditar no que ouvi
Manu - Tá, vou mandar
Clara - Obrigada por ter ligado. A Duda está com você?
Manu - Sim, brincando no quarto dela. Queria ficar com o Júnior, mas acho que ele tem que ir pra Mogi por causa de um jogo amanhã
Clara - Ok, obrigada mesmo. Beijo - desliguei antes que ela dissesse mais alguma coisa, mas foi sem querer.. ou não. Sei lá. Será que não tinha mais controle dos meus próprios atos?
 - término -
Esperei impacientemente pela mensagem dela, até que chegou. Abri o link, e o título era bem sugestivo "Deu ruim? Neymar é visto no aeroporto com a ex, Bruna Marquezine!" Fiquei chocada com a primeira imagem; era uma montagem, onde o Júnior estava entre mim e a atriz, como se fôssemos um triangulo amoroso. Que repulsa! Mas as fotos seguintes eram muito piores, me deixaram muito mais chocadas. Eles estavam juntos no Aeroporto de Congonhas sim, mas... precisava ser quase de mãos dadas? Digo quase, porque ela estava segurando a mão dele e com um sorriso tão gigante que fiquei enojada. Escandalizada o suficiente, não quis ler nada, saí do site e joguei o celular na cama. Levei as mãos ao rosto, frustrada e desesperada com a minha realidade. Nem sabia o que estava sentindo, era um misto de raiva (muita raiva), nojo e tristeza. Não conseguia evitar a maldita tristeza! Então esse foi o motivo dos comentários que achei estranho na minha foto mais cedo, não percebi nada. Será que me fotografaram no aeroporto hoje também? O que mais faltava acontecer na minha vida? Já não estava bagunçada o suficiente? Claro que não, afinal, a frase que foi feita para mim é aquela que diz: Nada é tão ruim que não possa piorar. Ouvi vozes, enxuguei as lágrimas rapidamente, coloquei o celular na bolsa e desci tentando não demonstrar como eu realmente estava, acho que já sou expert nisso. Afinal, a gente nunca sabe a força que tem até que a única alternativa é ser forte, certo? Quando cheguei na sala, eles estavam pensando no que fazer com os alimentos, produtos de limpeza e higiene. Dei a ideia de doar também, como fez com as plantinhas, só que para uma instituição ou algo parecido, seria mais útil. Minha vó adorou a ideia, esvaziamos a dispensa em tempo recorde e o Diego (nosso motorista do dia, segundo ele mesmo) nos levou até o Cantinho dos Idosos, uma instituição de caridade e apoio ao desamparado. Um lugar simples mas cheio de alegria, e apesar de não ser tão longe, eu não conhecia. A doação foi muito bem-vinda e comemorada. Quando saímos de lá, fomos almoçar em um restaurante e no fim, minha avó disse que ia se despedir de algumas pessoas. 
Clara - Por que ficou tão calado? Não vamos te abandonar não, relaxa - riu um pouco mas voltou a ficar sério muito rápido -
Diego - É sério isso que estão dizendo em vários sites? - fiquei pasma, ele já sabia? -
Clara - Não sabia que você gosta de ler essas coisas - tentei desconversar e dei um sorriso amarelo -
Diego - Não gosto, mas as pessoas comentam. Você já morou aqui, elas te conhecem - as pessoas estavam comentando? oh God! - É verdade? - insistiu -
Clara - Nós não estamos mais juntos, ele pode sair e fazer o que quiser com quem quiser
Diego - Não estão mais juntos?
Clara - Não
Diego - Por causa disso?
Clara - Não... eu acho que não
Diego - Como assim?
Clara - Terminamos no sábado passado
Diego - A uma semana? E ele já saiu com essa outra? - pareceu um pouco indignado -
Clara - Pelo menos terminou antes... - encolhi os ombros, tentando desvalorizar o que tanto doía -
Diego - Você não acha que... Ah, esquece
Clara - Não, pode falar
Diego - Melhor não, deixa quieto
Clara - Fala, Diego
Diego - Você não acha que ele já estava com ela antes de terminar?
Clara - Não - respondi tão rapidamente que até eu mesma me espantei, ele ficou abismado -
Diego - É sério?
Clara - É sério
Diego - Mas ele nem esperou nada para aparecer com essa garota. Você realmente acha que ele foi fiel?
Clara - Sim - preferi continuar com as respostas curtas, afinal, nem eu entendia o motivo de achar aquilo -
Diego - Se todas as exs fossem como você, eu seria amigo das minhas - gargalhou - Você é muito boa, Clara
Clara - Não sou. Só sigo meu coração na maior parte do tempo, o que pode não ser muito legal porque na maior parte do tempo ele também é meio bobo, sabe? - riu e eu sorri. Graças aos céus, ele mudou de assunto e perguntou sobre a Duda, então a conversa foi fluindo mais agradavelmente. Como eu já esperava, Dona Glória só apareceu novamente perto das 16h, nosso voo estava marcado para às 17h30. Voltamos pra casa, pegamos as malas e as plantinhas, e colocamos tudo dentro do carro do Diego, já que ele insistiu em nos levar. Antes de trancar tudo, minha vó olhou para cada cantinho da casa com um carinho enorme, chegou a se emocionar mas no final, sorriu. Fechou tudo, e ficou por um tempo observando a fachada - Tem certeza que quer isso? - abracei-a de lado -
Glória - Certeza absoluta, nosso lugar agora é ao lado de vocês - olhou pra mim e eu sorri - E essa casa agora é sua - arquejei. O quê? Meu queixo quase foi parar no chão -
Clara - Vó...
Glória - Não precisa falar nada - interrompeu-me - Apenas saiba que ela é sua, ok? - sem ter muita escolha, assenti. Ela me deu um beijo na bochecha, sorriu novamente e entrou no carro. Entrei também, mesmo que meio atordoada ainda, e fiquei área durante todo o caminho até o aeroporto. Sério, não ouvi nada que minha vó e o Diego conversaram. Meus pensamentos estavam mais desorganizados do que meu guarda-roupa depois do sábado passado. Uma bagunça sem tamanho! Quando chegamos, acredite, eu olhei para todos os lados a procura de algum fotógrafo mas não vi nada que fosse suspeito. Será que estava começando a ficar paranoica? Suspirei derrotada, a resposta só podia ser um sim gritante. Enfrentamos uma fila enorme para fazer o check in mas a parte boa disso é que não precisamos esperar muito para ouvir a primeira chamada para o nosso voo -
Glória - Obrigada por ter passado o dia com a gente, Di. Não foi a melhor maneira de matarmos as saudades, mas.. - ambos riram -
Diego - Eu adorei - sorriu e abraçou-a, depois olhou pra mim - Seu sorriso é muito lindo para estar assim, tão triste
Clara - É o único que eu ainda consigo distribuir por aí. Mas posso tentar mudar isso se você disser que vai nos visitar em breve
Diego - Sendo assim... quando menos esperar, estarei batendo na sua porta
Clara - Vou estar esperando - abracei-o e dei um beijo no seu rosto - Diz pra Paula e pro João que da próxima vez eu vou vê-los, hoje foi muito corrido
Diego - Pode deixar. Se cuida
Clara - Você também - pisquei e sorri. Minha vó acenou e nós seguimos para o portão de embarque -
Glória - Ele ainda gosta de você - falou baixinho enquanto caminhávamos lado a lado -
Clara - Eu sei
Glória - É um bom menino
Clara - Eu sei
Glória - Espero que encontre alguém que mereça todo esse amor que tem no coração
Clara - Eu também - entregamos os nossos cartões de embarque, passamos pela inspeção das bagagens de mão e pelo detector de metais, para depois ter que dar um tchau temporário a Floripa. Durante o voo, as imagens daquele site nojento surgiram na minha mente de novo e chorei baixinho enquanto minha vó tirava um cochilo. 
    **** 
Chegamos em São Paulo às 18h50, exaustas mas com a sensação de dever cumprido, afinal, era mais do que oficial: meus coroas iam morar pertinho de mim! Acho que em outras circunstâncias, daria pulinhos de alegria no aeroporto, mas... Um segurança nos ajudou a tirar as malas/bagagens da esteira e colocá-las em um carrinho, agradeci e minha vó tratou logo de ver se suas plantinhas estavam em perfeito estado (ainda bem que estavam). Fomos para o estacionamento, pegamos um táxi e informamos ao motorista o nosso destino, e enfrentamos um engarrafamento terrível por conta de algumas obras nas laterais de umas pistas. Quando chegamos em frente ao prédio, liguei pra minha mãe e ela pediu pro meu pai descer e nos ajudar a subir com tudo de uma vez só. Seria mais rápido e prático. Foi o que fizemos. A sala rapidamente ficou pequena pra tanta coisa, mas eu não quis ficar muito, então depois de ajudá-los a desarrumar as malas e passar alguns minutinhos com meu avô, recusei o convite da minha mãe pra jantar. Apesar de estar tão feliz com a novidade quanto eles, também estava cansada demais (e não só fisicamente), queria apenas a minha casa, meu quarto, minha cama e minha filha. Se eles soubessem da última novidade em que eu também estava envolvida... não gostava nem de pensar, mas não contei nada, me despedi e creio que não deixei que percebessem como realmente estava. Quero dizer, se perceberam, me pouparam, pois não fizeram nenhum comentário. Desci, peguei mais um táxi, e no caminho respondi uma mensagem do Diego avisando que já tínhamos chegado. Respirei de alívio quando me vi em frente ao meu prédio, mais alguns minutos e estaria no conforto do meu lar, sem mais máscaras. Paguei ao motorista, saí do carro, o porteiro destravou o portão pra mim, e subi. Peguei meu chaveiro na bolsa, abri a porta e fui recepcionada pelo Luck, alegre como sempre. A Manu e a Duda estavam no sofá, e minha pequena levantou na mesma hora pra poder me abraçar, tive que me segurar pra não começar a chorar. Sei lá, com tanta coisa acontecendo só sentia vontade de chorar o tempo todo mesmo, independente do motivo. Eu sei, seria cômico se não fosse trágico, mas não conseguia evitar. Enfim, matei as saudades das minhas meninas, tive que contar como foi a viagem, e claro, assisti ao vídeo da minha pequena bailarina. O tema da apresentação foi "Nossa Natureza", e a Duda fez o papel de uma flor. Coisa mais linda! Senti tanto orgulho ao ver todo mundo aplaudindo que não resisti e a enchi de beijos até ouvir a sua gargalhada gostosa. Como senti saudade disso durante o dia! Ainda bem que já estava em casa. A Manu tinha feito, com muito esforço (palavras dela) macarrão com molho branco pro jantar, e como elas já tinham comido e eu estava com bastante fome, jantei primeiro pra só depois ir tomar banho. Vestir o pijama mesmo, amarrei o cabelo em um coque, escovei os dentes e quando saí do banheiro, a Manu estava na minha cama. 
Manu - Como você está?
Clara - Desse jeito que você está vendo - coloquei meu celular pra carregar e sentei de frente pra ela -
Manu - Essa resposta não vale, às vezes você engana muito bem
Clara - Pelo menos isso
Manu - Ok, vou refazer a pergunta: Como está aguentando?
Clara - Não estou - suspirei - Sei que pode parecer uma pergunta muito idiota, mas.... Quem mais sabe sobre... enfim...?
Manu - Do nosso círculo de amigos? Provavelmente, todos. Existem pessoas que fazem questão de espalhar essas coisas, eu fiquei sabendo por causa de vários comentários no meu instagram, imagina nas redes sociais dos meninos
Clara - E meus pais?
Manu - Eu não contei nada
Clara - Melhor assim - passei as mãos no rosto, tentando clarear as ideias - O Gil não vem aqui hoje?
Manu - Pra que? Deve ter mais o que fazer - respondeu de um jeito que não era nada seu -
Clara - Oi?
Manu - Sim, brigamos
Clara - Por quê?
Manu - Não sei se você vai querer saber
Clara - Agora é que eu quero mesmo
Manu - Ok... - olhou para todos os cantos do meu quarto antes de finalmente começar a falar - Quando chegamos no balé eu já estava sabendo da notícia do dia, e a primeira coisa que quis fazer, assim que a Duda entrou pra se trocar, foi falar poucas e boas ao Júnior. Mas, adivinha? Meu namorado, ou ex, sei lá, não deixou. Me pediu pra ficar quieta e ainda preferiu ficar do lado do Júnior - estava espantada com tudo que ouvi, quase não consegui falar -
Clara - Normal, eles são amigos, Manu
Manu - Dane-se! Eu achava que ele era amigo dos dois. Toda história tem dois lados e nessa, não é obvio que você é a parte mais indefesa?
Clara - Indefesa?
Manu - Tipo isso - sorri um pouco, ela parecia uma leoa defendendo o seu filhote - Pois, não me deixou falar pro Júnior, então falei pra ele mesmo
Clara - Você é um bomba, Emanuelle! Tem que ser controlada de perto porque se explodir, já era - riu sem humor, sabia que ela não estava bem -
Manu - Vou considerar isso como um elogio
Clara - Liga pro Gil. Não faz sentindo vocês brigarem por minha causa
Manu - Não é por sua causa - onde é que eu já ouvi isso? Revirei os olhos ao lembrar que a Rafa disse o mesmo -
Clara - Mas vocês estão brigados por causa de um assunto que nem é de vocês. Lógico que vou me sentir culpada
Manu - Clara, não tem nada a ver com você. Mas se ele defende o que o Júnior fez, é capaz de fazer também, não acha?
Clara - Não acho nada, deixa de falar besteira
Manu -  Não é besteira
Clara - É sim, uma comparação absurda
Manu - Pouco me importa agora. Nos estressamos, falamos coisas demais e... - parou um pouco, achei que ela ia chorar mas conseguiu segurar - Eu é que não vou ligar pra me desculpar
Clara - Vai ficar esperando ele fazer isso?
Manu - Tanto faz - encolheu os ombros, como se aquilo não tivesse nenhuma importância, só que seus olhos estavam tão tristes. Mesmo assim preferi não falar mais nada, de orgulho sempre entendi muito bem. Antes que eu pudesse mudar de assunto, ela me desejou boa noite e saiu. Eu sabia o motivo: não queria chorar na minha frente. Entendi e respeitei. Logo em seguida, o Luck e a Duda invadiram meu quarto também e foram logo subindo na minha cama. Folgados! -
Eduarda - Mãe?
Clara - Hum?! - estava distraída mexendo no seu cabelo -
Eduarda - Por que você tirou as fotos do papai dali? - levantou para apontar para o mural e minhas mãos ficaram paradas no ar. Será que era o momento de falar logo tudo? -
Clara - Eu tive que guardar elas, filha - respondi com toda calma que consegui reunir -
Eduarda - Por quê? - ficou com a testa enrugadinha, sem entender nada -
Clara - Porque eu e o seu pai não estamos mais juntos - falei de uma vez antes que me faltasse coragem - Nós não namoramos mais - seus olhinhos ficaram maiores -
Eduarda - Ah, brigaram de novo?
Clara - Não, nós não brigamos - tentei procurar pelas palavras certas para explicar tudo da melhor maneira possível, só que não existiam palavras certas naquele momento - Nós... conversamos e  decidimos ser amigos... por você
Eduarda - Mas amigos não dão beijinhos - respondeu muito convicta de suas palavras - Vão ficar sempre tristes agora? - me surpreendeu com sua pergunta, fiquei sem fala e as lágrimas se aproveitaram disso - Vocês não podiam terminar, tinham que ficar juntos, por mim - Ah, meu Deus! Minha filha pegando a mania de jogar sujo com o pai, e o pior, usando o meu argumento. Por ela. Por ela eu faria qualquer coisa e nem ela mesma sabia disso, só que infelizmente nem tudo dependia só de mim.



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Gente, por favor (mais uma vez), eu não desisti!!!! Só que infelizmente não se pode escolher dia pra ficar doente, e eu fiquei. Precisei cuidar de mim e depois fiquei sem internet (ainda estou sem). Nunca ia simplesmente desistir sem dar uma justificativa, tenho muito respeito e consideração por vocês. Sobre o capítulo: sei bem o que vocês queriam, mas preferi manter as minhas ideias, espero que confiem em mim!
As músicas que estavam tocando aqui (e ainda estão, agora apenas acrescentei algumas sugestões de vocês) eram: 
"Take a bow" e a parte 2 de "Love the way you lie" - Rihanna
"Broken-hearted girl" e "Best thing i never had" - Beyoncé 
Uma xará minha pediu a criação de um grupo no whatsapp pra gente interagir mais, se vocês concordarem com a ideia, deixem o número, e o nome de vocês, ou apelido aí embaixo e eu crio sim, com muito gosto! 
A fic que eu lia e acabou de repente era portuguesa, mas infelizmente já saiu do ar :(
Por hoje é só, desculpem a demora, não foi culpa minha mesmo!


Entrevista sobre a doação de medula na íntegra aqui.

PS: A data de hoje faz vocês lembrarem de alguma coisa? Ou alguém?  
PS²: Não sofram por antecipação, ou eu sofro também!

Beijocas, se cuidem e até a próxima!