domingo, 28 de setembro de 2014

Capítulo 58 - “...Alguns dos melhores momentos dos meus dias são com você”

Dedicado à Lorena ️ 
Consegui dormir um pouco melhor de segunda pra terça, e como a Manu avisou na noite anterior que levaria a Dudoca para o colégio, aproveitei para tentar dormir mais e colocar pelo menos um terço do sono em dia, nem ativei o despertador. Precisava de coragem e muita força para seguir em frente, e eu ia conseguir; fingindo ser forte, chorando pelos cantos até as lágrimas secarem, ou até mesmo usando a minha ironia, mas ia conseguir. Quando acordei eram 09h10, levantei, arrumei a cama do jeito que deu, separei uma roupa para malhar, entrei no banheiro, tomei um banho rápido, escovei os dentes, me vesti e fiz um coque no cabelo. Tirei o celular do carregador, peguei os fones e saí do quarto, passei na cozinha, comi uma banana, dei um beijinho no Luck e desci. A academia, como de costume, já estava aberta, expliquei ao personal o estado da minha mão e ele me orientou a usar apenas esteira, bicicleta ergométrica, e crosstrainer, nada muito pesado. Ótimo! Eu descobri na academia uma válvula de escape perfeita, ali podia colocar os fones e esquecer momentaneamente todos os problemas, e isso eu tinha de sobra. Fiz meus exercícios, suei bastante e quando subi, fui direto pro chuveiro, fiquei com vontade de molhar o cabelo mas não ia dar muito certo, então achei melhor esquecer essa ideia e mentalizar que faltava pouco para finalmente tirar os pontos da mão. O médico me disse que eles poderiam soltar sozinhos se eu usasse a pomada indicada, e caso isso não acontecesse precisaria voltar ao seu consultório. Nem doía mais, inclusive parei de tomar o anti-inflamatório. Então, só tinha que esperar. Saí do banho, me enxuguei, me vesti e fiz um outro curativo. Dessa vez não chorei olhando pro corte (não ia adiantar, a besteira estava feita), mas sabia que uma cicatriz, muito provavelmente, ficaria ali por um bom tempo - como ataquei o coitado do espelho com a mão fechada, o corte era meio que uma linha torta da falange proximal - a primeira - do meu dedo mindinho até um pouco mais pra baixo, perto dos ossos do metacarpo, por isso ainda não podia dobrá-la. Ok, toda ação tem sua consequência. Abri as persianas, peguei o celular e fui pra cozinha, minha barriga roncava loucamente. Coloquei um pouco de granola com iogurte em um xícara e fui comer na sala assistindo desenho. Estava até com receio de assistir programas esportivos porque e se... sei lá, se surgisse a notícia que... enfim, estava evitando assistir mesmo. Condenem-me! Quando terminei de comer, olhei distraidamente para o pequeno calendário da mesinha de centro e estagnei ao perceber que era véspera de aniversário do Júnior, 4 de fevereiro. Como assim? Tinha perdido completamente a noção do tempo. Ah, não! Comecei a chorar sem saber o por que (ou por saber bem o por que). Droga, mil vezes droga! O que é que eu ia fazer com o presente que preparei pra ele? Queria poder dormir e só acordar no dia 6, por que estava me sentindo estranhamente pressionada a tomar uma atitude, quando não devia nem pensar no assunto. Por quê? Não obtive nenhuma resposta mas tomei um susto quando meu celular começou a tocar, vi que era minha mãe, enxuguei as lágrimas (como se ela pudesse ver, mas mãe é mãe né? vai saber), e atendi tentando parecer normal
 - início -
Clara - Oi mãe, e aí?
Débora - Seu avô já está em casa!
Clara - Jura?
Débora - Sim. Os resultados dos exames foram favoráveis e vamos poder continuar com o tratamento com os remédios aqui em casa até que apareça um doador compatível
Clara - Ai, que bom - suspirei e agradeci mentalmente à Deus - Mas achei que ele só fosse liberado pela tarde
Débora - Não o conhece? Assim que soube que já estava liberado, quis levantar da cama na mesma hora
Clara - Não tem jeito mesmo né?
Débora - Não tem. Mas chegamos a pouco tempo e já percebo que a carinha dele está bem melhor. Ele realmente odeia hospital... ainda mais depois de hoje
Clara - O que aconteceu hoje?
Débora - O que a gente sempre soube que podia acontecer porque é um efeito colateral do tratamento
Clara - O cabelo começou a cair?
Débora - Sim, ele tentou desvalorizar, até porque esse é o menor dos nossos problemas, e é temporário, mas... foi horrível ver a sua primeira reação, ainda bem que você não estava lá - sua voz perdeu a intensidade, sabia que ela ia chorar - Ele não quer ver caindo um pouquinho todos os dias, pediu pro Murilo cortar todo assim que chegamos - fiquei muda por alguns instantes, processando as informações - Clara?
Clara - Vou aí mais tarde - foi o que consegui falar -
Débora - Tá - suspirou - Quero mesmo falar com você
Clara - Estou meio traumatizada com essa frase, mãe. Falar sobre o que?
Débora - Nada preocupante. Mas o que acha dos seus avós ficarem por aqui mesmo?
Clara - Como assim?
Débora - Morar em Santos - fiquei surpresa, claro, apesar de já ter pensado nessa possibilidade -
Clara - O que eu acho sobre meus avós morarem em Santos?
Débora - Sim
Clara - Não sei, o que é que eles acham? Isso é o mais importante
Débora - Eu já estava pensando nisso a um tempinho, não quero mais ficar longe deles. Se estivéssemos todos juntos, eu teria feito meu pai procurar um médico assim que percebesse algo estranho ou fora do normal, mas enfim...
Clara - Mãe, você não está se culpando por nada, está? - silêncio total - Mãe, não!
Débora - Não estou, é sério. Só que... é impossível não pensar que podia ser tudo diferente
Clara - As coisas aconteceram como tinham que acontecer, ficar pensando no que podia ter feito não ajuda, muito pelo contrário, você sabe...
Débora - Eu sei. E falei com eles ontem
Clara - E?
Débora - Disseram que vão pensar. Deixar Florianópolis é um passo muito grande pra eles
Clara - Eu também acho que é, mas confesso que... - parei de falar. Apesar de tudo, meus avós é que tinham que decidir isso -
Débora - Não quer que eles voltem pra lá, certo?
Clara - Ah, mãe! Claro que a vontade deles conta e muito, eles não podem e nem devem ficar aqui só porque nós queremos, mas... também não quero me afastar mais
Débora - Bom, eu já fiz o convite para eles morarem aqui. A casa é grande o suficiente, já até nos acostumamos
Clara - Eles vão saber o que é melhor pra eles, tenho certeza
Débora - Falando nisso, minha mãe disse que precisa ir a Florianópolis. Quando vieram pra cá, não imaginavam e apesar de não dizerem, sei que também não queriam ficar muito, então deixaram muita coisa lá. Roupas e alguns objetos pessoais são as coisas mais importantes
Clara - Quando ela quer ir? Posso ir junto se for no final de semana
Débora - Você faria isso? Porque eu estava pensando em ir, mas quero voltar ao trabalho também e é bem provável que tenha que compensar os dias que faltei em alguns finais de semana
Clara - Claro que sim, mãe. Mais tarde a gente conversa, todo mundo junto, pode ser?
Débora - Tudo bem, um beijo
Clara - Beijo - ia desligar quando ouvi a sua voz de novo -
Débora - Clara?
Clara - Oi
Débora - Você está bem? - sua pergunta me pegou desprevenida, porque sabe aquela citação da Clarice Lispector “Um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui.”? É o que procuro fazer constantemente. Prefiro cuidar das dores dos outros do que da minha, prefiro lidar com problemas alheios do que com os meus. Já perdi as contas de quantas vezes segurei o mundo dos outros e deixei o meu cair. Precisei respirar fundo antes de responder -
Clara - Sim
Débora - Tudo bem. Eu te amo - sorri -
Clara - Também te amo muito - ela finalizou a chamada e eu continuei com o celular na mão -
 - término -
Estava me sentindo completamente perdida, sem chão. Tudo acontecia ao mesmo tempo, sem nem me deixar respirar direito. Como é que eu ia aguentar? Tem certos dias que parece que o mundo vai desabar. É tão horrível! Instintivamente lembrei das palavras da Tia Ná “Deus não permite que chova para abalar uma flor, pelo contrário, Ele permite que chova para então regar a flor, e torná-la maior e mais forte. Assim como a intenção Dele não é que as lutas abalem tua fé, mas que nas lutas tua fé seja exercitada e fortalecida.” Lembrar disso me trouxe um conforto inesperado. Sim, eu aguentaria tudo, sairia vencedora e de cabeça erguida! Tentei esquecer qualquer coisa relacionada a datas, aniversários, e presentes e fui pra cozinha. Precisava cozinhar, e minha mão já não me atrapalharia tanto assim. Fiquei alguns minutos sentada em uma das banquetas olhando para os armários abertos, pensando no que preparar e decidi por filé de frango grelhado (porque já estava pré-cozido na geladeira), com arroz branco e salada (isso se eu conseguisse cortar o tomate e não o meu dedo). Mas, as tarefas foram executadas com sucesso. Quando terminei, fui colocar ração pro Luck e ouvi as vozes das meninas, depois a porta sendo fechada. Minha pequena foi logo procurando por mim, quando me achou na área de serviço, me deu um abraço gostoso e só foi tomar banho depois de me contar com detalhes tudo que aprontou na aula. Se ela soubesse o tamanho do meu orgulho...
Manu - Oi, boa tarde - sorriu e me deu um beijo no rosto - Alguma novidade? - colocou a bolsa e uma pasta grossa e preta em cima do balcão -
Clara - Meu avô está em casa
Manu - Sério? Que bom! Quer dizer, isso significa alguma melhora, né?
Clara - É, aparentemente. Ele está melhor do que quando precisou ficar internado, isso é bom
Manu - Já já aparece um doador compatível e tudo vai ficar ainda melhor, você vai ver - sorri. Aquilo era o meu maior desejo. Enfim, pelo menos na hora do almoço tive um pouco de paz, é difícil estar com a Manu e a Duda sem rir ou ao menos sorrir, elas parecem fazer de propósito as vezes, mesmo que minha filha nem saiba que ultimamente meus sorrisos andam muito mais tristes. Depois que comemos, ficamos na sala sem nada pra fazer, ou melhor dizendo, com preguiça de fazer algo, mas lá pelas 14h a Manu desceu pra academia já que eu avisei que já tinha ido, ajudei a Duda com as lições de casa e quando terminou, ela foi brincar com o Luck. Estava olhando a agenda escolar dela quando meu celular começou a tocar novamente, continuava onde deixei depois que falei com minha mãe. Era a Rafa, não podia deixar de atender.
 - início -
Clara - Oi, Rafa
Rafa - Oi, Ana Chata - riu e eu sorri, nunca me livraria desse apelido mesmo. Mas isso não significa que eu seja chata, certo? -
Clara - Tudo bem?
Rafa - Hum... sim - ouvi uma outra voz de longe, e podia quase jurar que a conhecia -
Clara - O que aconteceu?
Rafa - Nada - falou com quem estava ao seu lado e isso só aumentou as minhas certezas - Na verdade, estou ligando a pedido do Júnior. Pronto, falei
Clara - O que ele quer?
Rafa - Saber se a Duda vai poder vim pra cá... você sabe, amanhã é...
Clara - Sim, eu sei - interrompi-a, fiquei irritada de repente. Quer dizer que ele arranjaria um intermediário sempre que quisesse falar ou ver a Duda? Interessante! - E por que ele mesmo não me ligou?
Rafa - Não sei... quer dizer,... você sabe
Clara - Ele está ao seu lado, não está?
Rafa - Sim. Você quer... que eu passe pra ele?
Clara - Não, não precisa. Ele liga pra mim se quiser falar comigo
Rafa - Mas...
Clara - Beijos, Rafinha - não sei como, mas tive coragem de desligar antes que ela dissesse mais alguma coisa. 
 - término -
Ele estava sendo ridículo demais, não é possível que falar comigo se tornou tão difícil assim. Temos que começar a assumir o que fazemos, ué. Eu tinha que acabar com isso. Ou não... Oh, meu Deus! Como é que eu ia reagir se ele realmente ligasse? Eu duvidava muito que isso acontecesse, já que no CT parecia nem me conhecer, mas e se... o toque do meu celular interrompeu meus loucos e desenfreados pensamentos. Não acreditei quando vi a foto. Não acreditei quando vi que o seu nome ainda era "Amor". Simplesmente não acreditei. Eu ainda nem tinha ouvido a sua voz, e já não estava mais irritada, é realmente incrível o efeito que ainda tem (e é bem provável que, infelizmente, sempre vai ter) sobre mim. Atendi, mas não falei nada, e o outro lado da linha também ficou em silêncio por bastante tempo. Já estava pensando em desligar quando meus batimentos cardíacos dispararam com força total.
 - início -
Neymar - Oi
Clara - Oi - respondi com um fio de voz -
Neymar - Desculpa por...
Clara - Sem mais desculpas, por favor. Pedi que você mesmo ligasse apenas para esclarecer uma coisinha - fui direto ao ponto antes que algo me fizesse desistir -
Neymar - O que? - era tão bom ouvir a voz dele, tão bom... que precisei me xingar mentalmente para poder voltar a raciocinar direito e não falar nada que pudesse me arrepender depois, aquela ligação tinha um único propósito e eu não pretendia pegar leve -
Clara - Nós somos adultos. Temos uma filha, então obviamente vamos ter sempre assuntos para tratar sobre ela. Vai ser sempre assim? Uma pessoa vai falar por um de nós porque não queremos nos ver ou falar um com o outro? Havia muito respeito entre nós até uns dias atrás e eu espero que ele permaneça... pelo menos ele - finalizei com a minha melhor aliada, a ironia -
Neymar - Tem razão, só pensei que...
Clara - Eu sei. Acredite, não é a situação mais confortável do mundo pra mim também. Mas vamos ao que interessa, pode falar - UAU! Eu estava bem surpresa com a minha atuação, e tenho certeza que ele também estava, sua falta de palavras me comprovava isso -
Neymar - A Duda tem algum compromisso amanhã? Quero passar o dia com ela
Clara - Se ela tivesse algum compromisso, com certeza o descartaria pra ficar com você, então...
Neymar - Isso quer dizer que ela vem?
Clara - Não negaria isso a vocês. Ela pode ir hoje mesmo, basta alguém vim buscá-la
Neymar - Sério?
Clara - Júnior, você é o pai dela, caso tenha esquecido
Neymar - Não esqueci, mas achei que você não quisesse...
Clara - Eu não tenho querer. A relação de vocês não pode mudar por minha causa. Enfim, quem vem buscá-la?
Neymar - Eu - dessa vez foi ele quem me surpreendeu, por essa não esperava - Daqui a uma hora?
Clara - Ok - respondi ainda meio área e desliguei.
 - término -
Sim, eu realmente precisava tomar uma atitude, rápido. Peguei a mochila da Duda, levei pro quarto dela e arrumei a sua bolsa do balé, colocando o uniforme do colégio junto porque era só o que ela precisava levar, roupa é o que não faltava no seu outro quarto, como ela ainda chamava. Falei que o Júnior estava chegando para buscá-la e ela, claro, ficou felicíssima, ainda mais quando lembrei-a do aniversário dele. Deixei-a no seu quarto pulando de felicidade e fui pro meu, abri o guarda-roupa e peguei o que pretendia dar pra ele. Um simples pen drive personalizado que foi escolhido pela Duda (com o formato de uma bola de futebol, e nós amamos você gravado nele). Estávamos bem empolgadas quando fomos comprá-lo, assim que voltamos do Guarujá porque foi lá que tive a ideia do presente, e quanto mais cedo fizéssemos, melhor. Era dentro de um pen drive que estava o presente dele. Estranho? Talvez. Mas como presentear alguém que tem, aparentemente, tudo? Antigamente era muito mais fácil presenteá-lo mas o que sabíamos da vida? Nada. Muitas vezes, uma imagem ou uma mensagem são suficientes para que a pessoa se sinta feliz e amada. Palavras da minha avó quando contei pra ela o que tinha decidido. Tinha que tentar lhe dar algo diferente, que ele pudesse ver sempre que quisesse e talvez, quem sabe, lembrar de mim. Agora já não sabia se era isso que queria... Mas enfim, precisei do auxilio da Tia Ná e do Piratinha, que aceitou me ajudar sem pensar duas vezes. O que foi um alívio. Não sei onde encontraria outra pessoa em tão pouco tempo e precisava deixar esse presente pronto (ou pelo menos metade dele) antes que o nosso recesso terminasse. Minha ideia não foi fazer um documentário, nem nada do tipo, mas foi meio isso que virou, só que bem mais descontraído. No dia 3 de janeiro, o Júnior foi pro Rio de Janeiro com os meninos aproveitar os últimos dias de férias, e estávamos de cara feia um com o outro porque ele queria que eu fosse junto, o que acabou sendo perfeito pra mim. Sabia que nosso orgulho só ia deixar que um de nós tomasse a iniciativa para ligar ou mandar uma mensagem à noite, quando a saudade apertasse mais. Pela primeira vez nosso orgulho me serviu para alguma coisa. Por isso passei o dia todo fora com a Tia Ná, o Piratinha e a Dudoca no Jardim Glória, subúrbio da Praia Grande, popular balneário turístico situado a 78 quilômetros de São Paulo. Isso não chamaria a atenção de ninguém se ali não fosse o cenário dos primeiros chutes do craque Neymar. Foi ali que ele morou uns aninhos antes de nos conhecermos. Foi ali que a sua carreira começou! Antes de qualquer coisa, a Tia Ná nos mostrou a antiga casa deles, no número 324 da Rua B. Era simples, a parede tinha algumas marcas de bolas provavelmente sujas de lama, e assim que a vi imaginei um menininho levado, com as chuteiras gastas e um sorriso lindo, comemorando depois de fazer um gol em uma rede imaginária. Sabia que isso não estava muito longe do que foi a realidade. A visita acabou sendo um presente pra Tia também, que teve a oportunidade de rever ex-vizinhos. Conheci tanta gente que fez parte da infância e metade da adolescência do Júnior... como o tímido Domingos da Vendinha. Júnior comprava doces e balas na lojinha do senhor de 61 anos que foi super simpático comigo (a Duda também comprou doces ali, e isso ficou registrado no vídeo). “Ele era meu freguês. Só pensava em jogar bola. Já era bom naquela época”, ele disse. Conheci também alguns dos companheiros de peladas dos Maracanãs, Morumbis e Vilas Belmiros imaginárias que eles criavam a cada embate disputado no asfalto quente do litoral paulista. Jonathan (disse que o Júnior o chamava de John), Alan e William. “Ele tinha moral com as novinhas. Várias queriam ficar com ele”, um deles disse. No dia eu gargalhei, agora só tinha vontade de chorar ao lembrar. Ele não era mais meu... Balancei a cabeça tentando voltar a me concentrar. O vídeo completo de 62 minutos e 38 segundos, com as edições que pedi para serem feitas, ficou pronto três dias depois, Piratinha é muito bom nessas coisas mesmo (aliás, ele, o Bruno, o Victor e o Clayton que também trabalham na SantosTV). Ele me entregou dia 5, exatamente no dia de voltar ao trabalho. O melhor de ter feito tudo isso, foi ter visto o orgulho estampado nos rostos dos moradores por saber que ele morou ali, e a alegria dos amigos das antigas em poder participar, de uma certa forma, do seu aniversário. Alguns chegaram a se emocionar contando histórias, ou simplesmente desejando as maiores felicitações. Eu também me emocionei muito, e no dia já conseguia me imaginar chorando de novo ao mostrar tudo isso pra ele... Agora chorava de novo, mas por um motivo totalmente contrário: não ia poder mostrar isso pra ele. Tinha sido um trabalho tão bem feito, ficou tão lindo... e eu não ia entregá-lo. Não sei nem se já conseguia vê-lo sem sentir vontade de agarrá-lo e pedir para não me soltar nunca mais. Mas... pensando bem, ele podia ver. Enxuguei as lágrimas, peguei o pen drive, voltei pro quarto da Duda e pedi pra ela sentar um pouquinho (ela já estava ensaiando um parabéns pro papai, dando pulinhos pelo quarto).
Clara - Amor, esse é o presente do seu pai, lembra? - ela sorriu e os olhinhos brilharam - Vou guardar dentro da sua bolsa, e você não deixa ninguém ver ou pegar, entende? - ela assentiu. Eu podia muito bem não me importar com nada disso, esquecer o presente e dar continuidade ao meu plano intitulado: seguir em frente. Mas o fato é que, esquecendo por alguns momentos tudo que me disse, algo dentro de mim (o coração, bobo como sempre) dizia que ele merecia sim aquele presente -
Eduarda - É uma surpresa?
Clara - Sim! É uma surpresa. Só amanhã você pode entregar pra ele, tudo bem?
Eduarda - Pode ser assim que eu acordar?
Clara - Pode
Eduarda - Combinado. Mas você não vai, mamãe?
Clara - Não...
Eduarda - Por quê?
Clara - Não vai dar, filha. Tenho muito trabalho pra fazer e... - e o que? Não sabia o que falar, estava me sentindo péssima mentindo - Você vai fazer tudo certinho, não vai?
Eduarda - Sim! - sorriu, sorri também porque ela estava tão feliz... o meu contraste. Colocamos o pen drive dentro da sua bolsa do balé, e ela disse mais uma vez que ia fazer tudo certinho. Eu tinha certeza que sim e isso me consolava um pouco. Voltei pra sala, desliguei a TV e deitei no sofá. O que estava fazendo era a atitude que me parecia mais certa, e se eu ia me arrepender, só saberia depois. Conversei um pouco com o Di pelo whatsapp e estava respondendo outras mensagens, quando ouvi a porta sendo aberta, permaneci quieta achando que era a Manu, mas me enganei ao virar e ver o Júnior. Levantei imediatamente, colocando até uma força a mais na mão direita, mas não deixei transparecer o quanto doeu. Quero dizer, penso eu que não deixei. Nos olhamos exatamente como no CT, uma força estranha parecia não deixar que desviássemos nossos olhares. Era tão... estranho, porque nossos olhos falavam muito e das nossas bocas não saía uma única palavra -
Neymar - Ainda estou com a chave - levantou-a, mostrando pra mim a chave reserva (que agora era dele) com o chaveiro que a Duda lhe deu no dia dos Pais, não falei nada. Tê-lo ali era pior do que eu imaginei, só conseguia lembrar do maldito sábado - Mas posso devolver se quiser
Clara - Não faz diferença pra mim - encolhi os ombros - Você vai continuar vindo aqui, certo? Então se quiser continuar com ela, não vejo problemas - ele assentiu, olhando pra qualquer ponto na sala que não fosse eu. Meu coração, coitado, ainda não tinha decidido se queria bater descontroladamente ou se ficava calminho por ter quem mais queria bem ali na minha frente. Ainda bem que meu lado racional falava mais alto em certas ocasiões, ou eu já teria feito uma grande besteira. Antes que pudéssemos dizer mais alguma coisa, o Luck apareceu e começou a fazer festa com ele, a Duda apareceu logo em seguida, e se jogou nos braços dele também. Juro que tentei aguentar ali, paradinha, quietinha, mas não deu, saí da sala (e ele me viu saindo), me refugiei no meu quarto. As últimas lembranças daquele lugar não eram boas, mas ainda era o meu quarto, outros bons momentos também foram vividos ali. Era isso que tinha que começar a fazer, aceitar o fim independente do motivo, e lembrar apenas das coisas boas. Elas não voltam mas existiram - Tão fácil falar... - murmurei olhando para o novo mural de fotos. Na verdade, não era nada novo, mas ele parecia outro sem as fotos que tirei e guardei na gaveta. Nem sei quantos minutos passaram, mas ouvi a Duda me chamando e forcei os meus pés a voltarem pra sala -
Neymar - O balé não é na quinta? - perguntou olhando para a bolsinha dela -
Clara - Sim. E não é na quinta também o aniversário do Tio Neymar?
Neymar - É
Clara - Ela fica lá nesse dia também, se vocês quiserem. Depois do balé alguém pode trazê-la pra cá?
Neymar - Claro - assenti, não havia mais nada para ser dito e o clima ficou mais do que constrangedor, porque a Duda nos olhava a espera que nos despedíssemos, o que não ia acontecer, obvio. Fui até a porta, antes que ela dissesse algo que piorasse ainda mais a situação e a abri -
Clara - Até quinta - pisquei discretamente pra ela e ganhei um sorriso enorme como retribuição, ela me deu um abraço antes de sair e ele não me olhou quando passou por mim. A Duda acenou um tchauzinho, e assim que deram as costas, fechei a porta. Fiquei com uma vontade louca de gritar, mas me segurei. Será que seria sempre assim? A indiferença ultrapassando os limites do insuportável? A que ponto chegamos... Abanei a cabeça, não queria pensar em nada porque se ele estava tentando me enlouquecer, eu não ia deixar que isso acontecesse, não mesmo -
Manu - Eu enxerguei mal ou foi o Júnior que saiu daqui com a Duda? - mal entrou e foi a primeira coisa que perguntou -
Clara - Sim, foi - ela continuou olhando pra mim, esperando por mais informações - Amanhã é aniversário dele, depois do Tio Neymar, então a Duda só volta na quinta mesmo
Manu - Ah, sim! E foi ele mesmo quem ligou pedindo isso? - sentou na pontinha da poltrona, completamente suada -
Clara - É... pode-se dizer que sim
Manu - Explica melhor - enxugou o rosto com a toalha que estava ao redor do seu pescoço -
Clara - Primeiro ele pediu pra Rafa ligar, mas eu disse que se quisesse falar comigo, que ligasse ele mesmo - me olhou boquiaberta -
Manu - Você não fez isso
Clara - Fiz
Manu - Por quê?
Clara - Porque foi ele quem terminou, Manu, e agora está querendo fugir das consequências. Não entendo
Manu - Certo. E como é que foi aqui?
Clara - Só falamos o básico do básico
Manu - E isso não te afetou em nada?
Clara - Por que afetaria? - ela ergueu uma sobrancelha -
Manu - Só estamos eu e você aqui agora, ok? - revirei os olhos - Não faz nada por impulso que depois possa te fazer sofrer ainda mais, por favor - sorri mesmo sem querer, não sei o que seria de mim sem a Manu pra me chamar à razão sempre -
Clara - Vou tentar - sorriu e deu um beijo no meu rosto - Eca, vai tomar banho - gargalhou -
Manu - Estou indo - levantou e começou a caminhar pro corredor, mas parou - Vai pra algum lugar?
Clara - Vou na casa dos meus pais, mas não devo demorar
Manu - Posso ir junto?
Clara - Quer ir?
Manu - Quinze minutos - correu pro quarto e eu sorri. Fui pro meu também, troquei de roupa, penteei o cabelo, e voltei pra sala para esperá-la. Por incrível que pareça, ela soube aproveitar direitinho seus quinze minutos e não se atrasou. Nos despedimos do nosso filhote, saímos, chamei o elevador e descemos na garagem. Entramos no seu carro, ela deu partida e não demoramos muito para chegarmos ao prédio dos meus pais. Eles liberaram a nossa entrada, a Manu estacionou em uma vaga para visitantes, subimos, toquei a campainha e quem abriu a porta foi o meu pai. Minha avó estava no sofá fazendo crochê com a minha mãe ao seu lado -
Murilo - E a pequena? Por que não veio? - perguntou depois dos beijinhos e abraços -
Manu - Amanhã é aniversário do Júnior, na quinta é aniversário do Tio Neymar, então ele foi buscá-la lá no apê mais cedo pra passar esses dias com eles - respondeu por mim, e agradeci-a com um sorriso -
Débora - Ah, o aniversário deles, é verdade
Glória - A Duda já sabe que vocês não estão mais juntos? - olhou pra mim -
Clara - Não
Murilo - Estão tentando manter as aparências? - como se fosse possível... pensei, mas não falei -
Clara - Talvez - encolhi os ombros - Eles construíram juntos uma relação linda, se amam... e não quero que isso mude, não posso tirar isso da Duda. Mas também não sei até quando vou consegui esconder isso dela, uma hora ou outra, se ele não contar logo, conto eu
Murilo - Só não esquece do que eu já te falei, minha filha. Casais se separam sim, mas continuam sendo pai e mãe, isso é o que realmente importa
Clara - Eu sei, pai, mas não vamos falar disso agora, por favor - ele concordou, não muito convencido - Meu avô está no quarto?
Glória - Sim - sorriu levemente - Estava lendo quando saí de lá, quanto menos aglomeração agora, melhor - assenti -
Clara - E sobre a sua ida a Florianópolis, vó?
Glória - Tem certeza que quer ir também?
Clara - Se for no final de semana, claro que sim
Glória - Então, tudo bem - parou de fazer seu crochê para olhar para todos nós - Quero aproveitar para dizer logo pra vocês que eu e o Marcos já nos decidimos sobre morar ou não aqui em Santos - meus pais olharam pra mim quase que de imediato, a Manu franziu a testa, claro, ainda não sabia disso - Nós vamos ficar! - abriu um sorriso lindo - Mas não vamos nos desfazer da nossa casa em Floripa, temos outros planos pra ela - riu. Eu ainda não estava conseguindo crer que aquilo era mesmo verdade. A Manu foi a primeira a reagir, abraçando a minha avó, do seu jeito espevitado, e as duas riram -
Débora - Tem certeza, mãe? Morar, morar mesmo aqui? Não estão pensando em ir embora quando meu pai já estiver bem?
Glória - Não - responde muito tranquilamente - Agora vocês vão ter que nos aturar mesmo - não me contive e abracei-a também. Essa notícia me fez tão bem que, vulnerável do que jeito que estava, nem sei porque não chorei. Minha mãe ficou emocionadíssima, não era pra menos, mas a minha avó não deixou ninguém chorar e tratou logo de mudar de assunto. Aproveitei que depois eles passaram a falar com a Manu sobre a Fatinha e o Théo para sair sorrateiramente da sala. Bati na porta do quarto do meu avô, e ele deu permissão para entrar. Estava sentado na poltrona com um livro que adora, e eu sei que já leu inúmeras vezes, “Avô, Conta Outra Vez”. Foi o primeiro livro que dei pra ele, é pequeno, se bem me lembro não passa de 50 páginas. Sorri, e quando ele percebeu o motivo, sorriu também. Fechou-o, e me chamou para sentar na cama, ao seu lado. Obedeci. Tentei não reparar no seu cabelo, ou melhor na falta daquele grisalho que eu gostava tanto, mas foi impossível. Não estava completamente careca, mas bem baixinho -
Marcos - Gostou do meu novo visual?
Clara - Está lindo
Marcos - Certeza? - perguntou em tom de brincadeira -
Clara - Absoluta! Está um verdadeiro galã, minha vó vai querer casar de novo, se prepara - gargalhou, gostava tanto de vê-lo rindo -
Marcos - Acha que já devo começar a pensar na festa e comprar as alianças?
Clara - Sim! Uma renovação de votos em grande estilo - rimos -
Marcos - Posso te confessar uma coisa? - ficou sério de repente -
Clara - Claro
Marcos - Mas não quero que diga isso pra ninguém - a tensão tomou conta de mim -
Clara - Não vou dizer
Marcos - Quando descobri essa doença, não queria que ninguém soubesse, principalmente você, porque tinha medo de como iam passar a olhar pra mim, afinal, tudo muda. E eu com certeza ia me sentir muito pior se a minha neta olhasse pra mim de um jeito diferente, com pena. No entanto, alguns dos melhores momentos dos meus dias são com você - fiquei tão surpresa que cheguei a me arrepiar - Você se camufla tão bem que o seu medo não passa pra mim, eu não o vejo. Conversamos como se tudo estivesse bem, normal... enquanto as outras pessoas estão sempre me perguntando se estou bem ou se preciso de alguma coisa. Não estou reclamando, longe de mim, amo todo esse carinho, sei que apenas se preocupam comigo - parou de falar um pouco, e esperei que continuasse com toda paciência do mundo - Só estou querendo te agradecer por ser você mesma, por ter ouvido o que eu te disse no Réveillon e por vezes, me fazer esquecer o que realmente está acontecendo comigo. Tudo bem, eu sei que você também pergunta sempre se estou bem ou se preciso de alguma coisa - riu - Mas não é pra mim que pergunta, e sim para sua avó ou a sua mãe, como se não quisesse me incomodar com essas perguntas repetitivas. Então, estou te agradecendo por isso também - sorriu ao me ver chorar como uma criança, e pegou na minha mão esquerda - Seu altruísmo é um dom. Um dom que poucos tem, e claro que existe o lado ruim porque nem todo mundo sabe reconhecer as coisas boas que nós fazemos, mas de tudo se tira uma lição, não é verdade? - assenti sem consegui parar de chorar -
Clara - Posso te abraçar?
Marcos - Acho que sim - respondeu divertido. Não esperei mais nada e abracei-o, não apertei-o demais, na verdade sabia que era bem melhor evitar muito contato mas naquele momento era o que mais queria, não prolonguei muito também. Enxuguei as minhas lágrimas quando soltei-o enquanto ele olhava atentamente pra mim -
Clara - Minha vó já nos contou que vocês vão ficar aqui em Santos - sorriu um pouco - É isso que vocês realmente querem?
Marcos - Eu quero muito. Nunca fui tão mimado - riu - Tá, falando sério agora. Nós conversamos e percebemos que não existe mesmo mais nenhum sentido estarmos longe
Clara - Parece mentira, vou ter mesmo vocês aqui bem pertinho de mim?
Marcos - Vai! Vai poder enjoar de nós dois
Clara - Impossível, meu caro - sorriu - Mas olha, vocês vão perder esse sotaquezinho lindo e vão falar mais devagar - fez uma careta -
Marcos - A gente não tem sotaque, nem fala rápido. Vocês aqui é que falam muito devagar, sabe? - rimos. Nosso próximo assunto foi sotaques. Claro que ninguém nunca assume que tem um, e adora falar dos outros, então isso nos fez rir um pouco. Fiquei tão feliz com a sua confissão! Saber que a minha presença o fazia bem era tão bom, só me dava ainda mais forças para aguentar qualquer tempestade e esperar o sol reaparecer e brilhar pra gente. Continuamos falando de coisas banais, até porque não vale muito a pena falar sobre a aplasia; ela já se faz presente por si só. Quando percebi que ele estava ficando meio sonolento, muito por culpa dos remédios, deixei-o na bela companhia do seu livro de novo e voltei pra sala. A Manu já estava se deliciando com o pudim de pão com coco que a minha avó fez especialmente pra nós. Comemos, ficamos mais um tempinho juntos, e antes de anoitecer, nos despedimos deles. A Manu fez um pequeno desvio no nosso trajeto, indo para a casa dos seus pais - casa essa que ainda não conhecia pessoalmente. - A Fatinha ficou entusiasmadíssima com a visitinha surpresa, o Théo, como sempre, foi mais contido mas ficou igualmente feliz. Conheci a casa toda, mas não ficamos muito, então tivemos que combinar com a Fatinha um jantar para outro dia qualquer (ou isso ou ela não nos deixaria sair). Quando saímos de lá, a Manu passou em uma Temakeria, comprou o nosso jantar, depois fomos finalmente para o apê. Jantamos e assistimos mais episódios de Gossip Girl. Juro que estava bem, mas fui olhar para o relógio justo no segundo que 23h59 deu lugar a 00h00. Meu celular apitou no mesmo instante, sabia o motivo e fui olhar mesmo assim: Happy b-day, amor!!  chamava atenção na tela. Esmoreci. Entrei em um estado de melancolia pura e só queria chorar, já que o meu maior desejo não ia realizar: abraçá-lo. A vida é engraçada. Até alguns dias atrás, eu tinha certeza de que seria a primeira pessoa a abraçá-lo e dizer "Feliz Aniversário!"... é como diria o meu romancista preferido, Nicholas Sparks: “Mas as coisas mudam. As pessoas mudam. A mudança é uma das leis inevitáveis da natureza, cobrando tributos sobre a vida.” 


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Fiquem calmas, please! A pergunta que fiz foi só uma curiosidade minha mesmo. Ano passado ou retrasado, não lembro, estava lendo uma das primeiras fics que "achei" e quando chegou no final de um determinado capítulo apareceu um The End enorme e vermelho que me deixou em choque por quase duas horas. Não estava esperando, ela não deu nenhum aviso prévio, fiquei traumatizada ahahahaha só por isso perguntei. Porque há quem prefira surpresa, né? Quero terminar a fic ainda esse ano, mas não sei quando, muito menos quantos capítulos faltam. Vou escrevendo até onde minha imaginação quiser... e não terá outra temporada, nem vou escrever outra.
Quanto ao PVO do Neymar: vai aparecer no momento certo, confiem em mim!!
Para finalizar, quero que vocês me digam músicas que quando escutam lembram da fic, da Clara e do Júnior... enfim. Me digam para eu acrescentar a minha playlist pessoal de inspiração, pode ser? Beijocas   

domingo, 21 de setembro de 2014

Capítulo 57 - “Além do mais, sempre ouvi dizer que só sai da nossa vida quem nunca deveria ter entrado”

Acordei com o chato do meu despertador, e como segunda-feira já é preguiçosa por si só, desliguei-o, e levantei logo. Chamei a minha pequena, ela foi abrindo os olhos bem devagar até acordar completamente, me viu e sorriu. Aquilo me pareceu um sinal de que meu dia seria melhor do que o anterior... era o que eu mais queria. Fui ao quarto dela pegar seu uniforme e deixei-a tomando banho no meu banheiro mesmo, quando voltei, arrumei a cama e ouvi ela me chamando.
Eduarda - Mãe, cadê o espelho? - apontou para onde ele deveria estar, ou seja, sobre a pia. Fiquei alguns segundos sem reação. Meu espelho não era enorme, até porque se fosse, acho que também seria mais forte e eu não teria conseguido quebrá-lo com tanta "facilidade", mas o espaço vago ali não estava nada bonito -
Clara - Quebrou, filha - respondi apenas, e sabia que vinha mais perguntas, então tentei evitá-las - Já escovou os dentes? - balançou a cabeça, negando - Então escova, seu uniforme está em cima da cama. Vou preparar seu café, tá bom? - assentiu voltando a se enxugar. Saí do banheiro, do quarto também, e fui pra cozinha, a Manu já estava lá. Admiro a sua capacidade de ir dormir tão tarde e acordar ainda mais cedo que eu - Bom dia
Manu - Bom dia. Como está a mão?
Clara - Na mesma - respondi enquanto colocava um pouco de água na chaleira pra fazer o achocolatado da Duda - Vou fazer o curativo menor que te falei
Manu - Clara... - me repreendeu com o olhar -
Clara - Manu, desse jeito não vou poder nem usar o computador. Como é que vou trabalhar? Um curativo menor vai me atrapalhar menos
Manu - Ok, não discuto mais sobre isso
Clara - Obrigada - revirou os olhos -
Manu - Mas eu vou poder te levar, certo?
Clara - Errado
Manu - Por que tão chata?
Clara - Posso ir de táxi. Ainda preciso deixar a Duda no colégio, lembra? Vai te atrasar ainda mais
Manu - Não vai me atrasar coisa nenhuma, sempre saio de casa bem antes do meu horário
Clara - Mas...
Manu - Vou levar vocês duas sim, e de tarde passo pra te pegar
Clara - O que? Não
Manu - Sim. Quando sair do balé com a pequena, vamos pro CT esperar a mamãe - sorriu e dessa vez, eu revirei os olhos - Estou fazendo isso porque quero, é sério. Pra que gastar dinheiro com táxi se eu estou aqui?
Clara - Não vou poder mesmo ter o direito de dizer não?
Manu - Não - riu -
Clara - Tá, desisto - ela sorriu e bateu palmas como se tivesse vencido algum campeonato. Terminei de fazer o achocolatado da minha pequena, deixei sua xícara do bob esponja em cima do balcão e a Manu fez um sanduíche pra ela também. Voltei pro quarto, e como nem preciso mais ajudá-la com o tênis por não ser mais de cadarço e sim de velcro, ela já estava pronta. Sorri. Minha bebê estava crescendo! Penteei seu cabelo de um jeito bem simples, ou seja, de modo que não precisasse muito esforço com a mão direita; prendi apenas a franja e atrás ficou completamente solto. Pedi pra ela ir comer, tomei um banho rápido, e escovei os dentes, depois peguei o kit de primeiros socorros na parte de baixo do armário do banheiro. Desenfaixei a mão bem devagar, e prendi as lágrimas quando vi os pontos. Só faço burrada mesmo, devia ganhar um prêmio por isso. Passei a pomada recomendada do jeito que o médico explicou, e um band-aid transparente extra grande foi o suficiente para tampar o machucado. Chamaria muito menos atenção, o que seria ótimo. Olhando pra minha mão, pensei em como seria bom se houvesse um band-aid pro coração também, mas como era algo impossível tratei de expulsar tal pensamento e fui me vestir. Ainda não podia fazer certos movimentos com a mão, dobrá-la nem pensar, mas o incômodo era bem menor, sentia ela até mais leve. Fiz o mesmo penteado da Duda em mim, revisei as coisas da minha bolsa, me perfumei e peguei o celular. Desbloqueei-o e havia uma mensagem da minha mãe de alguns minutos atrás, eu devia estar no banheiro. Abri-a imediatamente. 
    From: Diva 
"Toda manhã tem um novo começo, uma nova benção, uma nova esperança, não permita que nada te deixe pra baixo. Você tem várias razões para olhar pra cima e agradecer porque enquanto acorda hoje, alguém está dando seu último suspiro. Agradeça à Deus por mais um dia. Não desperdice-o. Eu te amo, filha. Bom dia!"
Respirei fundo para segurar as lágrimas de novo, e lembrei do meu primeiro dia no CT, antes de chegar lá recebi uma mensagem dela também. Eu tenho a melhor mãe do mundo! Ela sabe exatamente quando tem que aparecer, parece adivinhar quando preciso dela e é por isso que a amo tanto. Saí finalmente do quarto, voltei pra cozinha, tomei um copo de leite forçado, elas terminaram de comer, a Duda foi pegar a mochila no seu quarto, nos despedimos do Luck e descemos para garagem. Entramos no carro da Manu, JT começou a cantar bem baixinho e ela deu partida. A primeira parada foi no colégio, entrei com a Duda e algumas mães me cumprimentaram, muitas delas eu conhecia realmente, já que nos juntamos para fazer o aniversário coletivo dos nossos pequenos, mas outras não... claro, nem precisava perguntar de onde elas me conheciam. Voltei pro carro e a Manu seguiu para o CT, quando chegamos, estacionou na minha vaga.
Clara - Obrigada, por tudo - ela sorriu amplamente, depois piscou. Peguei a minha bolsa, saí, dei um tchauzinho e ela foi embora. A ideia era ir direto pra minha sala, mas esbarrei com a Jú na escada e ela me arrastou pra sala dela -
Juliana - Como você está? - essa pergunta de novo não, só podia ser brincadeira. Ela já sabia? Pela sua cara, podia apostar que não -
Clara - Bem
Juliana - E o Marcos? - sentou e pediu que eu sentasse também, apontando para a cadeira -
Clara - Acho que vai poder ir pra casa hoje ou amanhã
Juliana - Sério? Isso é bom - sorriu -
Clara - É... em casa ele pode ficar mais tranquilo, sem tanto médico ao redor
Juliana - E por que esses olhinhos estão assim? - perguntou enquanto me olhava muito atentamente, ainda bem que minhas mãos estavam debaixo da mesa -
Clara - Assim como? - tentei desconversar e desviei o olhar -
Juliana - Não sei, tristes - mas será que sou tão invisível assim? -
Clara - Impressão sua
Juliana - Tem certeza? Você sabe que pode falar comigo. Aqui e agora estou sendo apenas a sua madrinha
Clara - Tudo bem - suspirei pesadamente, derrotada - De um jeito ou de outro você vai ficar sabendo mesmo
Juliana - O que foi?
Clara - Eu e o Júnior não estamos mais juntos - falei de uma vez, ela ficou boquiaberta e arregalou os olhos, foi tipo cena de novela mexicana -
Juliana - Como não? Por quê?
Clara - Infelizmente isso eu não tenho como te responder, madrinha
Juliana - Não estou entendendo nada. Vocês não estão mais juntos mesmo?
Clara - Não
Juliana - Desde quando?
Clara - Sábado
Juliana - Não foi uma briguinha à toa e vocês estão transformando em uma tempestade? Conheço os dois o suficiente pra saber que adoram isso e o maldito orgulho ajuda
Clara - Não foi uma briguinha à toa
Juliana - Mas... - não sei o que ela pretendia falar porque parou de repente e me olhou de novo - É claro que você não está bem - levantou e se aproximou de mim -
Clara - Eu não quero falar sobre isso, madrinha. A vida segue, e eu preciso trabalhar. Além do mais, sempre ouvi dizer que só sai da nossa vida quem nunca deveria ter entrado - ela semicerrou os olhos e cruzou os braços -
Juliana - Como se você acreditasse nisso - fechei os olhos e respirei fundo. É claro que não acreditava, mas não podia dar o braço à torcer. Não no meu local de trabalho, não podia misturar as coisas ou a mais prejudicada seria eu mesma -
Clara - É sério, Jú. Por favor, eu não quero mais falar disso
Juliana - Não vou insistir. Mas também não vou desistir e vou procurar saber direitinho o que aconteceu - dei de ombros -
Clara - Posso ir pra minha sala?
Juliana - Sim - levantei e peguei a minha bolsa, se ficasse mais dois minutos ali minha máscara ia cair, e as lágrimas se aproveitariam disso - Clara? - olhei-a - Sou chata mesmo, mas te amo tá? - sorri levemente e ela soltou um beijo pra mim - Se cuida. E qualquer coisa, estou aqui - assenti e saí da sua sala. Quando entrei na minha, os meninos já estavam, dei bom dia pra eles e sentei. Logo em seguida a Gio também chegou. Procurei ficar totalmente concentrada no meu trabalho, tanto para não cometer nenhum erro quanto para evitar pensamentos que não me fariam bem. Minha mão não me atrapalhou em muita coisa, consegui usar o computador perfeitamente, só não pude mesmo usar caneta ou lápis, então precisei adiar os novos desenhos que queria criar para wallpapers porque prefiro fazer no papel primeiro. Graças ao band-aid transparente ninguém reparou. As vezes batia em algum lugar sem querer, mas só apertava os lábios e esperava a dorzinha passar (eis a vantagem de deixar a mão toda enfaixada: se bater em algum lugar, a dor é amortecida). Em certo momento, o Caio levantou as persianas de todas as quatro janelas, o que deixou a sala bem mais clarinha, só que isso acabou me prejudicando muito porque duas delas ficavam praticamente de frente pra minha mesa. O primeiro treino do dia estava acontecendo ali, debaixo dos meus olhos, e sim, os titulares estavam em campo. Bastou vê-lo para começar a minha luta interna com as lágrimas. Que droga! Não deixei que nenhuma descesse. No meu local de trabalho não! “Uma hora passa, dizem. Uma hora o tempo cura, insistem. E eu espero, sinceramente, que passe. Porque se não passar eu não sei o que vou fazer.” -
Pedro - Tudo bem, Clarinha? - olhei-o e assenti rapidamente, tentando parecer convincente o suficiente - 
Clara - É só uma dor de cabeça chata - não era mentira ou uma desculpa qualquer, inexplicavelmente, minha cabeça estava doendo mesmo e só me dei conta porque ele perguntou. Procurei pelo meu foco que havia se perdido entre os campos do CT, e quando encontrei-o, fiz de tudo para não deixá-lo ir embora, pelo menos até a hora do almoço. Não desci. É obvio que não ia poder me esconder pra sempre, mas enquanto pudesse... Talvez fosse até covarde da minha parte, afinal teríamos que nos encontrar de um jeito ou de outro -
Gio - Se Maomé não vai à montanha, a montanha vem à Maomé - sua voz me fez sair do transe em que me encontrava. Olhei-a, ela estava com uma bandeja nas mãos -
Clara - Não precisava se preocupar comigo, Gio. Comia qualquer coisa depois
Gio - Nada disso
Clara - Você é um amor, obrigada
Gio - Por nada - colocou a bandeja na minha mesa e sentou-se - E a dor de cabeça?
Clara - Continua aqui comigo - riu e comecei a comer, o cheiro estava maravilhoso, pena que nem sequer abriu meu apetite -
Gio - Ai, meu Deus! Vai chover! - falou um pouco alto demais, me assustei e olhei pra janela mas o sol estava radiante -
Clara - O que aconteceu?
Gio - Eu que pergunto. Cadê a sua inseparável pulseira? Achei que não tirasse nunca - riu. Me dei conta do que ela estava falando e precisei de uns segundos para consegui falar -
Clara - E não tirava mesmo, mas foi necessário
Gio - Ih, estou vendo que aconteceu alguma coisa. Quer mudar de assunto?
Clara - Não, tudo bem. Sei que vou ter que falar sobre isso por algum tempo ainda - ela ia ficar sabendo mais cedo ou mais tarde, preferia que fosse por mim já que estávamos iniciando uma amizade que tinha tudo para ser verdadeira -
Gio - Sua voz está me deixando preocupada. Sei que não deve ter nada a ver, mas é algo com seu avô?
Clara - Não, com ele continua tudo igual. Só tirei a pulseira porque... - minha voz falhou. Eu falhei, a primeira lágrima rolou, limpei-a rapidamente antes que as outras achassem que podiam rolar também e a Gio ficou sem entender nada - Você sabe quando ganhei...
Gio - Quando o Neymar te pediu em namoro? Lembro quando você chegou aqui me contando como foi
Clara - Exato. Então não fazia mais sentido continuar com ela se o namoro não existe mais
Gio - O namoro não existe mais? Oi?
Clara - Não - ela ficou olhando pra mim, bastante surpresa mas visivelmente constrangida, sem saber o que falar - Tudo bem, Gio. Uns relacionamentos acabam, outros começam e o mundo continua girando - tentei amenizar o clima -
Gio - Tá, olha... - ficou meio atrapalhada e eu sorri um pouco com a sua falta de jeito em relação a um assunto tão delicado - Estou vendo que você não está confortável falando disso, mas... Quando quiser e se quiser, já sabe
Clara - Eu sei. Obrigada - sorri. Não me espantei ao perceber que a pouca vontade que tinha de comer, sumiu depois da conversa, mas tentei, comi até onde deu - E o Joãozinho?
Gio - Ah! Acordou tão feliz hoje. Se pudesse passaria o dia todinho com ele - sorriu de um jeito lindo, sei porque também devo sorrir assim falando da minha boneca - Toda hora me pego imaginando como está o espaço da festa. Até ontem só o painel e as coisas maiores estavam montadas, não entendo muito dessas coisas - riu - E a minha irmã ainda disse que preparou uma surpresa pra ele mas se recusa a me dizer o que é
Clara - O tema vai ser aquele mesmo que tu já tinha dito?
Gio - Sim, ele adora aqueles palhaços e eu nem sei distinguir quem é quem - gargalhou - Você e a Duda vão né?
Clara - Vamos estar lá sim, pode ficar tranquila - ela sorriu. Falamos mais um pouco sobre o aniversário e quando o nosso horário de almoço terminou, ela levantou e pegou a bandeja - Vai fazer o que?
Gio - Levar lá pra baixo
Clara - Claro que não. Você já fez o favor de trazer, pode deixar que eu levo - levantei também -
Gio - Tem certeza? É que... bom, você sabe. Hoje todos os jogadores estão aí
Clara - Eu sei - respondi muito mais abalada do que aparentei estar - Mas pode deixar que eu levo. O horário de almoço já terminou, o restaurante deve estar esvaziando - na verdade, queria muito mudar de ideia e implorar pra que fosse ela a levar aquela bandeja mas não fiz isso. Ia passar por uma prova de fogo correndo sérios riscos de me queimar feio. Mas o fato é que, o Júnior e eu teríamos que conviver no mesmo ambiente o tempo (quase) todo, não só no trabalho, em casa também, não havia escapatória possível e não fazia a menor ideia de como seria isso, mas teria que aprender a lidar. Minha avó sempre diz: "Se seu problema não tem solução, aprenda a conviver com ele!" Então, vamos lá. Peguei a bendita bandeja e desci o mais rápido que pude, só não corri porque iam me chamar de maluca, entrei no restaurante quase de olhos fechados e.. estava quase vazio. Respirei de alívio. Apenas alguns jogadores que conheço de longe estavam ali ainda, dei um boa tarde coletivo, coloquei a bandeja no lugar, aproveitei pra dar um oi ao pessoal da cozinha porque adoro eles e saí do restaurante agradecendo à Deus por ter me poupado temporariamente de um reencontro, que infelizmente seria inevitável, mas que podia esperar, certo? Errado! Devo ser muito azarada mesmo, porque já estava perto da escada, quase chegando onde devia ter ficado, quando ele saiu daquela que chamo de sala do Piratinha. Ai, merda! Por que justo naquele momento? Por que não demorei mais falando com o pessoal da cozinha? Será que mesmo assim íamos nos encontrar? Com a sorte que eu tenho, não duvido. Ele não me viu logo, eu poderia ter subido correndo sem me importar com quem me chamaria de maluca, mas empaquei. E pior fiquei quando nossos olhares se encontraram. Não me surpreendi quando as minhas pernas cambalearam um pouco e minhas mãos começaram a suar frio, isso sem falar no reboliço que estava no meu estômago. Tudo continuava igual, por dentro. Porque por fora parecíamos ter declarado uma guerra, o perdedor seria quem desviasse o olhar primeiro e eu não estava disposta a fazer isso, muito pelo contrário, olhar pra ele sempre foi um prazer pra mim e mesmo diante das circunstâncias, meu coração parecia gostar do que via. Notei a surpresa estampada no seu rosto, seu olhar também me percorreu de cima a baixo, percebi que demorou um pouco mais olhando para onde devia estar uma certa pulseira (coincidência ou não, era a minha mão machucada), sua boca tentou falar algo umas duas vezes mas desistiu. Ele parecia cansado, como se tivesse dormido pouco... mas isso não era mais da minha conta. O momento quase hipnótico terminou quando sua boca deixou claro que queria sim falar algo, e eu esperei (que fosse até um simples e indiferente boa tarde) mas novamente, não saiu nada. Ele respirou fundo e passou por mim tão rápido que quando olhei pra trás não o vi mais, apenas o seu perfume estava ali ainda. Suspirei frustrada, e derrotada porque no final nenhum de nós dois vencemos nada. Sua indiferença doeu tanto que eu só queria chorar, precisava chorar, e dessa vez não ia dar pra segurar. Ia entrar no banheiro ali do térreo mesmo mas desisti assim que lembrei que o feminino ficava próximo do depósito dos produtos de limpeza, as lembranças que tinha daquele lugar iam me deixar pior ainda. Sem outra alternativa, segurei o choro e subi, entrei no banheiro feminino e assim que fechei a porta, deixei as lágrimas rolarem sem piedade. Se continuasse segurando por mais tempo era bem capaz de me afogar por dentro, sem brincadeira. Fui muito burra (mais uma vez) por pensar que poderíamos agir naturalmente só por estarmos no nosso local trabalho, até parece que sentimento escolhe lugar para aparecer e pode ser controlado. Quando me recompus, lavei o rosto e subi novamente, os meninos já estavam na sala, acho que por esse motivo a Gio só me olhou mas não perguntou nada, nem precisava.
    ****
No final da tarde, os jogadores do Peixe receberam a visita das crianças do Cerex (Centro de Recuperação para Excepcionais) e foi uma festa, da nossa sala podíamos ouvir muitos risos, e em outra ocasião, eu teria ficado e tiraria várias fotos, mas por motivos óbvios, assim que deu meu horário, me despedi dos meninos, disse um até logo pra Gio e desci. Por causa da bagunça das crianças, passei despercebida, ainda bem. Sabia que muito provavelmente a Manu já estaria me esperando, e não errei. Que bom que ela nem saiu do estacionamento, ou a Duda ia querer ir pro campo também. 
Manu - Acabamos de chegar, já íamos entrar
Clara - Que bom que me adiantei - falei baixinho mas creio que ela ouviu - Tudo certo no balé, pequena? - abaixei para lhe dá um beijo, ela sorriu e assentiu -
Manu - Vamos, então?
Clara - Sim, mas preciso fazer uma coisa antes de ir pro apê
Manu - O quê?
Clara - O aniversário do filho da Gio é hoje e acredite, eu ainda não comprei o presente dele - riu -
Manu - Partiu, shopping?
Clara - Pode ser - ela entrou no carro, e depois de verificar que a Duda estava bem presa ao cinto de segurança (Manu não tinha cadeirinha), fiz o mesmo. Chegamos ao Shopping Balneário trinta minutos depois. Eu não sabia o que comprar, se já sou indecisa para comprar coisas pra mim, imagina só para outras pessoas. Indecisão duplicada! Entramos em várias lojas de moda infantil, calçados e por fim, em uma de brinquedos. Gostei logo de cara de um tapetinho musical da Pimpolho, super interativo, com um sistema de sons embutido que emitia diferentes melodias quando a criança pressionava alguma figura, um material resistente e durável, de fácil limpeza e manuseio. Perfeito! Como havia vários modelos masculinos, pedi pra Duda escolher um, e ela, muito empolgada, optou por um verde, as figuras eram de animais fofinhos, parecia uma mini fazendinha. Pegamos um fila básica, paguei, e já pedi para embrulharem para presente, depois fomos ao McDonald's. Ainda não estava com fome, mas pedi o mesmo que a Manu: um mcwrap e coca zero. E quando os pedidos chegaram, a Duda ficou estérica de felicidade porque seu McLanche Feliz tinha como brinde um brinquedinho do desenho My Little Pony. Sua felicidade é sempre tão linda de se ver, faz meu dia valer a pena. Comemos e fomos embora logo em seguida porque já tinha anoitecido e se o trânsito não nos ajudasse, íamos chegar na festa quando ela estivesse terminando. Quando chegamos no apê, a Manu se encarregou de arrumar a Dudoca e deixou pra mim apenas a tarefa de escolher a roupa dela. Peguei um vestidinho poá manga longa e uma bota molekinha, deixei tudo separado e fui pro meu quarto. Tirei o casaco, escolhi uma roupa pra mim também, estirei-a na cama e antes de entrar no banheiro, liguei pra minha mãe. Ela me disse que ficou decidido que meu avô iria pra casa na terça mesmo, conversamos por alguns minutos, mas me despedi dela antes que o foco da conversa deixasse de ser o meu avô e passasse a ser eu. Se começasse a falar sabia muito bem como ia acabar... Entrei, enfim, no banheiro e dei de cara com um espelho novo. Emanuelle, claro! Diferente do anterior, o novo era redondo, bem mais delicado, transmitindo uma sensação de descontração, valorizando o espaço da bancada, mas chamando a atenção para ele. Percebi também que ele ampliou a sensação do espaço do meu banheiro, que não é tão grande assim, e melhorou a iluminação do ambiente. Não fazia ideia de que um espelho pudesse fazer tanta diferença. No espaço que tinha ficado vago, já que o antigo era quadrado, ela colocou um adesivo decorativo floral lindo, deixando a decoração ali ainda mais leve. Quase não parecia o mesmo lugar. Sorri um pouco, as vezes me pergunto se realmente mereço os amigos maravilhosos que tenho. Tomei banho (dessa vez não deixei a mão quase do lado de fora do box, mas evitei molhá-la), me enxuguei, passei hidratante no corpo, voltei pro quarto e me vesti. Calcei minhas botas cano curto, até tentei fazer um rabo de cavalo no cabelo mas não consegui, então deixei-o solto mesmo, me perfumei e passei apenas um gloss incolor nos lábios; não ia me arriscar a usar um lápis de olho com a mão esquerda. Peguei a sacola com o presente do João, o convite para saber o endereço, meu celular e saí do quarto, a Manu já estava trabalhando na mesa de jantar e a Dudoca assistindo algo, sinal de que demorei mais do que devia -
Manu - Uau! - assobiou - Vocês vão arrasar nessa festa, estão lindas - sim, minha menina estava lindíssima, mas isso não é novidade -
Clara - Obrigada. Não quer mesmo ir? A Gio não se importaria
Manu - É um convite tentador, amo festinhas de criança - riu - Mas prefiro ficar aqui terminando alguns rascunhos. A Duda vai trazer docinhos pra mim, não vai amor? - ela riu, mas concordou -
Clara - Tudo bem. Não vamos voltar tarde - dei um beijo no seu rosto - Obrigada pelo espelho - sorriu e piscou, a Duda também se despediu dela e descemos. Esperamos uns dez minutos por um táxi, passei o endereço para o motorista e rapidamente chegamos a casa de festas, que parecia já estar bem animada. Paguei, saímos do carro, segurei a mãozinha dela e entramos no local. Estava cheio. O salão de festas parecia um verdadeiro circo, uma coisa linda. Cada detalhe muito bem pensado e colocado em lugares estratégicos, a mesa de doces estava divina, os cupcakes tão fofinhos que eu teria até pena de comer, a Duda ficou encantada pelos potinhos de jujubas, claro, mas também ficou impressionada com o tamanho do bolo, confesso que eu também. Só depois que vimos quase tudo, consegui achar a Gio... vestida de palhaça também, assim como seu baby -
Gio - Não basta ser mamãe, é preciso pintar o rosto pra ele achar que sou o Patatá - rimos. O João estava bastante animado, feliz mesmo, depois que ganhou o presente da Dudoca, deu dois beijos melados de doce nela e em mim e agradeceu do seu jeitinho. Dois aninhos de pura fofura. Minha filha logo me abandonou para se juntar as crianças que estavam se divertindo nos brinquedos disponíveis, mas não fiquei completamente só, a Gio me apresentou a algumas pessoas da sua família e o pai do João, todos bem espontâneos e simpáticos. Um tempinho depois o Caio, o Pedro e Luciana também chegaram, então ficamos juntos em uma mesa e fomos muito bem servidos. No meio da festa, eis que surge a surpresa que a irmã da Gio preparou: o tema da festa ao vivo e em cores, Patati e Patatá para o delírio da criançada. Eles cantaram, dançaram, organizaram brincadeiras, e até selfies fizeram, só se despediram depois do parabéns pra você. Antes das 23h, chamei a Duda (sim, desde que chegou ela não parou quieta, estava bastante suada e com uma sacolinha bem fofa em forma de palhaço cheia de doces) para também nos despedir da Gio e do Joãozinho, que estavam com sorrisos enormes (tiramos algumas fotos antes disso, e posso dizer que ele gostou do meu colo, um apego), não queria ficar tarde da noite esperando por um táxi. Mas os meninos também decidiram ir embora, então nada mais justo que um deles nos dá uma carona. O Caio se disponibilizou, e nos deixou em frente ao prédio, agradeci, ele foi embora e nós subimos. A Manu ainda estava na sala, trabalhando, mas parou tudo que estava fazendo para ouvir um pequeno resumo do que foi a festa, contado pelo ponto de vista da Duda, o que lhe rendeu bons risos, principalmente quando ela falou que tirou foto com o Patati e o Patatá, e que eles eram lindos de perto. Ouvi tudo sentada no sofá, dando um pouco de atenção ao Luck. Quando terminou de falar, deu alguns docinhos a Manu e deitou no meu colo, eu sabia que ela estava bem cansada. Consegui convencê-la a ir pro quarto, lhe dei um banho morno, vesti seu pijama e enquanto escovava os dentes, peguei o livro pra saber onde tinha parado da última vez. Não li nem quatro páginas e meu anjinho já estava dormindo tranquilamente. Dei um beijinho na testa dela, ajeitei seu cobertor, deixei só o abaju aceso e fui pro meu quarto. Estava tirando as botas quando a Manu entrou -
Manu - Acho que preciso te contar uma coisa - sentou ao meu lado na cama -
Clara - Fala
Manu - É que não sei como - franzi a testa -
Clara - Por quê?
Manu - O Júnior ligou pra mim hoje - falou rapidamente. Eu não disse nada e tentei manter uma expressão neutra, como se aquilo não me afetasse em nada - Queria saber se eu estava com a Duda pra falar com ela
Clara - E eu achando que a covarde sou eu... - pensei alto -
Manu - Como?
Clara - Nada, esquece
Manu - Eu deixei eles conversarem. Tudo bem?
Clara - Claro. Não quero de jeito nenhum que a relação dela com ele mude
Manu - Hum, tem mais uma coisa
Clara - Que foi?
Manu - Não aguentei e falei umas coisinhas pra ele também
Clara - Que coisinhas, Manu?
Manu - Nada demais
Clara - Não tem como ser mais clara?
Manu - Nada que ele não tenha merecido
Clara - Não precisava disso
Manu - É, talvez não. Mas ele sabe que mereceu porque ouviu tudo sem retorquir - não queria nem imaginar as coisinhas que ela disse pra ele, com certeza não foi nada agradável, por isso que ela não fez comigo por perto porque eu não deixaria - Mas mudando de assunto, quer dizer, não totalmente... Quando chegamos no CT, a Duda perguntou se ele estava lá. Eu disse que não. Estava?
Clara - Estava
Manu - Vocês se viram?
Clara - Sim - sua cara de surpresa era impagável -
Manu - E como foi?
Clara - Parece que vou reviver aquele período de quando voltei pra Santos, lembra?
Manu - Claro
Clara - Então, hoje foi igualmente horrível - e foi só o primeiro. A minha única certeza é que muitos outros encontros ainda viriam, e eu não estaria preparada para nenhum deles.



Me tirem uma pequena dúvida: vocês preferem um final premeditado, tipo, que eu avise ou preferem algo surpresa. Vocês estão lendo um capítulo e de repente: The End. Hahahaha, respondam, please! 
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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Capítulo 56 - “E sempre se soube que o amor não conhece sua própria profundidade até a hora da separação”


Acordei no domingo com a sensação de que tinha dormido por séculos. Minha cabeça estava pesada e minha mão estremeceu quando, sem querer (e porque esqueci também) tentei levantar apoiando as duas mãos na cama. Respirei fundo, me segurando para não falar nenhuma besteira logo pela manhã pra não correr o risco de piorar o meu dia, que já não tinha nenhum motivo para ser alegre. Levantei e foi um sacrifício arrumar a cama apenas com a mão esquerda (na verdade, descobri que é um sacrifício fazer qualquer coisa só com a mão esquerda), mas odeio vê-la desarrumada, então com um pouco de paciência consegui deixá-la, no mínimo, ajeitadinha. Depois olhei para o urso que dormiu comigo, suspirei e balancei a cabeça. Eu realmente não tenho jeito! Entrei no banheiro, me despi, e tomei uma ducha com a mão direita quase do lado de fora do box para evitar molhá-la porque do jeito que sou estabanada... Enfim, me enrolei na toalha e escovei os dentes. Voltei pro quarto, me vesti rapidamente, calcei o primeiro par de tênis que achei e fiz um rabo de cavalo no cabelo, que por sinal estava horrível. Olhei pro meu celular e pensei em deixá-lo no mesmo lugar, queria pelo menos tentar me sentir um pouco à parte do resto do mundo, mas desisti dessa ideia antes mesmo de colocá-la em prática porque cheguei a conclusão de que isso não ajudaria em nada. Peguei-o, abri as persianas e vi que o dia estava meio indefinido ainda; o sol estava presente mas rodeado de nuvens. Tudo bem, isso não atrapalharia meus planos. Passei na cozinha apenas para tomar meio copo de iogurte, peguei a coleira do Luck na área de serviço e fui procurá-lo. Encontrei-o na sala, perto da varanda com a sua bolinha verde predileta. 
Clara - E aí, garotão, quer ir caminhar comigo? - ele me olhou quando ouviu minha voz, largou a bolinha e começou a balançar o rabo quando viu a coleira. É um rueiro mesmo! Coloquei-a nele, peguei minha chave e saímos. Chamei o elevador e descemos junto com uma senhora e uma garotinha que eu conhecia por ser coleguinha da minha pequena. Ambas me deram bom dia e eu sorri como resposta. Foi o que, com o tempo, a vida me ensinou: distribuir sorrisos sem olhar a quem. Afinal, ninguém tinha nada a ver com os meus problemas. Chegamos ao térreo, e a garotinha deu um tchauzinho tímido pra mim e pro Luck. Dei bom dia ao porteiro também e saí do prédio com meu filhote. Tinha um destino certo em mente e mesmo sabendo que teria que andar pra caramba, não alterei-o. Fui caminhando devagar com o Luck, parando às vezes pra ele fazer suas necessidades ou para paquerar alguma cadelinha. Quando chegamos a Aparecida, descemos para areia e o soltei para ele correr e ir pro mar enquanto não tinha muita gente por ali. Eu também queria muito um mergulho mas revirei os olhos ao lembrar que não podia. Sentei, e quando ele saiu do mar, todo feliz, espalhando salpicos de água para todos os lados, peguei um pedaço pequeno de galho que achei na areia e joguei longe, nem precisei mandar; ele foi correndo pegar. Fiz isso inúmeras vezes, até que ele cansou e deitou ao meu lado, ditando o fim da brincadeira. A praia estava começando a encher e eu não conseguia entender o porquê, já que o sol estava ainda mais tímido do que quando saí de casa, tanto que eu não me espantaria se começasse a chover. Eu particularmente só gosto de ir a praia quando o sol me convida - Vamos embora, filhote? - baguncei ainda mais seus pelos, mas ele gostou e ficou de barriga pra cima pra receber mais afagos. Sorri um pouco e fiz o que queria. Uma mulher parou ao meu lado e depois de um tempo passou a me observar atentamente, como se estivesse tentando me reconhecer. Estava começando a me incomodar com aquilo quando olhei-a e sua camisa da torcida feminina do Santos me chamou a atenção -
XxX - Você é a namorada do Neymar, não é? - pisquei algumas vezes, meio atordoada. Ai, meu Deus! Abri e fechei a boca mas não saiu nada, de repente parecia até que nem sabia falar. Por que era tão difícil colocar em palavras a realidade? Olhei pro Luck e percebi que ele já estava com as orelhinhas em pé, avaliando a mulher sem sair do lugar. Olhei-a novamente, à principio até pensei que já a conhecia de algum lugar e ela sorriu sem se importar com a minha demora em responder - Me chamo Vilma, mas todos me conhecem por Vilminha Santista. Você trabalha no CT, certo? Já deve ter me visto ou ouvido falar de mim por lá - seu sorriso ampliou-se e sua voz era carregada de orgulho -
Clara - Ah, sim. Seu rosto e seu nome não são mesmo totalmente desconhecidos pra mim
Vilma - Desculpa incomodar mas te reconheci e não consegui me segurar. Seu avô está bem? - outra pergunta que me paralisou um pouco. Precisei de alguns segundos de raciocínio lógico para lembrar que o caso do meu avô não era mais algo privado -
Clara - Sim, está no aguardo ainda
Vilma - Certamente logo aparecerá alguém - assenti - Foi muito bonito o que você e o nosso menino fizeram. Vocês levantaram um assunto importante, que não pode ficar esquecido, e até eu, depois de pensar um pouco, resolvi doar. Não custa nada - não precisei perguntar pra saber quem era o nosso menino, bastava somar um mais um (mesmo que ele não fosse mais tão nosso assim) -
Clara - Fico feliz em saber disso. Fazer o bem é bom - ela concordou com um aceno, depois estendeu uma mão pra mim. Surpresa, limpei a minha esquerda que estava suja de areia e ela apertou-a levemente -
Vilma - Foi um prazer. Que seu avô fique bem logo - sorriu e me vi retribuindo sem precisar muito esforço -
Clara - Obrigada - ela foi se afastando, e aí me dei conta de que realmente a conhecia de vista, lembrei até do Pedro comentando que no CT todos gostam dela e agora já entendia o motivo: sua simpatia é admirável mesmo. Por mais que tenha me deixado em um beco sem saída com a primeira pergunta que fez... ou melhor, com saída, mas eu não queria de jeito nenhum ter que passar por ela. Esse era o problema. Suspirei e levantei, tinha que estar em casa na hora de tomar o anti-inflamatório de novo - Vem, Luck - ele levantou também, e se sacudiu um pouco. Coloquei sua coleira, subimos para calçada, comprei uma água de coco, bebi no quiosque mesmo, depois fizemos nosso caminho de volta. Quando chegamos no prédio, passei na portaria, interfonei pro apê pra saber se a Manu já estava acordada e ela atendeu. Pedi pra descer com as coisinhas de banho do Luck e cinco minutos depois ela já estava na minha frente -
Manu - Pode subir, eu cuido dele - piscou. Queria mesmo um bom banho, por isso nem resmunguei, só agradeci e subi. O Gil estava largadão no sofá e sorriu assim que me viu -
Clara - Bom dia, Cebola
Gil - Bom dia, pequena
Clara - Apelido bem propício - não contive a ironia e ele gargalhou - Vou tomar um banho, já volto - assentiu enquanto pegava o controle da TV. Fui pro meu quarto, e como sempre acontecia quando entrava nele desde o episódio da manhã anterior, a sensação era excruciante. Não ia me acostumar ou esquecer, teria apenas que suportar e superar. Fui direto pro banheiro, coloquei o celular em cima da pia, tirei o tênis que estava cheio de areia, e a roupa também que já estava colando em meu corpo de tanto suor. Tomei um banho morno e rápido, me enxuguei e me vesti, com o cabelo eu me acertava depois. Peguei o celular, fui à cozinha tomar o remédio e voltei pra sala -
Gil - O que houve? - olhou pra minha mão -
Clara - A Manu não te contou?
Gil - Não. Era pra contar?
Clara - Não. Não foi nada demais, me cortei apenas - mostrei o meu melhor sorriso fingido -
Gil - Como você está? - perguntou com receio, mas eu já estava esperando. Incrível como uma pergunta aparentemente simples, despertam todos aqueles sentimentos que você achava já estar adormecidos -
Clara - Já vi que vou ter que me preparar psicologicamente para ouvir bastante essa perguntinha nos próximos dias - pensei alto demais - Estou bem, por que? - me olhou sem saber o que falar, aproveitei isso para virar o jogo a meu favor ou eu sairia perdendo - Bom, e o seu amigo, como está? - seu olhar agora era que nem o da enfermeira quando lhe disse que tinha quebrado um espelho -
Gil - O que?
Clara - Ai, isso é ridículo. Até parece que não o conheço, me deixa refazer a pergunta: E o Júnior, como está?
Gil - É sério isso?
Clara - É sério. Isso de ficar perguntando se eu estou bem é horrível. Não é a primeira vez que ouço, nem vai ser a última, eu sei, mas e pra ele? Alguém pergunta? Só porque ele que terminou eu que tenho que estar na fossa? Ah, faça-me o favor - nem o Gil acreditou no que ouviu e franziu a testa. Estava ciente de que eu não estava falando coisa com coisa, mas a verdade era uma só: eu queria saber como ele estava, queria mesmo, queria muito. Talvez fosse meio irracional, mas não sabia dizer ao certo. Se estivesse de frente para Tati Bernardi tenho certeza que ela diria algo como: “É engraçado como alguém pode partir o seu coração e você ainda amá-lo com todos os pedaços partidos.” -
Gil - Clara? Você está bem?
Clara - Você ainda não me respondeu
Gil - Nem vou responder
Clara - Tudo bem - encolhi os ombros, como se aquilo fosse indiferente pra mim quando na verdade só queria me enfiar em um buraco bem fundo e nem era por vergonha, só queria sumir mesmo por ser muito idiota. Do que adiantou virar o jogo a meu favor? Perdi do mesmo jeito, como sempre -
Gil - Ei? - olhei-o, pisquei e a primeira lágrima rolou. Por quê? Estava me saindo tão bem, não? - Vem aqui - se ajeitou no sofá e deixou um espacinho ao seu lado pra mim, saí da poltrona e ocupei-o. Recebi o seu abraço na mesma hora - Essa não é você
Clara - Eu nem sei mais quem eu sou, Gil. Me perdi completamente no meio de uma discussãozinha ridícula ontem de manhã no meu quarto e sei lá se ainda vou me encontrar de novo
Gil - É claro que vai - não contestei, queria acreditar nisso também. Então apenas aproveitei o seu abraço, ele enxugou minhas lágrimas quando me soltou e sorriu carinhosamente - Não vou te falar dele porque sou amigo dos dois e tenho certeza que ficaria bem encrencado se falasse de você pra ele - ok, ele tinha razão, meu orgulho ferido não ia gostar nada disso. Ele tinha toda razão, e eu não deveria querer saber de nada, até porque ouvir um "Ele está bem" ia acabar comigo de vez e ouvir "Ele está mal" seria três vezes pior. Desde quando me tornei masoquista? Não! -
Clara - Ficaria mesmo - riu - Que bom que nós temos você, então - sorriu novamente - Agora chega dessa conversa esquisita. Não quero estragar teu dia com a minha fossa - pisquei discretamente e sorri um pouco. Às vezes é bom falar, mesmo que seja besteira, alivia. Sim, porque eu realmente estava na fossa e nada do que eu mesma dissesse ia mudar isso. Quero dizer, fisicamente estava bem, apesar de algumas dores na mão, mas bem. Só que o resto... psicologicamente, emocionalmente e até mesmo romanticamente... não podia estar pior. Propus que mudássemos de assunto e passamos a falar sobre o seu trabalho. A Manu e o Luck subiram; ele quase todo seco e cheiroso, ela completamente molhada -
Gil - Quem deu banho em quem, amor? Está meio difícil de entender - gargalhou e ela fuzilou-o com os olhos -
Manu - Da próxima vez você é quem vai dar banho nele, pode esperar - saiu da sala rindo também e deve ter ido trocar de roupa -
Clara - Você gosta de provocar a onça, né?
Gil - Só um pouquinho - riu e eu balancei a cabeça. Dois doidos! Dez minutinhos depois a Manu apareceu já devidamente seca e eles foram ao supermercado porque a situação da dispensa já era um pouco precária. Só lembramos de fazer compras em cima da hora mesmo. Depois que eles saíram a casa voltou a ficar totalmente silenciosa, e as saudades da minha pequena aumentaram de forma drástica, então peguei um livro e fui ler no quarto dela, pelo menos ali a sua presença era quase palpável. Eu amava cada cantinho daquele quarto porque tudo era muito... Eduarda. Sentei na sua cama, e abri o livro novinho que tirei da prateleira ,“Easy” da Tammara Webber, mas só tive tempo mesmo de ler a dedicatória porque a campainha tocou -
Clara - Ué, nem interfonaram - estranhei. Levantei e fui pra sala. Abri a porta e como não estava esperando, a surpresa foi grande mas não posso negar, muito agradável - Tia! - não sei explicar mas vê-la despertou ainda mais a avalanche de emoções dentro de mim -
Tia Ná - Posso entrar? - sorriu levemente. Aonde será que eu já tinha visto um sorriso parecido com aquele? E por que será que ele mexia tanto comigo? -
Clara - Claro, por favor - dei passagem pra ela e fechei a porta em seguida -
Tia Ná - A Dudoca está com a Débora ainda?
Clara - Está. Vou trazê-la mais tarde - mordi o lábio inferior receosa e, lá no fundo, com uma certa vergonha, afinal... ela só podia estar ali por um motivo. E o pior, eu não retornei suas ligações - Senta, tia. Você sabe que não precisa fazer nenhuma cerimônia aqui. Quer alguma coisa? - ela riu um pouco, sentou-se e pediu pra que eu sentasse ao seu lado -
Tia Ná - O que aconteceu? - pegou delicadamente na minha mão enfaixada e me olhou preocupada. Fiquei tentada a lhe contar a verdade mas nem sabia como, sentia vontade de chorar só de lembrar -
Clara - Me cortei, desastrada como sempre... - tentei sorrir e ela assentiu depois de alguns segundos, não insistiu -
Tia Ná - Como você está? - perguntou séria mas com a sua voz calma de sempre. Fechei os olhos e respirei fundo, sério, essa simples pergunta não me fazia bem -
Clara - Tia... se você veio aqui a mando do seu filho, com a intenção de defendê-lo ou justificá-lo...
Tia Ná - Não - ela me interrompeu - Não vim aqui a mando de ninguém. Não posso dizer que ele não sabe que estou aqui, porque sabe - pegou a minha mão - Mas vim aqui por conta própria, não pra defendê-lo ou justificá-lo... Vim apenas te dá o meu colo, se você quiser, e te ouvir, caso queira falar comigo. Porque aconteça o que acontecer, você não vai deixar de ser a minha filha e a mãe do meu pequeno tesouro - as lágrimas começaram a brotar e nem sabia se era por causa das suas palavras, do seu jeito materno de falar comigo ou pela forma carinhosa que acarinhava minha mão. Devia ser por tudo - Então, será que posso ficar? - sorriu de novo (abalando todas as minhas estruturas com um sorriso parecidíssimo com o do seu filho) ao ver minha falta de reação e eu fiz aquilo que estava querendo desde que a vi na minha porta: abracei-a. Forte, apertado, com vontade de não soltá-la mais. Depois... contei tudo que ela já sabia, só que do meu ponto de vista, falei tudo que queria, tudo que sentia e ela não me interrompeu em nenhum momento, me ouviu atentamente, concordando com tudo. Não ousou defendê-lo, aliás, nem sequer pronunciou o nome dele, estava ali realmente, pra mim e por mim e isso me fazia amar ainda mais a mulher que estava diante de mim - E é isso, de ontem pra hoje descobri que a minha vida é mais irônica do que eu mesma, porque quem mais tinha que ficar nela, foi embora - concluí o meu desabafo e suspirei. Ela pegou a minha mão novamente e olhou nos meus olhos -
Tia Ná - Quero que preste bastante atenção ao que vou te dizer agora e lembre disso quando achar que não vai aguentar mais - assenti calmamente - Deus não permite que chova para abalar uma flor, pelo contrário, Ele permite que chova para então regar a flor, e torná-la maior e mais forte. Assim como a intenção Dele não é que as lutas abalem tua fé, mas que nas lutas tua fé seja exercitada e fortalecida. E você, meu amor, eu tenho certeza que é uma das flores mais lindas do jardim Dele - foi impossível não me emocionar, queria até sorrir mas as lágrimas eram mais teimosas e mais rápidas - Você vai superar tudo isso, vai dá a volta por cima e vai ser feliz, muito feliz. Não sei se o meu filho vai fazer parte dessa felicidade, mas você vai ser feliz. Você merece ser - duas lágrimas rolaram pelo seu rosto quando disse isso e vê-la chorando foi... estranho... horrível. Quase não acreditei. Abracei-a de novo e dessa vez eu apertei-a contra mim - Não esquece disso - sussurrou com a voz falhando. Só consegui concordar com um aceno e desfiz o abraço apenas quando percebi que ela já estava mais calma e seu choro havia cessado. De triste já bastava eu, não queria vê-la daquele jeito - Desculpa - enxugou suas lágrimas e se recompôs rapidinho - E o seu avô?
Clara - Ah, está na mesma mas acho que semana que vem vai poder ir pra casa. Só a hipótese já o deixou bem animado - rimos levemente - Espero que ela se confirme
Tia Ná - Também espero que sim. Se passar uma noite no hospital já é desconfortável, dias deve ser insuportável
Clara - É o que ele vive repetindo
Tia Ná - E vai vê-lo hoje?
Clara - Vou, depois do almoço
Tia Ná - Diga a ele que passo lá de novo assim que der - levantou e eu fiz o mesmo - Mas vou torcer para que na minha próxima visita ele já esteja em casa - sorri - Agora eu vou indo
Clara - Nem sei como agradecer por ter vindo aqui
Tia Ná - Bom, eu sei. Sorria - e foi instintivo, eu sorri e ela também - As portas da minha casa vão estar sempre abertas pra você. Sempre. Entendeu? - assenti - Se cuida - olhou pra minha mão machucada, depois deu um beijo na minha testa -
Clara - Obrigada - era a única coisa que me restava falar. Dei um beijo em seu rosto também e levei-a até a porta -
Tia Ná - Eu sei que disse que não ia fazer isso, mas posso te pedir uma única coisa?
Clara - Claro que pode - respondi sem entender muito bem -
Tia Ná - Não odeie o meu filho - fiquei inerte, abatida, não esperava ouvir isso. Queria ter dito que nem que eu quisesse ia consegui odiá-lo, mas ela já tinha ido embora. Fechei a porta e fiquei sem saber o que pensar. Ela nem citou o nome dele durante a nossa conversa (mesmo que eu ache "meu filho" uma forma ainda mais protetora de se referir a ele) mas pediu para eu não odiá-lo e nem esperou para ouvir uma resposta. Sinceramente, estava começando a achar que ia enlouquecer a qualquer momento. Minha vida deu uma reviravolta e resolveu ficar de cabeça pra baixo. Que caos! Voltei pro quarto da Dudoca e tentei continuar com o livro mas não tinha mais um pingo de concentração, então tive que deixá-lo de lado. Deitei e fiquei olhando para o teto cor de rosa, pensando em tudo que a tia me disse, e claro que a sua última frase era a que mais rondava a minha mente, me deixando angustiada demais pro meu gosto. Infelizmente o teto cor de rosa não tinha nenhuma resposta para as minhas milhares de perguntas, então cansei de fitá-lo e olhei justamente para o meu lado esquerdo, onde havia um porta-retrato lindo em cima da cabeceira. Uma foto da Duda comigo e com o Júnior no dia do aniversário dela. Três sorrisos inabaláveis, uma felicidade sem tamanho -
Clara - Quando é que vamos ter isso de novo? - me perguntei baixinho, depois me corrigi - Será que vamos ter isso de novo? - minha voz ficou embargada. Peguei o porta-retrato e abracei-o, coloquei bem pertinho do meu coração - Você não podia ter desistido tão fácil assim, não podia mesmo. Era pra ter lutado, insistido... o nosso amor tinha que ter sido mais forte que tudo - queria que ele me escutasse, queria tanto... mas só me restavam as fotos para para provar que tudo foi bem real, mesmo que não desse pra voltar atrás. Algumas coisas simplesmente não voltam mais. O tempo não volta. 
    ****
Quando meu casal predileto chegou, (reclamando horrores que o supermercado estava muito cheio e blá blá blá, mas o que eles esperavam de um começo de mês em pleno domingo, não é verdade?) fiquei com a impressão de que eles tinham feito a compra do ano, não do mês, mas ok, não falei nada. O almoço ficou por conta da Manu de novo mas fiquei na cozinha dando todas as instruções pra ela fazer um suflê de batatas, que no final ficou bem gostoso e pelo menos à princípio, não fez mal ao meu machucado. Comemos os três na sala mesmo depois ficamos assistindo um programa internacional do canal E!
Manu - Não quer ir pra casa dos meus pais com a gente? Acho que vamos pegar um cineminha mais tarde
Clara - Um típico programa de casais - torci a boca -
Manu - Ai, desculpa - fez uma careta bem engraçada, eu e o Gil rimos -
Clara - Não precisa se desculpar. Eu iria sim, e sentaria entre vocês dois - riram - Mas vou no hospital pra ver meu avô e trazer minha pequena
Manu - A gente te deixa lá então, né? - olhou pro Gil e ele concordou -
Clara - Não vai atrapalhar os planos de vocês?
Gil - Atrapalha nada, vai que horas? - olhei pro relógio, e vi que já eram 14h -
Clara - Vou só trocar de roupa rapidinho - tirei o Luck do meu colo e levantei - Não demoro - não esperei para ouvir a resposta deles e corri pro quarto. Se eles iam fazer o favor de me dá uma carona, eu não podia abusar. Troquei de roupa, penteei finalmente o cabelo como deveria e o deixei solto, coloquei o celular no bolso e voltei pra sala - Pronto
Gil - Dez minutos, nada mal - sorri pra ele. A Manu levantou e pegou as chaves. Dei um beijinho no meu filhote e saímos. Descemos na garagem, entramos no carro e ela deu partida. Fiquei calada durante boa parte do caminho. Sabia que teria outra conversa difícil pela frente, quero dizer, difícil pra mim. Mas tudo bem, pelo menos contava logo pra todos eles de uma vez. Quando chegamos ao estacionamento do hospital, saí do carro e me aproximei da janela do motorista -
Manu - Como vai voltar?
Clara - De táxi
Manu - Não quer que... - não deixei que terminasse -
Clara - Não. Quero apenas que você aproveite o seu domingo da melhor forma possível - sorriu -
Manu - Ok, mas qualquer coisa, me liga - revirei os olhos, mas assenti e dei um beijo no seu rosto. Pisquei pro Gil, que estava no banco do passageiro e ele retribuiu sorrindo. Esperei ela arrancar com o carro, e respirei fundo antes de finalmente entrar no hospital. A sensação de estar ali sozinha não era boa mas tentei não pensar nisso. Subi, falei com a recepcionista e ela me acompanhou até a porta do quarto. Bati, entrei e antes que eu pudesse prever, minha pequena já estava agarrada em minhas pernas, sorri e abaixei para abraçá-la. Só depois de muitos beijinhos e de ouvir a sua gargalhada gostosa, soltei-a. O quarto estava diferente da última vez que vi, o sofá-cama estava bem mais afastado da cama, e as cortinas eram azul bebê agora. Meus pais estavam de um lado da cama, e minha avó de outro. Meu avô estava com uma máscara porque o quarto estava cheio demais pra ele, e prevenir é melhor do que remediar sempre -
Clara - Oi - dei um beijo no rosto de todos eles e minha mãe logo reparou na minha mão -
Débora - O que foi isso? - perguntou alarmada, me olhando de cima a baixo, provavelmente procurando outros machucados. Calma, mãe! Sofri um acidente de amor, mas tô legal, só quebrei a cara (e a mão), pensei -
Clara - Nada demais, vocês sabem que sou o desastre em pessoa. Me cortei, só isso - a Duda pegou a minha mão e a avaliou -
Eduarda - Tá doendo, mãe?
Clara - Não, amor - beijei o topo da sua cabeça -
Murilo - Mas por que está enfaixada desse jeito? Foi sério?
Clara - É, talvez. Levei dois pontos - não queria falar, mas eles não iam deixar escapar nada mesmo -
Débora - Como foi que você se cortou? - acho que a minha mãe esqueceu a minha idade por alguns instantes, porque eu estava me sentindo uma criança ouvindo um sermão por ter feito algo errado -
Clara - Mãe, está tudo bem, sério - olhei de relance pra Duda pra ela perceber que não queria mais falar sobre aquilo. O que a minha filha ia pensar se soubesse que eu quebrei um espelho? Só queria esquecer esse episódio -
Marcos - E o Júnior? Por que não veio? - estava esperando por isso mas não posso negar, fiquei bastante desconcertada apenas por ouvir o nome dele -
Clara - Agora ele tem novas prioridades, não sei se vai ter tempo de vim aqui - ninguém entendeu o que eu disse, claro, me olharam como se eu estivesse falando por meio de códigos - Filha, senta ali um pouquinho - pedi, apontando para os sofá-cama, e achei que ia logo perguntar "Por que?", mas foi até lá, sentou e sorriu -
Eduarda - Posso brincar com o tablet por enquanto?
Clara - Pode, mas não deixa muito alto
Eduarda - Tá bom - pegou sua bolsa para tirá-lo de lá. Voltei a olhar para meus pais e avós e não enrolei mais -
Clara - Terminamos tudo, outra vez - falei em um tom mais baixo, mesmo sabendo que a Duda já devia estar entretida nos seus joguinhos (mesmo assim, olhei-a só para confirmar). Os quatro se entreolharam, depois olharam pra mim. Minha mãe foi a primeira a se pronunciar -
Débora - Como assim? Isso é sério?
Clara - É
Glória - Vocês brigaram?
Clara - Não sei se posso dizer isso porque até pra brigar é necessário um motivo, certo? E eu ainda estou à procura do que nos levou a isso - falávamos num tom de voz baixinho, perto do sussurro, e eles ainda me encaravam como se eu fosse um alienígena e estivesse dizendo que o mundo estava chegando ao fim (bom, eu não era um alien, mas estava contando que o meu mundo realmente tinha chegado ao fim) - Não me olhem assim. É como dizem, o relacionamento é uma corda onde duas pessoas tem que segurar as pontas. Então foi tipo isso, ele soltou, eu continuei segurando - tentei desvalorizar o que estava sentindo, sorrindo ironicamente mas falar sobre aquilo (e do jeito que estava falando) era muito mais do que desconfortável, era doloroso. Quando achava que já não podia doer mais, meu coração me mostrava que sim, podia doer. Estava doendo. Mas tinha que, mais uma vez, tentar se forte, não podia chorar ali ou a Duda ia desconfiar -
Débora - Não acredito nisso, minha filha - sua surpresa me comoveu -
Marcos - Foi por minha causa?
Clara - Vô, por favor, né?
Marcos - Tem que ter um motivo, não tem?
Clara - Sim. Mas esse motivo não é você - ele balançou a cabeça, resignado - Eu vou me sentir muito pior se você continuar pensando assim. Isso é o cúmulo do ridículo - ele concordou, mas sem me convencer muito -
Débora - A decepção vem de onde menos se espera - a tristeza na sua voz era nítida -
Murilo - Clara? - olhei-o - Conta essa história direito -
Clara - Ok - respirei fundo pela trigésima vez no dia, e falei bem resumidamente (e tomando cuidando para Duda não perceber do que estávamos falando) como foi a conversa direta que eu e o Júnior tivemos. Poupei-os de algumas coisas porque na verdade eu não queria ter que repeti-las. Concluí dizendo que ele me agradeceu antes de sair, e minha avó tinha um sorrisinho triste nos lábios -
Glória - E sempre se soube que o amor não conhece sua própria profundidade até a hora da separação - não entendi porque ela disse isso, mas de qualquer forma, não gostei de ouvir, ou pelo menos eu acho que não, porque meu coração ficou bem agitado e já não sabia se isso era bom, mas ela prosseguiu - Homens são todos iguais, não sabem se despedir mesmo. Preferem não falar mais a explicar suas fraquezas e lidam tão mal com o sofrimento - meu pai e meu avô olharam pra ela - Vocês bem sabem que estou falando uma bela verdade - disse muito convicta e olhou pra mim logo em seguida - Você nunca vê seu pai em prantos porque ele engole todas as lágrimas, e nunca vê seu avô emocionado porque ele prende a respiração e quando pode, se afasta. Homens, todos iguais - dessa vez eles nem a olharam, não ousaram desmenti-la também. Dona Glória e suas palavras sempre sábias -
Clara - O que você quer dizer com isso, vó? Porque eu continuo sem entender nada. É isso que as pessoas fazem quando amam? Vão embora?
Glória - Ah, minha neta... às vezes a gente tem que se afastar das pessoas que amamos, mas nem por isso nosso amor por elas é menor, aliás podemos chegar a amá-las ainda mais - franzi a testa sem entender nada, mas com a sensação de que já tinha ouvido aquilo antes -
Clara - Onde foi que você ouviu isso? Não tem lógica
Glória - Li em um livro - encolheu os ombros - Pode até não ter lógica mas você sabe que o amor desconhece essa palavrinha. Já conversamos sobre isso - estava ficando bem desconfortável ouvindo tudo aquilo, principalmente porque não estávamos sozinhas - Você passou anos longe dele. Não foram dias ou meses. E deixou de amá-lo?
Clara - É diferente - respondi muito surpresa com o rumo que ela estava dando a conversa - Eu fui embora por um motivo muito forte, você sabe
Glória - Acho que ele também deve ter tido um - disse muito calmamente e eu não estava conseguindo acreditar que ela estava defendendo o Júnior. Suponho que já dá pra perceber de onde vem todo o meu romantismo, certo? Minha avó, uma romântica totalmente irrecuperável -
Clara - E por que eu não sei que motivo é esse?
Glória - Ele só descobriu o seu "motivo" quase quatro anos depois... Então só o tempo vai lhe dizer o dele - fiquei imóvel, sem saber o que responder. Só a minha avó para comparar a minha vida com um livro, e só ela para confundir ainda mais a minha cabeça e o meu pobre coração. Não disse mais nada e eles ficaram me observando por um tempo -
Murilo - Quando é que ela vai ficar sabendo? - olhou discretamente pra Duda, que sorria pra algo no tablet - Porque ele teve lá em casa ontem e não disse nada nem pra gente
Clara - Não sei... pra ela nós somos o "casal perfeito", então vai ser meio difícil contar que isso não existe mais - minha voz falhou, então parei de falar. Não podia chorar, não ali na frente deles. Não precisava ser mais um motivo para eles se preocuparem, pelo menos naquele momento tinha que parecer estar bem, mesmo que isso fosse uma mentira deslavada. O clima no quarto não voltou a ser o mesmo, um silêncio estranho se instalou e ele só era quebrado pelo som do joguinho da Duda. Sabia, pela forma como me olhavam, que eles queriam fazer aquela perguntinha "Como você está?", mas não fizeram. Ainda bem. Não sei se ia consegui me segurar. Ouvimos duas batidas na porta e logo em seguida ela foi aberta pelo Dr. Marcelo -
Dr. Marcelo - Trago boas notícias - nossos semblantes mudaram rapidamente, essa simples frase podia significar muita coisa -
Clara - Apareceu um doador compatível?
Dr. Marcelo - Não, ainda não. Uma notícia boa de cada vez. Mas achei que gostariam de saber que o Seu Marcos vai ser liberado para ir pra casa
Marcos - Hoje?
Dr. Marcelo - É bem provável que seja amanhã, ou até mesmo na terça. Vamos apenas avaliar os resultados dos seus últimos exames
Marcos - Já é alguma coisa
Dr. Marcelo - Sim, é. Mas qualquer novidade ou imprevisto, volta pra cá imediatamente - ele revirou os olhos como uma criança mas concordou. Ficamos conversando, ou melhor, tirando dúvidas e mais dúvidas com o Dr. Marcelo, depois ele se retirou e o nosso horário de visitas terminou também. Pela primeira vez não nos despedimos tão tristonhos porque meu avô estava empolgado com a possibilidade de poder ir pra casa. Todos nós estávamos. E se isso realmente acontecesse, significaria que ele estava melhor do que quando precisou ser internado, qualquer melhora é importante e tem que ser considerada. Quando saímos do quarto, meu celular vibrou no bolso de trás. Peguei-o e entre algumas mensagens, respondi apenas a da Rafa. 
    Ei, quero te ver!!!!
    Está em casa???? 
Ainda não, mas estou chegando
    Posso ir lá?
Se levar doce pra mim, sim
    Por isso que eu te amo
Eu sei 
Meus pais não me deixaram pegar um táxi e me deram uma carona, por incrível que pareça ficamos calados o caminho inteiro, inclusive a Duda. Quando meu pai estacionou em frente ao prédio, dei um beijo no rosto dos dois, e peguei as duas mochilas da minha pequena, uma com roupas e a outra da escola. Ela se despediu deles também, saímos e o carro arrancou. Mal entramos no prédio e eu quase caí com um abraço que recebi, se não conhecesse aquele perfume ia me separar da pessoa imediatamente e chamá-la de louca. Não tive tempo nem de corresponder, então minhas mãos estavam presas no meio de nós duas, ou seja, a direita começou a doer um pouco.
Clara - Será que eu posso respirar? - ela me soltou -
Rafa - Desculpa, desculpa, desculpa - riu e me deu dois beijinhos carinhosos, depois carregou a Duda e encheu-a de beijos também - Sabe o que a tia comprou? - ela balançou a cabeça, divertida - Um monte de adesivos novos pra gente colar naquele parede lá no seu quarto - a Duda sorriu amplamente. Não sei o que é, mas a minha filha causa algum efeito nas pessoas, não sei qual, mas causa e é um efeito bom - O Big me deixou aqui agorinha também, achei que vocês iam demorar mais - disse enquanto caminhávamos para o elevador. Chamei-o, e entramos. Só aí ela percebeu a minha mão enfaixada e arregalou os olhos - Está pior do que como minha mãe disse - sorri de lado -
Clara - Não foi nada demais. Vem - o elevador parou no meu andar e saímos. Peguei a chave, abri a porta e como já era de se esperar, só o Luck estava em casa e fez uma tremenda festa com a Duda. Com a porta devidamente trancada, deixei-os na sala matando as saudades e fui com a Rafa levar as mochilas dela pro seu quarto, ainda separamos as roupas sujas das limpas, depois fomos para o meu. Joguei minha bolsa em um canto, ela tirou algo de dentro da dela e esticou pra mim - O que é?
Rafa - Pega logo - riu. Peguei a vasilha plástica, abri e eram cupcakes - Era essa a sua condição para eu poder vim aqui, certo?
Clara - Ah, sua besta - riu novamente - Obrigada - dei um beijo no seu rosto e sentei na cama para degustar as minhas delícias - Não quer, né? - gargalhou -
Rafa - Não. Minha mãe que fez, já comi demais - sentou ao meu lado -
Clara - Que bom - devorei um rapidinho, mas me lembrei de algo - Porque perguntou se podia vim aqui? Você sempre vem, até de surpresa
Rafa - Ah... você sabe. Sei lá - deixei os cupcakes de lado e olhei-a -
Clara - Foi o Júnior quem terminou comigo, Rafa. Eu não terminei com ninguém, muito menos com você. Deixa disso, ok? - ela assentiu e percebi que olhou para o mural de fotos, ou melhor, olhou para o quarto todo, depois para o meu pulso, onde a pulseira sempre ficava -
Rafa - Meu irmão é um imbecil, um idiota. Não sei o que ele tem naquela cabeça, sinceramente. Quase não acreditei quando soube o que aconteceu, e pior, pela minha mãe. Por isso precisava te ver
Clara - Rafa, vai com calma, vocês não brigaram, não é?
Rafa - Não, mas eu me recuso a falar com ele até que me diga o que o levou a fazer a maior burrada da vida dele - fiquei com um nó na garganta e nem sabia mais se ainda conseguiria comer os cupcakes -
Clara - Não faz isso, por favor
Rafa - Como é que você consegue estar do lado dele ainda?
Clara - Não estou do lado dele, estou do meu lado. Vou me sentir muito mal sabendo que vocês estão sem se falar por minha causa, pelo amor de Deus, não!
Rafa - Não é por sua causa, é por causa dele
Clara - Que seja - não sabia o que fazer ou o que falar, só não queria que aquilo continuasse - Olha, talvez, como ele mesmo disse, nem era pra ser, ou era pra ser mas nós não soubemos fazer dar certo, ou quem sabe era só pra durar esse pouco que durou... Vai saber...
Rafa - Era pra durar a vida toda - tentei sorri mas as primeiras lágrimas me traíram - Mas aconteça o que acontecer, não vou deixar de ser Team ClaMar nunca, tá me ouvindo? Sempre vou ser fã número um de vocês - deixou que as suas lágrimas rolassem também -
Clara - Não fala assim que você acaba comigo - puxei-a para o meu colo e passei a mão no seu cabelo - Acabou! E o que tinha tudo pra ser uma nova história, não passou da continuação de um capítulo enrolado e chato. É a vida
Rafa - É isso mesmo que você acha?
Clara - Não... mas é o que eu gostaria de achar, porque lembrar de coisas boas dói muito mais - ela não disse mais nada, eu também não. Ficamos apenas nos consolando por um tempo, e depois que nos recuperamos, levei cupcakes pra Dudoca também, ela comeu feliz da vida e nós duas sorrimos. Às 18h30, o primeiro jogo do Santos pelo campeonato paulista começou (eu tinha esquecido completamente da estreia do Peixe, assumo). O jogo seria com alguns reservas e alguns meninos da base pro treinador poder ver o desempenho deles em uma partida oficial e decidi quem merecia uma vaga como titular e quem já podia subir pro profissional. A Duda, claro, procurou pelo pai e como não o encontrou, tive que explicar da melhor e mais fácil maneira que o time em campo era misto mas que ele ia jogar o próximo. Ela entendeu e assistiu o resto do jogo quietinha, atenta a tudo, como sempre. Santos jogou bem, ganhou por 2 a 1, uma boa maneira de começar o ano. Depois esquentei o suflê da Manu no microondas e esse foi o nosso jantar, com o restante do sorvete ferrero rocher de sobremesa. Já eram quase 23h30 quando o Big Black chegou para pegar a Rafa, mas nem subiu. Ele é tão difícil de convencer que até eu desisto -
Rafa - Só não durmo aqui porque amanhã tenho que acordar cedinho pra ir ajudar minha mãe a receber uns fornecedores na Elleven
Clara - Ah, que fofinha, trabalhando - apertei suas bochechas e ela riu - Vai tranquila, hoje eu não vou ficar sozinha. E a Manu também mandou uma mensagem avisando que vem dormir em casa
Rafa - Então tá, se cuida - me deu um beijo no rosto e eu sorri, se despediu da Duda também e desceu. Ajudei minha pequena a arrumar as coisinhas da escola, e depois, a vestir o pijama e escovar os dentes. Li pra ela, e depois de ganhar o meu beijo de boa noite, fui pro meu quarto com o Luck. Tomei um banho, vesti o pijama, escovei os dentes, deitei e tentei começar a ler o livro que não consegui pela manhã. Até progredi, mas não basta só ler, é preciso entender e eu tinha que reler o mesmo parágrafo umas três vezes pra conseguir essa proeza, então achei melhor deixar pra outro dia. Peguei o celular, e ao desbloquear a tela, lembrei que precisava trocar a foto da tela de bloqueio também. O que mais precisaria mudar pra concluir minha tarefa de esquecer com êxito? Só esperava que tudo funcionasse. Troquei logo a foto, respondi as mensagens que fui adiando o dia todo mas não prolonguei conversa com ninguém, exceto com a Gio, que insistiu até acabar me convencendo a ir ao aniversário do seu baby na segunda à noite. O convite já tinha sido feito à dias, só que eu, claro, esqueci completamente. Que vergonha! Depois que nos despedimos, vi que a notificação mais recente do instagram era da Rafa. Fiquei curiosa, abri a foto e logo a reconheci, foi no Réveillon. Sorri antes mesmo de ler a legenda.
 rafaella: Talvez não existam palavras possíveis para descrever tamanho amor que eu sinto por ti, irmã. São tantas coisas vividas juntas, tantos segredos, tantos momentos, tantas risadas, e olhe só para nós, continuamos, apesar de tudo, juntas, firmes e fortes. É bem como dizem… “a amizade é um casamento sem contrato”, mesmo que eu queira, não consigo me distanciar de você, é como se eu fosse dependente dessa nossa irmandade. Talvez você não imagine, mas apesar de tudo e todos, você é a melhor amiga que alguém possa imaginar ter  @clarabarcelar_
Sorri e chorei, ou chorei e sorri, não sei, mas só tive tempo de curtir mesmo, quando ia comentar a Duda entrou no quarto com a sua Minnie. Enxuguei o rosto imediatamente.
Eduarda - Posso dormir aqui, mãe? - perguntou com um sorriso grandioso, como é que eu ia negar? Nem se eu quisesse -
Clara - Vem - sorri e chamei-a com a mão. Ela deixou a porta encostada e logo subiu na cama com o maior cuidado enquanto olhava para minha mão machucada. Um amor, a minha boneca. E ela nem imaginava que o que eu mais queria naquela noite era a sua companhia também. 



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Hello, my babies
Antes de qualquer coisa, preciso esclarecer duas coisinhas: Algumas pessoas me perguntaram se eu havia desistido ou abandonado a história. Gente, se depender apenas da minha vontade isso nunca vai acontecer, podem ter certeza. A outra coisa é esse hiato entre as postagens, não queria que fosse assim mas vocês também já sabem os meus motivos, não vou repeti-los mais. Não vou, nem posso escrever todos os dias (mas escrevo em todos os lugares que posso, já esqueci até meu celular em casa, mas o caderninho não, acreditem). Faço tudo isso em respeito a vocês, sou leitora também, é claro que entendo o lado de vocês, mas depois que comecei a escrever passei a entender esse outro lado aqui também, e não é nada fácil.
Ok, chega de falar desse assunto repetitivo agora.

Consegui responder algumas perguntas de vocês (indiretamente, talvez) ou não? Bom, tentei... 
Mas fiquem tranquilas, tudo vai acontecer na hora certa!
Sobre os comentários lindos, perfeitos e maravilhosos só tenho a dizer que: não sei lidar.
Obrigada amores, o principal motivo de tudo isso aqui ainda existir são vocês!! ❤️❤️ 
Até a próxima, beijocas!

PS: Laaaaaaaari, esse capítulo também é um pouco dedicado a você. Obrigada mais uma vez pelo abecedário lindo que fez se baseando aqui. Ainda não tive coragem de colar no caderno (por medo de rasgar ou algo assim), mas já está na pastinha da fic! ❤️ 

Por último, e não menos importante: Happy Birthday, Julya!