quarta-feira, 31 de julho de 2013

Capítulo 20 - “Eu quero a minha filha comigo, só comigo”


    Flashback on
 » Queria, queria muito me jogar nos seus braços e gritar: ''você vai ser pai'' Queria... mas não podia. Não me sentia no direito de lançar essa notícia em cima da sua carreira que estava só começando, tinha tudo, tudo pra dar certo e levá-lo a conquistar tudo que sempre sonhou. Não podia. Meu coração não permitia. Sim, eu sei que estava sendo egoísta mas ninguém ia sofrer mais do que eu e depois de uma conversa torturante e definitiva com meus pais, comecei a me preparar de todas as formas para falar com ele, que ia me ver quando saísse do estádio. Me esforcei para parecer ''normal'', fiquei no quarto o tempo todo treinando como que ia dizer as palavras mais difíceis da minha vida, e fui interrompida com o narrador gritando gol. Olhei pra televisão e pude vê-lo comemorando com um soco no ar que nem o Pelé, o seu primeiro gol como profissional, em homenagem ao seu avô, Ilzemar, como tinha prometido. O primeiro de muitos...
    (...)
Infelizmente o momento que eu mais temia chegou.
Neymar - Viu o jogo? - sorriu amplamente
Clara - Vi, parabéns - montei o melhor sorriso que consegui, mas falei com toda a sinceridade do mundo
Neymar - Obrigado - me deu um selinho demorado, que eu precisei não corresponder ou não conseguiria falar - O que foi?
Clara - Nós precisamos conversar
Neymar - Sobre (?) 
Clara - Eu e meus pais vamos nos mudar 
Neymar - O quê? Como assim? Pra onde?
Clara - Ainda não sei ao certo mas o fato é que não vamos mais morar em Santos - estava tão nervosa que não conseguia parar de balançar os pés e ele já me conhecia o suficiente para ter percebido isso
Neymar - É só?
Clara - É...
Neymar - Não está me escondendo nada?
Clara - Não
Neymar - Então a gente dá um jeito
Clara - Não tem jeito - gritei, e comecei a andar de um lado pro outro porque sua calma estava me enlouquecendo
Neymar - Clara, calma. Eu sei que não deve estar sendo fácil mas a gente vai dá um jeito sim - pegou nas minhas mãos e me fez parar. Tive que fechar os olhos porque ficamos muito próximos
Clara - Não tem como, não tem - saiu quase como um sussurro
Neymar - Quando a gente ama, sempre tem
Clara - Então talvez o problema seja esse - tive vontade de sumir ou até mesmo de nem existir ao pronunciar essas palavras e ele me soltou
Neymar - Como é que é?
Clara - Eu acho que nós nos precipitamos com esse namoro. Somos muito novos, e tudo é intenso demais. Mas será que é amor mesmo? - lógico que falei tudo isso olhando pro chão. Sua resposta demorou a chegar, mas seu olhar era de pura desilusão
Neymar - Porque você está me dizendo tudo isso agora?
Clara - Porque eu acho melhor entrarmos em um bom senso... 
Neymar - Bom senso? - me interrompeu super alterado - Eu chego aqui, você vem com essa historinha sem pé nem cabeça, e me pede bom senso?
Clara - Júnior, por favor...
Neymar - Por favor digo eu. Pára de tentar me enrolar porque eu sei que você não está me contando tudo e eu só vou sair daqui quando descobrir o que é
Clara - Eu não estou mentindo, mas você acredita no que quiser
Neymar - Não adianta. Eu não vou engolir essa de que você acordou hoje achando que nunca me amou porque não é verdade 
Clara - Já falei, acredite no que quiser - aumentei o tom de voz novamente e tentei sair de perto dele mas na mesma hora senti seu braço me puxar contra seu corpo
Neymar - Porque você tá fazendo isso com a gente? - perguntou com os olhos rasos e eu desmoronei por completo
Clara - Não dá mais - respondi quase sem forças para lutar contra o que sabia que ele pretendia fazer
Neymar - É mentira. Não é isso que você quer - dito isso, me beijou. E por mais que eu quisesse resistir, queria também poder aproveitar porque seria a última vez que provaria o sabor doce do seu beijo - Não faz isso 
Clara - Vai embora, por favor
Neymar - Não acredito que você vai colocar um ponto final na nossa história dessa forma ridícula. Não acredito - sim, ele estava chorando e eu não sabia mais onde arranjar forças para segurar as minhas lágrimas - Me diz pelo menos o motivo verdadeiro, eu mereço saber 
Clara - Pára - gritei querendo explodir - Vai embora! 
Neymar - Diz isso olhando nos meus olhos então, e eu saio por essa porta pra você nunca mais me ver - respirei fundo, pedi, implorei, supliquei mentalmente pra Deus me ajudar e olhei-o -
Clara - Vai embora. Segue com a tua vida sem mim porque eu vou fazer o mesmo - seu olhar estava me matando por dentro, por isso, tive que desviar
Neymar - Eu não vou perdoar você, tá ouvindo? Não vou! - saiu do quarto, bateu a porta, me arrepiei e por momentos tive a sensação que meu sangue tinha parado de correr nas minhas veias. Uma parte de mim tinha ido embora para nunca mais voltar. - “Em sete dias, Deus criou o mundo. E em sete segundos eu destruí o meu.”
 Nos dias seguintes a tristeza foi minha melhor amiga, não quis me despedir de ninguém, ao contrário dos meus pais e nos mudamos finalmente para o lar dos meus avós e a minha única certeza era que, com o tempo iria ter que aprender a esquece-lo... ou amá-lo ainda mais. «
    Flashback off
“Todos erramos querendo acertar. Excepcionalmente, algumas pessoas podem cometer erros conscientemente, mas ainda assim buscam a felicidade, de forma desesperada, mas buscam. A solidão e carência afetiva deixam a alma aberta a muitas portas que em outras ocasiões manteríamos fechadas. Deixa-nos acessíveis, frágeis e crédulos. O feio pode tornar-se bonito e agradável; o proibido, irresistivelmente atraente. Achamos desculpas para convencer os outros e nem sempre convencemos nosso coração. Mas insistimos... 
Acontece de cometermos erros imperdoáveis, não aos outros, mas a nós. Esses mesmos erros que nos fazem querer não ter existido por um momento, querer apagar da memória e do tempo, desaparecer, ou chorar até que as lágrimas lavem todas as nossas culpas, mas sabemos que, quaisquer que sejam nossas tentativas, elas serão em vão. E aprendemos com os primeiros erros? Ah, não... tentamos ainda e ainda nessa busca incessante pela felicidade... Nos cegamos voluntariamente, sem termos consciência do quanto isso pode nos custar, do quanto pode doer, das penas que podem nos causar. Ah!... As más decisões não têm retorno, os gestos cometidos não têm volta e as palavras ditas se foram. O que escrevemos, escrevemos, por onde andamos andamos e não é nos agarrando a esses detalhes que seguiremos em frente. É justamente quando conhecemos nossos erros e nossas culpas que os evitaremos depois. Sei que isso nem sempre acontece, se não, não cometeríamos duas ou três vezes os mesmos desenganos, mas um dia aprendemos. Aprendemos que todo mundo erra, todo mundo acerta, todo mundo se arrepende e quer voltar atrás; todo mundo chora algo perdido ou uma decisão errada; todo mundo já se sentiu a pessoa mais infeliz e pequenininha em um momento ou um outro e quis esconder-se até de si mesmo. Aprendemos que a vida tem curvas, laços, boas e más intenções, campos floridos e terras desertas; aprendemos que para se viver é preciso saber perdoar-se a si mesmo, sem porventura deixar de tirar as lições do que se vive. Ser maduro, completo e sábio não é ser infalível. O mundo é feito de seres humanos, corações e sentimentos e não de super-heróis. Ser maduro é buscar o melhor do que vivemos, acreditar que Deus perdoa falhas, compreende nossas buscas e nos reconforta a cada queda. Ser maduro não é evitar as flores que têm espinhos, mas redobrar de cuidado ao colhê-las, conhecer os perigos e não se deixar dominar pelo medo; é viver, consciente de que se não andamos não chegamos a lugar nenhum e se erramos temos direito sim a uma segunda, ou mesmo uma terceira chance. Porque não há nada no mundo que Deus deseje mais do que a nossa felicidade.”
                                                  ****
Acordei na terça por livre e espontânea vontade - mentira, se pudesse dormia por mais umas doze horas, pelo menos, só para fugir momentaneamente da minha realidade - A Manu se disponibilizou para levar a Dudoca para escola, não só porque sabia que não estaria em condições mas também porque foi conhecer um ambiente para decorar... essas coisas do seu trabalho, e só por isso concordei. Até porque, querendo ou não, triste ou não. A vida segue. Peguei o celular para ver as horas e ainda ia dar 10h. Levantei, abri um pouco a cortina e o dia parecia estar lindo lá fora, pena que dentro de mim, estava completamente o oposto. Peguei uma roupinha qualquer, entrei no banheiro, tomei um banho rápido, escovei os dentes, me vesti e fiz um coque mal feito no cabelo. Voltei pro quarto, arrumei a cama e deitei novamente. Não tinha ânimo para absolutamente nada, nem pra desenhar. Fiquei mexendo no celular, apagando algumas fotos e postei uma com o Luck no dia que fomos a praia.
 clarabarcelar_: Cães não precisam de carros luxuosos, casas grandes ou de roupas chiques. Água e alimento já são o suficiente. Um cachorro não liga se você é rico ou pobre. Esperto ou não. Inteligente ou não. Entregue o seu coração e ele dará o dele. De quantas pessoas podemos dizer o mesmo? Quantas pessoas fazem você se sentir raro, puro e especial? Quantas pessoas nos fazem sentir extraordinários? #Luck #amor #companheiro #fiel #filhote #meulindo  
 [@] rafaellabeckran: 
 [@] mannubarros: Créditos a mim, haha lindos  
 [@] dilopes: Sortudo  
Ai Diego, Diego... só você mesmo. Comecei a ficar com fome, deixei o celular em cima da cama e fui pra cozinha. Fiz um sanduíche natural rápido, peguei um suco de caixinha de abacaxi, fui pra sala, abri as portas da varanda, pra onde o Luck foi logo porque adora brincar por ali, correndo de um lado pro outro, sentei, liguei a TV - só por ligar - e tomei meu café. Quando terminei, fui lavar a louça, voltei pro sofá e fiquei pensando em tudo e em nada, não sei por quanto tempo, mas despertei com uns latidos e só aí percebi que o interfone estava tocando. 
Clara - Valeu, garotão - pisquei pra ele. Levantei a muito custo pra ir atender e o porteiro disse que tinha alguém lá embaixo querendo falar comigo mas não queria que dissesse quem era. Achei estranho e confesso que a curiosidade também falou alto, por isso, liberei e um tempinho depois a campainha tocou - Você? - minha surpresa e espanto foram tão grandes que abri e fechei os olhos pra ter certeza de quem estava na minha frente, na minha casa - Tá fazendo o quê aqui?
Neymar - A gente pode conversar?
Clara - Sobre o quê?
Neymar - Pode ou não? - insistiu com cara de poucos amigos, deixando claro que não ia desistir. Apenas dei passagem para que entrasse, fechei a porta e encarei-o - Ela é minha filha, não é? - fiquei muda por alguns segundos, a voz não saia de jeito nenhum, meu coração coitado... já estou até acostumada com suas batidas violentas de vez em sempre, pelo menos quando ele está perto. Mas achei que fosse cair ali mesmo - Responde!! - exigiu impaciente. E eu prometi a mim mesma que quando chegasse o momento ''certo'', não ia esconder mais nada, nem tinha como -
Clara - Me perdoa... - quando finalmente consegui pronunciar algo, minha voz saiu bem baixinha -
Neymar - Não acredito! - levou as mãos a cabeça, e a abanava negativamente - Eu não acredito que você foi capaz de fazer isso
Clara - Me perdoa, por favor
Neymar - É só o que você tem pra me dizer? - exaltou-se -
Clara - Eu fiz o que fiz por amor a você. Eu juro, foi apenas por te amar demais - gargalhou ironicamente -
Neymar - Por amor? - se aproximou de mim e confesso que fiquei com medo - Você privou o meu contanto com a minha filha por amor? E ainda quer perdão? - perguntou retoricamente - Mas sabe que não vai ter né? - não consegui segurar e comecei a chorar - Tem noção da gravidade disso? Tem noção do que você fez? - gritou -
Clara - Eu sei que errei, e assumo isso mas... não foi por mal
Neymar - Ah não foi? Sabe que de boas intenções o inferno está cheio, não sabe?
Clara - Pára - aumentei o tom de voz também, e não sei como mas consegui fazê-lo calar a boca mesmo - Eu errei sim, muito feio e sei que talvez não exista perdão pra isso. Mas você não pode me julgar, aliás, nem você nem ninguém. Sou humana também, lembra disso? O que eu fiz, você também poderia ter feito e eu tenho certeza que não ia gostar de ver ninguém apontando o dedo pra você. Eu fiz o que achava ser o certo. Fiz o que meu coração mandou, porque sua carreira estava deslanchando e eu só queria o melhor pra você. Mas acredite, sofri demais por ter feito essa escolha
Neymar - Isso não tem lógica
Clara - Mas pra mim tinha. O coração nem sempre segue o mesmo compasso da razão, e eu preferi ouvi-lo porque ele me dizia que era o melhor
Neymar - Eu não acredito em você - doeu, doeu demais ouvir isso mas ele não falou olhando nos meus olhos, como vinha fazendo desde que tinha colocado os pés naquela sala -
Clara - Acredita sim - me olhou - Tanto acredita, que sabe que não precisa e não vai fazer teste nenhum pra ter certeza de que a Duda é sua filha - não me respondeu, porque no fundo, eu tinha razão e ele sabia disso -
Neymar - Isso não vai ficar assim
Clara - O que você quer dizer com isso? - um medo anormal me invadiu -
Neymar - Já perdi tempo demais - meu coração saiu, literalmente, do seu compasso habitual - Eu quero a minha filha comigo, só comigo
Clara - Como é que é?
Neymar - É isso mesmo que você ouviu
Clara - Você não pode fazer isso - me desesperei -
Neymar - Veremos! - e como já é de costume, saiu, ficando com a última palavra. Ainda estava assimilando tudo que ouvi mas as lágrimas já rolavam sem piedade. ''Eu quero a minha filha comigo, só comigo'' Não!! Ele só pode ter falo brincando. Bati a porta com tanta força que o Luck se assustou. Fui pro meu quarto, peguei o celular com intenção de ligar pra minha mãe e tinham quatro ligações perdidas da Jú. Clareei a voz, respirei fundo e retornei porque podia ser algo importante em relação ao trabalho.
 - início -
Clara - Madrinha?! - tentativa em vão porque minha voz saiu claramente rouca -
Juliana - Oh, meu amor. Suponho que você tenha recebido uma visitinha - riu sem humor -
Clara - Pois é, mas como é que você sabe?
Juliana - Ele teve aqui na minha sala, pedindo seu endereço porque já sabia de tudo e... eu não tive como negar, desculpa
Clara - Tudo bem, você é quem menos tem culpa nessa história toda. Eu sou a culpada de tudo
Juliana - Eu tentei te ligar pra te avisar mas só estava indo pra caixa
Clara - O celular estava longe de mim
Juliana - E pára de ficar se culpabilizando desse jeito
Clara - É mentira? Não é
Juliana - Como é que foi?
Clara - Pior impossível Jú... ele vai querer tirar a Duda de mim - comecei a chorar novamente -
Juliana - O QUÊ?
Clara - Foi o que deu a entender
Juliana - O Juninho ficou louco, meu Deus
Clara - Fala com ele madrinha, por favor. Eu estou aqui pra responder pelos meus atos, mas não sei viver sem ela. Sei dos direitos dele e não vou mais privá-lo, nem posso mais
Juliana - Fica calma, nós vamos tentar resolver isso da melhor forma possível, eu vou falar com ele sim.
Clara - Obrigada
Juliana - Não é nada, meu amor, mas se cuida
Clara - Pode deixar
Juliana - Vou voltar ao trabalho, beijo grande, te amo
Clara - Beijo, eu também
 - término -
Desliguei e marquei o número da minha mãe, precisava mais do que nunca ouvi-la dizer ''vai ficar tudo bem''... 
 - início -
Débora - Oi filha, bom dia
Clara  - Bom dia - pra quem? -
Débora - Ih, que vozinha é essa? Tá tudo bem?
Clara - Não. Está tudo péssimo e eu preciso falar contigo ou vou enlouquecer
Débora - O que aconteceu? Você e o Juninho se beijaram de novo? - riu -
Clara - Mãe, pára. É muito sério e urgente
Débora - Mas já vi quem ele está no meio mesmo - suspirei - Está em casa hoje?
Clara - Estou
Débora - Passo aí quando sair daqui então
Clara - Não. Não estou respondendo pelas minhas emoções, e se a Duda me ver chorando? Não quero mentir pra ela
Débora - Espera... é o que eu estou pensando, Clara?
Clara - É bem provável que sim
Débora - Vem aqui, almoçamos juntas, se a Duda vier com você, ela se distraí no parquinho e conversamos
Clara - Vou ver se consigo
Débora - Tá, mas agora fiquei preocupada então qualquer coisa liga
Clara - Ok, beijo
Débora - Beijos
 - término -
E pronto, foi só me sentir ''sozinha''' de novo pro silêncio me fazer lembrar do meu martírio. Estava ciente que ele tinha todo o direito de me tratar como tratou, e de falar como falou, porque consigo me por no seu lugar... mas porque será que ninguém faz isso? Porque ninguém se põe no meu lugar? Eu sei que realmente parece absurdo mas pra mim fazia todo sentido do mundo. Só conseguia pensar que ia atrapalhá-lo, atrapalhar sua carreira... eu, não a nossa filha porque ela não tinha e não tem culpa de nada. Mas custa tanto fazer um esforço mínimo e ao menos tentar entender o meu lado? É difícil, eu sei e sei também que muito provavelmente ninguém nunca cometeria esse erro mas... acho que se voltássemos no tempo, eu faria o mesmo. A minha personalidade enxerga tudo do jeito dela, e não tenho como mudar. Quero sempre o bem de todo mundo, mas esqueço o meu próprio bem. Penso sempre na felicidade de quem amo mas esqueço da minha... deixo-a de canto, sofro calada e de vez em quando, até dá para resgatá-la. De vez em quando. Recebi uma mensagem da Manu avisando que não ia poder pegar a Duda, e iria demorar um pouco pra chegar. Só aí me toquei do tempo que permaneci inativa. Levantei, entrei no banheiro, lavei o rosto, enxuguei-o bem, e aderi a base novamente ou a minha aparência seria de um zumbi, no mínimo. Troquei de roupa, peguei minha bolsa, o celular e saí do quarto. Coloquei o Luck pra dentro, já que ainda estava na varanda, fechei as portas, ele sentou no meio da sala e ficou me guiando com os olhos. Sorri ligeiramente, peguei o chaveiro e desci. Destravei as portas do carro, entrei, e arranquei. Peguei um congestionamento típico de ''hora do almoço'' mas se já estava ruim, pior não podia ficar então nem me estressei. Cheguei na escola, o porteiro chamou minha boneca, e ela ficou... surpresa, digamos assim, o que é normal já que dificilmente sou eu quem posso pegá-la, mas ignorando esse fato, abracei-a com bastante força, até pude sentir seu coraçãozinho bater.
Eduarda - Que foi, mamãe? - riu -
Clara - Nada amor, me abraça de novo? - me olhou totalmente confusa, principalmente por estarmos em frente a sua escola ainda, mas nada disso me importava e só a possibilidade de não tê-la mais comigo me arruinava por dentro. Ela fez o que pedi e envolveu meu pescoço com seus bracinhos, num abraço gostoso. Fechei os olhos para não deixar nenhuma lágrima escapar e sorri - Quer almoçar com a vovó?
Eduarda - Quero!! A gente vai almoçar com ela??
Clara - Vamos - sorriu. Entramos no carro, dei partida, peguei outro trânsito terrível mas conseguimos chegar no Praiamar. Antes de sairmos do carro, mandei uma mensagem pra Manu, só pra ela não ficar preocupada se chegasse primeiro, depois entramos. Ainda tivemos que esperar durante um tempinho até começar o horário de almoço da minha mãe, o que não foi problema nenhum pra ela, já que shopping é uma das coisas que mais a fascina. Depois fomos finalmente para praça de alimentação, elas duas na mesma alegria contagiante de sempre, escolhemos um restaurante, sentamos, fizemos nossos pedidos, almoçamos e no final a Duda pediu pra ir brincar no parquinho que minha mãe tinha dito, montado de frente pra praça -
Débora - E, aí? Me conta - pediu assim que ela saiu. Enquanto eu ainda a acompanhava, até a entrada -
Clara - Ele já sabe de tudo - olhei-a -
Débora - Tudo, tudo?
Clara - Tudo...
Débora - Foi você quem contou?
Clara - Não, só confirmei, até porque ele só queria isso, que eu confirmasse
Débora - Mas como ele ficou sabendo?
Clara - Ontem ele viu a Duda. Nós tivemos uma pequena discussão, bem feia por sinal, porque na cabeça dele, eu o tinha traído. Mas com certeza, juntou as coisas depois, inclusive o fato de ter visto a pulseira que me deu no braço dela. Não dava mais pra esconder a verdade
Débora - Nem podia né? Eu... - interrompi-a -
Clara - Por favor, mãe. ''Eu te avisei'', agora não
Débora - Tá bom, desculpa, é a força do hábito. Mas me diz, como foi que ele reagiu?
Clara - Da pior forma possível. Mas estranho seria se fosse diferente... Gritou, nada do que eu disse foi válido e... - não consegui completar -
Débora - E o quê?
Clara - Eu estou com medo, muito medo mãe
Débora - Medo de quê?
Clara - Dele querer tirar a Duda de mim pra sempre
Débora - Tá louca menina? Vira essa boca pra lá. Ele não é assim... não seria capaz disso
Clara - Mas foi o que ele deixou mais ou menos claro, antes de sair lá do apê
Débora - Ai, meu Deus - levou as mãos a cabeça e o desespero tomou conta de mim, de novo -
Clara - Que foi? Mãe, diz pra mim que isso não é possível - implorei -
Débora - Eu não sei, minha filha. Não entendo muito dessas coisas, mas você o impediu de vê-la, isso não é certo, nós sabemos e judicialmente existe sim a chamada, guarda definitiva para uma das partes
Clara - Eu sei que existe, mas ele vai alegar o quê em relação a mim?
Débora - Não faço a menor ideia, mas é complicado porquê... perante a justiça vai parecer que você quis evitá-lo, e ele nem sabia da existência da filha - suspirou pesadamente - Tem certeza que ele não falou sobre guarda compartilhada, e você não entendeu?
Clara - Claro que tenho, ele nem usou esses termos certinhos, apenas disse que já perdeu tempo demais e agora quer a Duda só com ele - senti um calafrio enorme só de pensar nessa hipótese. Não por pensar que ele não cuidaria bem da filha, porque acho totalmente o contrário, mas sim por não saber viver sem ela também - O que eu faço?
Débora - Agora nós não podemos fazer nada, apenas tentar conversar
Clara - A última pessoa que ele deve querer ver, sou eu
Débora - Mas eu não. Vou falar com seu pai e nós vamos sim conversar com ele. Se não der certo, e se ele realmente estiver decidido em querer a definitiva, nós revogamos, claro. Não sofre por antecipação
Clara - Falar é fácil... falar é muito fácil. E não é só por antecipação não, estou sofrendo por tudo e mais um pouco
Débora - Tudo vai acabar bem, te prometo - pegou na minha mão e apertou-a, tentando depositar em mim, um pouco da sua confiança, o que não resultou muito mas deu pra me reconfortar, pelo menos. Até porquê, dizem que depois da tempestade vem a bonança... mas e se a tempestade ainda não tiver terminado?




Já falei que vocês são lindas e minhas? 
Obrigada, obrigada, e obrigada  
A música se chama ''I will be'' da Avril Lavigne. 
E pra quem perguntou como põe pra comentar 
sem aqueles códigos: é só ir em ''Configurações 
de Postagens e Comentários'', lá terá a perguntinha
''Mostrar verificação de palavras?'', daí você escolhe.
É só, beijinhos :*

terça-feira, 30 de julho de 2013

Capítulo 19 - “Ela me traiu”


 Acordei sobressaltada por conta de um pesadelo terrível, que teria que vivê-lo - em mais breve do que imaginava - mas não deixava de ser pesadelo e quando dei por mim, as lágrimas já tinham tomado conta do meu rosto, meu coração estava apertadinho e sentia um medo estranhamente avassalador. Não sabia explicar pra mim mesma o porquê, nem se era somente por causa do pesadelo mas algo me agoniava, e não saber o quê, conseguia me deixar ainda pior. Queria poder ter o colo da minha mãe ou o da minha vó e ouvir: "Isso é coisa da sua cabeça, meu amor. Vai passar" Mas não, não tinha nenhuma delas. Fechei os olhos e como já previa o sono tinha ido para o espaço mas continuei deitada até o despertador tocar, o que não demorou muito para acontecer, porém pareceu um século. Levantei já mais "calma", separei minha roupa, arrumei a cama e entrei no banheiro. Me despi, tomei um banho frio para me abstrair de alguns pensamentos negativos, saí, me enxuguei, e escovei os dentes. Passei hidratante no corpo, vesti minhas peças íntimas e usei um pouco de base porque meu rosto não estava nada apresentável. Me vesti, prendi o cabelo, calcei meu sapato, me perfumei, arrumei minha bolsa e saí do meu quarto.
Entrei no da Duda, e ela estava escovando os dentinhos, rindo sozinha, se olhando no espelho, em cima da escadinha, feita para isso mesmo. Sorri sem querer. 
Clara - Bom dia, meu amor
Eduarda - Bom dia, mamãe - respondeu ao terminar. Desceu da escadinha, se aproximou de mim, ficou na pontinha dos pés, rodeou o meu pescoço com suas mãos e me puxou pra dar um beijo no meu rosto -
Clara - Tomou banho direitinho? - assentiu positivamente. Ajudei-a a se vestir, calcei seu tênis, penteei seu cabelo, pegamos sua mochila e fomos pra cozinha, onde a Manu já estava. Dei bom dia, tomamos café em silêncio mas ela me interrogou na primeira oportunidade -
Manu - Tá tudo bem?
Clara - Está - desviei meu olhar do seu - Vai poder pegá-la hoje? - perguntei a primeira coisa que veio na minha cabeça pra fugir do assunto -
Manu - Claro, como sempre. O que tá acontecendo?
Clara - Nada ué - desconversei novamente - Leva-a no CT pra mim? Pretendo ir de lá mesmo pra clínica
Manu - Levo. Da escola pra lá?
Clara - Isso - dei o último gole no meu suco e coloquei o copo na pia - Dá seu nome na entrada que eu vou pedir para liberarem e me espera no estacionamento
Manu - Tá ok
Clara - Vamos, boneca?
Eduarda - Vamos. Me ajuda aqui, por favor - pediu docilmente, como já é da sua característica e eu ajudei-a a descer do banco - Vou dar tchau pro Luck - saiu da cozinha em direção a lavanderia antes de me deixar dizer qualquer coisa. Revirei os olhos e a Manu riu levemente -
Manu - Você tá bem mesmo?
Clara - Estou, só não consegui dormir direito mas não precisa se preocupar
Manu - Tá certo, qualquer coisa já sabe - sorri fraco - Te mando uma mensagem quando chegar lá
Clara - Ok - peguei minha bolsa e a mochila da Duda - Filha, vamos. Já vou sair mais cedo hoje, então não quero me atrasar, nem você pode - voltou correndo, se despediu da Manu, fiz o mesmo e descemos. Destravei as portas do carro, entramos e o caminho até a escola foi ao som de um cd apenas com músicas infantis, pro dia começar bom e alegre, pelo menos pra ela, que é e sempre vai ser minha prioridade. Deixei-a na escola, segui para o CT e quando cheguei estava havendo uma gravação de algo para a SantosTV, perto da porta de entrada mas em relação ao Santos Tsunami, o time de futebol americano. Pedi para liberarem a entrada da Manu em meu nome, dei um bom dia geral, entrei e fui logo procurar pela Jú. Pedi para sair mais cedo, explicando o motivo e ela me liberou. Voltei pra minha sala, onde já estava a Gio - Bom dia - dei um beijo no seu rosto e sentei -
Giovanna - Bom dia - sorriu - Como é que foi de final de semana?
Clara - Sinceramente? Acho que já tive melhores - riu - Mas não tenho do que me queixar. E por falar em final de semana... Estava assistindo ao jogo no domingo e me veio uma ideia meio doida na cabeça
Giovanna - Diz - riu -
Clara - Assim, a princípio, apenas para sócios mas depois a gente pode repensar e ampliar ainda mais
Giovanna - Hum
Clara - Em dias de jogos, cada gol do Santos poderia representar uma porcentagem de desconto na compra de ingressos para o jogo seguinte e assim por diante
Giovanna - Tá aí... gostei. Com o ataque maravilhoso que nós temos, nossa torcida vai lotar ainda mais não só a Vila mas os outros estádios também - falava empolgadissíma - Você é uma gênia nessa aréa
Clara - Menos Giovanna, bem menos - riu e eu sorri - Vamos esperar o pessoal chegar, entrar em um acordo e passar a ideia para o comitê de gestão
Giovanna - E se tudo der certo, falo com o Piratinha para fazermos um vídeo de divulgação e por na SantosTV
Clara - Ótimo! - continuamos discutindo sobre assunto, até porque ele rendeu, principalmente quando o resto do pessoal foi chegando. Passamos a ideia pro comitê, de lá foi para presidência mas foi aceita, então nossa manhã foi completamente em cima disso... Quando descemos para almoçar, o restaurante estava mais ou menos cheio. Tá, não é que estivesse cheio mas ele estava presente e foi o que me incomodou assim que coloquei meus pés ali. Não queria, nem podia, deixar meus olhos percorrerem por direções perigosas, porque simplesmente não sabia como seria se nossos olhares se encontrassem depois do que aconteceu. Sentei de costas, comi bem pouquinho, e agradeci mentalmente quando recebi a mensagem da Manu avisando que já estava à minha espera. Me despedi deles, que estavam por dentro do motivo da minha saída mais cedo, e fui pro estacionamento -
Eduarda - Mãe!! - saiu do carro, correu ao meu encontro e eu abracei-a -
Clara - Nossa, isso já é tudo saudade? - deu um beijo no meu rosto -
Eduarda - Sim - riu - É aqui que você trabalha, mãe?
Clara - É, amor
XxX - Mãe?! - olhei pra trás e quem eu menos queria estava ali, impávido, sem mexer um único músculo, nos olhando alternadamente. A Duda perguntou algo mas eu mal ouvir e não consegui dizer nada. Olhei pra Manu em forma de socorro e ela se aproximou -
Clara - Tira ela daqui - gesticulei apenas com os lábios -
Manu - Tem certeza?
Clara - Por favor - implorei -
Manu - Tá. Vem amor - pegou na mão dela -
Eduarda - Você não vem, mãe?
Clara - Vou, mas vão indo na frente - ela encolheu os ombros e foi com a Manu até o seu carro que estava em uma distância considerável. Olhei pra trás novamente e ele continuava na mesma posição, com uma expressão notória de surpresa e com os olhos presos no braço da Duda. Meu Deus, a pulseira!! -
Neymar - Você adotou ela? - perguntou em um tom (ainda) calmo -
Clara - Não...
Neymar - Não?? - insistiu agora como se estivesse... revoltado -
Clara - Não...
Neymar - E porquê é que você deu a pulseira pra filha de um qualquer?
Clara - Ela não é filha de um qualquer
Neymar - Ah desculpa. Realmente, ele foi apenas mais um otário pra sua lista. Depois de mim foram quantos? - contei até dez silenciosamente para controlar a vontade que minha mão teve de voar na sua cara, e respirei fundo, até porque ele não merecia -
Clara - Você não tem o direito de falar assim comigo. E outra, se a pulseira era minha, eu escolho o que faço ou deixo de fazer com ela
Neymar - Claro, claro - riu ironicamente - Agora tudo faz sentindo
Clara - Tudo o quê?
Neymar - O motivo de você ter me deixado - apavorei - Você me traiu!!
Clara - Não, é claro que não - não sabia se era o que tinha que falar, mas não podia deixá-lo pensando aquilo -
Neymar - Traiu. Lógico que traiu. Ainda vai negar?
Clara - Vou, porque eu nunca fiz isso. Será que está tão difícil assim enxergar? - quando vi, já tinha falo. Mas ele não parecia estar muito interessado no que eu tinha pra falar -
Neymar - Eu nunca acreditei naquele teatro todo que você fez quando terminou, ainda achei que a culpa tinha sido minha, de burro que fui mas agora tudo se encaixa
Clara - Me deixa falar... - sim, eu queria, não estava mais aguentando guardar aquilo mas ele fingiu não me ouvir -
Neymar - Você já estava grávida, de quem eu não faço a miníma questão de saber. Foi por isso que saiu daqui como fugitiva e agora voltou... Depois de quase 4 anos, que parece ser a idade da sua filha, certo?
Clara - Ela vai fazer 4 anos sim, mas me ouve, por favor - pedi sem nunca levantar o tom de voz, afinal ainda nos encontrávamos no estacionamento -
Neymar - Parabéns!! - bateu palmas com um sorriso irônico no rosto mas seus olhos estavam rasos, assim como os meus. Notei que fazia um esforço enorme para segurar todas as lágrimas na minha frente, mas não escondia a decepção - Foi tudo quase perfeito, pena que eu descobri - saiu da minha frente sem me deixar falar mais nada - 
Clara - Espera - foi completamente em vão, claro. Engoli lágrima por lágrima com um sacrifício enorme, respirei fundo e fui ao encontro delas -
Eduarda - Ele tava brigando com você? - perguntou imediatamente, preocupadinha -
Clara - Não - me sentia sufocada pelas minhas próprias palavras - Foi só um mal entendido - tentei sorrir para tranquilizá-la mas nem isso consegui. Olhei pra Manu e por pouco não desabei ali mesmo -
Manu - Quer que eu a leve? Tô livre agora à tarde, vai pra casa
Clara - Não, não precisa - suspirei - Já almoçaram?
Manu - Já
Clara - Então vamos - peguei na mão da Duda - Obrigada
Manu - Por nada. Está em condições de dirigir? - perguntou um pouco mais baixo -
Clara - Não se preocupa, porque nesse momento eu realmente preferia nem existir - me olhou espantada - Mas nunca colocaria a vida da minha filha em risco
Manu - Agora me deixou ainda mais preocupada
Clara - Em casa a gente conversa
Manu - Tá, mas... - hesitou - Cuidado! - assenti, ela entrou no seu e fui com a Duda em direção ao meu carro. Entramos, coloquei o cd dela novamente, dei partida e não demorou nada para ter as primeiras lágrimas rolando pelo meu rosto porque meus olhos já estavam cansados e ardendo de tanto segurar. Mesmo assim não deixei que ela percebesse a antes de chegarmos a clínica, limpei o rosto e coloquei o óculos.
    (...) 
 Os exames foram bem simples, rápidos e práticos, esperei logo pelos resultados e a melhor parte, segundo a Duda foi a de não ter a ''furadinha'' como ela mesma chama os exames de sangue. Apesar de ter sido bem rapidinho não tinha mais como irmos para o balé, mas ela entendeu. Voltamos pra casa, e quando chegamos só o Luck estava na sala, e ela, lógico, foi logo querer brincar.
Clara - Nem pensar mocinha - me olhou - Direto pro banho porque a senhorita ainda está de uniforme e o Luck não vai fugir, então brinca com ele depois - nem questionou e foi pro quarto. Segui-a, passei pelo da Manu, e ela parecia estar no banho. Fiz o mesmo com a porquinha, peguei um vestidinho fresco, vesti-a e como ela disse que estava com fome, fomos pra cozinha, cortei algumas das suas frutas prediletas, coloquei em um prato e a deixei se deliciando com elas na sala, assistindo desenho, sempre com o xodó do lado. Fui pro meu quarto e tomei um susto enorme ao entrar nele porque a Manu já estava ali. E nem precisei dizer nada. Ela só abriu os braços, e não tive como negar aquele abraço, na verdade era o que estava precisando e ela me conhece bem demais - Tá doendo muito, Manu. Me diz o que eu faço... - as lágrimas não perdoaram e começaram a rolar incessantemente -
Manu - Você sabe que isso já era pra ter acontecido a muito tempo, amor. Deus só fez adiar
Clara - Mas não era pra ser assim, não podia ser assim!! - tinha uma revolta enorme dentro de mim, e a culpa era só minha - Ele não podia ter entendido errado
Manu - Como assim? Quem não está entendendo nada agora sou eu
Clara - Ele acha que foi traído - sua boca abriu-se em puro sinal de espanto -
Manu - Porque homem é tão burro? - olhei-a ainda mais revoltada do que já estava - É mentira?
Clara - Ele estava atordoado, não sabia nem o que pensar
Manu - Você está defendendo
Clara - Lógico, ele não tem culpa de absolutamente nada - parei de falar. Não porquê queria, e sim porquê não estava mais conseguindo conciliar com o choro -
Manu - Se acalma, foi só a primeira reação por causa do baque da notícia - falava enquanto afagava meus cabelos mas nada, nada me consolava, e me fazia chorar menos, nada -
    Neymar on 
 O pior treino da minha vida, sem mais. Além de não ter feito nada que agradasse a mim próprio, não consegui acertar um passe e me concentrar em nada. Como ela foi capaz de... não, eu não tenho que ficar pensando nisso, afinal, é passado... não é (?) Quem eu estou querendo enganar? Passei o fim de semana inteiro com minha namorada pensando no beijo de uma ex que me deixou, e agora ainda descubro que provavelmente me traiu. Como eu fui burro. Ainda deixei passar pela minha cabeça a possibilidade de tê-la de novo, ainda cheguei a sorri ao ver a foto que a Rafa postou no instagram, não só pela foto em si mas pela legenda também. Burro!! Cheguei em casa completamente desnorteado, não conseguia esquecer tudo que vi e ouvi. Aquela menininha linda, a chamando de... mãe. Não sei se foi sem querer, ou quis descontar minha raiva em algo mas bati a porta e subi pro meu quarto com uma vontade grande de quebrar muita coisa, principalmente uma certa caixa...
Na - Meu filho, o que aconteceu? - entrou no quarto assustada -
Neymar - Nada mãe, quero ficar sozinho, só isso
Na - Mas eu não vou deixar, olha seu estado. Me diz o que aconteceu
Neymar - Ela me traiu - falei (muito) mais alto que o normal - Ela me traiu - parecia que cada vez que repetia essas palavras, ia me auto-destruindo -
Na - Ela? Mas ela quem?
Neymar - A Ana Clara
Na - Não estou entendendo. Te traiu como?
Neymar - Quando ela deu aquela desculpa esfarrapada de que não me amava, teria que se mudar e blá blá blá... tenho certeza que estava grávida. Me traiu, ficou com peso na consciência e fez o que fez. Não acredito que sofri por ela. Não acredito que foi aquela mulher que jurei amar pro resto da minha vida
Na - Juninho, calma - sentou e me fez fazer o mesmo - Porque está falando tudo isso agora?
Neymar - Porque descobri que ela é mãe, vi a filha dela - ela não me pareceu surpresa -
Na - Linda ela, não é? - sorriu discretamente e me deixou sem entender nada, por isso mesmo nem respondi - Na minha opinião, tudo que disse não passa de um grande equívoco
Neymar - Como é que é? Já sabia disso?
Na - Já, não só eu como todo mundo - respondeu naturalmente -
Neymar - Todo mundo, quem?
Na - O seu pai, a Rafa, os meninos... enfim
Neymar - E porque só eu não?
Na - Será que é porque você não deixava ninguém pronunciar o nome da Clara, que já saía de perto? Não lembra quantas vezes isso aconteceu aqui? Nem os meninos podiam falar que você se irritava - relembrou o que realmente sempre acontecia - Lembra daquele dia no Paris 6, onde nos encontramos? Claro que lembra. E foi só começarmos a falar dela pra você sair da mesa com a desculpa esfarrapada de que tinha que ir ao banheiro. A Rafa até comentou que a filhinha dela estava junto mas você, como sempre, não estava presente na hora. Aliás, você só não descobriu isso antes porque inventou de enfiar na cabeça que quanto menos ouvisse coisas a respeito da Clara seria melhor... até parece que o seu coração concordou com isso - olhei-a abismado - E não me olha assim porque você já estava precisando ouvir algumas coisas a algum tempo. Graças a Deus esse dia chegou. E eu sinceramente achei que já soubesse, e não quisesse enxergar a verdade por burrice
Neymar - Que verdade?
Na - É só parar um pouco e pensar meu filho. Eu já vi a Duda, e me encantei logo de cara... - interrompi-a imediatamente. Seria possível...? -
Neymar - Duda??
Na - Sim, o nome dela é Eduarda - Eduarda... o nome que nós decidimos que... não, não pode ser -
Neymar - Onde é que você quer chegar, mãe? - não sei porque (ou até sabia sim), mas meu coração acelerou -
Na - Onde você já chegou - atirou me deixando sem resposta - Acha mesmo que ela seria capaz de te trair?
Neymar - Minha cabeça tá uma confusão, já não sei de mais nada - respondi ao fim de alguns segundos em silêncio -
Na - Pois, eu acho que não e no fundo você também. Basta fazer as contas
Neymar - Que contas?
Na - Pensa, meu filho, pensa! - levantou e saiu me deixando sem nem saber o que pensar direito. Meu Deus, será?? Fazia sentindo... a pulseira, o nome que nós escolhemos... mas... Será que consegui ser burro ao ponto de não ter percebido logo? É... consegui. Não é possível. Como pude ter sido tão cego???? 
    Neymar off
O término da segunda, como já era de se esperar foi péssimo. Depois do colo da Manu, não chorei mais, me limitei apenas a pedir pra Deus tirar aquela loucura de traição da cabeça dele porque... preferia vê-lo me odiando sem motivos óbvios ou por motivos fúteis, do que pensando que tive coragem de traí-lo. Antes de pegar no sono, fiquei pensando sobre o que senti pela manhã e cheguei a conclusão de que, foi tudo muito pior que o pesadelo.



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segunda-feira, 29 de julho de 2013

Capítulo 18 - “Aconteça o que acontecer, não esquece nunca, que eu te amo”


 Acordei antes da Rafa e como já esperava, suas palavras ainda estavam bem presentes na minha mente e não pareciam querer sair mais. Repetiam-se o tempo todo, e devo até ter sonhado com elas, sim porque nessa altura não duvido de mais nada. Tudo é válido, infelizmente. Levantei para não acordá-la, já que estava bem inquieta, peguei o celular e confirmei as minhas suspeitas de que ainda era cedo, 07h30. Peguei um short de tactel azul estampado, uma regata preta, um biquíni da mesma cor e entrei no banheiro. Tomei um banho rápido, escovei os dentes, me vesti e prendi o cabelo em um rabo de cavalo. Calcei um tênis, deixei o celular onde estava, saí do quarto, fiz um bilhetinho para não preocupar ninguém à toa, deixei preso na geladeira, e desci. Dei bom dia pro porteiro, e fiz uma longa caminhada até a praia, aproveitando os primeiros raios de sol pra tentar por minha cabeça em ordem. Quando cheguei onde queria, Aparecida, tirei o tênis, desci para a areia e sentei encostada em uma pedra grande. Não sei por quanto tempo fiquei inerte, apenas olhando pro mar e lembrando das palavras da Rafa, mas fui sendo arrastada lentamente, quase sem nem perceber, pelo barulhinho das ondas, até...
    Flashback on
 » Drª Cristina - Você está grávida! - ouvi isso fez meu coração disparar de tal maneira que, por momentos, julguei ter parado de senti-lo. Como assim? Não sabia o que falar, como reagir, nem o que sentir. Tinha um misto de sensações querendo explodir dentro de mim. Como é que vai ser? Como é que eu vou contar? Como é que nossas famílias vão reagir? A minha mãe, apesar de me fitar com um olhar matador, não soltou a minha mão uma única vez enquanto a Drª dava todas as recomendações necessárias. Eu, ao contrário dela, queria mas não conseguia prestar atenção em nada. Ainda estava digerindo o baque, e a cabeça dava voltas e mais voltas. Olhei discretamente para minha barriga e quis sorrir. ''Uns três está de bom tamanho, porque meu sonho é vê-los correndo pela casa'' Foi o que me disse em uma das nossas muitas conversas banais. ''Com você eu sou capaz de montar um time de futebol, com os reservas, claro'' Procurava pensar apenas em coisas boas mas o medo estava mais do que presente. A consulta terminou, nos despedimos da Drª, saímos e minha mãe só soltou a minha mão para entrarmos no carro. Fomos o caminho todo em silêncio. Silêncio esse, perturbador. Queria saber o que estava se passando na mente dela. Chegamos em casa, e meu pai ainda não estava. Ela sentou no sofá com os cotovelos apoiados nas pernas
Débora - O que você foi fazer da tua vida, minha filha?
Clara - Mãe... - tentei falar, mas lógico, foi em vão
Débora - Mãe!! É isso que você vai ser. Tem noção, Ana Clara? Ah, é claro que não tem, não é? Vocês são duas crianças que acharam que podiam ficar brincando de casinha sem sofrer as consequências - levantou e começou a andar de um lado para o outro. Chorando, e era a única coisa que eu fazia também - Meu Deus! Quantas vezes nós conversamos? Quantas vezes abordamos o assunto gravidez? Quantas vezes falamos sobre todos os métodos para isso não acontecer? Milhares. E sabe porquê? Porque não podia. Não agora. Mas parece que de nada adiantou não é? - perguntou retoricamente - Porque esse bebê está aí e não tem culpa de nada
Clara - Mãe... 
Débora - Não tenta se justificar não, até porque eu não vejo como. Fizeram, não fizeram? Então vão assumir. E trate de contar pro Júnior e logo, porque hoje à noite o seu pai também vai ficar sabendo - saiu da sala sem me deixar falar nada. Subi com as palavras dela ecoando na minha cabeça. Entrei no meu quarto, tranquei a porta e fiz a única coisa que podia e tinha vontade: chorei. Chorei até não poder mais e perceber que precisava contar pra ele logo. Entrei no banheiro, me despi, tomei um banho demorado demais e não pude deixar de mais uma vez olhar pra minha barriga de um jeito diferente. O sentimento de mãe estava aos poucos entrando em mim. Quando saí, vesti a primeira roupa que vi e tomei coragem para ligá-lo.
 - início
Neymar - Oi princesa, ia mesmo te ligar - ele parecia animado... muito animado
Clara - Oi amor - tentei parecer o mais normal possível - O que aconteceu?
Neymar - Uma coisa maravilhosa, mas só vou contar pessoalmente
Clara - Ah, também tenho uma coisa pra te contar. Vem aqui?
Neymar - Claro que vou. Você vai ser a primeira a saber - pude adivinhar aquele sorriso lindo nos seus lábios
Clara - Estou te esperando então, não demora, por favor. Beijo, te amo
Neymar - Também te amo, muito 
 - término
Mal desliguei, respirei fundo. Não queria fingir mas se demonstrasse como realmente estava, ele desconfiaria e contar por celular não seria a melhor opção. Destranquei a porta, deitei, fechei os olhos, instintivamente comecei a ouvir as palavras da minha mãe de novo e foi pensando nelas que peguei no sono. Acordei com alguém acariciando meu rosto de uma forma muito lenta e carinhosa, de uma forma que só ele sabia fazer. 
Neymar - Oi dorminhoca - sorri e levantei
Clara - Oi - sentou de frente pra mim e me beijou demoradamente
Neymar - Sua mãe está estranha, aconteceu alguma coisa?
Clara - Ah... é... - comecei a gaguejar. Onde a coragem tinha se escondido? - O quê que você tem pra me contar?
Neymar - Subi pro time profissional - revelou com um sorriso sem tamanho
Clara - Sério?
Neymar - Sim, o professor avisou hoje e amanhã já posso treinar com o elenco que joga no domingo. Não é maravilhoso? 
Clara - É... É maravilhoso - minha voz falhou, devido as lágrimas que estava segurando
Neymar - Tô louco pra contar pra todo mundo que minha carreira profissional está finalmente começando e nada vai dar errado, nada - pegou nas minhas mãos e a vontade de contar foi embora. Não conseguia imaginá-lo enfrentando uma paternidade logo quando sua carreira começava a deslanchar
Clara - Tenho certeza que não. Você merece isso e muito mais 
Neymar - Ei, boba. Não precisa chorar também - riu e passou a mão no meu rosto - Agora diz, o que tinha pra me contar?
Clara - Me abraça? - me olhou confuso mas fez o que pedi e eu apertei-o contra mim, o quanto pude - Eu te amo, é isso. Aconteça o que acontecer, não esquece nunca, que eu te amo... «
    Flashback off
Eu fui covarde? Eu fui covarde. Fui fraca? Muito. Eu errei? Errei, feio. Mas caramba, com 17 anos, no auge de um amor intenso, o que importava pra mim? Sim, só a felicidade dele. E se fiz o que fiz, foi por achar que era o melhor, que era o certo. Todos nós erramos tentando acertar. Às vezes nossas escolhas são baseadas no mais puro sentimento, mas não compreendidas ou não concretizadas se tornam o fracasso. O fracasso foi uma tentativa, nada mais que isso. Uma tentativa inútil, desnecessária, talvez. O que fica de lição é que na vida você pode colecionar fracassos, contanto que colecione também tentativas. Certo ou errado, você sabe que fez o que achou ser certo e nós seres humanos não estamos imunes aos nossos erros, que muitas vezes podem ser fatais. Tirei o short/blusa, assim como o tênis, deixei tudo ao lado da pedra e entrei no mar. Não estava nos meus planos mas ele me chamou, e eu não resisti. A água estava um gelo mas nem isso me fez querer sair. Ali, pelo menos, não existiam problemas, passados que assombravam e presentes complicados. Era só eu, o mar e pra onde ele quisesse me levar. 
    ****
 Quando cheguei no apê, ele ainda estava do mesmo jeito que eu tinha deixado. Entrei no meu quarto sem fazer barulho, coloquei o tênis em um canto, peguei uma roupa qualquer e entrei no banheiro. Me despi, tomei um banho bem demorado e lavei meu cabelo. Saí do box, me enxuguei, tirei o excesso dele com a toalha e desembaracei-o. Me vesti, peguei meu celular e fui pra cozinha porque a fome estava apertando.
Clara - Bom dia, prince - fiz um carinho na cabeça do Luck. Coloquei um pouco de ração no pratinho dele, depois fui cuidar de mim. Peguei um copo de suco de laranja natural, umas torradinhas, passei bastante requeijão e me acabei nelas :3 Quando terminei, lavei tudo que sujei, fui pro quarto da Dudoca e dei uma organizada básica. Tinha brinquedos por toda parte, até dentro do banheiro, o que é perfeitamente natural mas de vez em quando é bom dá uma arrumada. Remexendo em uns papéis no guarda-roupa, lembrei de exames que ela tinha que fazer, apenas para cumprir o ''check-up infantil'', que faço questão de seguir para não ter surpresas. Terminei a limpeza, peguei os papéis, o cartão do seu plano e fui pra sala. Procurei saber se havia alguma clínica por perto, arrisquei ligar, e por sorte, o atendimento é 24hrs, todos os dias. Marquei logo tudo, a consulta para fazer os exames na segunda, e outra com uma pediatra para mostrar os resultados a ela. Deveres cumpridos, guardei tudo, voltei pra sala, abri as portas da varanda e me joguei no sofá.
 @clarabarcelar_: Bom dia!!
 @clarabarcelar_: Saudades da minha filhota já! :( 
 @clarabarcelar_: ''@rafaprincess @clarabarcelar_ É amiga da Rafa a muito tempo?'' 
Sim, bastante  
 @clarabarcelar_: ''@euteamonjr @clarabarcelar_ Conhece o Neymar?'' Formalmente
 @clarabarcelar_: O passado não reconhece o seu lugar: esta sempre presente.
Resolvi sair do twitter porque minhas menções estavam lotando de perguntas que eu não sabia como responder, nem se devia responder e entrei no facebook, onde não fiquei por muito tempo também.
 clarabarcelar_: Já acreditei mais nisso...
Fiquei curtindo algumas fotos até as duas margaridas aparecerem.
Clara - Nossa, combinaram de acordar juntas? - riram e deram um beijo no meu rosto ao mesmo tempo - Que sintonia - riram novamente e até eu acompanhei. Foram pra cozinha e voltaram instantes depois, cada uma com uma peça de fruta -
Manu - Vamos sair hoje né? - se entreolharam depois olharam pra mim -
Rafa - Lógico. Ficar em casa em pleno sábado não dá
Clara - Vamos quem? - interrompi a conversa, já que aparentemente mas só aparentemente mesmo, a minha opinião parecia não importar muito -
Manu - Nós três (?) - me olhou como se eu tivesse feito uma pergunta absurda -
Clara - Não, vocês duas. Eu não estou com a miníma vontade de sair
Rafa - Ah não, por favor
Clara - Nem adianta. Vão vocês, eu fico aqui com o Luck - pisquei -
Manu - Sem graça - mandei um beijo pra ela e sorri irônica -
Rafa - Salão, pelo menos vai
Manu - Opa, meu cabelo não sabe o que é uma escova decente a quase dois meses - riu -
Rafa - E aí?
Clara - Não conseguem ficar em casa mesmo, não é?
Rafa - Não
Manu - Não - responderam em simultâneo -
Clara - Tudo bem - revirei os olhos e elas sorriram vitoriosas. Terminaram de comer, foram trocar de roupa e saímos logo em seguida.
 mannubarros: Gatassss!!  instagram.com/p/XlY7evLjne/
Acho que não é necessário frisar que elas conseguiram o que queriam né? Passamos o restinho da manhã e a tarde toda na rua. A primeira parada foi realmente o salão, como havíamos combinado. Dei só uma hidratada e uma aparada no meu cabelo, fiz as unhas e acho que apenas para provocar, elas quiseram fazer praticamente tudo. Almoçamos em um restaurante próximo ao salão, e a segunda parada foram as lojas que tínhamos ao nosso redor. Estarmos em um dos principais bairros nobres de Santos não me favoreceu muito, porque elas quiseram entrar em várias lojas, alegando que precisavam disso e daquilo, passamos inclusive por uma só com produtos do SFC, sobrou até pro Luck e por mais que na maioria das vezes também fosse apenas pra tentar me irritar, porque queria ir pra casa, elas conseguiram arrancar sorrisos/risos sinceros de mim. A verdade é que não precisei dizer nada, mas elas sabiam que eu não estava bem. Quando chegamos em casa me sentia extremamente cansada e pode até parecer doido, mas não era pelo fato de ter batido perna por um bom tempo e sim porque relembrar de certos momentos, me desgastava, aniquilava aos poucos as forças que demorei tanto tempo para juntar. Me joguei no sofá, liguei a TV e elas foram guardar suas sacolas.
Clara - Olha isso, perdi a maratona de Gossip Girl. E a culpa é de quem?
Rafa - Da Rita - gritou do corredor -
Clara - Palhaça antiquada, essa moda já passou - gargalharam. Continuei ali, aproveitei para ligar pra minha mãe e falar com minha boneca, que me disse que estava se arrumando para o aniversário, me contou tudo que aprontou com os avós, depois nos despedimos :c - Cadê a Manu? - perguntei ao ver a Rafa sentar em uma das poltronas com o Luck no colo -
Rafa - Saiu
Clara - Saiu?
Rafa - Sim, não viu? - riu  -
Clara - Não. Estava conversando com minha filhota - sorri -
Rafa - Está explicado - retribuiu o sorriso - Mas o celular tocou, ela atendeu, avisou que ia subir mas não demorava
Clara - Ah sim, foi ver o amiguinho colorido então
Rafa - Ãn?
Clara - Ela está ficando com o vizinho do andar de cima, mas eles são só amigos - riu - É sério, ela não aceita nem o rótulo de amizade colorida, é só amizade mesmo - completei em um tom totalmente irônico -
Rafa - Claro - respondeu do mesmo jeito e riu novamente. Ficamos o resto do sábado em casa, assistindo filmes e comendo as muitas guloseimas que elas compraram. Ainda falei com a Tia Na por telefone quando ligou pra Rafa, e por coincidência ou não, ela iria para o mesmo aniversário que meus pais e ficou feliz por saber que ia poder rever a Duda. Isso me intrigou, e me deixou com um receio enorme mas não podia fazer mais nada.
    ****
 Acordei quase ás 11h30 no domingo. Resultado de uma insônia insuportável que por pouco não me deixou acordada até o sol nascer. Levantei com uma preguiça fora do normal, a Rafa não estava mais no quarto, peguei uma blusa azul de alcinha, um short jeans, minhas peças intímas e entrei no banheiro. Me despi, tomei um banho frio, escovei os dentes, passei hidratante no corpo, me vesti, desfiz o coque do meu cabelo e o deixei solto. Voltei pro quarto, abri a cortina, assim como a janela, arrumei a cama, peguei o celular e saí.
 clarabarcelar_: "Quando olho para o meu passado, encontro uma mulher bem parecida comigo - por acaso, eu mesma - porém essa mulher sabia menos, conhecia menos lugares, menos emoções."  
Clara - Emanuelle e Rafaela cozinhando? - olharam pra trás assim que me ouviram - Realmente, tudo pode acontecer
Manu - Engraçadinha, bom dia pra você também - mostrou a língua -
Rafa - Pois é, bom dia - fingiram um amuo e eu ri -
Clara - Bom dia, meus amores - dei um beijo no rosto de cada uma e sentei-me - Posso saber qual vai ser o prato do dia?
Manu - A princípio, era uma macarronada mas agora já há controvérsias - rimos. O domingo foi literalmente, o dia da preguiça. Depois do almoço fomos pra sala, fiz elas assistirem o jogo comigo, que o time misto do Santos venceu por 1 a 0, no final a Rafa foi embora e pouco tempo depois meus pais chegaram com minha princesa, que estava bem cansadinha porque segundo eles, que vinham do Orquidário, ela tinha corrido demais brincando com os bichinhos, então depois do banho, pegou logo no sono. Exemplo que eu segui, apesar de não ter sono, mas o dia seguinte começaria cedo e eu não fazia ideia do que me esperava.

domingo, 28 de julho de 2013

Capítulo 17 - “...Os sentimentos não são para serem mandados ou comandados... apenas sentidos”


 Acordamos com meu despertador. Sim, acordamos, porquê na minha cama estavam a Eduarda e o Luck também. Pois é. Nós duas levantamos e ele ficou, de pose ainda, o que nos fez rir. Abri apenas as cortinas, entramos no banheiro, fizemos nossas necessidades, escovamos os dentes entre algumas palhaçadas e tomamos um banho morninho. Quando saímos, enrolei-me em uma toalha, peguei a dela, enxuguei-a direitinho, voltamos pro quarto, vesti-a/calcei-a, deixei seu cabelo soltinho e ela sentou na cadeira de frente para mesinha, fingindo estar digitando enquanto eu me arrumava. Dei um jeitinho no cabelo, depois de pronta, fiz uma maquiagem bem levinha, peguei minha bolsa e antes de sairmos do quarto ela fez questão de ir dar um beijinho no preguiçoso que continuava no mesmo lugar. Deixei a porta aberta por causa dele, passamos no seu quarto apenas para pegar sua mochila e fomos pra cozinha. Preparei dois sanduíches ultra rapidinhos para diversificar nosso cardápio matinal ''iogurte ou/e cereal com frutas'' e comemos com suco de maracujá.
Manu - Bom dia, bom dia - saudou-nos animadíssima -
Eduarda - Bom dia, tia
Clara - Ê, que animação
Manu - É sexta-feira, meu bem. Quer motivo melhor para estar animada?
Clara - Aham. E o seu motivo não tem nada ligado a quinta-feira, não é? - gargalhou -
Manu - Como você consegue? - sentou-se e eu ri -
Clara - Sei lá. A única coisa que eu sei é que tu nem precisa se dar ao trabalho de me contar nada porque seu sorriso já diz tudo
Manu - Chata - mostrou a língua - Estou feliz sim mas eu e o Pedro somos só amigos
Clara - Coloridos?
Manu - Não sei. Apesar de ter gostado, acho que o que aconteceu foi mais por carência, sabe?
Clara - Porque?
Manu - Não vou negar, queríamos, porque fluiu tudo muito naturalmente mas depois o clima ficou meio estranho
Clara - Foi a primeira vez que vocês ficaram, certo? - assentiu - Então, isso não devia ser... normal?
Manu - Não... eu acho - foi impossível não rir com sua expressão confusa - Vai ver só funcionamos como amigos
Clara - Como pode dizer isso se vocês nunca foram namorados?
Manu - Pergunta difícil a essa hora, Ana Clara? - gargalhei -
Clara - Ok, não está mais aqui quem perguntou
Manu - Acho bom mesmo
Clara - Mas conversem. Com certeza, juntos vocês vão chegar a alguma conclusão, seja ela qual for e como diria meu lindo avô, o que for pra ser, será - rimos - Vai pra onde?
Manu - Mostrar uns esboços que já estão prontos pra uma cliente que por sinal - olhou para o celular - Está um pouco atrasada porque ainda não recebi nenhuma mensagem dela avisando que já saiu de casa - revirou os olhos -
Clara - Não se enerva, Manuzita. Lembra que hoje é sexta - riu. Levantei e coloquei a louça na pia - Vamos boneca?
Eduarda - Vamos - levantou os braços para eu ajudá-la a descer do banco - Tchau tia - fez a Manu abaixar-se pra dar um beijo no rosto dela, pegou sua mochila, peguei minha bolsa, o chaveiro e saímos. Chamei o elevador, descemos, destravei as portas do carro, abri uma das traseiras, ela mesma colocou o cinto, só fiz ajeitá-lo, dei a volta, fiz o mesmo e arranquei. Deixei-a na escola e segui pro CT. O dia foi calmo e bem tranquilo, apesar da grande quantidade de trabalho, mas o time profissional inteiro de folga por razões que desconheço, me deixa aliviada e livre pra poder circular sem medo de me bater com quem não quero e não quer me ver também. Ainda mais depois do que aconteceu. Como vamos reagir quando estivermos frente à frente, de novo? Espero que demore pra isso acontecer porque não estou preparada em nenhum aspecto, principalmente o psicológico. No final do meu expediente, meu celular começou a tocar insistentemente enquanto arrumava minhas coisas para ir embora. Peguei-o, vi que era minha mãe e percebi o motivo de tanta insistência: já haviam duas ligações dela. 
 - início -
Clara - Oi mãe
Débora - Oi minha filha, tudo bem?
Clara - Tudo, e aí?
Débora - Tudo ótimo, queria te pedir uma coisinha
Clara - Pode falar
Débora - Traz a Dudoca pra passar o final de semana com a gente? Eu e o seu pai vamos a um aniversário e queríamos muito levá-la
Clara - Ih, ela vai pirar - rimos - Já chegou em casa?
Débora - Estou saindo da loja, onde você tá?
Clara - No CT ainda, quando chegar em casa falo com ela e a levo
Débora - Tá bom, obrigada meu amor
Clara - Mãe, por favor né? - riu - Até já
Débora - Até, beijo
 - término -
Terminei de organizar tudo, me despedi do pessoal que ainda pretendia ficar, e fui embora. Quando cheguei no apê a Manu estava jogandona no sofá e a Duda sentada no chão, pintando algo.
Clara - Isso sim é boa vida - repeti as palavras que usou no dia anterior e ela riu - Amor - agachei para ficar a sua altura - Quer passar o fim de semana com a vovó e o vovô?
Eduarda - Quero! - seus olhinhos brilharam - Você também vai?
Clara - Não. Vocês vão para um aniversário que eu suponho que seja amanhã e nós só vamos nos ver novamente no domingo quando eu for te buscar ou eles vierem te trazer. Tudo bem?
Eduarda - Sim! - concordou abanando a cabeça afirmativamente também -
Clara - Já fez as tarefas?
Eduarda - Hoje não teve
Clara - Vamos arrumar sua bolsa então que sua avó já deve estar a tua espera - levantei, ela pegou na minha mão para ajudá-la a fazer o mesmo e fomos para o seu quarto. Ficamos quase meia hora tirando e colocando roupas dentro da bolsa, e com esse tira e bota deu até para brincarmos. Quando terminamos, lhe dei um banho bem rapidinho, peguei uma roupa confortável, vesti-a, prendi seu cabelo, ela calçou uma sandalinha de dedo mesmo, saímos do quarto e foram quase mais trinta minutos para de despedir da Manu e principalmente do seu xodó, Luck. Descemos, entramos no carro e fui o caminho todinho ouvindo como tinha sido a manhã na escola. Chegamos no prédio deles, estacionei do lado de fora, entramos e como a nossa entrada já estava mais do que liberada, subimos. Meu pai ainda não estava mas só minha mãe fez festa pelos dois ao ver a Duda que também não ficou atrás. Mimos durante o fim de semana não vão faltar. A ideia era esperar por ele, mas como estava demorando, resolvi ir embora deixando um beijo enorme pro mesmo e todas aquelas recomendações clichês para minha pequena... e para a avó dela também porque é difícil distinguir quem é a criança quando estão juntas (...) O caminho de volta foi feito com meu pensamento apenas na minha caminha gostosa, onde eu pretendia me jogar depois de um bom banho, mas me surpreendi ao chegar no apê -
Rafa - Surpresa!! - riram -
Clara - Já sei, veio visitar o Luck. Acertei? - gargalhou -
Rafa - Exatamente - rimos - Nunca viria aqui porque estava com saudades
Clara - Ah, que linda - abracei-a... mentira, apertei-a mesmo -
Rafa - Eu sei, e por isso mesmo vim de mala e cuia para dormir aqui
Clara - Com a permissão de quem?
Rafa - Da minha mãe, oras - rimos -
Clara - Besta demais. Você entendeu o sentido da pergunta
Rafa - Entendi. E a Manu consentiu com a minha presença, o Luck também - riu - Então eu fico porque tu é minoria
Clara - Ahh, já estão assim então? - apontei para as duas - Até você, Luck? - me fiz de ofendida e caímos na gargalhada. Elas, individualmente, já me fazem um bem enorme, juntas então... apesar da Rafa ter um dom extremamente insuportável. Olho pra ela e é impossível não lembrar dele. Vejo ela sorrindo e como não imaginá-lo fazendo o mesmo? O pior de tudo é que eu gosto desse dom... Vai tentar me entender...
 rafaellabeckran: Apaixonada!!!  Quero levar pra casa e ninguém deixa  @clarabarcelar_ @mannubarros 
Ficamos nesse clima maravilhoso até o horário do jantar chegar e elas atrapalharem todo o meu plano de querer me jogar na cama, com a ideia de irmos no MC. E como a Rafa mesma disse, sou minoria na hora das escolhas, então... fui pro meu quarto, joguei minha bolsa em cima da cama, coloquei a da hospéde na cadeira, abri as portas do guarda-roupa, à espera que alguma me chamasse atenção e não demorou muito pra isso acontecer. Deixei-a separadinha, entrei no banheiro, prendi o cabelo de qualquer jeito apenas para não molhar, me despi e tomei um banho rápido. Saí, me enxuguei, passei meu hidratante, e me vesti. Calcei uma sapatilha vermelha, soltei e desembaracei o cabelo, passei uma maquiagem bem levinha, me perfumei, peguei dinheiro, o celular e saí do quarto. Como elas só estavam esperando por mim, descemos e fomos todas no carro da Manu. Chegamos no Mc Donald's Gonzaga que por sinal estava bem cheio, conseguimos achar uma mesa, sentamos e fizemos nossos pedidos.
Rafa - Como é que é trabalhar lá no CT?
Clara - Tá sendo maravilhoso. Fico cercada de pessoas super talentosas, faço o que mais gosto, então não podia ser melhor - ou podia... -
Rafa - Mesmo tendo que conviver com o Juninho?
Clara - Já sabia que seria assim quando aceitei
Manu - Esse mundo é pequeno demais
Rafa - Pois é, mas se nós não tivéssemos nos reencontrado e dependêssemos dele, nunca íamos saber que você voltou porque ele fingi nem te conhecer - falou com receio que suas palavras me atingissem mais do que deveriam e eu olhei pra Manu. Ela com certeza lembrou da nossa conversa no dia anterior - Pelo menos na nossa frente
Clara - É compreensível - suspirei -
Rafa - Se não fosse esse emprego, pensava em voltar pra cá?
Clara - Pra ficar? - assentiu - Não, mas com meus pais morando aqui, com certeza eles iam me convencer a fazer umas visitinhas
Rafa - Ainda bem que Deus preferiu fazer tudo de outra maneira - sorriu e eu retribuí. Será mesmo que essa tinha sido a melhor maneira? Nossos pedidos chegaram e comemos conversando sobre os mais variados assuntos.
 mannubarros: Noite com as girls @rafaellabeckran @clarabarcelar_  instagram.com/p/XRyM_8Ljs8/
Depois cada uma pagou o seu e fomos embora. Quando chegamos, as coisas inverteram: a Manu só queria cama, e o meu sono tinha sumido. Ela nos desejou boa noite, foi pro seu quarto, o Luck decidiu ir dormir por lá também e eu e a Rafa fomos pro meu.
Rafa - Deita aqui pra tirar foto comigo - fiz o que pediu e ela tirou - Vou postar, se liga - peguei o meu celular enquanto ela mexia no seu e fiquei sem reação quando abri a notificação.
 rafaellabeckran: Minha eterna cunhadinha  @clarabarcelar_ 
 [@] teamrafab: oi????
 [@] gilcebola:         
 [@] youlivenjr:  
 [@] foryouneymar: que palhaçada é essa? 
 [@] clarabarcelar_: Rafa troll haha   
Clara - Tá louca?
Rafa - O que foi que eu fiz? - perguntou na maior cara de pau
Clara - Olha essa legenda
Rafa - Linda, não é?
Clara - Linda vai ser a almofadada que tu vai levar na cara - gargalhou - Apaga
Rafa - Eu não, todo mundo já viu mesmo - deu de ombros - E não está incomodando ninguém, está?
Clara - Você é louca - riu - Tenho certeza que sua atual cunhada não vai achar muita graça disso
Rafa - Ih, nem sei se ainda tenho...
Clara - Como assim??
Rafa - Minha mãe e o Juninho estão cheios de segredinhos, portanto não sei de nada em concreto, mas ele foi pro Rio meio estranho
Clara - Ah... e eles namoram a muito tempo? - o que você tá fazendo?? -
Rafa - Não, ainda é bem recente, quer dizer, não tanto
Clara - Ah sim...
Rafa - O que é que você sente por ele? - sua pergunta me pegou completamente de surpresa, fiquei sem reação durante uns bons segundos -
Clara - Ele?
Rafa - Você sabe bem de quem estou falando
Clara - Deveria sentir alguma coisa? - tentei desconversar -
Rafa - Não sei, me diz você
Clara - Ah Rafa... Depois de um tempo você começa a perceber que quase nada nessa vida é pra sempre e que tudo pode de alguma forma ser mudado. As pessoas mudam, os pensamentos mudam, e se você não mudar, a vida muda você, porque tudo o que queremos nem sempre saí do jeito que planejamos
Rafa - Eu sei, mas e os sentimentos? Você não falou deles...
Clara - É que nas nossas ações, nós podemos comandar e os sentimentos não são para serem mandados ou comandados... apenas sentidos. E entendê-los é uma missão impossível
Rafa - E isso quer dizer que...?
Clara - Eu mudei sim. Essa Ana Clara que está aqui do seu lado é outra
Rafa - E essa Ana Clara não o ama mais?
Clara - Essa Ana Clara sabe apenas que não importa mais se o ama ou não
Rafa - Como não? É claro que importa
Clara - Não, não importa. Basta olharmos ao nosso redor - minha voz falhou, ela passou a mão no meu rosto, enxugando as lágrimas que teimaram descer e me abraçou forte -
Rafa - Desculpa. Não devia ter perguntando, nem estar insistindo nisso mas é que não me conformo - falou quase indignada -
Clara - Não se conforma com o quê? - forcei um sorriso -
Rafa - Eu presenciei o que vocês viveram e conheço os dois, os suficiente pra ter certeza que as coisas mudam sim e que nem sempre tudo saí como planejamos mesmo, mas o que uniu vocês nunca morreu não é? - não consegui respondê-la. Não por não saber o que falar, mas sim por estar completamente perplexa por estar ouvindo tudo isso dela. A última pessoa que eu esperava ouvir tantas coisas... intensas - Tudo que vocês fazem pra tentar mostrar o contrário só prova isso mesmo: o sentimento não mudou. E olha que estou dizendo isso sem ainda nem ter visto vocês frente à frente
Clara - Pára de falar besteira, Rafaela, por favor
Rafa - Besteira? - riu - Você sabe que não é. Eu te conheço também, esqueceu? Porque não deixam de ser orgulhosos e esquecem seja lá o que tenha acontecido no passado?
Clara - Não é tão fácil quanto aparenta
Rafa - Minha mãe costuma dizer que na maioria das vezes, nós é que complicamos tudo - ouvi isso só fez o meu estado piorar. Ela me abraçou novamente e deitou a minha cabeça no seu colo - Tá bom, desculpa de novo. Prometo não tocar mais nesse assunto
Clara - Obrigada - não sei se ela conseguiu ouvir porque minha voz saiu mais baixa do que deveria. Esse assunto me desgasta e por vezes me faz sentir pior que lixo, porque quero e preciso falar tudo de uma vez mas... mereço até que me chamem de covarde... porque não dá, não consigo. E quando a bomba estourar? Eu vou estar aqui, pra sofrer todas as consequências e esperar pra ver se vou conseguir ficar de pé, depois de tudo.