quarta-feira, 9 de julho de 2014

Capítulo 51 - “Nossos corações se pertencem”


A sexta-feira amanheceu nublada, por isso a vontade de sair da cama era quase nenhuma. Parecia que enquanto estava ali nos braços dele o mundo estava parado lá fora e só ia voltar a girar quando levantássemos. Bela teoria, pena que não era verdade. Acordamos juntos (ou eu o acordei com a minha inquietação, mas se foi isso ele não disse), levantamos apenas para escovar os dentes e deixar o Luck sair já que ele dormiu com a gente de novo. Ficamos enroscados, trocando carinhos, beijinhos aqui e ali que incitavam outros ainda mais intensos e no meu estado vulnerável era o suficiente para me fazer suspirar. Não queria que aquilo terminasse mas ele parou repentinamente depois que colocou as mãos por baixo do meu pijama e eu estremeci. Percebi o quão foi difícil pra ele parar por causa da sua respiração anelante e também porque o senti relativamente animado. Sabia por que ele tinha parado. Sabia e o admirava por isso... por pensar em mim antes de pensar nele e por ter receio de me magoar achando que estaria me forçando a fazer algo que não queria depois de me ver tão frágil no dia anterior e sabendo que ainda estava. Mas naquele momento era o que eu mais queria e precisava: me sentir amada. Isso ia fazer a mágoa e o dissabor diminuírem (talvez provisoriamente, ou não) e eu necessitava tanto disso...tanto. Olhei nos seus olhos, peguei as suas mãos e coloquei-as na minha cintura novamente. 
Neymar - Eu não... - beijei-o antes que pudesse terminar de falar e como ele não ofereceu nenhuma relutância, nossas línguas envolveram-se imediatamente, enroscando-se uma na outra, avivando ainda mais meu anseio de amar e ser amada o quanto antes - Amor... - o seu tom foi receoso e eu sabia o que vinha a seguir por isso me antecipei -
Clara - Por favor... - sussurrei contra seus lábios entreabertos e isso foi o bastante para convencê-lo. Sua boca encontrou a minha novamente e por um curto espaço de tempo os problemas nem existiam mais.
    ****
Estava terminando de me vestir quando ele começou a rir olhando para o celular.
Clara - Que foi?
Neymar - Você precisa ver o que a Duda e a Rafa fizeram na parede do quarto - franzi a testa -
Clara - Preciso ter medo? - riu e me entregou o celular.
 rafaella: Oi mãe, oi pai. Redecorei meu quartinho com a ajuda da titia, beijos!  @clarabarcelar_ @neymarjr
Clara - A cara da Eduarda é a melhor - rimos -
Neymar - É aquela típica "acabei de aprontar"
Clara - Que por acaso você conhece bem
Neymar - Aprontei quase nada
Clara - Claro, e a lua é verde
Neymar - Como? - gargalhou e só aí me dei conta do que tinha falo -
Clara - Meu avô costumava falar isso quando eu era criança e tentava esconder alguma coisa dele... eu também sempre ria e terminava contando a verdade - e lá estava eu mesma me trazendo de volta para a dura realidade -
Neymar - Ei, não fica assim - me puxou pra mais perto - Ele está bem e já deve até está em casa a essa hora
Clara - É... vamos comer. Depois vou ligar pra ter certeza - assentiu e fomos para cozinha - Será que devo me preocupar com a Manu também?
Neymar - Não. Gil mandou uma mensagem ontem à noite avisando que eles iam ficar na casa dele e ela ficou sem bateria. Vi agora de manhã
Clara - Ah, ótimo - fui colocar comida pro Luck, tomamos café, depois falamos com a Dudoca por telefone por um tempinho. Estava lavando a louça para depois ligar pro meu pai quando a campainha tocou. O Luck foi na frente e o Júnior atrás. Dois minutos depois ele estava de volta - Quem é? - olhei-o -
Neymar - Sua mãe - parei na hora o que estava fazendo e virei totalmente pra ele -
Clara - Aconteceu alguma coisa?
Neymar - Não, e como eu tinha dito, seu avô já está em casa - respirei de alívio - Mas ela quer conversar com você - enxuguei as mãos e encarei o chão sem saber muito bem pra onde olhar - Não faz isso, você sabe que ela não merece
Clara - É por isso mesmo que não sei se é o melhor momento. E se eu disser algo que me arrependa depois?
Neymar - Não fala nada, apenas escuta o que ela tem pra te dizer
Clara - Como ela está?
Neymar - Nada bem - meus olhos encheram de lágrimas - Mas tenho certeza que depois de se entender com a filha vai ficar muito melhor - aproximou-se de mim e pegou as minhas mãos - Vai lá. Vocês precisam estar mais unidos do que nunca agora - respirei fundo e concordei -
Clara - Você vem?
Neymar - Essa conversa é só de vocês. Eu fico aqui com meu parceiro - olhou pro Luck, que olhava para nós dois alternadamente e eu sorri. Saí da cozinha e assim que me viu, minha mãe levantou. Largou a bolsa no sofá e quando eu já estava perto o suficiente me abraçou forte. Eu queria, mas não esperava. Retribuí da melhor maneira possível, porque por mais magoada que estivesse nunca negaria um abraço à ela, nunca -
Débora - Me escuta - pediu com a voz rouca. Me perguntei se ela chorou a noite toda e meu peito doeu só de pensar nisso - Por favor - sua voz enfraqueceu ainda mais e só consegui pedir pra ela sentar, fiz o mesmo - Talvez hoje seja um dos piores dias da minha vida mas eu te amo. Eu te amo muito! Dediquei boa parte da minha vida te apoiando em uma decisão que você julgou como a melhor para todos, lembra? E não, não estou arrependida de nada. Só quero te fazer entender que eu, seu pai e seus avós fizemos o mesmo agora. Quando a gente ama muito uma pessoa queremos protegê-la de tudo
Clara - Me proteger? Por favor, isso é ridículo
Débora - Não fala assim
Clara - Desculpa. Mas é diferente, mãe. Totalmente diferente
Débora - Diferente por quê?
Clara - Não é obvio? Agora a vida do meu avô está em risco - doeu dizer essas palavras - Quem precisa ser protegido é ele
Débora - E é justamente por ser a vida dele que eu respeitei a decisão dele. Inconformada, indignada, com o coração na mão, mas respeitei. Ele é o meu pai...
Clara - Mesmo assim, isso não foi certo...
Débora - E você acha que foi fácil também? Acha que achei certo esconder isso de você? Sentia uma facada no meu coração toda vez que tinha que te enganar. Eles disseram que não iam conseguir fazer isso e sobrou pra mim... Virei a vilã da história mesmo sem querer
Clara - Todos vocês mentiram pra mim. Você não é vilã nenhuma
Débora - Eu ia te contar... eu queria tanto
Clara - Quando, mãe?
Débora - Eu até tentei um dia, mesmo contra a vontade do seu avô. Eu vim aqui pra te contar logo tudo de uma vez - pensei a respeito disso e minha memória me arrastou até um certo dia...
    Flashback on
 » A campainha tocou, levantei, olhei pro relógio e pensei que pudesse ser minha mãe. Saí do quarto, fui ligeiro atender e sim, era ela.
Débora - Oi, meu amor
Clara - E aí, mãezoca - riu levemente e me abraçou forte -
Débora - O que aconteceu aqui? - perguntou olhando ao redor e vendo tantas flores -
Clara - Isso aqui não é nada - ri e fechei a porta - Tem um buquêzinho até no banheiro - arregalou os olhos - É sério - ri -
Débora - Foi o Júnior? - perguntou ainda sem entender nada -
Clara - Sim, e olha - peguei o CD e entreguei pra ela -
Débora - Meu Deus, mas eu lembro de quando você fez esse CD... Quer dizer, é ele mesmo?
Clara - É ele - sorri -
Débora - Mas porque tudo isso? Me conta do início fazendo o favor
Clara - Senta - ri. Nos sentamos lado a lado e mesmo contra a minha vontade porque o assunto desde o início não me agradava nada, contei... tudo -
Débora - Ainda bem que tudo terminou da melhor maneira possível. E ainda bem que vocês estão felizes - pegou nas minhas mãos -
Clara - Mãe, você está bem?
Débora - Lógico - clareou a voz -
Clara - Hum, então me diz o que tem pra falar comigo
Débora - Esqueci - falou rapidamente -
Clara - Como assim, esqueceu, mãe? Parecia ser sério
Débora - A verdade é que estava com saudades de vocês e... fiz isso pra ter certeza de que te encontraria em casa
Clara - Mãe!
Débora - É sério. Cadê a Dudoca? - percebi claramente que ela mudou de assunto mas preferi não insistir porque se fosse sério mesmo ela falaria -
Clara - Foi pra casa da Rafa, deve voltar antes de anoitecer
Débora - Acho que não vou poder esperar... tenho uns assuntos do trabalho para resolver
Clara - Se precisar de alguma coisa...
Débora - Não precisa se preocupar, filha
Clara - Então tá - fomos até a porta - Não esquece que somos uma pela outra sempre
Débora - Eu sei - sorriu e me abraçou novamente, depois deixou um beijo pra Manu, outro pra Dudoca e saiu. Fiquei com a ligeira impressão de que ela não estava me contando algo... sua expressão quando chegou parecia séria demais pra ter ''esquecido'' o que queria me falar...mas o que quer que fosse, cedo ou tarde, eu iria descobrir. «
    Flashback off
Clara - E por que não fez isso? - só podia ser aquele dia... Não consegui segurar as lágrimas... quer dizer que eu já podia estar sabendo disso a muito tempo -
Débora - Porque quando cheguei aqui você estava com o maior sorriso do mundo. Tinha acabado de se reconciliar com o amor da sua vida. A casa estava cheia de flores, seus olhos brilhando... sua felicidade quase palpável. Aí as palavras dele vieram na minha mente de novo e não consegui
Clara - O que especificamente? - perguntei entalada pelas lágrimas -
    Flashback on » Débora 
 » Débora - A Clara nunca vai aceitar isso! Nunca! 
Marcos - A decisão é minha 
Débora - Ela precisa saber 
Marcos - Minha filha... você sabe bem o que as pesquisas apontam. Achar um doador já é difícil, na família então... E o Dr. ainda nem colocou essa hipótese, graças à Deus. Falar pra ela pra que?
Débora - Mas a hipótese pode surgir - não gostava de pensar nisso mas era a verdade - E nem é só isso, ela tem o direito de saber
Marcos - Eu preciso ver a Clara feliz! Com aquele sorriso lindo, com aquela energia contagiante... é disso que eu preciso. Não quero que ela olhe pra mim como se estivesse me vendo pela última vez porque sei que é isso que vai acontecer
Débora - Não fala assim, pai. A Clara não faria isso
Marcos - Faria... eu sei que sim. Porque você faz o mesmo, minha filha - fiquei sem reação
Débora - Eu... eu só tenho medo - ele me abraçou e acho que ouvi um "eu também tenho" mas só acho, não estava em condições de prestar atenção em nada
Marcos - Já entreguei nas mãos de Deus, o que tiver que ser, será 
Débora - Mas a Clara...
Marcos - A Clara precisa ser feliz porque já perdeu muito tempo longe de pessoas que também são importantes pra ela. E é na felicidade dela e da Duda que vou buscar ainda mais forças para vê-las crescer mais e mais. Se nada der certo e a minha hora chegar... é porque já vivi tudo que tinha pra viver 
Débora - Ela não vai nos perdoar... «
    Flashback off 
Débora - Não nos odeie, por favor - foi a única coisa que falou depois de me contar tudo e eu não sabia mais de onde vinha tantas lágrimas -
Clara - Você não entende, mãe? Eu amo vocês demais pra isso. Amo demais pra acreditar que isso está realmente acontecendo
Débora - Ah, filha... - sentou mais perto de mim e me abraçou novamente - Uma pela outra sempre, lembra? - só assenti e coloquei a cabeça no seu colo. Choramos juntas e abraçadas por um tempo porque foi isso que devíamos ter feito ontem e não fizemos.
 Minha mãe não estava em condições de dirigir e saiu de táxi, por isso o Júnior nos deixou no apartamento dela, nos despedimos e ele seguiu para sua casa depois de me avisar que mais tarde passaria para me pegar com a Duda. Meu dia foi praticamente todo dedicado ao meu avô, ele parecia melhor, apesar de achá-lo um pouco pálido ainda, mas minha avó disse que era normal, devido à diminuição das defesas do organismo. Fiquei todo tempo que pude ao lado dele, enchendo-o de carinho e querendo mais que tudo recompensá-lo de alguma forma. E o melhor foi vê-lo correspondendo tudo com o seu sorriso lindo e suas habituais brincadeiras. Seu bom humor é uma das suas melhores qualidades e por causa dela ninguém diria que ele está doente.
    ****
 No dia seguinte, 28, o Júnior acordou decidido a me convencer a adiantar nossa ida para o Guarujá (acho que era mais uma das suas técnicas de me distrair, e mesmo que não fosse esquecer a dura realidade, me animava um pouco saber que ele estava tentando de todas as formas fazer com que o nosso primeiro Réveillon juntos fosse tão perfeito quanto o Natal), e se ele sozinho já consegue ser bem persuasivo, com a ajuda da Duda então... fico quase sem saída. Mas aceitei. Falei com minha mãe antes apenas pra ter certeza que eles realmente iam também no dia seguinte, arrumamos nossas coisas e fomos só nós três (e o Luck, claro) para o nosso destino de Réveillon: Jardim Acapulco, lugar que apelidei secretamente de mansão. Passamos o sábado inteiro aproveitando todos os cômodos da casa do nosso jeito (ou seja, bagunçando), inclusive o quarto da Dudoca que já estava pronto a um tempinho mas ainda não tínhamos tido a oportunidade de ver. A propósito, ficou lindo. Foi maravilhoso passarmos um tempo juntos, só a gente mesmo. Por alguns momentos parecia que estava vivendo dentro dos meus melhores sonhos: uma casa linda, o amor da minha vida, a nossa filha e um cachorro. Pensando bem, acho que nem nos meus sonhos era tudo tão perfeito. 
 O dia 29 foi, literalmente, um domingão em família. Nossos pais e meus avós - que só foram porque eu insisti muito - chegaram logo pela manhã e um pouco mais tarde a Manu, o bonde, a Fatinha e o Théo chegaram também. O lado bom de ter uma casa exageradamente grande: sempre vai caber todo mundo. Já a última segunda-feira do ano (30) foi dia de praia. A Duda foi uma das que mais gostou da ideia porque já tinha um bom tempo que não ia e aproveitou muito, ficou até com as bochechas mais coradinhas.
 Acordei cedo no último dia do ano e dessa vez não tinha nada a ver com sonhos estranhos ou preocupações, até porque saber que meus avós estavam dormindo em algum quarto no mesmo corredor do meu era bem tranquilizador. Mas levantei para ir ao banheiro e o sono simplesmente evaporou. Ultimamente vinha dormindo pouco e como consequência, à noite já queria dormir antes de todo mundo. O Júnior ainda dormia serenamente, agora com uma das mãos no meu travesseiro vazio. Não queria acordá-lo e se permanecesse na cama era isso que ia acontecer. Peguei um short e um biquíni, entrei no banheiro, tomei um banho rápido, escovei os dentes e me vesti. Voltei pro quarto, peguei o celular e um dos livros que estava na minha bolsa. "O Colecionador de Lágrimas", do Augusto Cury, presente que ganhei do meu pai um tempinho depois de nos mudarmos para Florianópolis e eu nunca tinha vontade de ler por, erradamente, achar que era uma espécie de autoajuda e depois que a Duda nasceu não tive tempo para ler nada que não fosse livros para mamães de primeira viagem, guias e até manual de instruções do bebê, então acabei esquecendo. Mas arrumando as coisas para a viagem, encontrei-o e decidi colocar na bolsa. Foi um presente e o meu dever era pelo menos tentar ler. Comecei no dia que chegamos mesmo, antes de dormir, e percebi logo que não tinha nada relacionado a autoajuda, era mais como um... enriquecimento psicológico. Me entusiasmei um pouco, e coloquei na cabeça que tinha que terminar. Saí na pontinha dos pés, passei no quarto da minha pequena apenas por hábito e desci. Como já era de se esperar não havia mais ninguém acordado. Até o Luck ainda dormia na sua caminha. Fui para a área externa, o sol ainda fraquinho me deu bom dia, sorri e deitei em uma rede. 
 clarabarcelar_: Pra começar bem o dia...  
Continuei de onde o marcador estava e quando percebi as últimas páginas já se aproximavam, apesar de falar sobre a Segunda Guerra Mundial, não deixa de ser um romance e por esse motivo não consegui parar. Quando terminei e ainda estava assimilando o final, meu celular tocou, me tirando dos meus devaneios. Vi o nome na tela e sorri. Atendi sem demora. 
 - início -
Clara - Oi, Di
Diego - Te acordei?
Clara - Para sua sorte, não
Diego - Ótimo, preparada para me ouvir?
Clara - Não - gargalhou - Não me venha com discursos, por favor, eu não te esqueci coisa nenhuma
Diego - Mas não liga, né?
Clara - A gente se fala por mensagens sempre, ué - tentei me defender mas ele estava certo -
Diego - Não é a mesma coisa
Clara - É... eu sei - admiti - Venho falhando com você, desculpa
Diego - Ei, não é pra tanto também, estava brincando
Clara - Não, mas você tem razão. Precisava pedir desculpas mesmo
Diego - Está desculpada, então. Melhor?
Clara - Um pouco - rimos - Como você está, DJ?
Diego - Muito bem. Acho que não tenho do que reclamar do meu 2013
Clara - Que bom. Você merece só coisas boas, apesar de ser um chato
Diego - Nossa, feriu o meu ego - rimos - Mas obrigado, e digo o mesmo. Está tudo bem por aí também né?
Clara - Sim
Diego - Sim, só?
Clara - Sim... quer dizer, aconteceu algo meio inesperado nos últimos dias mas agora está tudo sob controle
Diego - Algo sério, porque o seu tom de voz mudou
Clara - É... - sabia que meu avô não queria que ninguém soubesse a princípio mas agora todos os nossos amigos mais próximos já sabiam e ele estava lidando muito bem com isso, graças à Deus. E o Diego... bom, confiava nele o suficiente para saber que ele não ia sair espalhando para Florianópolis inteira - Meu avô está doente, Di. Aplasia medular
Diego - Nossa! Já ouvi falar, mas é uma doença que surge assim, do nada? - perguntou depois de um tempo em silêncio, acho que estava procurando as palavras certas pra dizer depois de ouvir algo que não estava esperando -
Clara - Não, na verdade já tem algum tempo que ele descobriu, eu é que só fiquei sabendo por esses dias...
Diego - Entendi. Mas ele está fazendo o tratamento certinho e está tudo bem, certo?
Clara - Tudo na medida do possível, sim
Diego - Vou ficar torcendo daqui pra que ele melhore logo
Clara - Quanto mais energia positiva melhor - ele riu, mas só pra aliviar a tensão mesmo - E mudando totalmente de assunto, como vai o namoro?
Diego - Não vai, já foi
Clara - Ah, não acredito
Diego - Verdade, e sinceramente? Estou muito bem assim. E o seu? Vai tão bem quanto a mídia faz questão de mostrar?
Clara - Não sei o que mídia mostra, mas sim, está tudo muito bem
Diego - E a Duda?
Clara - Também - um sorriso surgiu automaticamente ao falar dela - Fiquei muito feliz por você ter ligado, sério. Obrigada por lembrar de mim
Diego - Como se fosse possível te esquecer - riu levemente - E você sabe que estou aqui para qualquer coisa sempre, não sabe?
Clara - Eu sei, precisando é só chamar também
Diego - Pode deixar - riu - Então é isso, que em 2014 a gente possa se ver mais e que ele te traga ainda mais sorrisos - sorri mesmo que ele não pudesse ver -
Clara - Pra você também, Di. Se cuida e vê se ganha juízo
Diego - Tenho de sobra - rimos - Se cuida você também, beijo
Clara - Beijos
 - término -
Encerrei a chamada, joguei o celular na rede, onde ele estava anteriormente e fechei os olhos. O sol começou a esquentar um pouco mais e mesmo assim estava me fazendo bem ficar ali, sozinha com meus próprios pensamentos, revivendo mentalmente todos os acontecimentos mais marcantes do meu ano e agradecendo a Deus por eles, que quando não me trouxeram sorrisos, me fizeram aprender algo. A começar pela minha demissão ainda em Florianópolis, que parece ter sido a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Sério, foi meio que o começo de tudo. Depois veio a entrevista de emprego para trabalhar no CT, minha vinda definitiva para Santos, o reencontro com o Júnior, a ajuda que ele me deu por duas vezes quase seguidas, primeiro com uma carona depois quando me viu desmaiada na minha sala, discussões atrás de discussões, o fato dele ter pensado em tirar a Duda de mim em um momento de raiva, o que me fez ir parar na emergência de um hospital, além de um resfriado repentino que me deixou cuidar dele por uma noite. Claro, ainda teve nosso beijo proibido no vestiário do CT que foi épico pra mim. Foram tantos altos e baixos. Tudo que falávamos ou fazíamos escondiam algo parecido com: Eu te odeio com todo o meu amor, te mantenho longe de mim com toda a minha vontade de te ter por perto e te ignoro com toda a minha vontade de falar com você. Seria cômico se não houvesse tanto sofrimento. Mas depois tudo foi recompensado e acho que não posso reclamar de monotonia na minha vida, agitada ela é. 
XxX - Rindo de quê? - a rede quase virou, me derrubando de bunda no chão por causa do susto que levei já que achava que ainda estava sozinha. A gargalhada estrondosa da Manu denunciou-a e eu revirei os olhos antes mesmo de vê-la -
Clara - Sem graça, isso é jeito de me dá bom dia?
Manu - Não queria te assustar, desculpa - deu um jeitinho de sentar na rede comigo - Bom dia - beijou minha bochecha - Melhor assim?
Clara - Muito melhor - rimos -
Manu - Mas estava rindo de que mesmo?
Clara - É sério que eu estava rindo?
Manu - Sim - riu -
Clara - Estava com o pensamento longe... lembrando da roda gigante que foi o meu ano
Manu - Realmente... foi cheio de altos e baixos... mas o saldo final é positivo?
Clara - É... sim
Manu - Hum, não senti muita firmeza
Clara - É um saldo positivo, só não posso dizer que é 100% porque a aplasia do meu avô mexeu e ainda vem mexendo comigo, sabe? Ele não quer que a gente sinta pena... e eu não consigo sentir mesmo. Mas as vezes bate um medo... sei lá
Manu - Ah, amiga - me abraçou (ou melhor dizendo: se jogou em cima de mim) - Você fica pensando nisso o tempo todo, não é?
Clara - Até que não, só em alguns momentos quando estou sozinha
Manu - Então vou me certificar de não te deixar mais sozinha - rimos - É sério
Clara - Deixa de ser louca
Manu - Não é loucura. E vai terminar tudo bem, você vai ver. Vô Marcos é forte
Clara - Eu sei - respondi convicta, mas lembrei da conversa com a minha mãe, onde ela me contou o que ele achava "Se nada der certo e a minha hora chegar... é porque já vivi tudo que tinha pra viver". Balancei a cabeça para afastar isso da mente - E a Fatinha e o Théo, estão gostando daqui? - mudei de assunto porque era a melhor opção -
Manu - Sim, ainda bem! - sorriu - Mas acho que só acredito que eles vão ficar aqui comigo no dia que me disserem que já acharam um lugar
Clara - Porquê esse pessimismo todo? Senti muita convicção no Tio Théo quando ele disse que quer ficar
Manu - Mas minha mãe é doida, e ele parece não saber dizer não pra ela
Clara - Deixa ela ouvir você a chamando de doida
Manu - Ah é, esqueci que não é doida e sim "espontânea" - gesticulou as aspas, tentou imitar a voz da Fatinha e eu gargalhei -
Clara - Acho seu pai um fofo
Manu - Sério? Por quê? - riu -
Clara - Ah, é difícil ver um homem que faz de um tudo para ver sua mulher feliz hoje em dia, principalmente depois de anos casados. É raro
Manu - Modéstia à parte, meu pai é um marido maravilhoso. E é bom que o Gil vá aprendendo algumas coisinhas porque quando eu casar... - interrompeu seu discurso ao me ver erguer uma sobrancelha - Se eu casar, é claro - eu ri - Quero um relacionamento como o deles
Clara - Você sabe que as pessoas que ficam com esses discursos de "se eu casar..." são as primeiras a trocar alianças, não sabe?
Manu - Não, não sei. Quem disse?
Clara - Eu estou dizendo
Manu - Nós duas sabemos que você vai casar primeiro que eu
Clara - Por quê?
Manu - Porque você é uma romântica incurável. Já te vejo entrando em uma igreja enorme, decorada por mim, com um vestido lindo de morrer. A Duda à sua frente. O Júnior te esperando no altar e eu diva como madrinha
Clara - Criatividade não te falta mesmo - rimos - Mas, só pra te contrariar eu acho que você casa primeiro. Um casamento em Las Vegas é a sua cara - gargalhou também -
Manu - É sério? Tipo, você acha? - sorriu e eu ri - Quer dizer, claro que não - tentou parecer séria - Daqui a alguns anos a gente conversa - sorri nos imaginando mais velhas conversando exatamente sobre isso. Mas mudamos de assunto de novo e ficamos fazendo o que mais gostamos: falando besteiras e rindo. Ela me fez prometer que em 2014 íamos sair mais juntas e já começou a fazer planos, pelo menos até ficarmos com fome e decidirmos entrar. 
 clarabarcelar: "Viva cada dia como se fosse o último. Renasça a cada manhã e faça suas 24 horas valerem a pena. Conserte seus erros, ou repita-os se julgar necessário. Felicidade não é fazer as coisas certas. A vida não é uma ciência exata, é humana..." 
Fomos pra cozinha, começamos a preparar o café da manhã, aos poucos todos foram acordando e casa voltou à sua agitação habitual. Passamos a manhã na piscina e depois do almoço decidimos começar a enfeitar a casa. Sim, isso mesmo. Ideia de quem? Da Emanuelle, é claro. E ela só precisou de alguns balões prateados que achamos em uma gaveta da sala, velas, aromatizadores e abajures (ah, e de mim e da Rafa para ajudá-la ). Enchemos os balões, depois de darmos o nó, amarramos pedacinhos de fitas de cetim da mesma cor e fomos colando no teto. Arrastamos sofás e outros móveis para ampliar um pouco o espaço da sala, compramos flores para espalhar pétalas pelos cômodos junto com as velas e os aromatizadores de ambiente e para finalizar, a Manu inventou de colocar lâmpadas coloridas nos abajures, o que, por incrível que pareça, foi bem fácil de encontrar em uma boutique de decoração que achamos aberta. A casa que já estava perfeitamente arrumada pela Joana, ficou ainda mais, só que com a nossa cara. E por causa dessa decoração inusitada saímos atrasadas para o salão com a minha mãe, a Fatinha, a Tia Ná e a Dudoca que pediu pra ir junto. Minha avó ficou cuidando do jantar com a Joana para poder liberá-la o quanto antes. Os meninos foram jogar futevôlei na praia. Meu pai, meu avô, Tio Théo e o Tio Neymar ficaram jogando caixeta. Fizemos apenas as unhas, cabelo e depilação (e deixei que a Dudoca pintasse as unhas com um rosa clarinho, o que a deixou em êxtase). O sol já estava indo embora quando chegamos em casa, e ela foi a primeira a entrar correndo disposta a mostrar suas unhas a primeira pessoa que visse - e a segunda, a terceira, enfim... - A Joana já tinha ido, e tudo estava quase pronto. Fui colocar minha bolsa no quarto, e aproveitei para separar logo minha roupa com a ajuda da minha mãe. Estava em dúvida entre um vestidinho branco e outro verde, e até já sabia qual ela escolheria, mesmo assim perguntei e acabei ficando com o que ela disse ser "a cor da esperança". Ultimamente era o que mais vinha alimentando... esperança. Seria bom começar o ano de verde então. Separei logo a roupinha da Duda também. Desci procurando pelo Júnior, encontrei-o do lado de fora, em uma rede com o Luck deitado ao seu lado. Aparentemente ouvindo música mas o olhar estava longe. Quando parei na sua frente, ele tirou seus enormes fones de ouvido e sorriu. 
Clara - Também fiz isso hoje mais cedo... só que naquela outra rede ali - apontei pra ela do lado oposto ao nosso -
Neymar - Fez o que? - franziu a testa -
Clara - Pensei na vida. Ou melhor, em como meu ano foi uma montanha russa cheia de oscilações - ele sorriu de novo mas não respondeu, em vez disso puxou um pouco um lado da rede e pediu para eu deitar ao seu lado. Fiz isso, ficamos grudadinhos, ele beijou meu cabelo e entrelaçou nossos dedos -
Neymar - Acho que estava tentando imaginar como seria o término do meu ano... - deixou a frase no ar - Em comparação, acho que seria um tédio - riu -
Clara - Se eu não tivesse voltado? - olhei-o e ele assentiu cuidadosamente - Acho que você ainda estaria com a atriz lá, e sim, seria um tédio
Neymar - Acha mesmo? - fez uma careta - Pensando bem agora, é muito óbvio que nós não tínhamos nada a ver
Clara - Absolutamente nada - revirei os olhos para o que eu mesma tinha dito antes, mesmo que tenha sido ironicamente, e não consegui evitar uma cara feia também ao lembrar do olhar superior daquela garota quando me viu pela primeira vez e o que me disse da última vez. Por que você ainda lembra disso, Ana Clara? Ele me olhou confuso -
Neymar - Então, por que você disse que... - cortei-o -
Clara - Você acreditou? - gargalhei -
Neymar - Ah, claro. Você e sua ironia
Clara - Sim, eu e ela. Temos um relacionamento maravilhoso
Neymar - Melhor que o nosso? - depositou um beijinho atrás da minha orelha -
Clara - Hum, pergunta difícil
Neymar - Casa com ela
Clara - Seríamos bem felizes, só pra você saber - tentei falar sério. Ele me olhou com as sobrancelhas erguidas tentando me fazer vacilar e conseguiu porque não resisti e ri. E ele riu também. Uma gargalhada tão gostosa que seria capaz de fazer sorrir até a pessoa mais triste do mundo. Puxei o seu rosto para mais perto do meu e beijei-o calmamente. Depois repousei a cabeça no seu peito novamente, ouvindo as batidas sossegadas do seu coração - Também tentei imaginar como seria o meu ano se não tivesse aceitado o emprego aqui. Na verdade, as coisas entre nós nunca aconteceram de uma maneira convencional - rimos - Então parar pra pensar em certas coisas de vez em quando é meio que inevitável...
Neymar - Você viria visitar seus pais mesmo que não aceitasse o emprego, não viria?
Clara - Sim! Não é incrível que tudo parecia interligado? Tudo parecia querer me trazer pra cá... e minha avó me disse algo uma vez que... sei lá, agora parece fazer sentido
Neymar - O que ela disse?
Clara - Que os nossos corações se pertencem
Neymar - Ela disse isso? - perguntou querendo sorrir -
Clara - Disse. Uns dias depois que eu aceitei o emprego, em uma das nossas muitas conversas. Na hora foi algo tão lindo de se ouvir... mas eu não entendia porque ela achava isso já que estávamos separados e eu não via nenhuma remota possibilidade de voltarmos... Achava que quando você descobrisse tudo... - parei de falar não querendo lembrar de coisas tristes e ele levantou o meu rosto para me olhar nos olhos -
Neymar - Ainda bem que sua avó sabe o que fala - me mostrou o seu sorriso mais lindo. Ficamos ali sei lá por quanto tempo, ouvindo músicas, contando os balões que enfeitavam a piscina, rindo ou apenas curtindo a companhia um do outro.
 neymarjr: instagram.com/p/nzCST9GmCG/
    ****
A Dudoca ainda teve tempo de tirar um cochilo, só porque eu pedi muito e porque o Júnior deitou com ela (e terminou pegando no sono também, normal) mas ou era isso ou ela não ia estar acordada para ver os fogos de artifício que tanto gosta, e a Tia Ná já tinha dito que a visão do jardim é perfeita já que a praia é tão pertinho. Acordei-os perto das 22h. A Duda levantou com uma preguiça enorme, mas foi só falar em "fogos de artifício" pra ela acordar de vez. O Júnior continuou deitado na cama dela, nos observando e tirando fotos de nós duas. Fotos lindas, que vi assim que mandei a Duda pro chuveiro e passei todas pra mim.
 clarabarcelar_: Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a  
Clara - Posso saber o que o senhor ainda está fazendo aqui?
Neymar - Estava olhando vocês duas - colocou as mãos atrás da cabeça e encostou na cabeceira, totalmente relaxado -
Clara - Por que?
Neymar - Não pode? - coloquei as mãos na cintura e semicerrei os olhos, ele gargalhou - Gosto de ver vocês juntas também - sorri - Será que posso? - acrescentou, querendo que eu entrasse no seu jogo -
Clara - Claro que pode, amor - talvez eu tenha sido um pouco irônica, talvez - Mas deixa eu só te dizer uma coisa - saí da pontinha da cama e sentei mais perto dele - Hoje quem está comandando a cozinha é a minha avó e olha, a Dona Glória odeia atrasos. Isso significa que se você não sair daqui agora pra ir se arrumar, vai ficar sem jantar porque ela não vai te esperar - falei muito calmamente -
Neymar - Você acha que ela seria capaz?
Clara - Eu se fosse você não pagaria pra ver - ele se afastou da cabeceira e consequentemente se aproximou mais de mim mas antes que pudesse fazer o que tinha em mente, ouvimos a voz da Duda -
Eduarda - Mãe?
Clara - Oi - olhei pra porta do banheiro -
Eduarda - É pra molhar o cabelo?
Clara - Não. Já estou indo aí, mas não molha
Eduarda - Ok
Clara - Vai tomar banho você também, coisa chata
Neymar - Coisa chata? - fez beicinho, ri e fiz um coraçãozinho pra ele, que não resistiu e sorriu - Fico pronto em cinco minutos
Clara - Oi? Só que nunca, né? Demora mais do que eu
Neymar - Exagerada sempre - revirou os olhos -
Clara - Tá, então vai - levantei -
Neymar - Me ajuda? - esticou as mãos e eu sabia que provavelmente o seu plano era me fazer cair na cama de novo, mas arrisquei mesmo assim e só porque eu esperava uma coisa ele fez totalmente o contrário. Quando coloquei as minhas mãos nas suas e puxei-o, ele não resistiu e me puxou de volta, e sim levantou de vez nos deixando coladíssimos. De uma forma ou de outra, tudo ia terminar como eu havia imaginado (e queria) - Já falei que você fica linda fingindo não me amar por alguns segundos, e por isso adoro te ver irritadinha? - tenho quase certeza que corei, mas não tive tempo de falar nada porque ele me deu um beijo que me deixou meio tonta, atordoada mesmo, e saiu do quarto. Corri pro banheiro pra terminar a higiene da minha boneca, e ao terminar enrolei-a em uma toalha. Enxuguei-a e a vesti com seu vestidinho chiffon cor de rosa, sem manga e com uma gola redondinha, compramos ele juntas. Penteei seu cabelo fazendo uma trança meio lateral tipo espinha de peixe só que um pouco mais solta e deixei duas mechas torcidas. Calcei sua sapatilha, ela mesma se perfumou, passou um pouco do seu gloss e ficou do jeito que eu mais gosto de chamá-la: uma verdadeira boneca. Pra mim ela já é de qualquer jeito. Liguei a TV, e coloquei um DVD que ela escolheu pra ir se distraindo, já que com todo mundo se arrumando não queria que ela ficasse sozinha lá embaixo. Voltei pro quarto do Júnior e ele continuava do mesmo jeito que estava quando saiu do quarto da Duda, e olhava para suas roupas como se a qualquer momento elas fossem criar pernas ou algo do tipo. Ajudei-o selecionando dois looks pra ele escolher e fui tomar banho. Quando saí do banheiro enrolada em uma toalha ele já parecia mais decidido e eu ri porque achava que a pessoa mais indecisa do universo era eu - Essa roupa aqui - apontou para o look "calça branca, camisa branca" - Com esse boné vermelho - pegou-o - E aí? - olhou pra mim -
Clara - Perfeito - sorriu -
Neymar - Valeu - me deu um beijo rápido quando passou por mim e entrou no banheiro. Passei hidratante no corpo e me vesti ouvindo-o cantar no chuveiro: “Você é o primeiro pensamento do meu dia, se eu não te vejo quase morro de agonia. Sou dependente desse amor, seu beijo vicia, eu quero todo dia! A noite cai, o meu sonho é você, dizer te amo já tá virando clichê. Mas eu tô repetindo pra você saber, que eu adoro amar você.” Claro que ele escolheu a carreira certa, mas eu não menti quando disse que não me importo de tê-lo cantando pra mim. Gosto de verdade. Fiz uma maquiagem que destacasse meus olhos, penteei o cabelo pra um lado só, calcei o salto, coloquei a gargantilha que ele meu deu em Paris, me perfumei e estava pronta -
Clara - Já estou descendo
Neymar - Ok. Cinco minutos - interrompeu sua cantoria só pra me responder mesmo. Peguei a minha bolsinha, o celular, saí do quarto pra chamar a Duda e descemos. Só a Manu já estava na sala, e mexendo nos aparelhos de som -
Manu - Hoje é dia de todo mundo ouvir o que gosta, mas a primeira eu posso escolher, certo? - obviamente ela não estava me perguntando nada, apenas avisando - Não vou decepcionar, sou ótima como DJ - ri e ela me olhou - Sério, aprendi umas coisinhas com o Di. Até anotei no celular o nome de pelo menos uma música que todo mundo quer ouvir hoje
Clara - É sério? E por que não perguntou pra mim também?
Manu - Porque não preciso te perguntar pra saber - piscou e Not a bad thing, do Justin Timberlake preencheu o ambiente - Ah, meu amorzinho - suspirou com um sorriso enorme. Sim, esse amor dela pelo JT é antigo - Melhor música - abriu os braços, fechou os olhos e começou a cantar. Olhei pra Dudoca e rimos da cena hilária que tínhamos diante de nós. Quando a música acabou, ela sentou ao nosso lado e nos mostrou a playlist especial que preparou para noite. Fiquei feliz por conhecer quase todas. Depois deixamos a Dudoca na sala e fomos acender as velas decorativas e ligar os abajures espalhados por todos os cômodos, que rapidamente ganharam um clima mais aconchegante e descontraído - Preciso te mostrar algo - pegou a minha mão e me levou para uma parte do jardim - Olha - apontou para um canto meio escondidinho e arregalei os olhos -
Clara - Isso é...??
Manu - Sim. Exatamente o que você está pensando
Clara - Balões chineses? Você fez? Como assim? Quando? - ela gargalhou -
Manu - Não, calma. Meus pais trouxeram, só não me pergunte de onde - rimos - Pensei em só contar mais tarde, mas vai ser melhor cada um levar o seu
Clara - Vamos acender na praia?
Manu - Sim, é mais seguro - sorri - Coloca uma caneta na sua bolsa pra gente poder escrever nossos desejos, pode ser?
Clara - Ah sim, agora entendi porque está me contando - rimos - Pode deixar que eu levo
Manu - Obrigada - sorriu e passou um dos braços por meus ombros - Mais um ano juntas, quem diria, heim?!
Clara - Ninguém, e isso é que é bom - sorrimos e entramos novamente. Meus pais e avós já estavam na sala fazendo companhia pra Duda. Sentei ao lado deles e a Manu deu finalmente play em sua playlist. Quando todos já estavam na sala, subi correndo (ok, o mais rápido que os saltos permitiram) pra pegar minha câmera (aproveitei para pegar quatro marcadores também e coloquei na bolsa) e com o temporizador, tiramos uma foto linda, até o Luck apareceu nela meio sem querer. E atrás dessa vieram várias outras fotos, o que já foi o começo de uma noite que prometia ser maravilhosa e inesquecível. 
 clarabarcelar_: Que o novo ano não seja como o outono da vida onde as folhas caem deixando apenas lembranças de dias bons e ruins, mas que seja como a primavera da vida que produz frutos e dos frutos sementes onde podem ser plantadas a cada dia e colhidas a cada amanhecer... 
Jantamos com a playlist da Manu de fundo, e como o cardápio foi todo feito pela minha avó, tinha de tudo e para todos os gostos. Desde comidinhas frescas e leves, patês, geleias, queijos e frios, cestinhas de pães variados, focaccias, tortas, e empadinhas à saladas de folhas e grãos na companhia de carpaccio ou tender. Em relação as bebidas, havia vários coquetéis (com e sem sem álcool), espumantes e sucos. Minha avó sabe (e gosta) de fazer festa. Natal e Réveillon em Florianópolis era certeza de mesa cheia também, muita música e até a presença dos vizinhos mais próximos, mesmo que pra mim não significasse muito. Era apenas mais uma festa, pra no dia seguinte mudarmos o calendário. Mas aí veio a Eduarda. E é só o ano novo começar a se aproximar que penso muito em todas as coisas que ela conseguiu alcançar, no quanto cresceu, se desenvolveu, e em tudo que o próximo ano já tem reservado pra ela. Aprender a ler, escrever palavras maiores, tirar as rodinhas da bicicleta, conhecer novos coleguinhas. Resumindo: ganhar uma certa autonomia que faz parte do desenvolvimento natural de toda criança. Depois que ela nasceu, o Réveillon ganhou outro significado pra mim, sempre agradeço pelo ano que passou, pela minha saúde e daqueles que eu amo, por todas as conquistas profissionais, pelas pessoas maravilhosas que convivem comigo diariamente, mas acima de tudo agradeço por ela ter mudado a minha vida mesmo sem saber. Depois do jantar, fomos para o jardim e consequentemente a música ficou mais alta, o que era bom porque a Duda se distraia dançando e cantando com todo mundo e não pensava em dormir. Quando a contagem regressiva começou junto com Auld Lang Syne saindo das caixas de som, ela já estava elétrica e mais ainda ficou quando o Júnior carregou-a, girou-a no ar e me abraçou bem na hora que os os champagnes começaram a estourar junto com os fogos de artifício. Ela começou a rir e eu comecei a chorar. Os primeiros segundos de um novo ano tinham acabado de chegar e nós estávamos juntos. Juntos. No sentindo mais literal da palavra, grudadinhos. Definitivamente não era um sonho. Ele limpou as minhas lágrimas, me deu um beijo casto e tive que rir da risada da Duda por estar apertadinha entre nós dois. Beijamos a bochecha dela ao mesmo tempo e ela nos puxou para mais perto e fez o mesmo. Depois, obviamente, só tinha olhos para os fogos que continuavam colorindo o céu das mais variadas cores. Quando a colocou no chão, ele me puxou para um abraço mais forte, muito forte. E o mais incrível era gostar de saber que o meu primeiro abraço era dele e vice-versa. 
Neymar - Nossos corações se pertencem - sussurrou com uma intensidade que chegou a arrepiar, quase fez as lágrimas voltarem e a frase ficou se repetindo na minha cabeça durante uns bons segundos, pelo menos até ouvir outra coisa, quer dizer, eu acho que ouvi porque ele falou muito mais baixo. O barulho dos fogos, a música alta, todo mundo falando ao mesmo tempo... claro que ouvi errado, ele deve ter dito qualquer coisa, menos “casa comigo?”. O ano novo nem tinha chegado direito e já estava me pregando peças... mesmo assim só tive tempo de sussurrar um “eu te amo” com toda a franqueza que existia dentro de mim antes dos meninos se jogarem em cima de nós. E aí foram abraços atrás de abraços e desejos de coisas boas. Estava conseguindo segurar a emoção até chegar a vez do meu avô me abraçar -
Marcos - Eu quero que você tenha sonhos e que todos eles se tornem realidade, minha pequena. Quero que você aproveite ao máximo os momentos da sua vida e quero que você realmente entenda o quão única e rara você é, ok? - assenti com a visão meio turva por causa das lágrimas - Não esquece nunca que o sol pode desaparecer por alguns instantes, mas nunca vai se esquecer de brilhar - sorriu, limpando minhas lágrimas. Eu só consegui abraçá-lo de novo.
    ****
A praia estava bem movimentada quando chegamos, muita gente ainda pulava as sete ondas e faziam os seus pedidos. Mas nada que atrapalhasse os nossos planos. Tivemos apenas que caminhar um pouco para achar um local mais sossegado por ser mais seguro e como mudamos de ideia e resolvemos escrever os pedidos em casa mesmo, só tínhamos que terminar o que começamos. Não estava ventando muito, nem ameaçando chover, o que era ótimo. Deixei a Duda sentadinha, e formamos duplas porque é importante que outra pessoa ajude na hora de acender o balãozinho. Por pura coincidência eu e o Júnior ficamos juntos . Ele me ajudou primeiro, depois fiz o mesmo e à medida que o ar quente enchia o balão, aquecendo-o, víamos o céu se transformando, ganhando outro encanto. 
Enquanto os balões flutuavam, só conseguia pensar no desejo que escrevi no meu: 
 "Por favor Senhor, não o tire de mim. Eu o amo, amo muito! Por favor, não permita que ele vá, não antes de mim! Faz essa sensação de que eu vou perdê-lo a qualquer momento, passar logo. É só isso que eu quero, meu único e maior desejo é vê-lo bem!"
Fechei os olhos e reforcei o meu pedido, esperando que o ano novo trouxesse realmente coisas novas e boas. E a concretização do meu desejo. Mais do que tudo, a concretização do meu desejo.



Vocês são tão maravilhosas, socorro, nem sei o que falar  
Muito obrigada por cada palavrinha linda, vocês são as responsáveis por tudo!! Principalmente porque eu estava tão... sem rumo, sem saber o que fazer (não com a fic, mas comigo). É insuportável lembrar o que aconteceu com o Neymar, mexeu demais comigo e cheguei a pensar em coisas que nem vale a pena lembrar agora! Mas... dias de luta, dias de glória!! 

Agora, em relação à Copa... eu realmente não sei . Já estou bem convicta das minhas ideias, e quando pensei nelas não lembrei da Copa, então não sei mesmo. Agora então... mesmo que eu mude os acontecimentos, as lembranças atormentam. Mas vou ter que começar a pensar nisso, claro. Inclusive, obrigada por ter me lembrado. Espero que isso não seja um problema pra vocês... minha indecisão ultrapassa limites mesmo!

Ah, amei a sugestão, querida anônima. Está anotada! Tudo que vocês sugerem pode ser válido, fiquem à vontade para falar sempre!

PS:. Anninha, muito muito muito muito obrigada por ter compartilhado algo tão... seu. Algo tão íntimo comigo, com a gente... com a história. De verdade, muito obrigada. Me senti lisonjeada. 
PS²:. Merari Santos, sem mais. Tu realmente falou tudo aquilo que, acho eu, todas nós sentimos. 
Dois beijos pra vocês!   

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Capítulo 50 - “Eu devia estar ao seu lado e não me divertindo enquanto você está sofrendo”


 Acordei um pouco inquieta e assustada com algum outro sonho... ou pesadelo, sei lá. Dessa vez nem quis pensar muito. Me desvencilhei dos braços do Júnior, e rapidamente peguei o celular mas não havia nenhuma chamada perdida ou mensagem. Suspirei de alívio e meus ombros relaxaram quase que imediatamente mas meu sono já tinha evaporado e o relógio ainda não marcava nem 05h30. Levantei com cuidado (e com medo de me bater em alguma coisa porque sou ótima nisso), sentei na minha cadeira, acendi o pequeno abaju deixando a luz bem fraquinha e liguei o macbook também. Atualizei meu e-mail e quando já não tinha mais o que fazer ali, desliguei-o, peguei uma das pastas com meus recatados desenhos e comecei a fazer mais, inspirados na cidade do amor e nos dias maravilhosos que passei lá e que claro, nunca vou esquecer. Me distraí, e só parei quando senti o Luck deitar nos meus pés. Nem lembrava mais que ele tinha dormido no quarto também mas sabia que já estava querendo sair. Levantei, abri a porta e ele saiu. Deixei-a destrancada mesmo, guardei as pastas, peguei meu fone de ouvido e sentei na cama encostada na cabeceira. Sabia que não ia voltar a dormir e se deitasse ia terminar acordando o Júnior porque não ia consegui ficar em uma única posição por muito tempo. Ele apenas se mexeu um pouco e deixou seu braço pousar nas minhas pernas. Conectei o fone ao celular, e deixei que as músicas tocassem aleatoriamente em um volume razoável. Os minutos foram passando e já tinha perdido a conta de quantas músicas tinha ouvido mas continuava bem acordada, fitando o teto ou o rosto do Júnior.
 clarabarcelar_: Tem gente que chama de insônia. Eu chamo de pensar em você... ️ 
Ele se mexeu novamente, baixei o olhar e encontrei-o sorrindo. Sorrindo enquanto dorme? Isso pra mim é novidade.
Clara - É bom que você esteja sonhando comigo ou com a sua filha! - falei como se ele estivesse me escutando e ri. Fiquei perambulando por alguns aplicativos, entrei no Chicfeed e no eBay Fashion, depois fui ver os últimos comentários no site da Santástico. Todos eram positivos, com opiniões construtivas e sugestões que salvei mentalmente para testar depois. Deixei o celular de lado, e tentei tirar o braço dele das minhas pernas pra poder levantar e consegui mas ele acordou - Bom dia, dorminhoco!
Neymar - Bom dia - coçou os olhos que nem a Duda e eu ri - Que horas são?
Clara - Hora de acordar pra me fazer companhia - fiz bico -
Neymar - Está acordada a muito tempo? - assenti - Vem aqui - abriu os braços. Deitei e fiquei enroscadinha no seu peito - Por quê?
Clara - O que?
Neymar - Por que acordou tão cedo?
Clara - Não sei. Mas até que foi bom... - ergui a cabeça e olhei-o - Te vi sorrindo
Neymar - Me viu sorrindo? - riu -
Clara - Sim. Enquanto dormia - sorri - E a propósito, lembra com o que estava sonhando?
Neymar - Ah, sim... Lembro - sorriu amplamente -
Clara - Sério?
Neymar - Seríssimo
Clara - Bom, aconselho pensar muito bem antes de me contar
Neymar - Boba! Era com você
Clara - Conta
Neymar - Na verdade era com a gente. Eu estava te pedindo em casamento em Paris
Clara - Não acredito! - ri -
Neymar - Pode acreditar, e se eu estava sorrindo já pode adivinhar qual foi a sua resposta também né? - gargalhei - Agora já sei o que devo fazer - falou com um ar pensativo -
Clara - Ah, que besta! Quer dizer que eu só vou dizer sim se o pedido for em Paris? - ele levantou as mãos segurando o riso como se estivesse dizendo eu não disse isso - Pois sabe onde eu acho que seria perfeito?
Neymar - Lá vem... - fuzilei-o com o olhar - Veneza? Londres? Barcelona? Amsterdã? Buenos Aires? - olhei-o embasbacada - Que foi? Ando fazendo minhas pesquisas - foi impossível segurar o riso de novo -
Clara - Adoraria conhecer esses lugares. Talvez possamos pensar neles para nossa lua de mel
Neymar - Hum... - ergueu uma das sobrancelhas enquanto passava a mão no queixo -
Clara - Não tente me desconcentrar. Para ter lua de mel precisa ter um casamento e antes disso, um pedido. Ou seja, vamos voltar para o assunto inicial - rimos -
Neymar - E qual seria o lugar perfeito na sua opinião?
Clara - Aparecida
Neymar - Está falando sério? - sorriu -
Clara - Sim. Estaria mentindo se dissesse que nunca imaginei isso e... durante o tempo que ficamos separados... também sonhei com algo assim. A praia estava perfeitamente decorada e claro que não entendi como isso aconteceu, mas ela estava linda e vamos combinar que nos nossos sonhos tudo é possível - rimos - Ok que sonhei com isso quando nem estávamos juntos mas o que posso fazer se nunca esqueci?
Neymar - Você nunca esqueceu porque primeiro tinha que compartilhar comigo - eu ri - Mas posso continuar falando do meu sonho?
Clara - O que? Tem mais?
Neymar - É lógico que tem. O casamento aconteceu
Clara - Ai, meu Deus! - riu da minha cara - Por que não disse logo? Conta
Neymar - Só sei que você estava linda e grávida - fiquei boquiaberta e ele falou tão naturalmente que parecia ser o que realmente queria -
Clara - É como eu disse... nos nossos sonhos tudo é possível - gargalhou -
Neymar - É só a gente querer que tudo se torna realidade
Clara - Na verdade, nunca me imaginei casando grávida
Neymar - Agora vai começar a imaginar - rimos. Sim, eu ia começar a imaginar. Ouvimos uma batida quase imperceptível na porta e nos olhamos por já saber quem era - Entra, amor - a porta se abriu lentamente e ela entrou, agarradinha com uma pelúcia que ganhou de uma fã dele e subiu na cama -
Clara - Bom dia, mocinha
Eduarda - Bom dia - respondeu com a voz ainda rouquinha, se inclinou e beijou primeiro o meu rosto depois o dele -
Clara - Que foi? - perguntei porque sabia que ela queria pedir alguma coisa -
Eduarda - A gente pode brincar de bicicleta? - eu e ele rimos. Claro que para ter pulado da cama relativamente cedo tinha que ter um bom motivo - Por favor, por favor, por favor
Neymar - Tudo bem mas só se hoje for aqui no prédio mesmo. Outro dia a gente vai na pracinha, pode ser?
Eduarda - Sim!! - respondeu imediatamente para não deixar dúvidas do quanto queria estrear logo seu novo brinquedo -
Neymar - Ela é bem convincente quando quer - disse assim que ela pulou da cama pra ir tirar o pijama -
Clara - É? - levantei também e fiz um coque doido no cabelo - Se eu te dissesse a quem ela puxou, tu nem ia acreditar - riu. Saí do meu quarto para entrar no dela, separei sua roupinha e deixei sobre a cama que ela desajeitadamente já tinha arrumado. Deixei que ela tomasse banho, escovasse os dentes e se vestisse sozinha, apenas sob a minha supervisão e o Júnior entrou no quarto com uma bermuda qualquer, ainda sem camisa e com o rosto meio molhado. Com certeza ainda não tinha tomado banho. Ela se aproveitou da sua presença para pedir que ele penteasse seu cabelo, o que eu adorei e fiquei para assistir tudo, claro -
Neymar - E aí? - perguntou assim que terminou -
Clara - Hum... está lindo - segurei o riso -
Neymar - Quero a verdade, Ana Clara
Clara - Razoável
Neymar - Ainda não é a verdade. Fala logo
Clara - Ok... as marias chiquinhas estão meio tortinhas. Mas dou nota 10 pelo seu empenho e esforço
Neymar - Você adora me ver nessas situações, não é?
Clara - Amo - rimos - Vou tomar banho pra poder preparar nosso café - levantei e sussurrei pra Dudoca - Tá linda, amor - pisquei e ela riu. Saí do quarto, entrei no meu e a cama também já estava arrumada - Olha isso, já pode até casar - falei comigo mesma e ri. De repente me peguei pensando no assunto que estávamos conversando mais cedo e me imaginei vestida de noiva com uma barriguinha linda de três ou quatro meses e... abanei a cabeça rapidamente afastando meus pensamentos loucos. "Agora vai começar a imaginar." Filho da mãe!! Ri e fui até o guarda roupa, peguei uma roupa fresca, abri as persianas, entrei no banheiro e tomei banho sem molhar o cabelo. Fiquei enrolada na toalha para escovar os dentes, depois me enxuguei, passei hidratante no corpo, me vesti, desfiz o coque e penteei o cabelo em um rabo de cavalo. Saí do banheiro, peguei o celular, coloquei no bolso e fui para cozinha. Sabia que a Manu ainda não estava em casa então preparei o café da manhã apenas para nós três. Quando terminei tudo e arrumei a mesa, fiquei na sala com a Dudoca assistindo "Os Padrinhos Mágicos" enquanto o Júnior tomava banho. Demora quase nada (*ironia mode on). Quando ele finalmente deu o ar da sua graça, tomamos café, limpei a cozinha, fui pegar a coleira e a guia do Luck na área de serviço, ele deixou colocar todo contente por saber que ia sair um pouco e descemos para o estacionamento. O Júnior destrancou a porta-malas do meu carro, pegou a bicicleta e trancou-o novamente. Fomos para área de lazer ao lar livre, onde (tirando o parquinho com escorregadeira e balanço) o espaço é bem amplo, perfeito para as crianças pedalar ou correr. Já havia pais e/ou babás por ali acompanhado algumas crianças e não foi surpresa nenhuma para eles ver o Neymar Júnior ali, até porque os momentos de tietagem foram só no início e agora eles o tratavam como um vizinho normal. Enfim, filmei com o celular mesmo ele ensinando pra ela os primeiros passos para aprender a pedalar e ela caiu uma, duas, três vezes... mas não chorou nem desistiu em momento nenhum, pelo contrário, eu só conseguia vê-la mais disposta a aprender. E o resultado foi positivo porque terminei a filmagem com o abraço gostoso que ela deu nele depois de ter conseguido pedalar mais de um metro sem que ele estivesse segurando-a. Limpei a lágrima boba que insistiu em rolar pelo meu rosto e ela me abraçou também, feliz da vida. Até o Luck ganhou abraço -
Eduarda - Você viu, mãe? Eu consegui! - falava enquanto dava pulos com os bracinhos pra cima - Meu pai falou que eu sou uma campeã
Clara - E você é, boneca - abracei-a novamente e beijei seu rosto suado - Parabéns! - sorri -
Eduarda - Obrigada - agradeceu já correndo para perto do Júnior de novo. Ele olhou pra mim, e piscou com um sorriso lindo também. Eles continuaram treinando enquanto fiquei caminhando por ali mesmo com o Luck. Aproveitei para ligar pra madrinha e matar um pouquinho das saudades e quando voltei para o meu ponto de partida, a Duda já estava no parquinho com uma outra menina. Sentei ao lado do Júnior e ele me deu dois beijinhos, um de leve nos lábios e outro na pontinha do meu nariz, eu ri mas nem tive tempo de falar nada porque meu celular tocou. 
 - início -
Clara - Fala, Manu! - ela berrou algo que eu não entendi, mas parecia estar rindo - O que aconteceu, criatura? Está gritando por que?
Manu - Meus pais chegaram
Clara - Ah, então o motivo é válido - rimos - Já está com eles?
Manu - Não. Estou indo buscá-los no aeroporto com o Gil. Depois que eles conhecerem o apê vamos almoçar juntos, ok?
Clara - Vamos?
Manu - Sim
Clara - Posso falar com o Júnior primeiro?
Manu - Eu já garanti que vocês vão
Clara - Emanuelle!! - gargalhou -
Manu - Te amo, amiga. Até daqui a pouco - desligou sem me deixar falar mais nada -
 - término -
Neymar - Que foi?
Clara - Os pais da Manu chegaram e ela meio que já nos convocou para almoçar com eles. Você topa?
Neymar - Ver o Gil com os sogrinhos pela primeira vez? Topo muito - rimos -
Clara - Acho que vai ser super de boa. A Manu é a cópia da mãe e não é só fisicamente, inclusive deve ser por se parecerem tanto que elas brigam com mais facilidade
Neymar - E o pai?
Clara - Ele também é tranquilo e dos três é o que mais tem juízo - riu - Espero sinceramente que eles sosseguem agora e fiquem por aqui mesmo porque a Manu pode não demonstrar tanto mas sente muita falta deles - olhei pro relógio e por ainda ser 10h30 deixamos que a Duda ficasse brincando mais um pouco e só subimos quando a temperatura já estava ficando meio insuportável.
 clarabarcelar_: “A maravilha da infância é que para elas tudo é maravilha.”  
    ****
XxX - Chegamos! - ouvi uma voz diferente mas familiar e rapidamente soube que era da Fatinha, sim porque se eu ousar chamá-la de tia corro risco de apanhar, de Fátima então... Tudo faz parte do seu jeitinho jovial de ser. Entrei na sala e seus cabelos mais loiros do que nunca foi a primeira coisa que me chamou atenção. Ela sorriu ao me ver, jogou a bolsa no sofá e abriu os braços, fui até ela, abracei-a e beijei sua bochecha - O que é que tem na água de Santos pra vocês estarem assim tão grandes? - rimos do seu exagero -
Manu - Isso porque você ainda não viu a Duda, mãe
Clara - Tio Théo! - com ele ''tio'' é liberado -
Théo - Sim, eu também vim - riu. Abracei-o e ele beijou primeiro a minha testa depois a minha bochecha. Olhei pro Gil e ele parecia sereno e um tanto quanto aliviado, talvez por não ser mais o centro das atenções da Dona Fátima porque ela com certeza já devia ter deixado-o envergonhado ou muito perto disso com seu questionário intimidador à la Fatinha. Mesmo sendo só pressão, e ele deve saber disso também. Ela conquista todo mundo muito fácil e no fundo gosta apenas de se sentir mais jovem do que realmente é, não que seja velha mas a minha mãe também não é e elas são completamente diferentes. Acho que a única coisa que elas devem ter em comum é o amor pelas filhas. O Théo é bem mais pé no chão, apesar de concordar em ficar rodando pelo mundo, conhecendo lugares novos com a esposa... às vezes acho que ele faz isso por amor, porque ela gosta, e admiro isso nele. Pelo menos nunca vi nenhum dos dois infelizes e fazem todo mundo sorrir por onde passam -
Clara - Ué, cadê as malas?
Théo - Deixamos no hotel onde vamos ficar hospedados até acharmos um lugar fixo - olhou pra Manu e ela sorriu amplamente. A Duda e o Júnior entraram na sala também e ela demorou um pouco para reconhecer a Fatinha e o Théo, ficou paradinha por um tempo olhando pra eles e tentando puxar da memória de onde conhecia-os e quando isso aconteceu, abraçou-os sem pestanejar, o que nos levou a rir -
Fatinha - Neymar!! Oh, my God!! - fingiu estar muito espantada depois caiu na risada e nós fizemos o mesmo - Você é muito mais bonito pessoalmente - ele sorriu, e se ela o conhecesse bem saberia que conseguiu deixá-lo constrangido. Eu ri por dentro -
Neymar - Muito obrigado
Fatinha - Oh, não consegui deixar vermelhinho - olhou de relance para o Gil - Mas deixa pra próxima. Pode vim aqui me dá um abraço também - sorriu. Ele se aproximou e ela abraçou-o sem nenhuma cerimônia - Sabe que eu tenho um pedacinho de você comigo, né?
Neymar - Tem? - franziu a testa -
Fatinha - Um pedacinho de você não é bem o termo correto mas eu estava lá em St. Gallen, na Suíça, em um amistoso da Seleção Brasileira contra a Bósnia e no final do jogo pedi a sua camisa e você me deu. Agora, é claro que vou querer um autógrafo nela, com uma dedicatória bem bonitinha também
Manu - Mãe! - riu -
Neymar - Pode deixar - riu -
Théo - Não dá ouvidos pra essa aí não porque é a idade chegando - eles riram e se cumprimentaram -
Fatinha - Eu ouvi, heim?! E estou na flor da idade, só pra vocês saberem - rimos. Eles sentaram, um de cada lado da Dudoca, ainda espantados com o tamanho dela (a propósito, ela já se lembrava muito bem deles), a Manu e o Gil sentaram no mesmo sofá com eles e eu o Júnior juntos em uma das poltronas. Passamos a hora seguinte ouvindo eles falarem um pouco sobre alguns lugares que conheceram e contando sobre o início da nossa estádia em Santos também. Depois a Manu levou-os para um tour pelo apartamento e a Dudoca foi junto com a missão de apresentá-los ao Luck -
Clara - E aí, passou no teste da sogrinha? - não resisti em zoar o Gil -
Neymar - Teste?
Gil - A mulher é muito doida, cara - rimos -
Clara - Vai se acostumando porque a Manu mais velha será bem assim. Mas diz, o que ela aprontou?
Gil - Vindo pra cá ela perguntou pra Manu, na minha frente, se eu realmente sou bom em todos os campos - gargalhei fortemente -
Neymar - E a Manu?
Gil - Enrolou e não respondeu
Neymar - Que sorte heim, parceiro - deu dois tapinhas na perna dele, que também não resistiu e riu com a gente -
Clara - Por que, Júnior? Você sabe como ele é em todos os "campos"? - gesticulei as aspas e o Gil começou a rir descontroladamente -
Neymar - Assim você me ofende, amor - entrou na brincadeira fazendo uma carinha irresistível de ofendido -
Gil - Pergunta direta, resposta direta e eu ainda não ouvi nenhuma, parceiro - falou a última palavra com uma pontinha de ironia e deu dois tapinhas na perna dele também -
Clara - Mas como assim? Existe uma outra resposta que não seja a que eu acho... ou achava ser obvia...?
Gil - Puta merda! Mulher é complicada demais
Clara - Vocês se enrolam no que falam e eu sou complicada?
Gil - A Emanuelle nunca reclamou de mim em nenhum campo, satisfeitos? - lágrimas incontroláveis já rolavam dos meus olhos de tanto que eu ria com a cabeça encostada no ombro do Júnior, que também não sabia como parar de rir - Palhaços, se merecem mesmo!
Clara - Por isso adoro a Fatinha. Mal chegou e mesmo sem saber já me fez chorar de rir - apertei os olhos, respirei fundo e consegui me conter. Quando abri os olhos novamente, olhei pro Gil e sorri, ele retribuiu de maneira irônica - Ok, vamos voltar ao assunto inicial...
Gil - Ótimo - tentou falar sério encarando outro ponto qualquer da sala que não fosse a gente pra não rir também -
Clara - Qual a primeira impressão que teve deles?
Gil - O Théo é bem tranquilo né? Aquele discurso do tipo ''se magoar a minha filha vai se ver comigo" já tinha acontecido via skype - riu - Por isso agora foi bem de boa. E em relação a Fatinha... - olhou pra nós dois sabendo que íamos rir - Acho que só não me surpreendi muito por causa da convivência com a Manu - rimos -
Clara - Ela é assim exagerada na maioria das vezes, fala tudo que vem na cabeça mesmo mas adora fazer todo mundo rir
Gil - É né, percebi - rimos. Eles voltaram e em conjunto decidimos almoçar em casa mesmo, ou seja, eu teria que cozinhar. Deixei todos eles na sala conversando sobre os mais variados assuntos e fui para cozinha. Preparei uma lasanha grande de peito de peru e queijo ao molho branco enquanto Jessie J ressoava por toda cozinha me deixando mais bem humorada do que já estava. Fiz um pavê de chocolate também e depois de colocá-lo na geladeira, arrumei a mesa, dei pause no player de músicas do celular, dando fim ao meu show particular também, deixei-o em cima do balcão mesmo e fui chamá-los para o nosso almoço um tanto quanto tardio. A Fatinha e o Théo elogiaram a minha comida e isso me deixou até orgulhosa de mim mesma porque eles com certeza já tinham comido nos melhores restaurantes do mundo. Algo a mais para acrescentar ao meu bom humor. Comemos a sobremesa na sala, e eles quiseram lavar a louça depois mas como não deixei, a visita ao Esquenta foi adiantada e eles saíram com a Manu e o Gil. Lavei a louça e enquanto o Júnior guardava, peguei meu celular. Meu coração acelerou ao ver sete chamadas perdidas do meu pai. Sete. Sentei na banqueta e pisquei pra ter certeza do que estava vendo -
Neymar - Está se sentindo mal?
Clara - Não - mostrei o celular pra ele - Sete chamadas do meu pai - ele não conseguiu esconder a surpresa também mas tentou não demonstrar -
Neymar - Não fica pensando besteira e retorna logo - ele estava certo, mas porque que eu estava com tanto medo do que poderia ouvir? Se fosse apenas uma chamada talvez nem me deixasse tanto em estado de alerta mas foram... sete. Meu celular vibrou na minha mão e quase deixei-o cair com o susto que levei. Era o meu pai. Olhei pro Júnior e ele me incentivou a atender logo. Foi o que fiz.
 - início -
Murilo - Clara! Finalmente! - ele parecia ansioso, nervoso e falava bem baixinho. Levei um tempo para respondê-lo -
Clara - Oi, pai. Só vi suas ligações agora, desculpa
Murilo - Tudo bem, desculpa eu se te assustei com tantas chamadas... mas precisava falar com você o quanto antes - sua voz continuava no mesmo tom baixo, como se estivesse falando escondido -
Clara - O que aconteceu? - perguntei sem rodeios e dessa vez foi ele quem demorou para responder -
Murilo - A febre do seu avô não passou e nós estamos no hospital - apertei os olhos com força, meu coração acelerou mais um pouco e eu estava começando a ficar com medo do que poderia acontecer caso ele acelerasse mais, principalmente porque senti que meu pai não estava contando tudo -
Clara - Que hospital? - consegui formular uma única pergunta e atraí rapidamente a atenção do Júnior -
Murilo - São Luiz, no Morumbi - fez uma pausa, acho que falou algo com alguém perto dele e eu queria falar também mas não sabia o quê - Vou ter que desligar agora porque a sua mãe não sabe que estou falando com você. E só te liguei porque não acho mais certo o que estamos fazendo... não mais. Não quando estamos no hospital.
Clara - Não estou te entendendo pai, e você está me assustando
Murilo - Eu também nem sei se o que estou fazendo é o certo, mas vem... quando você chegar aqui vai ficar sabendo de tudo
Clara - Como eu acho vocês quando chegar aí? - perguntei já sabendo que ia começar a chorar. "Quando você chegar aqui vai ficar sabendo de tudo." Acho que pela primeira vez não queria saber de nada -
Murilo - Quinto andar. Você vai consegui nos ver assim que chegar na recepção
Clara - Ok
Murilo - Não vem sozinha, por favor. Um beijo - não falei mais nada e depois de quase um minuto a chamada foi encerrada por ele. 
 - término -
Deixei o celular cair no balcão e respirei fundo, engolindo cada lágrima que eu jurava que não ia consegui segurar. Ok que estava assustada e com um pressentimento horrível mas não ia me deixar abater enquanto não soubesse de tudo.
Clara - Preciso ir até lá - levantei rapidamente -
Neymar - Aonde você vai? - parou na minha frente e colocou as mãos no meus ombros tensos que relaxaram instintivamente ao seu toque. Abracei-o sem dizer nada e ele me apertou forte o bastante para deixar claro que estava ali para tudo -
Clara - Lembra quando fui ver meus avós ontem à noite? - assentiu - Percebi que meu avô estava meio quente demais, ou melhor dizendo, ele já estava com febre. E por algum motivo ela não passou... por isso ele está no hospital agora. Eu preciso ir pra lá - não tenho certeza se ele entendeu tudo que eu disse porque falei depressa demais -
Neymar - Que hospital?
Clara - São Luiz
Neymar - Qual unidade?
Clara - A do Morumbi. É longe?
Neymar - Sim. Eu vou com você
Clara - Não, amor. Eu queria muito que você fosse comigo mas não quero a Duda lá sem saber direito o que está acontecendo
Neymar - A gente deixa ela com a minha mãe
Clara - Vai demorar mais. Por favor, fica aqui
Neymar - Você acha que tem condições de dirigir?
Clara - Sim. Mas posso pegar um táxi se você preferir
Neymar - Prefiro
Clara - Tudo bem, vou me arrumar - saí da cozinha e passei pela sala, onde a Duda estava brincando com o tablet, como um furacão. Entrei no quarto, fui direto ao guarda-roupa, e não fiquei escolhendo muito por dois motivos: não estava com paciência, nem queria perder tempo. Peguei a roupa, entrei no banheiro, tomei um banho bem rápido, me enxuguei, me vesti e borrifei um pouco do meu perfume ao mesmo tempo que soltava o cabelo para penteá-lo. Calcei uma sapatilha, peguei minha carteira, joguei em uma bolsa qualquer, peguei-a, saí do quarto e fui na cozinha pegar o celular -
Eduarda - Vai sair, mãe?
Clara - Sim, amor. Mas vou tentar não demorar, tudo bem? - assentiu. Dei um beijinho na sua testa, o Júnior levantou e me acompanhou até a porta. Peguei a minha chave no porta-chaves e virei pra ele -
Neymar - Me avisa quando chegar lá e tenta não pensar em coisas ruins no caminho
Clara - Pode deixar - respondi tentando me convencer de que não ia pensar mesmo. Abri a porta mas ele não soltou a minha mão e me puxou para um beijo que eu não sabia que estava precisando mas que me fez um bem enorme -
Neymar - Eu te amo. Vai pensando nisso, tá? - sorri como eu achava que já não seria possível depois da ligação do meu pai. Segurei o seu rosto entre as minhas mãos e beijei-o novamente -
Clara - Juízo! - ele riu, porque isso era o que sempre dizia quando deixava ele e a Duda sozinhos. Saí, chamei o elevador, desci e ao chegar no térreo, o porteiro me informou que um táxi estava me esperando. Quis subir e abraçá-lo de novo por ser tão maravilhoso comigo, mas sabia que podia fazer isso depois. Saí do prédio, entrei no táxi e falei o meu destino. 1 hora e 15 minutos depois estávamos em frente ao Hospital São Luiz. Paguei e agradeci ao motorista, saí e mandei uma mensagem para o Júnior. 
Obrigada pelo táxi. Acabei de chegar.
Consegui não pensar besteira durante o caminho todo! ️ 
Não esperei por nenhuma resposta, coloquei o celular no silencioso, e tomei coragem para entrar no hospital. Vi um painel com os andares, procurei pelo quinto e quando achei levei outro choque. Unidade de hematologia. O que meu avô estava fazendo nessa unidade? Todos os pensamentos que tentei deixar de lado porque o Júnior pediu voltaram com toda força. Meu humor tinha descido a níveis inatingíveis. Segui as indicações até o elevador, esperei com mais algumas pessoas que ele chegasse, entramos, marquei o quinto andar e esperei. Fechei os olhos e rezei até ele parar onde eu queria. Saí em um corredor longo mas vi a recepção logo a minha frente e sentadas, ao lado do meu pai que estava de pé, minha mãe e minha avó. Ele me viu mas não disse nada e esperou que eu me aproximasse. Ao ouvir meus passos, elas levantaram a cabeça e posso dizer com certeza que esperavam ver qualquer pessoa ali menos eu. A surpresa era muito obvia nas duas.
Débora - Clara... - elas levantaram -
Clara - Eu - sorri falsamente -
Glória - O que você está fazendo aqui, minha filha?
Clara - O mesmo que vocês - meu tom de voz ainda era calmo e isso me surpreendeu - Porque ele está nessa unidade de hematologia? - fui direto ao ponto mas elas não responderam, em vez disso olharam para o meu pai -
Murilo - Sim, fui eu quem a chamei - assumiu -
Glória - Por que você fez isso?
Murilo - Já está mais do que na hora disso acabar
Glória - Essa decisão não tinha que ser sua
Clara - Eu estou aqui - falei e todos se viraram pra mim - Vocês realmente acham que ainda podem mentir pra mim? - perguntei olhando apenas para elas, e minha voz já tinha subido alguns decibéis mas controlei-me ao perceber que não existia só nós quatro na recepção - O que é que está acontecendo? - minha mãe respirou fundo, claramente sem saber o que fazer e sentou com os braços apoiados nos joelhos. Minha avó soluçou e virou de costas pra mim. Aquilo doeu e duas lágrimas grossas rolaram antes que eu pudesse impedir -
Murilo - Clara? - olhei-o e passei as mãos no rosto. Ele estendeu a mão pra mim e a vontade de chorar aumentou - Vem comigo
Clara - Onde?
Murilo - Vem - o que é que eu tinha a perder ali? Nada. Na verdade ele parecia ser o mais disposto a me contar alguma coisa, seja lá o que fosse. Passei pela minha avó, que estava chorando com as mãos no rosto e segurei a mão dele - Desculpem. Mas isso não está certo - foi o que disse antes de me levar dali. Não fiz questão de saber pra onde estávamos indo, mas pegamos o elevador, descemos em silêncio, ele não soltou a minha mão em momento nenhum e chegamos ao refeitório quase vazio. Sentamos frente a frente e ele olhou pra mim tentando achar as palavras certas para começar - Seu avô está doente - apesar disso já ser muito obvio meu estômago embrulhou, e comecei a recear o que ainda tinha por vim - E como você já deve suspeitar, não tem nada a ver com resfriado - completou de uma forma contida, como se estivesse com medo da minha reação (e estava), conseguia ver isso no jeito como me olhava -
Clara - O que ele tem?
Murilo - Aplasia medular - um arrepio percorreu meu corpo e eu não estava com frio. Meu estômago deu mais umas voltas e achei que fosse vomitar ali mesmo. Se não estivesse sentada com certeza ia cair. Ele continuou falando mas eu não estava mais ali, não queria estar ali, não queria ouvir nada. Como é que tudo tinha mudado em tão poucas horas? -
Clara - Aplasia medular é leucemia? - consegui formular uma pergunta coerente em meio a tantos pensamentos embaralhados -
Murilo - Não, são doenças diferentes - suspirou - A leucemia é um tipo de câncer no sangue que impede a produção normal das células sanguíneas, já aplasia medular tem a produção dessas mesmas células reduzida ou simplesmente eliminada
Clara - E o tratamento? Tem cura, certo?
Murilo - Sim. Por enquanto o tratamento está sendo com medicamentos imunossupressores que estimulam a produção de células do sangue pela medula óssea
Clara - Por enquanto?
Murilo - É - baixou o olhar e eu acho que já sabia o motivo, mesmo assim perguntei -
Clara - Por que?
Murilo - Se não der certo, pode ser necessário um transplante - meu coração afundou no peito só de pensar na possibilidade por saber como é difícil achar doadores compatíveis, até mesmo entre familiares -
Clara - Como isso aconteceu?
Murilo - As causas nem sempre são conhecidas mas no caso do seu avô ela pode estar relacionada a algumas infecções que ele teve. A aplasia é uma doença rara, mas muito séria e nós também não sabíamos muita coisa sobre ela
Clara - Como eles descobriram? - minhas perguntas pareciam meio robóticas, eram automáticas. Ele parava de falar e elas saíam -
Murilo - Através de exames de sangue solicitados pelo médico clínico geral, aqueles de rotina. Depois confirmaram com hemograma e uma biópsia
Clara - Ele fez uma... biópsia? - minha voz tremeu -
Murilo - Sim - eu não estava querendo nem conseguindo acreditar em tudo que ouvia -
Clara - Tudo isso debaixo do meu nariz? - ele não teve como me responder, eu suspirei - A infecção que ele teve quando eu estava em Paris pode ter sido a causa? - mudei o tópico da conversa, sabendo que o fato do meu avô ter feito tanta coisa sem que eu soubesse não ia passar em branco -
Murilo - Não. Aquela infecção foi devido à diminuição das defesas do organismo - franzi a testa - Ou seja, ele já estava doente quando vocês viajaram - ouvir isso foi como se tivesse levado um soco nas costas -
Clara - Como é que é?
Murilo - É isso. Mas ele não queria de jeito nenhum que você soubesse, aliás ele não queria que ninguém soubesse
Clara - Eu não entendo... por que isso?
Murilo - Porque não queria que olhassem pra ele com pena - abaixei a cabeça e deixei que as lágrimas fossem pingando na mesa - Quando a sua avó contou pra Débora, ela ficou sem saber o que fazer, desesperada... e foi por isso que depois teve a ideia de chamá-los pra vim pra cá... No início eles não queriam, mas terminaram aceitando
Clara - Espera... - interrompi-o - Quando eu cheguei de viagem e fui até a casa de vocês, o papo de que eles tinham chegado de surpresa era mentira?
Murilo - Sim
Clara - Por que vocês fizeram isso comigo?
Murilo - Ele pediu, Clara. E eu posso te garantir que a Débora foi contra também... mas ele é pai dela
Clara - E daí? - levantei e bati na mesa com tanta força que os funcionários que passavam por ali olharam pra mim assustados -
Murilo - Calma - levantou também e tentou pegar na minha mão de novo mas dessa vez não deixei - Senta
Clara - Não quero
Murilo - Senta - estava tão sem condições de lutar que terminei sentando, minhas mãos tremiam de uma forma terrível. Abaixei a cabeça e deixei que as lágrimas rolassem furiosamente. Percebi que ele se afastou, e depois de um tempo voltou - Bebe - colocou um copo descartável na minha frente -
Clara - Isso não vai me deixar melhor - ele ignorou o que eu disse e aproximou o copo ainda mais de mim -
Murilo - Ele quer te ver - essas palavras tiveram um efeito totalmente contrário do que eu esperava. Não sabia mais se queria vê-lo. Todo eles mentiram pra mim. Todos. Me fizeram pensar que eu estava louca e paranoica em vez de me contar que meu avô está doente. Está errado, está tudo errado. Mas por outro lado, imaginei-o vulnerável e não consegui ignorar o fato de que ele queria me ver. Ergui a cabeça, bebi a água toda em um único gole, levantei e passei as mãos no rosto. Meu pai não tentou pegar na minha mão dessa vez e fiquei aliviada por isso. Pegamos o elevador com mais algumas pessoas e ao chegar na mesma recepção de antes, minha mãe e minha avó não estavam mais. Fiquei parada praticamente no meio daquela sala enorme enquanto ele foi até uma das recepcionistas e quando voltou pediu que o seguisse. Voltamos para o corredor do elevador, e ele abriu uma das muitas portas existentes ali, não olhei o número. Elas pararam de falar ao me ver, meu pai entrou também e fechou a porta. Não sei por quanto tempo ficamos nos olhando. Meu olhar percorreu o quarto todo e meu avô estava com uma intravenosa no braço. Eu nem sabia dizer o que estava sentindo no momento. Era um misto de raiva por ele ter sido tão egoísta a ponto de preferir sofrer sozinho, com vontade de abraçá-lo e não soltar nunca mais. E abracei-o. Sem falar uma única palavra, abracei-o como nunca devo ter abraçado antes. Não tinha pena. Tinha medo -
Marcos - Fica calma. Estou bem agora
Clara - Por que vocês fizeram isso comigo? - era uma das muitas perguntas que pairavam na minha cabeça sem uma resposta boa o suficiente para fazê-la ir embora. Ninguém falou nada, então continuei o meu desabafo - Por isso te achei mais magro e pálido assim que te vi, vô. Por isso a infecção. Por isso o tal resfriado, a febre, o remédio... Como vocês tiveram coragem de me esconder isso?
Marcos - Clara, eu é que não queria. A culpa é toda minha
Clara - E do que adiantou vô? Eu estou aqui agora, e me sentindo traída por todos vocês, quando já podíamos estar enfrentando isso juntos a muito mais tempo
Glória - Seu avô só estava pensando... no melhor pra você
Clara - No melhor pra MIM? Por favor, pensando no melhor pra mim? Parece que a cada minuto eu escuto algo mais absurdo
Glória - Nós amamos você
Clara - Eu também amo vocês e é por isso que estou assim. Vocês por acaso se colocaram no meu lugar em algum momento? Se eu estivesse doente e escolhesse não contar pra ninguém, qual seria a reação de vocês ao descobrirem?
Marcos - É diferente
Clara - É diferente porque se eu amo vocês da mesma forma? - passei as mãos no rosto já completamente molhado de novo - Vocês iam sentir o que eu estou sentindo agora. E eu posso garantir que dói, dói muito saber que enquanto eu estava me divertindo na França, meu avô estava aqui passando o maior sufoco - minha mãe e minha avó estavam chorando tanto quanto eu - "Fica tranquila, confia em mim", "É paranoia, sério.", lembram disso? - elas olharam pra mim sabendo que eu tinha citado falas delas - Eu confiei em você, vó
Glória - Desculpa, meu amor - ela balançou a cabeça sem consegui olhar pra mim -
Clara - Eu achava que estava enlouquecendo de verdade, mãe. Pensando besteiras da hora que acordava até ir dormir
Débora - Eu não podia, filha... - quase não ouvi a sua voz, que estava abafada na camisa do meu pai. Ela estava abraçada a ele -
Marcos - Clara, elas só fizeram o que eu pedi. Não fica com raiva
Clara - Eu devia estar ao seu lado e não me divertindo enquanto você está sofrendo. Isso é ridículo - estava me sentindo sufocada ali, não sei se pelas palavras ou pela vontade de chorar mas precisava sair - E vou estar do seu lado sempre, vô, pode ter certeza. Mas vocês foram desleais comigo e eu não sei se vou consegui esquecer isso - saí do quarto sem dizer ou ouvir mais nada. Talvez eu é que estivesse sendo egoísta no momento mas... dane-se. Sempre me coloco no lugar das pessoas antes de fazer qualquer coisa para evitar machucá-las, porque é tão difícil fazer o mesmo comigo? Não entendo. É errado querer o bem de quem eu amo? Merda. Merda. Merda! Estava com raiva até de mim por não ter percebido nada. Tá certo que foi ele quem pediu, mas ninguém devia ter concordado porque eu nunca concordaria. Ele poderia até me odiar inicialmente mas ia passar. Nunca passei por nada parecido mas em qualquer situação o apoio familiar é tudo. Minha cabeça estava girando, me deixando tontinha. Pressionei o botão do elevador repetidas vezes, impaciente e querendo sair dali logo -
Débora - Filha, não sai assim - ouvi a sua voz mas nem virei - Você veio sozinha?
Clara - Sim
Débora - Eu te levo
Clara - Não, obrigada - senti ela se aproximar mais e virei o rosto ao vê-la do meu lado -
Débora - Não me trata assim
Clara - Eu posso estar sendo uma idiota, mãe. E não me importo se estiver porque sei que o que estou sentindo não chega nem aos pés do que o que meu avô está sentindo. Nem dá pra comparar. Mas o fato é que esse é o meu jeito, estou me sentindo traída sim, e não posso fazer nada pra mudar isso
Débora - Eu sei, e você pode não acreditar mas me coloquei no seu lugar diversas vezes
Clara - E em nenhuma delas se dignou a me contar. Preferiu sofrer sozinha?
Débora - Você não entende? - começou a chorar novamente e eu sabia que não ia aguentar ver isso. A dor deles parecia passar pra mim triplicada, e isso é o que mais doía, mesmo que eu não dissesse em voz alta -
Clara - Não, não entendo - pressionei o botão do elevador de novo -
Débora - Me deixa te levar, por favor
Clara - Me deixa ficar sozinha, por favor - olhei-a e ela percebeu que dessa vez quem não ia mudar de ideia era eu -
Débora - Você veio dirigindo?
Clara - Não, de táxi
Débora - Tudo bem, vai com cuidado - me encaminhei para escada e quando comecei a descer os primeiros degraus ouvi o blip anunciando a chegada do elevador. Mas continuei. Quando cheguei ao térreo devia estar com uma cara horrível porque todos olharam pra mim, uma enfermeira perguntou se eu estava bem e só consegui assentir. Saí do hospital e fiquei vagando por aquelas ruas quase desconhecidas pra mim, sem saber pra que lado seguir. Na verdade queria apenas encontrar um buraco para me refugir e só sair quando percebesse que tudo não tinha passado de um pesadelo terrível. Desde sempre aprendi que não se resolve nada fugindo mas por parecer a opção mais fácil, parecia a mais certa também e foi a primeira coisa que passou pela minha mente. A raiva diminuía a cada passo que dava mas em compensação já nem sabia o que estava sentindo. Era um medo angustiante tão grande que cheguei a me perguntar se não seria melhor não saber de nada e viver com a minha paranoia... Não! Afastei meus pensamentos nada coerentes, peguei um táxi e quando o motorista perguntou qual era o destino, não soube responder logo de cara e demorei mais do que queria. Precisava ficar sozinha pra tentar digerir a montanha russa de emoções que tinha se instalado dentro de mim em menos de cinco horas. E depois do que me pareceu longos minutos já sabia qual era o lugar perfeito pra isso... Quando cheguei, a praia estava pouco movimentada, havia um casal correndo na areia, mais umas quatro pessoas se aventurando no mar meio agitado e só. Nenhum quiosque estava aberto e imaginei que todos deviam estar no clima do Natal ainda. Ou nem todos. Não tirei a sapatilha, desci da calçada e sentei na areia. Peguei o celular, ignorei as chamadas perdidas sem olhar de quem eram, desliguei-o e o joguei na bolsa de novo. Escolhi o horizonte como um ponto fixo e fiquei olhando pra ele como se estivesse anestesiada. Meus pensamentos pareciam estar congelados e as lágrimas tinham secado. Ainda estava difícil acreditar que um turbilhão de coisas vinha acontecendo debaixo dos meus olhos e eu não conseguia ver nada. E se fosse necessário um transplante? Meu avô ia deixar que me contassem ou... Não, Ana Clara! Isso não vai ser necessário e você também ja sabe de tudo. Não pense nessa hipótese! Fiquei assistindo o início do pôr do sol e com o passar do tempo comecei a ficar com frio mas não queria me mexer e quando o vento passou por mim, senti o meu perfume predileto no ar e não precisei virar pra saber que a única pessoa que queria ali comigo estava atrás de mim. Conhecendo-o bem sabia que ele ainda não estava ao meu lado por achar que eu queria distância. E eu realmente queria... até sentir a sua presença e perceber que o seu abraço era mais do que uma necessidade naquele momento. Provavelmente a anestesia ia passar e as lágrimas iam voltar mas ouvindo o meu lado racional sabia que era disso que estava precisando e quanto mais rápido conseguisse colocar tudo pra fora, mais rápido iria me recompor para ajudar meu avô. Era nele que tinha que pensar, apenas nele. Levantei, me virei e como se fosse o meu ímã, ele se aproximou de mim no mesmo segundo, me abraçando confortavelmente. Eu quebrei instantaneamente, as lágrimas não tinham cessado coisa nenhuma, estavam apenas esperando que eu ficasse ainda mais vulnerável e voltaram com toda a força. Queria parar de chorar e agradecê-lo por estar ali por mim e pra mim, mas isso parecia impossível, minha voz tremia, meu corpo perdeu completamente as forças e eu cairia se não estivéssemos abraçados. Ele gentilmente pediu para que sentássemos e eu obedeci, ficando no seu colo, com a cabeça enterrada no seu pescoço ensopando a sua camisa até enfim, ter forças para encará-lo. Ele começou a enxugar o meu rosto, meus olhos se fecharam ao sentir seu toque e ao terminar ele beijou as minhas pálpebras. Não sei o significado de um beijo nos olhos, nem se existe um, mas me pareceu algo tão íntimo e profundo que eu quis retribuir e sorrir mas acho que não consegui -
Clara - Quem foi que te ligou?
Neymar - A sua mãe. Ela já me contou tudo, não precisa falar nada - assenti - Está melhor?
Clara - Não
Neymar - O que é que você está sentindo agora?
Clara - Agora... - pensei por um momento - Agora estou me sentindo muito mal por ter saído do hospital do jeito que sai e talvez por ter deixado eles se sentirem pior do que já estavam. Eu devia ter ficado, sabe? Mas olhava pra eles e parecia ouvir cada mentirinha que me contaram para esconder algo tão sério, depois olhava para meu avô e o via ali, em uma cama de hospital, tão abatido, tão debilitado... Era muita coisa pra processar, eu queria mas se ficasse ia terminar em uma cama de hospital também
Neymar - Ei, não fala isso - me apertou um pouco mais - Eu entendo que você precisava desse tempo e o do seu espaço. E a sua mãe também entende
Clara - Entende?
Neymar - Sim. Ela disse que do jeito que você estava quando saiu de lá, era bem provável que não fosse pra casa e quisesse ficar sozinha pra digerir tudo. Por isso vim pra cá
Clara - Ah...
Neymar - Mas já está escurecendo, a gente tem que ir
Clara - Tudo bem
Neymar - Seu avô está melhor, só vai ficar internado até amanhã para receber antibiótico intravenoso
Clara - Obrigada - não sei bem se estava agradecendo pela informação ou por ele estar ali, acho que pelas duas coisas. Ele sorriu levemente e nos levantamos. Peguei a minha bolsa e caminhamos até o seu carro de mãos dadas -
Neymar - Falei pra minha mãe que a Duda ia dormir lá mas se quiser ir buscá-la... - colocou o cinto e eu fiz o mesmo -
Clara - Não. Você fez bem, é melhor ela ficar por lá hoje - ele deu partida, o curto caminho até o apê foi em silêncio e quando chegamos a Manu ainda não estava. Não tive muito entusiasmo para brincar com o Luck e deixei-o sob os carinhos do Júnior pra poder ir tomar um banho. Quando entrei no quarto, tirei o celular da bolsa, liguei-o e me assustaria com a quantidade de ligações e mensagens dos meus pais se não soubesse o motivo. Resolvi mandar uma apenas dizendo que estava bem - na medida do possível - e em casa. Depois peguei um pijaminha e entrei no banheiro, tomei um banho gelado e apesar de estar ciente do horário, molhei o cabelo mesmo assim porque estava precisando disso. Quando saí do box, me enrolei em uma toalha, sequei o cabelo superficialmente com outra, desembaracei-o e o deixei solto para que secasse por conta própria até a hora que o sono me dominasse, o que não ia demorar muito para acontecer por culpa do meu enorme cansaço emocional. Vesti o pijama, saí do quarto e fui atrás do Júnior, encontrei-o na cozinha procurando por algo na geladeira e apesar de estar sem nenhum apetite pensei em tomar um copo de suco pelo menos -
Neymar - Só vai ficar com isso? A última coisa que comeu foi o almoço?
Clara - Sim, mas não tenho fome - sentei na banqueta -
Neymar - Hum... e se eu fizesse algo?
Clara - Você? Como assim? Fazer o que? - tomei um gole do meu suco e ele sorriu -
Neymar - Não sei, sanduíches talvez
Clara - Sanduíche?
Neymar - É, posso não me lembrar agora mas eu já devo ter feito alguma vez na vida
Clara - É sério?
Neymar - Não - riu. E se aquilo tudo era uma alguma técnica para tentar me distrair estava começando a funcionar - Mas e aí, topa comer comigo?
Clara - Topo. Vai fazer sanduíche de que?
Neymar - Pra começar, vai ser de coração - e ele conseguiu o que eu julgava ser impossível naquela noite: me fazer rir, por mais breve que tenha sido foi verdadeiro e eu acho que estava amando-o ainda mais por isso. Ele se aproximou do outro lado do balcão, tirou meu cabelo do rosto e o prendeu atrás da minha orelha - É sério, eu vou fazer mas você tem que comer e mentir
Clara - Mentir?
Neymar - Sim, tem que dizer que está bom - sorri -
Clara - Pode deixar
Neymar - Prefere de que? - voltou a abrir a geladeira -
Clara - Pode ser de coração mesmo - riu e olhou pra mim - Você escolhe - ele assentiu e eu fiquei apenas observando o seu trabalho como cozinheiro - um tanto quanto desastrado, mas eu também sou. Dez minutos depois havia um sanduíche de requeijão, presunto e queijo, com uma aparência ótima na minha frente. Dei a primeira mordida e ele me olhou com expectativa - Tenho mesmo que mentir e dizer que está bom?
Neymar - Não, boba - riu -
Clara - Ainda bem, porque está mais do que bom - sorriu perfeitamente, iluminando o meu mundinho que estava tão triste. E não falei apenas para vê-lo sorrir, falei porque estava realmente bom. Comemos em silêncio, nos olhando - e sorrindo - ocasionalmente e por mais improvisado que tenha sido eu sabia que não ia esquecer esse jantar tão cedo. Primeiro, pelos motivos óbvios (a catástrofe que foi o meu dia) e segundo porque foi feito por ele com a intenção de me distrair e me alegrar, nem que fosse por curtos minutos. Quando terminamos e limpamos a cozinha, fomos para o quarto, ainda sem nenhum sinal da Manu mas ela devia estar curtindo com os pais. Depois de fazermos nossas higienes, deitamos e antes que eu pedisse, ele me puxou para o seu colo e devo ter adormecido com as suas mãos passeando pelo meu cabelo ainda meio úmido porque deixei o cansaço apoderar-se de mim, me sentindo totalmente destruída emocionalmente.



Meus amores!! ️ vocês nem ligam mais pra minha demora não é? Digam que não, por favor!
Estou me dividindo em várias pra consegui fazer tudo que quero, por isso está tão puxado. Pra dificultar ainda mais, eu amo ler, amo demais e é realmente muito difícil escolher entre meus livros e a escrita... mas eu sei que tenho um compromisso com vocês e se Deus quiser vou com ele até o fim!! Vou começar meu cursinho por agora também, ou seja, o tempo vai encurtar mais ainda, então sejam apenas pacientes comigo, até porque nem sempre que dá pra escrever a criatividade ajuda. Aproveito pra pedir desculpas as donas das fanfics que eu costumava acompanhar sempre, mas acho que já consegui ficar atrasada em todas. E com minha falta de tempo, ou leio ou escrevo. Mas vou tentar mudar isso, prometo.

NOTA: As informações contidas aqui sobre aplasia medular são do meu conhecimento de acordo com algumas pesquisas que fiz mas vocês sabem que cada site diz uma coisa então caso queiram saber mais a respeito sugiro que pesquisem também. Além do mais, tudo aqui não passa de ficção!! 
 É só, beijinhos!