Eduarda - Mãe, cadê o espelho? - apontou para onde ele deveria estar, ou seja, sobre a pia. Fiquei alguns segundos sem reação. Meu espelho não era enorme, até porque se fosse, acho que também seria mais forte e eu não teria conseguido quebrá-lo com tanta "facilidade", mas o espaço vago ali não estava nada bonito -
Clara - Quebrou, filha - respondi apenas, e sabia que vinha mais perguntas, então tentei evitá-las - Já escovou os dentes? - balançou a cabeça, negando - Então escova, seu uniforme está em cima da cama. Vou preparar seu café, tá bom? - assentiu voltando a se enxugar. Saí do banheiro, do quarto também, e fui pra cozinha, a Manu já estava lá. Admiro a sua capacidade de ir dormir tão tarde e acordar ainda mais cedo que eu - Bom dia
Manu - Bom dia. Como está a mão?
Clara - Na mesma - respondi enquanto colocava um pouco de água na chaleira pra fazer o achocolatado da Duda - Vou fazer o curativo menor que te falei
Manu - Clara... - me repreendeu com o olhar -
Clara - Manu, desse jeito não vou poder nem usar o computador. Como é que vou trabalhar? Um curativo menor vai me atrapalhar menos
Manu - Ok, não discuto mais sobre isso
Clara - Obrigada - revirou os olhos -
Manu - Mas eu vou poder te levar, certo?
Clara - Errado
Manu - Por que tão chata?
Clara - Posso ir de táxi. Ainda preciso deixar a Duda no colégio, lembra? Vai te atrasar ainda mais
Manu - Não vai me atrasar coisa nenhuma, sempre saio de casa bem antes do meu horário
Clara - Mas...
Manu - Vou levar vocês duas sim, e de tarde passo pra te pegar
Clara - O que? Não
Manu - Sim. Quando sair do balé com a pequena, vamos pro CT esperar a mamãe - sorriu e dessa vez, eu revirei os olhos - Estou fazendo isso porque quero, é sério. Pra que gastar dinheiro com táxi se eu estou aqui?
Clara - Não vou poder mesmo ter o direito de dizer não?
Manu - Não - riu -
Clara - Tá, desisto - ela sorriu e bateu palmas como se tivesse vencido algum campeonato. Terminei de fazer o achocolatado da minha pequena, deixei sua xícara do bob esponja em cima do balcão e a Manu fez um sanduíche pra ela também. Voltei pro quarto, e como nem preciso mais ajudá-la com o tênis por não ser mais de cadarço e sim de velcro, ela já estava pronta. Sorri. Minha bebê estava crescendo! Penteei seu cabelo de um jeito bem simples, ou seja, de modo que não precisasse muito esforço com a mão direita; prendi apenas a franja e atrás ficou completamente solto. Pedi pra ela ir comer, tomei um banho rápido, e escovei os dentes, depois peguei o kit de primeiros socorros na parte de baixo do armário do banheiro. Desenfaixei a mão bem devagar, e prendi as lágrimas quando vi os pontos. Só faço burrada mesmo, devia ganhar um prêmio por isso. Passei a pomada recomendada do jeito que o médico explicou, e um band-aid transparente extra grande foi o suficiente para tampar o machucado. Chamaria muito menos atenção, o que seria ótimo. Olhando pra minha mão, pensei em como seria bom se houvesse um band-aid pro coração também, mas como era algo impossível tratei de expulsar tal pensamento e fui me vestir. Ainda não podia fazer certos movimentos com a mão, dobrá-la nem pensar, mas o incômodo era bem menor, sentia ela até mais leve. Fiz o mesmo penteado da Duda em mim, revisei as coisas da minha bolsa, me perfumei e peguei o celular. Desbloqueei-o e havia uma mensagem da minha mãe de alguns minutos atrás, eu devia estar no banheiro. Abri-a imediatamente.
From: Diva ️
"Toda manhã tem um novo começo, uma nova benção, uma nova esperança, não permita que nada te deixe pra baixo. Você tem várias razões para olhar pra cima e agradecer porque enquanto acorda hoje, alguém está dando seu último suspiro. Agradeça à Deus por mais um dia. Não desperdice-o. Eu te amo, filha. Bom dia!"
Respirei fundo para segurar as lágrimas de novo, e lembrei do meu primeiro dia no CT, antes de chegar lá recebi uma mensagem dela também. Eu tenho a melhor mãe do mundo! Ela sabe exatamente quando tem que aparecer, parece adivinhar quando preciso dela e é por isso que a amo tanto. Saí finalmente do quarto, voltei pra cozinha, tomei um copo de leite forçado, elas terminaram de comer, a Duda foi pegar a mochila no seu quarto, nos despedimos do Luck e descemos para garagem. Entramos no carro da Manu, JT começou a cantar bem baixinho e ela deu partida. A primeira parada foi no colégio, entrei com a Duda e algumas mães me cumprimentaram, muitas delas eu conhecia realmente, já que nos juntamos para fazer o aniversário coletivo dos nossos pequenos, mas outras não... claro, nem precisava perguntar de onde elas me conheciam. Voltei pro carro e a Manu seguiu para o CT, quando chegamos, estacionou na minha vaga.
Clara - Obrigada, por tudo - ela sorriu amplamente, depois piscou. Peguei a minha bolsa, saí, dei um tchauzinho e ela foi embora. A ideia era ir direto pra minha sala, mas esbarrei com a Jú na escada e ela me arrastou pra sala dela -
Juliana - Como você está? - essa pergunta de novo não, só podia ser brincadeira. Ela já sabia? Pela sua cara, podia apostar que não -
Clara - Bem
Juliana - E o Marcos? - sentou e pediu que eu sentasse também, apontando para a cadeira -
Clara - Acho que vai poder ir pra casa hoje ou amanhã
Juliana - Sério? Isso é bom - sorriu -
Clara - É... em casa ele pode ficar mais tranquilo, sem tanto médico ao redor
Juliana - E por que esses olhinhos estão assim? - perguntou enquanto me olhava muito atentamente, ainda bem que minhas mãos estavam debaixo da mesa -
Clara - Assim como? - tentei desconversar e desviei o olhar -
Juliana - Não sei, tristes - mas será que sou tão invisível assim? -
Clara - Impressão sua
Juliana - Tem certeza? Você sabe que pode falar comigo. Aqui e agora estou sendo apenas a sua madrinha
Clara - Tudo bem - suspirei pesadamente, derrotada - De um jeito ou de outro você vai ficar sabendo mesmo
Juliana - O que foi?
Clara - Eu e o Júnior não estamos mais juntos - falei de uma vez, ela ficou boquiaberta e arregalou os olhos, foi tipo cena de novela mexicana -
Juliana - Como não? Por quê?
Clara - Infelizmente isso eu não tenho como te responder, madrinha
Juliana - Não estou entendendo nada. Vocês não estão mais juntos mesmo?
Clara - Não
Juliana - Desde quando?
Clara - Sábado
Juliana - Não foi uma briguinha à toa e vocês estão transformando em uma tempestade? Conheço os dois o suficiente pra saber que adoram isso e o maldito orgulho ajuda
Clara - Não foi uma briguinha à toa
Juliana - Mas... - não sei o que ela pretendia falar porque parou de repente e me olhou de novo - É claro que você não está bem - levantou e se aproximou de mim -
Clara - Eu não quero falar sobre isso, madrinha. A vida segue, e eu preciso trabalhar. Além do mais, sempre ouvi dizer que só sai da nossa vida quem nunca deveria ter entrado - ela semicerrou os olhos e cruzou os braços -
Juliana - Como se você acreditasse nisso - fechei os olhos e respirei fundo. É claro que não acreditava, mas não podia dar o braço à torcer. Não no meu local de trabalho, não podia misturar as coisas ou a mais prejudicada seria eu mesma -
Clara - É sério, Jú. Por favor, eu não quero mais falar disso
Juliana - Não vou insistir. Mas também não vou desistir e vou procurar saber direitinho o que aconteceu - dei de ombros -
Clara - Posso ir pra minha sala?
Juliana - Sim - levantei e peguei a minha bolsa, se ficasse mais dois minutos ali minha máscara ia cair, e as lágrimas se aproveitariam disso - Clara? - olhei-a - Sou chata mesmo, mas te amo tá? - sorri levemente e ela soltou um beijo pra mim - Se cuida. E qualquer coisa, estou aqui - assenti e saí da sua sala. Quando entrei na minha, os meninos já estavam, dei bom dia pra eles e sentei. Logo em seguida a Gio também chegou. Procurei ficar totalmente concentrada no meu trabalho, tanto para não cometer nenhum erro quanto para evitar pensamentos que não me fariam bem. Minha mão não me atrapalhou em muita coisa, consegui usar o computador perfeitamente, só não pude mesmo usar caneta ou lápis, então precisei adiar os novos desenhos que queria criar para wallpapers porque prefiro fazer no papel primeiro. Graças ao band-aid transparente ninguém reparou. As vezes batia em algum lugar sem querer, mas só apertava os lábios e esperava a dorzinha passar (eis a vantagem de deixar a mão toda enfaixada: se bater em algum lugar, a dor é amortecida). Em certo momento, o Caio levantou as persianas de todas as quatro janelas, o que deixou a sala bem mais clarinha, só que isso acabou me prejudicando muito porque duas delas ficavam praticamente de frente pra minha mesa. O primeiro treino do dia estava acontecendo ali, debaixo dos meus olhos, e sim, os titulares estavam em campo. Bastou vê-lo para começar a minha luta interna com as lágrimas. Que droga! Não deixei que nenhuma descesse. No meu local de trabalho não! “Uma hora passa, dizem. Uma hora o tempo cura, insistem. E eu espero, sinceramente, que passe. Porque se não passar eu não sei o que vou fazer.” -
Pedro - Tudo bem, Clarinha? - olhei-o e assenti rapidamente, tentando parecer convincente o suficiente -
Clara - É só uma dor de cabeça chata - não era mentira ou uma desculpa qualquer, inexplicavelmente, minha cabeça estava doendo mesmo e só me dei conta porque ele perguntou. Procurei pelo meu foco que havia se perdido entre os campos do CT, e quando encontrei-o, fiz de tudo para não deixá-lo ir embora, pelo menos até a hora do almoço. Não desci. É obvio que não ia poder me esconder pra sempre, mas enquanto pudesse... Talvez fosse até covarde da minha parte, afinal teríamos que nos encontrar de um jeito ou de outro -
Gio - Se Maomé não vai à montanha, a montanha vem à Maomé - sua voz me fez sair do transe em que me encontrava. Olhei-a, ela estava com uma bandeja nas mãos -
Clara - Não precisava se preocupar comigo, Gio. Comia qualquer coisa depois
Gio - Nada disso
Clara - Você é um amor, obrigada
Gio - Por nada - colocou a bandeja na minha mesa e sentou-se - E a dor de cabeça?
Clara - Continua aqui comigo - riu e comecei a comer, o cheiro estava maravilhoso, pena que nem sequer abriu meu apetite -
Gio - Ai, meu Deus! Vai chover! - falou um pouco alto demais, me assustei e olhei pra janela mas o sol estava radiante -
Clara - O que aconteceu?
Gio - Eu que pergunto. Cadê a sua inseparável pulseira? Achei que não tirasse nunca - riu. Me dei conta do que ela estava falando e precisei de uns segundos para consegui falar -
Clara - E não tirava mesmo, mas foi necessário
Gio - Ih, estou vendo que aconteceu alguma coisa. Quer mudar de assunto?
Clara - Não, tudo bem. Sei que vou ter que falar sobre isso por algum tempo ainda - ela ia ficar sabendo mais cedo ou mais tarde, preferia que fosse por mim já que estávamos iniciando uma amizade que tinha tudo para ser verdadeira -
Gio - Sua voz está me deixando preocupada. Sei que não deve ter nada a ver, mas é algo com seu avô?
Clara - Não, com ele continua tudo igual. Só tirei a pulseira porque... - minha voz falhou. Eu falhei, a primeira lágrima rolou, limpei-a rapidamente antes que as outras achassem que podiam rolar também e a Gio ficou sem entender nada - Você sabe quando ganhei...
Gio - Quando o Neymar te pediu em namoro? Lembro quando você chegou aqui me contando como foi
Clara - Exato. Então não fazia mais sentido continuar com ela se o namoro não existe mais
Gio - O namoro não existe mais? Oi?
Clara - Não - ela ficou olhando pra mim, bastante surpresa mas visivelmente constrangida, sem saber o que falar - Tudo bem, Gio. Uns relacionamentos acabam, outros começam e o mundo continua girando - tentei amenizar o clima -
Gio - Tá, olha... - ficou meio atrapalhada e eu sorri um pouco com a sua falta de jeito em relação a um assunto tão delicado - Estou vendo que você não está confortável falando disso, mas... Quando quiser e se quiser, já sabe
Clara - Eu sei. Obrigada - sorri. Não me espantei ao perceber que a pouca vontade que tinha de comer, sumiu depois da conversa, mas tentei, comi até onde deu - E o Joãozinho?
Gio - Ah! Acordou tão feliz hoje. Se pudesse passaria o dia todinho com ele - sorriu de um jeito lindo, sei porque também devo sorrir assim falando da minha boneca - Toda hora me pego imaginando como está o espaço da festa. Até ontem só o painel e as coisas maiores estavam montadas, não entendo muito dessas coisas - riu - E a minha irmã ainda disse que preparou uma surpresa pra ele mas se recusa a me dizer o que é
Clara - O tema vai ser aquele mesmo que tu já tinha dito?
Gio - Sim, ele adora aqueles palhaços e eu nem sei distinguir quem é quem - gargalhou - Você e a Duda vão né?
Clara - Vamos estar lá sim, pode ficar tranquila - ela sorriu. Falamos mais um pouco sobre o aniversário e quando o nosso horário de almoço terminou, ela levantou e pegou a bandeja - Vai fazer o que?
Gio - Levar lá pra baixo
Clara - Claro que não. Você já fez o favor de trazer, pode deixar que eu levo - levantei também -
Gio - Tem certeza? É que... bom, você sabe. Hoje todos os jogadores estão aí
Clara - Eu sei - respondi muito mais abalada do que aparentei estar - Mas pode deixar que eu levo. O horário de almoço já terminou, o restaurante deve estar esvaziando - na verdade, queria muito mudar de ideia e implorar pra que fosse ela a levar aquela bandeja mas não fiz isso. Ia passar por uma prova de fogo correndo sérios riscos de me queimar feio. Mas o fato é que, o Júnior e eu teríamos que conviver no mesmo ambiente o tempo (quase) todo, não só no trabalho, em casa também, não havia escapatória possível e não fazia a menor ideia de como seria isso, mas teria que aprender a lidar. Minha avó sempre diz: "Se seu problema não tem solução, aprenda a conviver com ele!" Então, vamos lá. Peguei a bendita bandeja e desci o mais rápido que pude, só não corri porque iam me chamar de maluca, entrei no restaurante quase de olhos fechados e.. estava quase vazio. Respirei de alívio. Apenas alguns jogadores que conheço de longe estavam ali ainda, dei um boa tarde coletivo, coloquei a bandeja no lugar, aproveitei pra dar um oi ao pessoal da cozinha porque adoro eles e saí do restaurante agradecendo à Deus por ter me poupado temporariamente de um reencontro, que infelizmente seria inevitável, mas que podia esperar, certo? Errado! Devo ser muito azarada mesmo, porque já estava perto da escada, quase chegando onde devia ter ficado, quando ele saiu daquela que chamo de sala do Piratinha. Ai, merda! Por que justo naquele momento? Por que não demorei mais falando com o pessoal da cozinha? Será que mesmo assim íamos nos encontrar? Com a sorte que eu tenho, não duvido. Ele não me viu logo, eu poderia ter subido correndo sem me importar com quem me chamaria de maluca, mas empaquei. E pior fiquei quando nossos olhares se encontraram. Não me surpreendi quando as minhas pernas cambalearam um pouco e minhas mãos começaram a suar frio, isso sem falar no reboliço que estava no meu estômago. Tudo continuava igual, por dentro. Porque por fora parecíamos ter declarado uma guerra, o perdedor seria quem desviasse o olhar primeiro e eu não estava disposta a fazer isso, muito pelo contrário, olhar pra ele sempre foi um prazer pra mim e mesmo diante das circunstâncias, meu coração parecia gostar do que via. Notei a surpresa estampada no seu rosto, seu olhar também me percorreu de cima a baixo, percebi que demorou um pouco mais olhando para onde devia estar uma certa pulseira (coincidência ou não, era a minha mão machucada), sua boca tentou falar algo umas duas vezes mas desistiu. Ele parecia cansado, como se tivesse dormido pouco... mas isso não era mais da minha conta. O momento quase hipnótico terminou quando sua boca deixou claro que queria sim falar algo, e eu esperei (que fosse até um simples e indiferente boa tarde) mas novamente, não saiu nada. Ele respirou fundo e passou por mim tão rápido que quando olhei pra trás não o vi mais, apenas o seu perfume estava ali ainda. Suspirei frustrada, e derrotada porque no final nenhum de nós dois vencemos nada. Sua indiferença doeu tanto que eu só queria chorar, precisava chorar, e dessa vez não ia dar pra segurar. Ia entrar no banheiro ali do térreo mesmo mas desisti assim que lembrei que o feminino ficava próximo do depósito dos produtos de limpeza, as lembranças que tinha daquele lugar iam me deixar pior ainda. Sem outra alternativa, segurei o choro e subi, entrei no banheiro feminino e assim que fechei a porta, deixei as lágrimas rolarem sem piedade. Se continuasse segurando por mais tempo era bem capaz de me afogar por dentro, sem brincadeira. Fui muito burra (mais uma vez) por pensar que poderíamos agir naturalmente só por estarmos no nosso local trabalho, até parece que sentimento escolhe lugar para aparecer e pode ser controlado. Quando me recompus, lavei o rosto e subi novamente, os meninos já estavam na sala, acho que por esse motivo a Gio só me olhou mas não perguntou nada, nem precisava.
****
No final da tarde, os jogadores do Peixe receberam a visita das crianças do Cerex (Centro de Recuperação para Excepcionais) e foi uma festa, da nossa sala podíamos ouvir muitos risos, e em outra ocasião, eu teria ficado e tiraria várias fotos, mas por motivos óbvios, assim que deu meu horário, me despedi dos meninos, disse um até logo pra Gio e desci. Por causa da bagunça das crianças, passei despercebida, ainda bem. Sabia que muito provavelmente a Manu já estaria me esperando, e não errei. Que bom que ela nem saiu do estacionamento, ou a Duda ia querer ir pro campo também.
Manu - Acabamos de chegar, já íamos entrar
Clara - Que bom que me adiantei - falei baixinho mas creio que ela ouviu - Tudo certo no balé, pequena? - abaixei para lhe dá um beijo, ela sorriu e assentiu -
Manu - Vamos, então?
Clara - Sim, mas preciso fazer uma coisa antes de ir pro apê
Manu - O quê?
Clara - O aniversário do filho da Gio é hoje e acredite, eu ainda não comprei o presente dele - riu -
Manu - Partiu, shopping?
Clara - Pode ser - ela entrou no carro, e depois de verificar que a Duda estava bem presa ao cinto de segurança (Manu não tinha cadeirinha), fiz o mesmo. Chegamos ao Shopping Balneário trinta minutos depois. Eu não sabia o que comprar, se já sou indecisa para comprar coisas pra mim, imagina só para outras pessoas. Indecisão duplicada! Entramos em várias lojas de moda infantil, calçados e por fim, em uma de brinquedos. Gostei logo de cara de um tapetinho musical da Pimpolho, super interativo, com um sistema de sons embutido que emitia diferentes melodias quando a criança pressionava alguma figura, um material resistente e durável, de fácil limpeza e manuseio. Perfeito! Como havia vários modelos masculinos, pedi pra Duda escolher um, e ela, muito empolgada, optou por um verde, as figuras eram de animais fofinhos, parecia uma mini fazendinha. Pegamos um fila básica, paguei, e já pedi para embrulharem para presente, depois fomos ao McDonald's. Ainda não estava com fome, mas pedi o mesmo que a Manu: um mcwrap e coca zero. E quando os pedidos chegaram, a Duda ficou estérica de felicidade porque seu McLanche Feliz tinha como brinde um brinquedinho do desenho My Little Pony. Sua felicidade é sempre tão linda de se ver, faz meu dia valer a pena. Comemos e fomos embora logo em seguida porque já tinha anoitecido e se o trânsito não nos ajudasse, íamos chegar na festa quando ela estivesse terminando. Quando chegamos no apê, a Manu se encarregou de arrumar a Dudoca e deixou pra mim apenas a tarefa de escolher a roupa dela. Peguei um vestidinho poá manga longa e uma bota molekinha, deixei tudo separado e fui pro meu quarto. Tirei o casaco, escolhi uma roupa pra mim também, estirei-a na cama e antes de entrar no banheiro, liguei pra minha mãe. Ela me disse que ficou decidido que meu avô iria pra casa na terça mesmo, conversamos por alguns minutos, mas me despedi dela antes que o foco da conversa deixasse de ser o meu avô e passasse a ser eu. Se começasse a falar sabia muito bem como ia acabar... Entrei, enfim, no banheiro e dei de cara com um espelho novo. Emanuelle, claro! Diferente do anterior, o novo era redondo, bem mais delicado, transmitindo uma sensação de descontração, valorizando o espaço da bancada, mas chamando a atenção para ele. Percebi também que ele ampliou a sensação do espaço do meu banheiro, que não é tão grande assim, e melhorou a iluminação do ambiente. Não fazia ideia de que um espelho pudesse fazer tanta diferença. No espaço que tinha ficado vago, já que o antigo era quadrado, ela colocou um adesivo decorativo floral lindo, deixando a decoração ali ainda mais leve. Quase não parecia o mesmo lugar. Sorri um pouco, as vezes me pergunto se realmente mereço os amigos maravilhosos que tenho. Tomei banho (dessa vez não deixei a mão quase do lado de fora do box, mas evitei molhá-la), me enxuguei, passei hidratante no corpo, voltei pro quarto e me vesti. Calcei minhas botas cano curto, até tentei fazer um rabo de cavalo no cabelo mas não consegui, então deixei-o solto mesmo, me perfumei e passei apenas um gloss incolor nos lábios; não ia me arriscar a usar um lápis de olho com a mão esquerda. Peguei a sacola com o presente do João, o convite para saber o endereço, meu celular e saí do quarto, a Manu já estava trabalhando na mesa de jantar e a Dudoca assistindo algo, sinal de que demorei mais do que devia -
Manu - Uau! - assobiou - Vocês vão arrasar nessa festa, estão lindas - sim, minha menina estava lindíssima, mas isso não é novidade -
Clara - Obrigada. Não quer mesmo ir? A Gio não se importaria
Manu - É um convite tentador, amo festinhas de criança - riu - Mas prefiro ficar aqui terminando alguns rascunhos. A Duda vai trazer docinhos pra mim, não vai amor? - ela riu, mas concordou -
Clara - Tudo bem. Não vamos voltar tarde - dei um beijo no seu rosto - Obrigada pelo espelho - sorriu e piscou, a Duda também se despediu dela e descemos. Esperamos uns dez minutos por um táxi, passei o endereço para o motorista e rapidamente chegamos a casa de festas, que parecia já estar bem animada. Paguei, saímos do carro, segurei a mãozinha dela e entramos no local. Estava cheio. O salão de festas parecia um verdadeiro circo, uma coisa linda. Cada detalhe muito bem pensado e colocado em lugares estratégicos, a mesa de doces estava divina, os cupcakes tão fofinhos que eu teria até pena de comer, a Duda ficou encantada pelos potinhos de jujubas, claro, mas também ficou impressionada com o tamanho do bolo, confesso que eu também. Só depois que vimos quase tudo, consegui achar a Gio... vestida de palhaça também, assim como seu baby -
Gio - Não basta ser mamãe, é preciso pintar o rosto pra ele achar que sou o Patatá - rimos. O João estava bastante animado, feliz mesmo, depois que ganhou o presente da Dudoca, deu dois beijos melados de doce nela e em mim e agradeceu do seu jeitinho. Dois aninhos de pura fofura. Minha filha logo me abandonou para se juntar as crianças que estavam se divertindo nos brinquedos disponíveis, mas não fiquei completamente só, a Gio me apresentou a algumas pessoas da sua família e o pai do João, todos bem espontâneos e simpáticos. Um tempinho depois o Caio, o Pedro e Luciana também chegaram, então ficamos juntos em uma mesa e fomos muito bem servidos. No meio da festa, eis que surge a surpresa que a irmã da Gio preparou: o tema da festa ao vivo e em cores, Patati e Patatá para o delírio da criançada. Eles cantaram, dançaram, organizaram brincadeiras, e até selfies fizeram, só se despediram depois do parabéns pra você. Antes das 23h, chamei a Duda (sim, desde que chegou ela não parou quieta, estava bastante suada e com uma sacolinha bem fofa em forma de palhaço cheia de doces) para também nos despedir da Gio e do Joãozinho, que estavam com sorrisos enormes (tiramos algumas fotos antes disso, e posso dizer que ele gostou do meu colo, um apego), não queria ficar tarde da noite esperando por um táxi. Mas os meninos também decidiram ir embora, então nada mais justo que um deles nos dá uma carona. O Caio se disponibilizou, e nos deixou em frente ao prédio, agradeci, ele foi embora e nós subimos. A Manu ainda estava na sala, trabalhando, mas parou tudo que estava fazendo para ouvir um pequeno resumo do que foi a festa, contado pelo ponto de vista da Duda, o que lhe rendeu bons risos, principalmente quando ela falou que tirou foto com o Patati e o Patatá, e que eles eram lindos de perto. Ouvi tudo sentada no sofá, dando um pouco de atenção ao Luck. Quando terminou de falar, deu alguns docinhos a Manu e deitou no meu colo, eu sabia que ela estava bem cansada. Consegui convencê-la a ir pro quarto, lhe dei um banho morno, vesti seu pijama e enquanto escovava os dentes, peguei o livro pra saber onde tinha parado da última vez. Não li nem quatro páginas e meu anjinho já estava dormindo tranquilamente. Dei um beijinho na testa dela, ajeitei seu cobertor, deixei só o abaju aceso e fui pro meu quarto. Estava tirando as botas quando a Manu entrou -
Manu - Acho que preciso te contar uma coisa - sentou ao meu lado na cama -
Clara - Fala
Manu - É que não sei como - franzi a testa -
Clara - Por quê?
Manu - O Júnior ligou pra mim hoje - falou rapidamente. Eu não disse nada e tentei manter uma expressão neutra, como se aquilo não me afetasse em nada - Queria saber se eu estava com a Duda pra falar com ela
Clara - E eu achando que a covarde sou eu... - pensei alto -
Manu - Como?
Clara - Nada, esquece
Manu - Eu deixei eles conversarem. Tudo bem?
Clara - Claro. Não quero de jeito nenhum que a relação dela com ele mude
Manu - Hum, tem mais uma coisa
Clara - Que foi?
Manu - Não aguentei e falei umas coisinhas pra ele também
Clara - Que coisinhas, Manu?
Manu - Nada demais
Clara - Não tem como ser mais clara?
Manu - Nada que ele não tenha merecido
Clara - Não precisava disso
Manu - É, talvez não. Mas ele sabe que mereceu porque ouviu tudo sem retorquir - não queria nem imaginar as coisinhas que ela disse pra ele, com certeza não foi nada agradável, por isso que ela não fez comigo por perto porque eu não deixaria - Mas mudando de assunto, quer dizer, não totalmente... Quando chegamos no CT, a Duda perguntou se ele estava lá. Eu disse que não. Estava?
Clara - Estava
Manu - Vocês se viram?
Clara - Sim - sua cara de surpresa era impagável -
Manu - E como foi?
Clara - Parece que vou reviver aquele período de quando voltei pra Santos, lembra?
Manu - Claro
Clara - Então, hoje foi igualmente horrível - e foi só o primeiro. A minha única certeza é que muitos outros encontros ainda viriam, e eu não estaria preparada para nenhum deles.
Me tirem uma pequena dúvida: vocês preferem um final premeditado, tipo, que eu avise ou preferem algo surpresa. Vocês estão lendo um capítulo e de repente: The End. Hahahaha, respondam, please!
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