quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Capítulo 63 - “Minha mãe dizia que amar significa dar chances quando não há mais chances sobrando”

Não consegui ir direto para o apê, estava me sentindo tão perdida... só queria falar com a minha avó, só queria ouvir os seus conselhos e segui-los como sempre fiz, mesmo não concordando com muitos, sempre segui todos. Dessa vez não seria diferente. Dona Glória é a minha Clarice Lispector particular, com certeza saberia o que me dizer sobre toda essa loucura. Quando cheguei no prédio dos meus pais, estacionei na vaga deles já que nenhum dos dois estava em casa e subi com a Duda tentando explicar pra ela o motivo da visita repentina, não estava nem conseguindo pensar direito por isso não deu pra arranjar uma boa desculpa. A verdade é que estava até evitando ao máximo falar, com medo de descontar alguma coisa nela e se eu fizesse isso não me perdoaria, então era preferível falar o menos possível. Chegamos ao andar certo, e comecei a tocar a campainha insistentemente (esquecendo até da chave que minha mãe tinha me dado a uns meses e estava perdida em algum canto da minha bolsa). Quando minha avó abriu a porta, não segurei mais o choro que prendi durante todo o percurso até ali e ela ficou muito assustada. 
Glória - O que aconteceu? - perguntou me analisando de cima a baixo e fez a mesma coisa com a Duda depois
Clara - Me abraça, vó - ela continuava apavorada, mas me recebeu nos seus braços acolhedores como sempre, e isso foi o bastante para me ver livre de toda raiva que estava sentindo
Glória - O quê que está acontecendo? - tentou enxugar meu rosto quando me soltou, e eu respirei fundo pra me controlar porque quando olhei pra Duda percebi que ela estava quase chorando também. Não! Isso não! Abaixei pra ficar da altura dela
Clara - Não quer ir ver o biso? 
Eduarda - Por quê está chorando? - passou suas pequenas mãozinhas no meu rosto, fechei os olhos e respirei fundo novamente
Clara - Porque estou com uma dor de cabeça muito forte, filha. Mas já vai passar 
Eduarda - Muito forte? - arregalou os olhinhos
Clara - Sim, mas não precisa se preocupar com isso, vai passar 
Eduarda - Mesmo? - assenti e olhei pra minha avó
Glória - Vai passar sim, meu amor. Pode deixar que eu cuido da mamãe - piscou pra ela, mas a minha pequena estava muito séria
Eduarda - Vai dar aquele remédio com gosto ruim pra ela? - fez uma careta engraçada
Glória - Esse mesmo - sorriu um pouco
Clara - Vai lá ver o biso, amor. Depois de tomar o remédio eu vou também, tá? - ela demorou um pouco, mas concordou - Só não fica muito em cima dele, porque ainda não pode 
Eduarda - Tá bom - se afastou e começou a andar em direção ao corredor, mas de repente voltou correndo e me abraçou tão forte que cheguei a perder o equilíbrio, já que estava praticamente de joelhos, e caí sentada. Ela deu uma gargalhada gostosa - Fica bem, mãe - deu um beijo na minha bochecha e sorriu
Clara - Vou ficar - sorri com vontade de chorar mais ainda e beijei seu rosto também. Ela foi correndo pro quarto do meu avô e eu levantei
Glória - Você está pálida, vem comigo - pegou a minha mão antes que eu falasse qualquer outra coisa e me levou com ela pra cozinha. Sentei, e me dei conta de que ainda tremia um pouco, o choque da notícia ainda não tinha passado. A carga emocional continuava pesando em cima de mim. Também pudera, né? Alguns minutos depois minha avó sentou de frente pra mim com duas xícaras fumegantes do seu famoso chá calmante de camomila - Bebe e me conta o que aconteceu - tomei o primeiro gole pra ganhar coragem de falar, enquanto ela me olhava atentamente
Clara - Descobri tudo
Glória - Tudo o quê? 
Clara - O verdadeiro motivo que fez o Júnior terminar comigo 
Glória - Então havia outro motivo mesmo?
Clara - Sim, suas suspeitas nunca falham - sorriu - Mas é um motivo tão... - não achei palavras para defini-lo - Não consigo acreditar nele ainda 
Glória - Ele contou?
Clara - Não, eu ouvi sem querer - senti um calafrio ao lembrar como foi horrível ouvir tudo aquilo, e tomei mais um gole do chá pra tentar ganhar tempo
Glória - Fala... - pediu gentilmente, só que eu não sabia como explicar um absurdo que nem eu mesma tinha entendido ainda - Que motivo foi esse, Clara?
Clara - A ex namorada dele era compatível com meu avô - resumi da forma que achei menos horrorosa, segurando o choro... tudo em mim doía naquele momento. Ela captou o que eu quis dizer, mesmo assim demorou um pouco pra falar 
Glória - Entendi - balançou a cabeça afirmativamente, mas não tão surpresa
Clara - Você já tinha pensado nessa possibilidade, não é vó?
Glória - Talvez - afundei o rosto nas mãos, sem saber o que pensar, a cada minuto ficava mais confusa - Ele foi muito corajoso - disse depois de alguns minutos de silêncio total, tentei colocar minhas ideias em ordem durante esse meio tempo 
Clara - Foi... 
Glória - Vocês conversaram?
Clara - Não muito. Não estava conseguindo pensar direito, e nem estou ainda
Glória - Por quê? 
Clara - Você ainda pergunta, vó?
Glória - Meu amor, se o final valer a pena, o caminho não importa. O passado está apenas na sua cabeça agora, mas o futuro está nas suas mãos - segurou minhas mãos em cima da mesa - Esquece tudo que aconteceu e vai ser feliz 
Clara - Falar é fácil 
Glória - Não, não é fácil. Eu pensei nessa possibilidade sim, mas nunca falei nada porque não imaginei que ele fosse capaz de ir tão longe. Mas ele foi... isso não quer dizer alguma coisa?
Clara - Ele me ama - meus olhos enxeram de lágrimas novamente e eu não tinha a menor intenção de segurá-las
Glória - E não é pouco 
Clara - Eu sei - tentei sorrir, mesmo chorando - É muito recíproco
Glória - Isso eu também sei - riu com os olhinhos rasos - Qual a dificuldade?
Clara - Não sei. Tenho medo de não dá mais certo por causa das oportunidades que nós já perdemos. Tenho medo de me sentir em dívida com ele pelo resto da vida. Tenho medo, vó... muito medo 
Glória - Isso é... normal. Quando o amor é grande, o medo não é menor - falou com uma tranquilidade tão grande que não sei como, mas conseguiu me acalmar
Clara - Tava demorando pra surgir essas suas frases que me deixam sem saber o que falar - ela gargalhou
Glória - Olha que a maioria nem são minhas, mas que bom que guardei todas elas, sempre soube que ler tanto teria alguma utilidade - riu novamente e eu sorri, me sentindo outra pessoa já, incrível - Quer ouvir outra?
Clara - Quero 
Glória - Primeiro me promete uma coisa
Clara - O quê? - perguntei receosa, falar sobre promessas ainda era um pouco doloroso
Glória - Sua felicidade não mora muito longe daqui, vai ser feliz - sorri novamente e assenti - Na vida e no amor, não temos garantias... Portanto não procure por elas, viva o que tem que ser vivido. Sem medos... - olhou nos meus olhos e apertou as minhas mãos - O medo é um dos piores inimigos do amor e da felicidade
Clara - Obrigada 
Glória - Não quero que me agradeça, quero apenas que cumpra com o que acabou de me prometer
Clara - Acho que não sou mais muito fã de promessas, vó
Glória - Mas essa é especial - piscou
Clara - Tudo bem - concordei sem escapatória - Tenho que ir, mas também preciso te pedir algo - terminei de tomar o chá e levantei, ela repetiu o meu gesto
Glória - O quê?
Clara - Não conta pro meu avô, pelo menos não agora
Glória - Por quê?
Clara - Porque eu já sei qual vai ser a reação dele. Lembro quando contei pra vocês sobre o término lá no hospital e ele já ficou achando que a culpa era dele. Não quero isso 
Glória - E o que eu falo pra ele? - fiquei sem resposta, não queria de jeito nenhum ter que mentir pra ele - Vai resolver a tua vida e deixa que com ele eu me entendo - seu sorriso transmitia a paz exata que eu queria, como que eu podia não confiar naquela mulher? Sorri também, abracei-a e fui dar um beijo no meu avô. Cheguei ali tão atordoada, com uma decisão fixa na cabeça, mas ainda assim, muito confusa. Parece mentira, mas estava indo embora bem mais calma, e com ainda mais certezas da minha decisão
    ****
Quando cheguei no apê com a Duda, a Manu ainda não tinha chegado então o Luck fez festa ao perceber que não estava mais sozinho. Era bom estar em casa, só que não estava me sentindo tão bem como queria ali. Faltava algo... faltava eu tomar uma atitude antes que fosse tarde demais. Como minha pequena já tinha feito as tarefinhas da escola, preparei um lanchinho pra ela comer assistindo Angry Birds no meu quarto, enquanto eu tomava um banho. Precisava pensar no que fazer, e rápido. Depois de me vestir e prender o cabelo, sentei de frente pra minha mesinha, tirei o estojinho do óculos e o celular da bolsa e me assustei com o número de chamadas perdidas. Todas do Júnior. Cacete! Eu disse que ia ligar quando chegasse! Não sabia direito o que falar ainda, mas era a oportunidade perfeita para fazer logo o que tinha que ser feito. Iniciei a chamada nervosa, e quando ouvi a sua voz preocupada do outro lado da linha consegui ficar ainda mais. 
 - início
Clara - Oi - tentei soar calma
Neymar - Chegou agora? - pareceu ter respirado aliviado
Clara - Não, fui conversar com a minha avó pra tentar colocar as ideias em ordem
Neymar - E conseguiu?
Clara - Sim
Neymar - Que bom - respondeu depois de um silêncio perturbador
Clara - É... - respirei fundo e olhei pra trás, só pra ter certeza que a Duda estava bem entretida nos bichinhos da TV - Apenas me ouve antes que eu perca a coragem, por favor. Não fala nada, pode ser? 
Neymar - Pode 
Clara - Me desculpa. Eu errei, não devia ter te deixado aí do jeito que deixei porque... se foi difícil de aguentar pra mim, imagina pra você. Mas acontece que eu sempre erro e de todas as minhas dúvidas, a única certeza que tenho é que eu te amo e te quero ao meu lado até daqui uns, sei lá, 600 mil anos ou mais - precisei parar de falar pra liberar as primeiras lágrimas que já estava segurando - Lembra quando imaginávamos nosso futuro juntos? Então... sempre soubemos que não seria fácil, mas já foram tantos obstáculos superados e mesmo assim, nunca deixou de ser você, nem por um segundo. Nossas brigas não me fizeram te amar menos, muito menos a saudade ou qualquer outra coisa que tenha ficado entre nós desde que nos conhecemos. Nada disso foi capaz de mudar o que sinto por você... eu ainda continuo te amando, desde do amanhecer até o anoitecer, todos os dias, a toda hora
Neymar - Não fala mais nada - falou bem rápido com a voz tão embargada quanto a minha
Clara - Mas... - ouvi o tu-tu-tu do outro lado e quase não acreditei - É sério? - perguntei incrédula olhando pro celular, lendo "Chamada finalizada", então não caiu... ele desligou - Não acredito nisso - sussurrei olhando pra cima, não queria chorar. Um sentimento desconhecido começou a aflorar em mim, por um lado eu sabia que merecia aquele tratamento, mas um outro lado se recusava a aceitar esse tratamento. Deixei o celular em cima da mesa junto com o óculos, passei as mãos no rosto antes de levantar, dei um beijinho na testa da minha pequena e saí do quarto antes que ela tivesse tempo de prestar atenção em mim. Não queria ter que explicar de novo o que ela já sabia; eu e ele não teríamos mais volta. Fui pra varanda, deitei no sofazinho de palha que só me trazia lembranças boas e chorei. Era inevitável e eu sabia disso... É difícil não chorar quando o amor da sua vida está em suas mãos e você o deixa passar por uma brechinha. Talvez desistir de tudo tenha sido a melhor opção pra ele. Quem sou eu pra julgar? Às vezes o destino dá cada nó nas nossas vidas... O Luck apareceu pra me fazer companhia, sorri um pouco quando ele começou a enxugar minhas lágrimas de um jeito nada convencional (ou melhor, do seu jeito) e depois me dei conta de que o apê estava muito silencioso, não estava ouvindo as famosas gargalhadas que a minha pequena sempre dá quando está assistindo seus desenhos favoritos e isso só podia significar que tinha pego no sono. Deixei meu filhote deitadinho no meu lugar, fui no quarto e confirmei a minha suspeita. Fiquei com uma vontade imensa de deitar ao lado dela, abraçá-la e passar o resto do dia ali, mas a campainha começou a tocar insistentemente, atrapalhando meus planos. Não queria falar com ninguém, muito menos no estado lastimável em que me encontrava, só que quem quer que fosse do outro lado da porta, parecia não ter intenções de desistir - Do céu ao inferno em poucas horas! O que eu fiz pra merecer isso? - perguntei pra mim mesma enquanto desligava a TV, depois saí do quarto - Já vai, não precisa quebrar a campainha não - falei alto o suficiente pra pessoa ouvir, irritada mesmo sem saber quem era. Passei as mãos no rosto, apesar de saber que não ia adiantar nada e abri a porta. Meu mundo parou e voltou a girar em questão de segundos -
Neymar - Preparada pra viver uns, sei lá, 600 mil anos ou mais ao meu lado? - fiquei sem fala, achando que aquilo só podia ser um sonho e minha primeira reação foi inconsciente: fechei os olhos, certa de que quando voltasse a abri-los minha loucura estaria terminada... mas não foi o que aconteceu. Ele continuava ali na minha frente, com um sorriso delirante apesar do seu rosto não negar que andou chorando e muito. Não esperei por mais nada e praticamente me joguei nos seus braços, abraçando-o com todas as minhas forças (que já não eram muitas, graças aos inúmeros acontecimentos do dia, mas o suficiente para mantê-lo junto a mim) - 
Clara - Não me acorda na melhor parte, por favor - pedi desesperada, não querendo soltá-lo de jeito nenhum
Neymar - Não é um sonho - percebi o seu sorriso quando enterrou a cabeça no meu pescoço - Estou aqui, pra você e por você - não achei que fosse possível mas meu coração acelerou ainda mais depois que escutei isso, minhas pernas viraram gelatina e teria caído se não estivesse muito bem segura nos braços dele. Comecei a rir de nervoso e segurei o rosto dele entre as minhas mãos
Clara - Você realmente está aqui. Não estou vendo coisas? - ele riu também, destruindo o que ainda restava de sanidade dentro de mim. As saudades que sentia de vê-lo e ouvi-lo rindo transbordaram em forma de lágrimas e não deixei que dissesse mais nada, apenas beijei-o como se não houvesse amanhã, com uma urgência desconhecida por nós dois, de maneira que nem conseguimos nos entender logo de cara, parecia uma brincadeira louca em que ríamos mais do que qualquer outra coisa e só queríamos nos sentir de novo. E a sensação, por incrível que pareça, não era a mesma de sempre. Era mil vezes melhor e mais maravilhosa. Não queria que acabasse nunca, mas (in)felizmente precisávamos nos desgrudar e respirar. Confesso que quando nos distanciamos, um receio me fez pensar que ele daria as costas e iria embora, mas lembrei da minha avó "O medo é um dos piores inimigos do amor e da felicidade", não podia deixar o medo pensar e falar por mim
Neymar - Oi - murmurou
Clara - Oi - respondi, depois desci o olhar para nossas mãos que permaneciam unidas e ele apertou um pouco a minha
Neymar - Desculpa pela campainha, acho que não quebrou - sorriu de lado, me lembrando que ainda estávamos no hall de entrada. Sorri e puxei-o pra dentro, fechei a porta e fomos até o sofá ainda de mãos dadas. O Luck ficou feliz ao vê-lo, isso já nem era novidade, mas como não recebeu a atenção que queria, voltou pra varanda cabisbaixo - A Duda?
Clara - Dormiu... 
Neymar - Que foi? - levantou o meu queixo pra não me deixar desviar mais o olhar
Clara - Achei que tivesse desistido de tudo
Neymar - Agora, quando desliguei o celular e vim pra cá? - assenti hesitante - Não tem como desistir de você, de tudo que vivemos, dos nossos sonhos e planos. Nem se fosse possível eu iria desistir, você me mostrou a vida como ela é, me fez acreditar no amor novamente, você foi a única a me mostrar como eu sou de verdade. Eu poderia tentar te esquecer mil vezes, e falharia em todas elas
Clara - Mas seu mundo seria mais fácil se eu não voltasse 
Neymar - Talvez. Mas não seria o meu mundo sem você nele - Meu Deus! Será que existe limites para se apaixonar pela mesma pessoa em uma única vida? Se sim, já devo ter ultrapassado todos eles. Sorri, mais emocionada impossível. Só queria beijá-lo, beijá-lo e beijá-lo... E beijei. Dessa vez sem nenhuma pressa ou urgência, com calma, carinho, amor e... saudade, essa em excesso - 
Clara - Me conta tudo - pedi ainda de olhos fechados, com a sua boca a milímetros de distância da minha... se não fosse assim, não sei se teria coragem
Neymar - Tem certeza?
Clara - Sim 
Neymar - Nem sei como começar - abri os olhos e ele me olhava atentamente, com receio, senti a necessidade de fazer alguma coisa
Clara - Eu te ajudo
Neymar - Como? - franziu a testa
Clara - Pergunto apenas o que quero saber 
Neymar - Certo - respirou fundo, e eu também precisei recuperar bastante fôlego
Clara - Como a Bruna conseguiu entrar em contato com você?
Neymar - Através de um amigo do Rio de Janeiro
Clara - Que amigo?
Neymar - O David
Clara - Brazil?
Neymar - Sim
Clara - Ok, continue 
Neymar - Ele disse pra mim que ela queria muito falar comigo, que era caso de vida ou morte, e que pareceu séria quando falou isso pra ele. De início achei que era besteira, por isso nem te contei e não aceitei. Mas ela voltou a procurá-lo, e dessa vez deve ter contado pelo menos metade da história pra ele, porque quando falou comigo de novo, ele disse que o assunto não era só do meu interesse, mas do seu também. Ela usou você para me atrair 
Clara - Meu Deus! 
Neymar - Ela querendo falar sobre algo que envolvia vida ou morte e você, me assustou. Por isso aceitei 
Clara - Quando vocês se encontraram? - meu estômago embrulhou ao fazer essa pergunta, tentei não deixar transparecer muito -
Neymar - Naquele dia.... a entrevista para revista internacional em SP 
Clara - Ela estava aqui?
Neymar - Sim
Clara - Então, no dia anterior... - comecei a ligar os fatos, boquiaberta - Você não estava pensativo demais por causa de uma proposta de um clube de fora e sim porque ia vê-la sem que eu soubesse. Foi isso? 
Neymar - Foi... Meu pai sabe da minha vontade de ficar aqui e enquanto essa vontade permanecer, propostas de clubes de fora nem chegam até mim - claro, como não pensei nisso? O reboliço no estômago piorou, minha visão chegou a ficar um pouco turva mas foi algo passageiro - Você está bem?
Clara - Sim! Eu quero saber, como foi?
Neymar - Clara...
Clara - Por favor
Neymar - Foi horrível. Você não merece ouvir essas coisas
Clara - Eu quero, me conta, por favor
Neymar - Tudo bem - respondeu resignado, e começou a contar como começou o nosso pior pesadelo. 
    Flashback on
» Assunto sério. Caso de vida ou morte. Ana Clara. 
Podia muito bem não ser nada, mas e se ela não estivesse blefando? Que assunto sério envolvendo caso de vida ou morte e a Clara poderia interessar a ela e a mim? A dúvida me corróia, não sabia bem o que pensar. A princípio achei que estivesse apenas querendo chamar atenção. Conseguiu. E por que não desistia de falar comigo, então? Concordei em ir, sem que a Clara soubesse, mas estava disposto a contar pra ela qualquer que fosse o assunto que a Bruna queria resolver comigo. O único porém, é que infelizmente tive que mentir e dizer que daria entrevista para uma revista internacional em SP, quando na verdade nem sairia de Santos. A Bruna estava hospedada no Mendes Plaza. Não me sentia bem fazendo nada disso, mas quanto antes resolvesse essa situação e ouvisse o que a louca queria, melhor. Fui sozinho para evitar alardes, avisei-a quando cheguei ao hotel, e tentei passar despercebido. Não adiantou muito, mas as pessoas que me pararam conseguiram ser bem discretas, graças a Deus. Tudo bem que para todos os efeitos, estava ali para uma entrevista, mas se eu estava sendo discreto, a Bruna podia muito bem não ter sido e aí a merda ia estar feita se descobrissem nós dois no mesmo lugar. Pior, em um hotel. Mas eu sentia que tinha que estar exatamente ali, por mais louco que isso fosse, sentia que naquele momento, era ali que tinha que estar. Abri a mensagem que ela havia respondido e subi para o quarto indicado. 
Bruna - Que bom que você veio - sorriu amplamente quando abriu a porta
Neymar - Você disse que era caso de vida ou morte. Seja breve, por favor - entrei logo antes que mais alguém me visse ali
Bruna - Pra quê a pressa? Senta - não estava com paciência pra discutir, muito menos antes de saber o que ela queria, por isso sentei - Eu não estava brincando. É uma caso de vida ou morte... suponho...
Neymar - Não estou entendendo 
Bruna - Você vai entender - sorriu - Vamos por partes... - sentou ao meu lado - Eu não sou uma pessoa ruim, Júnior
Neymar - Continuo sem entender, não dá pra ser mais direta?
Bruna - Tudo bem. O jogador mais badalado do Brasil tem uma namorada com o avô doente, precisando de um transplante de medula e ainda não encontrou ninguém compatível - semicerrei os olhos - Mas por ser avô da namorada do jogador mais badalado do Brasil... - quase mandei-a calar a boca, quase - Isso repercutiu até no meu local de trabalho, onde campanhas estão sendo feitas agora, incentivando a doação de medula, acredita nisso? - riu, com... raiva? não sei - E nós, atores, claro, não podíamos ficar de fora.... e como disse anteriormente, não sou uma pessoa ruim também
Neymar - Onde é que você quer chegar com isso?
Bruna - Eu doei
Neymar - E daí? 
Bruna - E daí que eu sou compatível, adivinha com quem? - sorriu vitoriosa. Não... eu não estou ouvindo isso - Ah, você não sabe? - fez biquinho - Sim, Júnior, eu sou compatível com o avô da sua queridinha. Isso não é um máximo? Agora eu posso salvar a vida dele - não consegui falar nada enquanto assimilava o que tinha ouvido - Sabe que a Júlia já até tinha comentado comigo sobre isso desse senhor estar doente e tal...? Mas nunca achei que isso fosse me afetar tanto... 
Neymar - Eu não acredito em você - interrompi-a - Onde doou? Cadê o resultado?
Bruna - Calma. Uma pergunta de cada vez. Doei lá no Rio, no HEMORIO, no mesmo dia que vários atores fizeram o mesmo, pode confirmar isso se quiser. E fui informada da compatibilidade, assim como também fui chamada para fazer o transplante. Tenho uma tia que trabalha lá, ela mesma me disse - me entregou um envelope que estava na mesinha de centro - Basta eu dizer sim 
Neymar - Você vai ajudar? Ótimo, mas continuo sem saber por que estou aqui. É para agradecer? Ok, muito obrigado - tentei levantar mas ela me parou
Bruna - Não, quê isso. Ninguém consegue nada sem um esforço, não é verdade? Eu sou nova, e já ouvi do médico que me ligou que não vou ter nenhuma consequência, caso resolva doar. Já tenho 18 anos, portanto, posso 
Neymar - E o que te impede? - perguntei perdendo a pouca paciência que tinha
Bruna - Nada. Mas eu achei que podia ganhar algo em troca. Uma condição, apenas uma...
Neymar - Fala logo 
Bruna - Afaste-se dela
Neymar - Como?
Bruna - Você entendeu. Se afasta da Ana Clara e eu salvo a vida do adorável avôzinho dela
Neymar - Você está se ouvindo? Está raciocinando? Eu não vou fazer isso! Nunca! E você é louca
Bruna - EU NÃO SOU LOUCA - gritou, me dando ainda mais certezas de que era realmente louca
Neymar - Você é. E você também disse que não era uma pessoa ruim... Bom, precisa rever os seus conceitos 
Bruna - Eu não sou uma pessoa ruim, só quero o que é meu por direito
Neymar - E o que é seu por direito?
Bruna - Você tem noção de como ficou a minha imagem quando terminou comigo por causa dessa mulher que apareceu do nada com uma menina dizendo ser sua filha?? 
Neymar - Não coloca a minha filha no meio disso
Bruna - Enfim... - fingiu não me ouvir - É a minha única condição. A vida dele está nas suas mãos
Neymar - EU NÃO GOSTO DE VOCÊ - explodi, depois me dei conta de onde estávamos e tentei me controlar - Quando isso vai entrar na sua cabeça?
Bruna - A gente não precisa ficar juntos, não precisa namorar. Você se separa dela, de verdade, e você sabe que ainda temos alguns amigos em comum portanto eu irei descobrir se vocês ainda estiverem juntos... E de vez em quando nós podemos aparecer... juntos... sei lá... só para as fotos sabe? É o que os fotógrafos e os repórteres gostam, e é o que eu preciso. Eu quero a minha integridade de volta
Neymar - Você já teve isso alguma vez? 
Bruna - Bom, - continuou fingindo não me ouvir - O doador tem que ser mantido em segredo, então ela nunca vai saber que fui quem salvou a vida dele
Neymar - Que eu saiba o paciente também precisa ser mantido em segredo 
Bruna - É verdade. E eu não fazia ideia de que era o avô dela quando fui informada que era compatível com alguém. Mas quis o destino que a minha tia trabalhasse justamente lá. Pedi pra saber quem era porque me interessei pelo caso, já tinha esquecido momentaneamente o motivo que me fez me cadastrar, sério... aí o destino gentilmente me ajudou de novo - sorriu - O nome do avô da sua queridinha já apareceu até nos jornais impressos, na internet então... Foi só juntar uma coisa com a outra 
Neymar - Você não pode estar falando sério - olhei para o envelope que ainda estava nas minhas mãos
Bruna - Eu estou, não brincaria com isso. E acho melhor você pensar rápido, porque o tempo está passando e eu estou ótima mas ele... - balançou a cabeça - Tic tac... tic tac... «
    Flashback off
Clara - Ela não é só louca, é doente também - só consegui falar, com o rosto lavado em lágrimas, uns cinco minutos depois que ele terminou de contar
Neymar - Ela mandou eu correr atrás de você agora
Clara - Ah?
Neymar - Todas as vezes que te disse que não estava namorando, fui sincero. A proposta da Bruna era que aparecêssemos juntos algumas vezes para a mídia achar que sim, estávamos namorando, mas não aconteceu nada entre nós durante esse tempo, nunca, por mais que ela tenha tentado... - revirei os olhos - Na terça-feira ela me mandou uma mensagem com alguns links de sites onde havia fotos dela com outro carinha, não sei quem, nem me interessa. Mas claro, especulando uma traição por parte dela. ''Agora volta lá pra sua queridinha... ops, será que ela ainda vai te querer?'' foi o que me mandou também 
Clara - Então...
Neymar - Para todos os efeitos, ela queria vingança
Clara - Inacreditável 
Neymar - Bom.. eu nunca gostei tanto de ser chamado de... enfim, do que estão me chamando - sorriu e eu abracei-o novamente, era a única coisa que queria naquele momento - Volta pra mim? - sussurrou de repente -
Clara - Voltar?
Neymar - Sim - hesitou um pouco
Clara - Não tem como voltar, desculpa - balancei a cabeça, imaginando o que ele deveria estar pensando - Não tem como, porque nunca deixei de ser sua - seus ombros relaxaram imediatamente, ele sorriu e beijou todo o meu rosto mas quando chegou perto da minha boca, lembrei de algo - Preciso te contar uma coisa antes de tudo
Neymar - O quê?
Clara - Primeiro quero que saiba que... se não quiser me perdoar, tudo bem. Eu vou entender
Neymar - Clara, o que foi?
Clara - Eu... eu beijei o Diego. Eu o beijei. Estava morrendo de raiva de tudo, queria me sentir um pouco vingada sabe? Mesmo que você nem soubesse... Eu.. desculpa. Só faço besteira e... - não sei mais o que ia falar, ele não deixou e deu continuidade aos beijos de onde tinha parado, ou seja, na minha boca. Me beijou (em outras palavras, me deu mais uma dose do meu vício e como uma dependente que estava em abstinência eu só queria mais e mais)
Neymar - Ele te fez sentir metade do que acabou de sentir agora? - sorri, entendendo direitinho onde queria chegar - Eu não fiquei com a Bruna em momento nenhum, mas pra você e metade do mundo não era bem assim que as coisas funcionavam, então eu te entendo
Clara - Você me tratava de um jeito tão indiferente, como se fosse um sacrifício olhar pra mim
Neymar - Era um sacrifício olhar pra você e não poder te dizer nada. Era mais fácil tentar ser frio porque eu sabia que podia vacilar a qualquer momento e não me perdoaria se isso acontecesse. Tinha medo de te contar logo tudo de uma vez e a Bruna descobrir e desistir de doar 
Clara - Mas...
Neymar - Eu pensei diversas vezes em te contar, mas quando chegava na hora de falar, preferia não arriscar. Minha ideia era te contar apenas depois do transplante 
Clara - E os dias pareciam não passar... 
Neymar - Exatamente 
Clara - Eu te falei tanta coisa horrível, me perdoa 
Neymar - Toda vez que você me dizia algo horrível, eu imaginava que era um eu te amo - fiquei emocionada de novo, e as lágrimas foram descendo sem que eu tivesse tempo para (tentar) impedir
Clara - Achei que você tinha voltado a se apaixonar pela atriz. Me senti tão culpada quando você disse que eu não tinha te impedido de ir embora 
Neymar - Só falei aquilo por falar, pra continuar te deixando por fora de tudo que envolvia essa chantagem horrível. Nunca fui apaixonado por ela. Estava muito mais preocupado em fazer o que você me pediu naquele sábado que nós temos que esquecer - pausou e voltou a apertar uma das minhas mãos - “Mas eu desejo, do fundo do meu coração, que você não me esqueça” - citou as minhas palavras e foi o meu fim, não sabia mais de onde vinha tantas lágrimas - Foi a melhor coisa que você podia ter me dito naquele momento e fingir não te amar foi a coisa mais difícil que já fiz - começou a enxugar o meu rosto delicadamente, depois beijou os meus olhos, como se pedisse para que as lágrimas cessassem. Sorri encantada, me perguntando como consegui viver tanto tempo longe disso - Já passou - respiramos aliviados ao mesmo tempo e sorrimos, sem nunca desviar o olhar - Agora, será que eu tenho uma... sei lá, terceira ou quarta chance? - rimos. Eu estava rindo. Nós estávamos rindo. Quase não dava para acreditar
Clara - Minha mãe dizia que amar significa dar chances quando não há mais chances sobrando - ele abriu um sorriso grandioso, capaz de iluminar qualquer dia triste, e teve a reação que eu menos esperava e, talvez, a que eu mais queria naquele momento: me agarrou. No sentido mais literal da palavra. Seus braços abraçaram e apertaram a minha cintura, puxando-me pra ele e anulando assim a miníma distância que existia entre nós, ao mesmo tempo que a sua boca atacou a minha, dando início a mais um beijo profundo e quase interminável (acho que se dependesse apenas de nós, seria mesmo). Estava com tantas saudades dos carinhos que só ele sabe conciliar com um beijo. Estava com tantas saudades do seu beijo! Queria que aquele momento durasse pra sempre, queria que o tempo parasse, e que todas as coisas ruins que aconteceram nas nossas vidas fossem apagadas das nossas memórias. Queria que apenas os aprendizados ficassem, porque lembrar também é doloroso. Não queria lembrar mais do sofrimento que passamos. No entanto, por ironia ou não, após dar fim ao beijo, ele viu a cicatriz na minha mão, tentei esconder sem deixar muito claro que não queria que visse, mas não adiantou nada
Neymar - O que foi isso? - passou o dedo levemente na pequena cicatriz -
Clara - Nada - tentei puxar minha mão, sem sucesso
Neymar - Por que não quer falar?
Clara - Eu se fosse você não perguntaria mais nada
Neymar - É, mas você não sou eu. Quero saber, e quanto mais tentar me enrolar, com mais vontade de saber o que aconteceu vou ficar
Clara - Não, você não quer saber, pode confiar em mim 
Neymar - Você não está jogando limpo 
Clara - Desculpa - me lamentei frustrada
Neymar - Fala 
Clara - Tenho vergonha 
Neymar - Vergonha de mim? 
Clara - Claro que não. Vergonha de mim e do que eu fiz 
Neymar - Não vou te julgar, só quero saber o que aconteceu aqui - apontou pra cicatriz novamente - Sei que foi na época que nos separamos. Vi sua mão enfaixada 
Clara - Soquei o espelho... - me vi sem saída e fui obrigada a falar
Neymar - Você o quê? - ele não estava só surpreso, estava horrorizado, o que me fez ficar com ainda mais vergonha
Clara - É, eu soquei o espelho depois que você terminou comigo e foi embora. Estava desesperada, morrendo de raiva, achava que a culpada de tudo era eu...
Neymar - Se machucou por minha causa? - perguntou retoricamente, nem tive tempo de responder - Por que não bateu em mim? - esperava ouvir qualquer coisa, menos isso
Clara - Não fala besteira, já passou 
Neymar - Ainda dói? - sua voz suavizou ainda mais e por momentos, ele parecia estar falando com a Duda -
Clara - Não 
Neymar - Quantos pontos levou?
Clara - Esquece isso
Neymar - Quantos? - só não revirei os olhos porque percebi que estava realmente preocupado, mesmo que não tivesse mais motivos pra isso -
Clara - Dois - seu polegar continuava fazendo um carinho repetitivo no lugar machucado, quando duas lágrimas dele caíram exatamente ali - Não. Por favor, não! - desvencilhei a minha mão rapidamente e puxei-o pra mim, abraçando-o muito forte - Você não tem culpa de nada. Já passou - repeti as suas palavras, suplicando interiormente para que elas surtissem algum efeito, e acho que deu certo porque mesmo sem desfazer o abraço, ele pegou a minha mão novamente e beijou a cicatriz. Mais palavras pra quê? Precisei buscar forças desconhecidas para não cair no choro de novo, mas antes de falarmos mais alguma coisa ouvimos a chave virando na fechadura e no mesmo instante a Manu entrou cantarolando -
Manu - LOVE NEVER FELT SO GOOD - ela estava tão empolgada que só prestou atenção em nós depois de ter fechado a porta - O que aconteceu? - perguntou com a voz preocupada, enquanto tirava os fones do ouvido. Claro, para nós dois estarmos tão próximos alguma coisa tinha que ter acontecido - pelo menos na cabeça dela. Nos olhamos, e como se tivéssemos pensado a mesma coisa, voltamos a encarar a Manu - que já estava com as mãos na cintura, e uma das sobrancelhas arqueadas, ou seja, bem desconfiada - e balançamos a cabeça em resposta a sua pergunta - É sério? 
Clara - Não aconteceu nada, Manu. Relaxa
Manu - Não é mais disso que estou falando. Quero saber se é sério o que estou vendo ou é alguma pegadinha. Vocês voltaram? - perguntou quase aos berros, tive que conter o riso mas nem tivemos chance de falar - Não precisam responder, essas carinhas e esses olhares já dizem tudo. Mas eu mereço saber de todos os detalhes, porque aturei os dois durante todo esse tempo - dessa vez não teve como segurar e rimos alto, até que a maluca se jogou em cima de nós, rindo também - Nem sei qual foi a última vez que vi vocês rindo assim - se instalou no meio de nós dois e sentou como uma bela intrusa, ainda passou os braços por cima de nossos ombros - Então, quem vai começar a falar? - intercalou seu olhar intimidador entre mim e ele
Neymar - Essa parte eu pulo - soltou delicadamente a minha mão, que ainda estava unida à sua atrás da Manu e levantou - A Clara te conta - piscou pra ela, sorrindo
Manu - Vocês realmente...? - deixou a frase pelo meio, boquiaberta. Acho que até aquele momento ela achou que, de fato era uma pegadinha, só pode. Em resposta ao que sabíamos que ela queria perguntar - de novo -, o Júnior esticou a mão direita pra mim e me fez levantar também, me colocando ao seu lado em um abraço meio lateral
Neymar - Sim! - sorriu olhando pra mim, e eu retribuí de maneira mais acanhada. Percebi que aquilo era mais esquisito do que imaginei (nunca imaginei, aliás), mas normal, levando em conta o tempo que fomos forçados a ficar separados, e tudo que tivemos que enfrentar. Só que eu sabia também que era justamente por causa desses fatores que a esquisitice não ia ser mais um problema pra nós, não precisaríamos nos (re)acostumarmos com nós mesmos, porque nunca chegamos a desacostumar. Talvez precisássemos apenas nos recriar juntos, reinventar a nossa forma de amar, resumindo de uma maneira mais prática: recomeçar... mais uma vez
Manu - Ah, meu Deus! - a voz da Manu me tirou do meu mundo particular, ela estava sorrindo de verdade - Eu não acredito! Quero dizer, acredito, é claro - começou a rir e nós a acompanhamos, mesmo que de uma maneira mais contida. Lógico que tínhamos motivos para sorrir, só que era tudo muito recente
Clara - Tem que ir mesmo? 
Neymar - Infelizmente, sim. Preciso contar pro meu pai essa história toda 
Clara - Como assim, ele não sabe?
Neymar - Só a minha mãe e o Gil sabiam e digamos que ele não ficou muito feliz com essa última envolvendo o meu nome, então preciso enfrentar a fera
Manu - Do que vocês estão falando? Eu ainda estou aqui e definhando de curiosidade, só pra vocês saberem - ele olhou pra ela e soltou um beijo, acompanhado de um sorriso sarcástico e me levou até a porta
Clara - Preciso desejar boa sorte? - mordi o lábio com um pouco de receio, aquilo em partes era culpa minha... ou não?
Neymar - É sempre bom - riu
Clara - Então, boa sorte - sorriu, me fazendo esquecer da minha possível culpa rapidinho - Preciso te dizer uma coisa antes que você vá 
Neymar - Diz
Clara - Na verdade, não sei se devia dizer... Mas está tudo tão confuso na minha cabeça, que a única coisa que me parece certa é te agradecer - ele franziu a testa - Obrigada por ter tido a coragem de ter feito o que fez, não por mim, mas pelo meu avô 
Neymar - Não foi... 
Clara - Escuta, por favor. Só não quero que pense nunca que ficar com você vai ser uma obrigação ou uma forma de ficar menos em dívida pelo que fez, até porque o que te disse antes de sair do teu quarto hoje é a conclusão mais certa que consegui tirar de tudo isso. Eu só achava saber o quanto te amo, mas isso é humanamente impossível - ele sorriu e passou a mão no meu rosto. Eu estava chorando? Juro que não percebi, só queria desabafar ou não íamos conseguir dar um passo sequer adiante
Neymar - Não precisava me dizer tudo isso. Eu sei. Eu sinto - pegou a minha mão e colocou-a em seu coração - Sei onde quer chegar, e me sinto da mesma forma em relação a isso aqui - mostrou a cicatriz - Algumas coisas interferem tanto nas nossas vidas que fica impossível tentar apagar da memória, fazer de conta que nunca existiram ou simplesmente passar por cima, mas podemos superar. E com um pouquinho de paciência, eu tenho certeza que nós vamos superar mais esse obstáculo juntos e você? - só consegui assenti que sim, prendendo o choro de todas as formas possíveis. Eu também tinha certeza que íamos superar qualquer coisa - Também está com aquela sensação do tipo, acabei de te conhecer e não sei como me despedir? - maldita hora que disse isso, porque eu tive vontade de rir mas como estava segurando o choro nem sei direito o que fiz, só sei que foi horrível (algo semelhante a uma hiena rindo, talvez) e fiquei sem saber se ele riu de mim ou do que ele mesmo disse
Clara - Pior que sim - respondi enquanto sentia ele enxugar o meu rosto definitivamente, nesse momento decidi que naquele dia, não ia mais chorar - Como faz pra essa sensação parar? - ele sorriu torto, olhou pra Manu rapidamente, abriu a porta e me puxou pra fora com ele
Manu - Na melhor parte não - ouvimos ela gritar com a porta já encostada e rimos
Neymar - Onde estávamos?
Clara - Acho que você ia me di... - antes mesmo que eu pudesse terminar de falar, a sua boca já estava colada a minha, em um encaixe de lábios perfeito, sorri e ele fez o mesmo, tornando o momento ainda mais delicioso. Levei as mão até o seu cabelo com saudades de bagunçá-lo mais do que ele próprio o bagunça, devolvendo o beijo com a mesma paixão. Pareceu durar uma eternidade, e ele mordiscou meu lábio inferior antes de nos separarmos, ou antes das nossas bocas se separarem, já que permanecemos colados
Neymar - Essa sensação vai passar, mas nada vai ser como era antes também
Clara - Não? - sussurrei sem entender
Neymar - Não - balançou a cabeça - Nada vai ser como antes, porque eu vou te conquistar todos os dias
Clara - Você não existe, não é possível - devo ter corado pelo menos um pouquinho, porque ele riu antes de me dá um outro beijo - Vai logo embora antes que eu te proíba de sair daqui pelos próximos 600 mil anos 
Neymar - Eu não reclamaria 
Clara - Não me dê ideias - ri, e ele me acompanhou mas de repente parou e ficou me olhando com uma expressão séria, porém, quase cômica - Que foi?
Neymar - Ainda estou tentando acreditar que agora posso te beijar quando eu quiser, quantas vezes eu quiser 
Clara - Mas não pode - recuei quando ele tentou avançar e a sua cara foi impagável, um mistura de pânico e confusão - Só a sua vontade conta? - seu sorriso voltou a surgir quando percebeu que eu não estava falando nada sério
Neymar - Como se a sua vontade fosse diferente - coloquei uma das mãos na boca, fingindo estar bastante ofendida
Clara - Que mania chata de ser tão convencido 
Neymar - Que mania chata de achar que consegue resistir - não contive mais o riso, e ele aproveitou isso para roubar um selinho, na verdade, alguns selinhos - Viu? Eu posso 
Clara - Sim, você pode - respondi com um sorriso de orelha a orelha, achando que derreteria a qualquer momento ali mesmo e fui chamar o elevador
Neymar - Me colocando pra fora mesmo? Isso é que eu chamo de saudades 
Clara - É justamente por causa disso que se tu não for agora, eu não vou deixar ir mais, sério - ouvi o seu riso ecoar pelo corredor enquanto se aproximava mais de mim, me deixando entre ele e a parede, mas aí o elevador chegou para atrapalhar suas ideias inocentes (ou não) e eu tive que rir, só que ainda deu tempo de um selinho não tão rápido, nem tão demorado - Amo você - apenas gesticulei
Neymar - Agora mais do que nunca - respondeu da mesma forma
Clara - Essa frase é minha 
Neymar - É nossa - consegui ouvir antes que as portas fechassem completamente. No mesmo momento uma saudade boa tomou conta de mim. Olhei pro teto e suspirei, como se uma tonelada tivesse saído de cima de mim. Voltei pro apê pra enfrentar o inquérito da Manu, tranquei a porta e sentei ao lado dela
Clara - Estava chorando? - franzi a testa, olhando atentamente para o seu rosto
Manu - Não - passou as pontinhas dos dedos debaixo dos olhos, sorrindo
Clara - Claro que estava 
Manu - Emocionada, apenas 
Clara - Por quê?
Manu - Até eu consegui sentir 
Clara - Conseguiu sentir o quê, doida?
Manu - O amor de vocês. É lindo - gargalhei - Insensível - amuou (puro fingimento)
Clara - Estava ouvindo atrás da porta também?
Manu - Quê? Não!
Clara - Que coisa feia 
Manu - Feio é você não ter me contado essa história maluca ainda 
Clara - É no mínimo, maluca mesmo. Isso pra não dizer outra coisa
Manu - Como assim? Vocês se comunicaram por telepatia e decidiram conversar?
Clara - Só você pra levantar essa hipótese, Manu - respondi rindo
Manu - Sei lá, né?! Com vocês dois nada é convencional 
Clara - Vou considerar como um elogio - ironizei e ela sorriu - Mas não, não foi assim. Eu é que descobri tudo 
Manu - Ai, então fala logo 
Clara - Vou te contar tudo com apenas uma frase
Manu - Tá - revirou os olhos impaciente
Clara - A doadora do meu avô foi a Bruna 
Manu - Que Bruna? - perguntou abismada com a mudança de assunto, com certeza ela não pensou que tinha algo a ver com meu avô - Espera, essa Bruna que estava com o... - seus olhos foram ficando maiores a medida que ia juntando as peças, e ela ficou perplexa
Clara - Sim. Ela mesma 
Manu - Se ela foi a doadora, e o Júnior terminou com você pra dias depois aparecer com... Não acredito! Estou imaginando coisas demais, não estou? - apenas neguei com a cabeça - Clara, essa garota não seria capaz de chantagear o Júnior pra doar, seria?
Clara - Ela foi capaz 
Manu - Não acredito. Isso é desumano demais. Como ela pôde?
Clara - Não sei... - encolhi os ombros, querendo que aquele assunto acabasse logo e com medo da minha pequena acordar... ela não precisava saber sobre nada disso
Manu - Mas há algo que não se encaixa nesse quebra-cabeça 
Clara - O quê?
Manu - Ela provavelmente fez isso pra ter o Júnior por perto, então por que apareceu com outro agora? 
Clara - Vingança 
Manu - Quê?
Clara - Ela achou que tinha o direito de fazer alguma coisa pra se vingar, não só dele mas de mim também, já que supostamente, fui eu quem terminou com o namoro dela quando voltei pra cá 
Manu - Que sem vergonha! Se eu pego essa garota eu mando ela de volta pro Sítio do Pica-Pau Amarelo - falou muito séria, eu ficaria com medo se não a conhecesse bem mas a minha primeira reação foi rir
Clara - Ela participou do Sítio?
Manu - Sim. Que droga! Ainda conseguiu manchar minha infância - nem ela conseguiu ficar sem rir depois dessa - Mas sério, que louco isso. Essa história toda só vem reforçar que quando é pra acontecer, até quem tenta atrapalhar, ajuda. Porque a gente não pode deixar de lado o fato dela ter salvado a vida do vô Marcos, e mesmo assim, apesar de todos os dolorosos pesares, você e o Júnior estão juntos de novo 
Clara - É... - concordei resignada com a minha realidade, querendo ou não aquela garota conseguiu destruir e salvar a minha vida quase como em um estalar de dedos
Manu - Vamos parar de falar dela porque não vale a pena. E a Duda?
Clara - Pegou no sono depois que a gente chegou aqui e como amanhã é sábado não fiz questão de acordá-la ainda 
Manu - E vai contar pra ela?
Clara - Depende. Contar o quê?
Manu - Que a mamãe e o papai estão juntos de novo - sorrimos - Ela vai pular tanto de alegria quando ver vocês juntos, já posso até imaginar 
Clara - Eu também. E ela merece essa alegria toda porque querendo ou não sofreu tanto quanto nós - falei, recordando de tudo que nós passamos juntas, e de todas as vezes que ela perguntou se eu e ele ainda voltaríamos e nunca consegui responder sem chorar depois. Mas isso já era um passado que eu não fazia questão nenhuma de lembrar, e não ia ser nada difícil me acostumar com o meu novo presente. Contei pra Manu tudo que ela ainda queria saber pra dar continuidade ao seu interrogatório, mas quando a minha pequena acordou e surgiu na sala, encerramos o assunto, e ela foi tomar banho. Peguei o Luck e desci com a Duda rapidinho pra ir até a cafeteria da esquina porque: 1) a fome estava apertando e 2) não estava com paciência pra esperar jantar ficar pronto, ou sair pra comer fora. Mas comprei apenas pãozinho de queijo, voltamos pro apê e a Manu fez chocolate quente com nutella, receita que viu na TV e queria muito experimentar. Posso dizer que ficou muito bom, e comemos assistindo o filme que tinha subido de maneira extraordinária para o topo dos meus favoritos, Treinando o papai. Podia ver cinquenta vezes no mesmo dia, e em todas as cinquenta ia rir e chorar com as mesmas partes, incrível.  
 clarabarcelar_: “Eu amo tanto os seus sorrisos. Tem aquele que você dá quando vê uma coisa muito engraçada, coisas que na maioria das vezes, sou eu quem faço, e tudo só pra te ver sorrir. Tem também aquele que você dá quando se sente envergonhada, e é a coisa mais linda desse mundo. E tem aquele que você dá com os olhos, aquele em que seus olhos ficam pequenininhos e fazem um formato de um sorriso também. Da pra ver o brilho em seu olhar quando você sorri assim, e como um espelho, esse brilho vem para os meus olhos também. Esse sorriso eu posso afirmar sim que é o mais lindo, mais incrível, mais perfeito, mais encantador sorriso que existe em todo esse universo.”  
Como já estava esperando, porque tinha certeza que minha avó contaria, minha mãe me ligou super preocupada, e à princípio nem me deixou falar direito, estava acima de tudo bastante indignada (era bom que a atriz não trombasse com a Dona Débora pelos próximos vinte anos, no mínimo) mas fiz questão de tranquilizá-la dizendo que estava tudo bem. Tudo muito bem, aliás. Fui sincera, e falei abertamente tudo que estava sentindo, principalmente sobre a felicidade que eu não conhecia a muito tempo e estava começando a preencher as cicatrizes do meu coração. Ela ficou mais aliviada, mas ainda assim me deu os seus conselhos sempre muito bem-vindos. "Não devolva na mesma moeda, deixa isso para o tempo e para as voltas que o mundo dá, apenas mostre que você é superior o suficiente para ignorar o mal que te causaram." Ela não é filha de quem é à toa. Aproveitei pra saber como meu avô lidou ao saber de tudo isso, e minha mãe contou que ele chegou a se culpabilizar sim, mas não por muito tempo porque minha avó o fez entender tudo de uma forma diferente. Graças a Deus! Só na hora de nos despedirmos, percebi que ela estava com o celular no viva voz, já que meu pai e meus avós também deram tchau... acho que fizeram de modo instintivo, nem perceberam. Pelo menos foi um motivo para rirmos e descontrair. Assim que desliguei, ia colocar o celular pra carregar e voltar pra sala pra ficar com as meninas, porém, comecei a receber uma porção de mensagens consecutivas no whatsapp. Fui olhar, e todas eram da Rafa, comecei a rir mesmo sem nem ter lido porque já podia adivinhar do que se tratava. Abri, e as primeiras frases estavam meio desordenadas, difíceis de entender, me perguntei se ela digitou pulando ou fazendo alguma coisa parecida mas as que dava para entender perfeitamente só me fizeram rir ainda mais.
    CLAMAR PORRA
    EU FALEI, NÃO FALEI?
    ENDLESS LOVE
    ME DESCULPA 
    MAS ESTOU EM UM RELACIONAMENTO SÉRIO COM O MEU IRMÃO TAMBÉM
    PORQUE ELE É MARAVILHOSO 
    MENTIRA, ELE É SEU 
    MINHA ETERNA CUNHADINHA  
    QUERO TE VER 
    QUERO VER VOCÊS DOIS JUNTOS DE NOVO
    MORRENDO DE SAUDADES 
    TE AMO, BEIJOS 
Amo essa doida, que chegou a ficar contra o próprio irmão pra ficar a meu favor e nunca desistiu de nós, mesmo com todas as adversidades conspirando contra. Ela é muito especial, uma outra irmã que a vida me deu e tudo que fez por mim, eu com certeza faria por ela também sem pensar duas vezes. Respondi essa e outras mensagens, inclusive uma do Júnior pedindo pra entrar no skype. Fiquei feliz ao perceber que fiz muito bem em não trocar o nome dele... continuava o mesmo desde sempre, porque ele nunca deixou e nunca deixaria de ser o meu amor. Coloquei o celular pra carregar, peguei o meu óculos, o mac e entrei no skype... algo que já fazíamos com alguma frequência, mesmo que não fosse para nos vermos (ou até era, só não precisávamos assumir isso) mas sim pra Duda falar com ele e vice versa. Foi impossível não sorrir quando a sua imagem surgiu na minha tela. 
Clara - E aí, tudo certo?
Neymar - Enfim, tudo certo - suspirou, como se uma carga tivesse saído de cima dele também -
Clara - Não teve puxão de orelha?
Neymar - Talvez - rimos - Mas agora acabou tudo isso, então... de boa - sorri - Sua mãe me ligou
Clara - Ligou? - perguntei nada surpresa -
Neymar - Sim. Seu avô também... Na verdade, eu acho que falei com a sua família toda nas últimas duas horas - gargalhei -
Clara - Sabia que eles iam fazer isso. Dona Glória deve ter feito você chorar - seu sorriso envergonhado me disse que eu estava certa e adorei saber disso - É a especialidade dela - ri da sua expressão cômica e acanhada, por isso preferi ajudá-lo, mudando de assunto - Vou chamar a Duda pra falar contigo
Neymar - Ela já sabe?
Clara - Não... achei que seria melhor ela descobrir sozinha
Neymar - Como?
Clara - Nos vendo juntos. Acho que nós dois merecemos ver a carinha de felicidade dela no momento que souber que aquilo que mais pedia pro Papai do Céu antes dormir agora é realidade novamente
Neymar - Ela... pedia isso?
Clara - Sim - assenti - Cheguei a ouvir algumas vezes, mas nunca toquei no assunto... Deixei que fosse algo só dela
Neymar - Não vou desperdiçar mais nenhum segundo da minha vida quando estiver com vocês
Clara - Eu também. Quero muito que dê certo, dessa vez sem interrupções
Neymar - Vai dar. Basta a gente saber aproveitar cada momento. Não precisamos ficar fazendo planos todos os dias, vamos ver no que dá e onde vamos chegar. Não precisamos sair sempre ou postar mil e uma fotos pra provar nada, vamos nos pertencer sem que ninguém precise saber. E não precisamos brigar por ciúmes sempre também, mas as poucas brigas tem que terminar com um eu te amo, na cama de preferência - eu ri, lutando arduamente para manter a minha palavra e não chorar mais naquele dia, claro que ele riu também - Não precisa ter medo de seguir em frente, nós temos um ao outro e só isso importa
Clara - Você não tem o direito de fazer isso - falei, sei lá depois de quanto tempo tendo aquelas palavras se repetindo na minha cabeça e precisei apertar os olhos e respirar fundo pra conter a emoção -
Neymar - Isso o quê? - abriu um sorriso maravilhoso, achei até que ia flutuar que nem as borboletas que voavam no meu estômago -
Clara - Você sabe o quê, e sabe que faz isso muito bem. É por isso que faz
Neymar - Me perdi, desculpa - gargalhou prazerosamente. Me perdi no seu riso gostoso, e tão lindo de se ouvir, cheio de intervalos... é meio (mentira, é totalmente) impossível ouvi-lo rir e não rir também. Ouvir os passinhos rápidos da minha pequena no corredor e instantes depois ela apareceu na porta do meu quarto com o Luck -
Clara - Vem aqui, filha. Teu pai quer falar contigo - ela chegou perto de mim em tempo recorde, sério, acho que nem deu pra piscar direito. A partir daí fui meio que colocada pra escanteio, mas adoro isso, fiquei apenas assistindo os dois conversando como se estivessem lado a lado, rindo, brincando... o Luck reconheceu a voz do Júnior e eu quase terminei a noite com um macbook danificado, já que ele queria lamber a tela. Foi mais um momento maravilhoso e só nosso, mas que também teve que chegar ao fim, obvio -
Eduarda - Mãe? - me chamou depois de nos despedirmos, quando eu já colocava o mac no lugar -
Clara - Que foi? - perguntei com o celular nas mãos, rindo da minha mãe que estava mais engraçadinha do que nunca me mandando mensagens -
Eduarda - A gente pode ir no jogo do papai amanhã?
Clara - Não é amanhã, amor. É domingo
Eduarda - Depois de amanhã?
Clara - Isso
Eduarda - Então a gente pode ir no jogo do papai depois de amanhã? - ri e deitei ao lado dela e do Luck -
Clara - Vou pensar com muito carinho nisso, tá bom?
Eduarda - Tá - assentiu sorrindo, porém com uma carinha estranha -
Clara - Por quê está tão pensativa assim, mocinha? - apertei levemente o seu narizinho e ela riu -
Eduarda - É que eu tive um sonho hoje, mãe
Clara - Um sonho?
Eduarda - É. Muito bom - sorriu muito amplamente -
Clara - E eu posso saber como foi esse sonho?
Eduarda - Não... - respondeu fazendo uma careta engraçada -
Clara - Por quê não? - aderia a sua técnica de fazer biquinho -
Eduarda - Porque não posso. A professora disse que quando a gente sonha algo bom, não pode contar pra ninguém que aí o sonho se realiza
Clara - Ah, ela disse isso?
Eduarda - Aham. E eu quero muito que esse sonho se realize, desculpa mãe - fez biquinho também, só que a diferença é que o dela funcionava comigo -
Clara - Não precisa se desculpar, meu amor. Eu entendo - trouxe ela pra mais pertinho de mim e a abracei bem forte -
Eduarda - Me ajuda a montar o quebra cabeça da Dora?
Clara - Ajudo - aceitei por saber que tão cedo ela não iria dormir - Vai lá pegar e chama a Manu também - ela pulou da cama e saiu do quarto correndo, o Luck ficou comigo, gostando dos carinhos que estava recebendo, mas foi só as meninas chegarem pra bagunça começar. Demoramos, mas conseguimos montar o quebra cabeça todinho (mais por mérito delas, porque nunca fui muito boa nisso), para felicidade da Duda, e ela por sinal continuava sem um pingo de sono. Quando a Manu foi dormir, ela também foi vestir o pijama e escovar os dentinhos mas voltou com o tablet pra ficar comigo. Troquei de roupa e escovei os dentes também, e peguei alguns livros para tentar me manter acordada com ela o máximo de tempo possível. 
 clarabarcelar_: Acho que a escolha de hoje vai ser com uni duni tê  
Terminei escolhendo o Para Sempre, primeiro livro da série Os Imortais da Alyson Noël. Li quase metade das 261 páginas, enquanto a Duda jogava entretida no seu tablet, mas o sono foi chegando de fininho e antes de adormecer consegui fazer uma análise do meu dia. Cheguei a conclusão que a minha história com o Júnior, a nossa história, seria sempre composta por começo, meio e... recomeço. O fim só existe para quem não sabe recomeçar.



Read: http://imaginedecebolete.blogspot.com.br/
           http://quetodomalvireamorquetodadorvireflor.blogspot.com.br/




Olá, amores! Aos 46 do segundo tempo consegui postar. Estou muito orgulhosa de mim ahahahahaha espero que tenham gostado porque esse capítulo, mais do que todos os outros é totalmente de vocês. Muita gente pediu para que eu o dedicasse, então seria injusto fazer isso pra uma pessoa só. Por isso, dedico esse capítulo aos melhores grupos da face da terra #TeamClamar e CLAMAR MINHA VIDA, e claro, a todas que não desistiram desse casalzinho!
Quanto ao final... a gente fala sobre isso ano que vem, porém, estejam preparadas para qualquer surpresa!   

Respondendo a Gleice: Se tu perguntou das informações sobre o transplante de medula, encontrei tudo depois de fazer inúmeras pesquisas, porque mergulhei de cabeça nesse assunto e aprendi muita coisa boa com ele. Não vejo a hora de colocar tudo que aprendi em prática na minha vida também!  
Obrigada pela paciência de sempre, e pelo ano de 2014 maravilhoso que você me proporcionaram, levo cada comentário comigo guardadinho em um cofre no meu coração. Seja os daqui, do twitter, ou do whatsapp. Que 2015 seja ainda melhor pra todos nós. 
 Amo vocês!  

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Capítulo 62 - “Eu queria te ver bem, mesmo que pra isso, eu precisasse ficar mal”

Os dias que sucederam o episódio do beijo nada tiveram de diferente. Não houve mudanças mas eu meio que já esperava por isso. Minha relação como Júnior continuou a mesma: parcial, educada e no mínimo, respeitosa. Agimos como se nada tivesse acontecido, como se não tivéssemos falado nada de importante no seu quarto. Na verdade, aquele dia parecia ter sido extinto da nossa convivência, ou pelo menos era isso que nós dávamos a entender, já que não tocamos mais nesse assunto. Por quê que eu falaria sobre isso sabendo que ele ainda estava com a outra? Do que adiantaria? Por que me humilharia? Claro que não! Doía, mas não podia dar o braço a torcer, então tinha que manter o meu papel e continuar fingindo que sofria de amnésia também. Só com a Duda conseguíamos ser nós mesmos, sem nenhuma máscara. Como prometi, passamos a ficar mais tempo juntos, os três, ríamos e até brincávamos... mas só com ela e por ela. Meu pai tinha toda razão, acima de tudo tínhamos uma filha, o nosso bem mais preciso, então precisávamos fazer os nossos papéis de pais.
Descarreguei toda minha frustração emocional e amorosa na academia (consegui até emagrecer sem querer) e no trabalho. A ideia que eu e a Gio tivemos sobre o blog foi pra frente, criamos o Bem, amigas e a cada dia o número de visualizações e comentários só crescia no site. 
Também fiz o que, pra Manu, foi uma loucura impensada e eu iria me arrepender depois mas pouco estava me importando porque sabia que isso não iria acontecer. Na parte superior interna do braço esquerdo, tatuei um trecho de uma das minhas músicas prediletas da Jessie “Tears don't mean you're losing”, que tinha um significado importante pra mim, principalmente no estado atual em que me encontrava “Lágrimas não significam que você está perdendo”. E no tornozelo, expressei minha outra paixão com o desenho de uma câmera fotográfica bem pequena e discreta, com “Carpe Diem” escrito nas bordas da lente. Pensei muito bem antes de fazer as duas, por isso sabia que não me arrependeria. Pelo contrário até, estava completamente apaixonada por ambas.
Nesse meio tempo, também recebi um cartão-postal da Marie, a namorada do Lucas que conheci em Paris, e lógico que não havia esquecido-a, só que como tínhamos mantido pouco contato até então, não achei que ela lembrasse de mim. Fiquei muito surpresa e muito feliz, ainda mais por ter reconhecido o seu esforço para escrever a dedicatória em português. Retribuí o carinho e com a grande ajuda da Fatinha, mandei um pra ela também escrito em francês. 
Tirando isso, nada bom o suficiente para ser contado ou lembrado, aconteceu comigo até o mês de março finalmente chegar ao fim, (ao meu ver, demorou mais do que o normal). Quero dizer... isso por que não considero o fato de passar a usar óculos de grau algo... bom. Foi necessário. Graças aos resultados dos últimos exames de rotina que fiz no oftalmo depois de algumas dores de cabeça em sequência. E antes mesmo de saber o motivo pelo médico, minha avó já sabia. No fundo, eu também, afinal ela sempre usou óculos pra ler, meus pais também... a probabilidade dessa herança passar pra mim era grande. Porém, eu tinha apenas um pequena hipermetropia que podia ser corrigida com o óculos de descanso; principalmente para leituras, computadores ou TV. Resumindo, ao utilizá-lo eu criaria o hábito de enxergar sem dores e sem desconforto, quanto mais usasse, melhor e mais rápido podia me livrar dele. Isso não quer dizer que sem o óculos não enxergava mais nada, mas andava me dando bem com ele, estávamos conseguindo conviver em harmonia. Foi uma surpresa e tanto, entretanto, como tudo na minha vida, tive que aprender a lidar. Além do mais, era para o meu bem. 
 Abril mal começou e eu iniciei a minha contagem regressiva interna também, pra manter a esperança lá em cima até a chegada do tão esperado dia 10. E ele chegou! Quando acordei na quinta-feira que mais esperei chegar em toda minha vida (por sorte, dia de folga pra mim, se tivesse que ir trabalhar ficaria com a cabeça no hospital o dia todinho), antes de qualquer outra coisa, fiz uma pequena oração. Primeiro agradecendo a Deus pela oportunidade que estava dando à vida do meu avô, e depois pedindo para que continuasse dando tudo certo. Estava me sentindo quase feliz. Faltavam duas coisas pra me sentir totalmente completa: a primeira era ouvir do médico que tudo já estava bem com meu avô depois do transplante, e a segunda coisa... Bem, a segunda já me fazia falta a um bom tempo, então nem adiantaria falar sobre. 
 A Duda dormiu na minha cama, não a levaria para a escola porque ela pediu pra ir comigo pro hospital e apesar de saber que aquilo não é ambiente pra ela, não consegui dizer não. Podia até ser um pouco egoísta, mas a verdade é que queria a minha filha ao meu lado sim e dane-se a lógica, o que é certo ou o que falariam. Acordei-a também, e depois de me dá um beijo gostoso de bom dia, ela pulou da cama pra ir escolhendo sua roupa. Sorri sozinha, lembrando de quando eu ainda precisava fazer isso por ela. Levantei também, arrumei a cama e não fiz questão de demorar muito olhando pro guarda-roupa, isso era o menos importante. Peguei uma legging preta, uma regata simples e completaria o look com uma sapatilha. Deixei tudo separado e fui ver a Duda, em cima da sua cama já tinha um vestido sem manga estampado, um conjunto blusa e saia nas cores azul e preto e outro de calça e blusa com estampa do snoopy. Ia rir, mas sei lá como, lembrei do Réveillon: quando o pai dela também estava indeciso com a roupa que ia usar. Por quê eles tinham que ser tão parecidos em tudo? 
Eduarda - Não sei o que vestir, mãe - fez biquinho - 
Clara - Posso ajudar? - ri, e ela assentiu rapidamente - Hum, acho que prefiro a calça com a blusa do snoopy porque o ar condicionado do hospital é muito forte, filha - ela olhou para as roupas, depois pra mim de novo e por fim, concordou. Guardou direitinho as outras e entrou no banheiro. Tomou banho, escovou os dentes e eu enxuguei-a, vesti-a e penteei seu cabelo. Ela calçou uma sapatilha também, se perfumou e fomos pra cozinha. O Luck ainda dormia. Enquanto preparava algo pra ela comer, vi um bilhetinho da Manu colado na geladeira. 
 "Sei que já sabe que não posso faltar no trabalho, mas minhas vibrações positivas vão estar no hospital e vou pra lá assim que der. 
                                                                 Beijo, te amo" 
Sorri. Que fofa é a minha amiga! Deixei a Duda tomando seu leite com wafer e fui pro meu quarto. Tomei um banho mega rápido, escovei os dentes, me enxuguei, passei hidratante no corpo e me vesti. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo meio doido, me perfumei e tirei o celular do carregador. 
 clarabarcelar_: “E que seja o que for pra ser, ou melhor, que seja o que for da vontade de Deus.”   
Voltei pra cozinha pra esperar a Duda terminar de comer, respondi algumas mensagens daqueles que desejavam boa sorte ao meu coroa lindo, depois saímos. Descemos, destravei as portas do meu carro, prendi minha pequena na sua cadeira, entrei também e dei partida. A medida que ia chegando perto do hospital, minha calma ia se dissipando, tanto que quando estacionei já estava uma pilha de nervos. Mas não ia deixar isso transparecer, nem podia. Eu e a Duda entramos, peguei o crachá de identificação e subimos para o andar indicado. Meus pais já estavam presentes, e a minha avó... Bom, a Dona Glória estava no hospital desde o início da semana, quando meu avô foi internado para começar a se preparar para o transplante. Claro que a Duda, mesmo sem saber, ajudou bastante a diminuir o nervosismo deles, conversando sem parar; ao contrário do meu, que só aumentava. O relógio de parede da sala da recepção parecia estar parado, sério, estava começando a achar que ele só ia marcar 09h no próximo século. Levantei, comecei a andar de um lado pro outro, quase abrindo um buraco no chão, até ouvir o que menos esperava naquele momento.
Eduarda - Pai! - demorei uns cinco segundos para olhar pra trás. A Duda já estava nos braços do Júnior, e ao lado dele, a Rafa e a Tia Ná sorriam pra mim. Fiquei pasma, por isso nem reagi direito quando as duas me abraçaram mas estava feliz por elas estarem ali. O meu problema era outro e estava na minha frente, olhando diretamente pra mim. Me aproximei um pouco mais dele, só o suficiente para as outras pessoas que também estavam na recepção (e que por sinal, prestavam atenção em nós) não ouvissem -
Clara - Posso falar com você?
Neymar - Agora? - franziu a testa -
Clara - Se possível, claro - ele olhou pra Duda, deu um beijo no rosto dela e a colocou no chão. Ela foi pra perto da Rafa e eu caminhei para perto dos elevadores, tinha menos gente por ali, ele me seguiu -
Neymar - O que aconteceu?
Clara - Eu que pergunto. Está fazendo o quê aqui?
Neymar - Quê?
Clara - Quero saber porque está aqui
Neymar - Precisa mesmo que eu lhe dê um motivo?
Clara - Lógico! Você abandonou o meu avô e hoje se acha no direito de estar aqui?
Neymar - Abandonei? - perguntou muito surpreso -
Clara - Sim! Abandonou
Neymar - Do que você está falando? - revirei os olhos, sem um pingo de paciência -
Clara - Quantas vezes você foi vê-lo depois que terminou comigo?
Neymar - Não muitas, mas sempre que pude - quase caí pra trás -
Clara - Como é que é?
Neymar - Visitei o vô Marcos sim, sempre em horários diferentes do seu, mas visitei - ele chamou o meu avô de? -
Clara - Você está me dizendo que visitava o meu avô? Na casa dos meus pais?
Neymar - Sim
Clara - Não brinca com coisa séria
Neymar - Não estou brincando. Sempre ligava antes pra saber se você estava lá, por isso não nos encontramos nunca
Clara - E por que eu não sabia disso?
Neymar - Porque eu não queria que soubesse
Clara - Por que não?
Neymar - Sei lá. Qual seria sua reação se me visse lá?
Clara - Eles mentiram pra mim? - preferi mudar o rumo da conversa, realmente não sabia qual seria minha reação -
Neymar - Não. Clara, por favor, isso não! - respondeu imediatamente - Ninguém mentiu pra você. Eu nunca pedi para que eles não te dissessem que eu aparecia por lá, inclusive achei que já soubesse. Mas como eu sempre ligava antes pra saber se você estava lá, devem ter achado que era melhor deixar tudo como estava e....
Clara - Tá, tudo bem - interrompi-o, achando que aquilo já estava indo longe de mais - Desculpa. Você não tem que me dá satisfação nenhuma, eu é que estou uma pilha de nervos hoje. O hospital não é meu...
Neymar - Você quer que eu vá embora?
Clara - Não precisa ir por minha causa
Neymar - Não foi isso que eu perguntei
Clara - Faz o que você quiser - dei as costas e voltei pra recepção. Sentei ao lado da Tia Ná e ela ficou segurando a minha mão até o Dr. Marcelo aparecer para avisar que apenas uma pessoa ia poder acompanhar tudo, claro que nem ouve discussão e depois de abraçar todos nós, minha avó foi junto com ele. E aí o nervosismo deu lugar a ansiedade. Durante as duas longas horas seguintes quase ninguém falou nada, até a Duda percebeu que o clima não era bom pra muito papo e ficou quietinha, revesando entre o meu colo e o do pai. Tinha vontade de perguntar como é que estava ocorrendo tudo a toda enfermeira que passava por nós, mas conseguia me manter sentada no último segundo. Não podia parecer uma maluca, certo? Eu sei, só que esperar nunca me pareceu tão angustiante. E creio que não era só eu que estava desse jeito, porque quando o Dr. Marcelo voltou, sozinho, com um semblante cansado e indecifrável, todos nós levantamos no mesmo instante. Acho que ele ficou esperando quem ia falar primeiro, perdi a fala de repente e minha mãe resolveu acabar logo com a nossa aflição -
Débora - Deu tudo certo, Dr? - mais direta impossível. Ele nos olhou com expectativa, e sorriu -
Dr. Marcelo - O paciente não poderia estar melhor - soltei todo o ar que estava preso nos pulmões e as lágrimas começaram a rolar sem piedade, uma coisa de louco, parecia até que alguém tinha aberto uma torneira - A medula é sempre transportada em uma bolsa que contém, além da própria medula, um líquido conservante que poderá causar alguns sintomas como náuseas, tosse seca, vômitos, muita sensação de calor, formigamento, entre outros. Também pode haver alteração da pressão arterial e dos batimentos cardíacos, por isso será necessário que ele permaneça aqui conosco para ser observado de perto. Mas nada anormal, ele está ótimo
Neymar - Mas está tudo bem mesmo? A aplasia já é uma página virada? - a sensação que tive ao ouvir a sua pergunta foi semelhante a um pequeno choque, fiquei muito surpresa. Ele realmente se preocupava com meu avô? -
Dr. Marcelo - Sim e... sim - respondeu cauteloso, tentei sorrir mas a minha torneira ainda estava aberta - Claro que precisamos ir devagar, mas o transplante foi uma maravilha, não há porque temer
Tia Ná - Graças a Deus - abraçou a minha mãe de lado, e elas sorriram emocionadas -
Rafa - E a vó Glória?
Dr. Marcelo - Provavelmente foi trocar de roupa, já deve estar vindo pra cá. O paciente vai ser levado para um quarto apropriado mas visitas hoje não
Murilo - E o transplante, como foi?
Dr. Marcelo - Foi um procedimento relativamente rápido, ele recebeu a medula sadia como se fosse uma transfusão de sangue através do cateter. Agora as células progenitoras transfundidas estão sendo levadas pela corrente sanguínea para se dirigirem até a medula, onde vão se instalar e começar lentamente o processo de recuperação. Em pouco tempo ele estará apto a retomar suas atividades diárias - ouvi um suspiro de alívio quase coletivo -
Débora - E a partir de agora? O que a gente faz? Quais são os cuidados?
Dr. Marcelo - Agora vem a parte mais chata, uma fase um pouco complicada...
Débora - Por quê? - ficou alarmada imediatamente -
Dr. Marcelo - Porque é o período em que as células transplantadas ainda não são capazes de produzir glóbulos brancos, vermelhos e plaquetas em quantidade suficiente, então o paciente estará sujeito a sangramentos, infecções... Mas acalmem-se, complicações após o transplante são frequentes e esperadas, basta apenas ter um acompanhamento adequado para que possamos detectar essas alterações precocemente e tratá-las rapidamente
Débora - O que fazer pra isso não acontecer?
Dr. Marcelo - É essencial reforçar os cuidados com a higiene, limitar contato direto com as pessoas, incluindo beijos, abraços, muita proximidade ao falar, e mais alguns outros cuidados, mas vou entregá-los por escrito a vocês. Não se preocupem
Tia Ná - Quando vamos poder vê-lo?
Dr. Marcelo - Em breve - sorriu levemente - Agora se vocês me dão licença - se afastou, e aí a minha ficha foi caindo aos poucos, conforme o burburinho da recepção passou a chamar mais atenção, e mesmo assim não conseguia parar de chorar. Esperei tanto tempo pra ouvir tudo que o Dr. Marcelo tinha falo que estava com medo de acordar de um sonho maravilhoso. Meus pais me abraçaram ao mesmo tempo, falaram algumas coisas, também ao mesmo tempo, e pra falar bem a verdade, não entendi nadinha mas sabia que era culpa da felicidade extrema. A Tia Ná estava perto do filho e a Rafa parecia estar contando tudo de uma maneira mais fácil pra Duda, porque ela estava quase dando pulinhos de alegria. Consegui finalmente sorri, mas da minha boca não saiu nada. Sentei pra tentar me acalmar, e vi quem sentou ao meu lado depois de alguns minutos, só que preferi fingir que não, estava decidida a ignorá-lo, e teria conseguido isso se ele não tivesse que abrir a boca -
Neymar - E o sol volta a brilhar... - sussurrou e parei até de raciocinar. Minha respiração falhou, meu coração deu um pulo altíssimo e não era só por causa da frase, aliás, ela nem era uma simples frase. Não demorei nada pra entender o que ela significava. Afinal, estávamos ali, exatamente no mesmo lugar onde eu disse algo que nunca ia esquecer "Estamos no meio de uma tempestade horrível, mas o sol vai voltar a brilhar" quando descobrimos que nenhum de nós era compatível com meu avô. Por quê ele tinha que ter dito aquilo? As lembranças daquele dia voltaram com força total, e claro que ficou mais difícil fechar a torneira. O mesmo lugar, dias tão diferentes... Não estava mais chorando de tristeza, lógico que não, era um choro de alívio, e eu segurei por tanto tempo que talvez por isso não tivesse conseguindo parar... Estava tão concentrada em colocar tudo pra fora, que quando percebi já estava dentro de um abraço apertado (apertadíssimo). Quando me dei conta disso fiquei inerte, não consegui me mexer mais e o choro até cessou. De repente, entendi que era isso o que eu mais queria, era esse abraço que o meu corpo mais desejava, era o bater do coração dele pertinho de mim que o meu queria. Aquilo não me parecia certo, mas não fui eu que tomei a iniciativa, a minha consciência estava tranquila, tinha plena noção do que estava fazendo e ela não iria pesar mais tarde. Só que... estava me sentindo tão em paz dentro daquele abraço que as lágrimas voltaram, mas dessa vez eram de saudades... isso, ou tudo isso. O que eu podia/devia fazer, a não ser abraçá-lo de volta e aproveitar para criar mil e uma ilusões? -
Clara - Obrigada por ter ficado - falei antes de ter coragem para soltá-lo, não queria, mas tinha a impressão de que estávamos sendo observados por um estádio lotado. Comprovei isso ao olhar ao redor, mas sei lá por que, nem liguei. Olhei pra ele novamente e vi que os seus olhos também estavam marejados. Era possível reviver tudo de novo? Estava me segurando para não falar o que realmente queria, quando ele me surpreendeu mais uma vez, tirando o meu óculos delicadamente pra poder enxugar as minhas lágrimas. Ok, aquilo também não estava certo e eu queria pedir que parasse, mas ele sempre era mais rápido que eu -
Neymar - Falei que ia terminar tudo bem - sorriu, e eu estava me sentindo tão... idiota, não conseguia desviar o olhar de jeito nenhum - Não chora, não - tentou passar a mão no meu rosto, mas a razão pediu pra eu me afastar ou... Enfim, era melhor pra todos. Me afastei, só o suficiente para que não houvesse mais nenhum tipo de contato entre nós. Fiquei constrangida com a situação que eu também ajudei a criar retribuindo o abraço, e baixei o olhar. Ele levantou, ainda com o meu óculos nas mãos, e saiu do meu campo de visão, fiquei sem entender nada mas não ousei olhar pra ninguém também, permaneci quieta até ele voltar. Me devolveu o óculos, que antes estava um pouco embaçado por causa das lágrimas, impecavelmente limpo. Tentei reprimir um sorriso quando olhei-o novamente -
Clara - Não precisava
Neymar - Não há de que - sorriu de novo. Não sabia o que ele estava querendo mas precisava manter o foco -
Eduarda - Mãe! - surgiu na minha frente, mas não ficou entre nós dois, já que ele estava de pé. Me concentrei apenas nela, meu pequeno foco - É sério que o biso já tá bom? Ele não vai mais precisar ficar aqui, né? A gente pode ir ver ele? - parou um pouco só pra me olhar com mais atenção - Por que tava chorando tanto? Seus olhinhos estão vermelhos
Clara - Filha, calma. Uma pergunta de cada vez - sorri e coloquei o óculos de volta - Sim, o biso já está melhor mas ainda vai precisar ficar aqui por uns dias, eu acho
Eduarda - Por quê? Ele não tá bem?
Clara - Está. Mas é preciso, para o bem dele, amor. E nem vão ser tantos dias assim - sorri - Infelizmente a gente ainda não pode vê-lo, ele está um pouco cansado, entende? - assentiu - E por fim, estava chorando de alegria - ela sorriu - Ufa, acho que consegui responder todas as perguntas - ouvi o pessoal rindo -
Eduarda - Ahh - balançou a cabeça - Igual a todo mundo, né? - olhou para meus pais, a Tia Ná e a Rafa - Menos o papai - riu e ele piscou pra ela -
Clara - É... igual a todo mundo. Nada de chorar de tristeza agora - ela sorriu, igualzinho uma pessoa fez a alguns minutos atrás, e abriu os braços para me abraçar, praticamente se jogou em cima de mim. Ainda bem que tinha conseguido fechar a torneirinha, senão alagaria a recepção. Estava um poço de vulnerabilidade -
Rafa - Todo mundo ficou olhando pra vocês - falou no meu ouvido quando sentou ao meu lado -
Clara - Suspeitei - olhei-a e ela sorriu - Isso não devia ter acontecido, muito menos aqui
Rafa - Por quê?
Clara - Teu irmão é um doido, não sabe o que quer da vida
Rafa - Eu sei o que ele quer
Clara - Não começa, heim?! Hoje nada estraga meu dia
Rafa - Principalmente depois do abraço mais demorado que já vi na vida né? - cerrei os olhos, desejando ter o poder de fuzilar com eles - Tá, já calei - levantou os braços, segurando o riso, preferi desviar o olhar. Ainda bem que ninguém estava prestando atenção nessa conversa louca -
Clara - Por que será que minha avó está demorando tanto?
Glória - Já estou aqui - apareceu com um sorriso enorme, mas os olhinhos inchados de chorar também. Levantei, coloquei a Duda sentada no meu lugar e fui abraçá-la. Por incrível que pareça, nem chorei - Acabou, meu amor. Acabou o sofrimento - me apertou o quanto pôde, rindo e chorando ao mesmo tempo, e só consegui retribuir da mesma forma, muito feliz. Feliz demais! Depois ela nos contou, de uma forma mais simples que a do Dr. Marcelo, como que foi todo o processo e contou também que só poderíamos vê-lo de pertinho no dia seguinte. Queria muito poder abraçá-lo, mas contanto que ele estivesse bem pra eu poder fazer isso depois, dava pra aguentar mais algumas horas. Mesmo sabendo disso, ninguém deu sinais de que queria ir embora, ninguém. Estávamos todos com as emoções tão confusas... deve até ter sido por esse motivo que aconteceu o que não devia ter acontecido a instantes atrás. Claro que foi por isso. E claro que eu não ia dar importância a algo tão... prescindível. Não quando o sol resolveu voltar a brilhar. 
 clarabarcelar_: “Quando a dor ataca, frequentemente fazemos perguntas erradas, como: Por que eu? As perguntas corretas são: O que posso aprender com isso? O que posso fazer a respeito disso? O que posso realizar apesar disso? E eu aprendi. Aprendi que falar pode aliviar minhas dores emocionais. Aprendi que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la. Aprendi que eu posso fazer, em instantes, coisas das quais me arrependerei pelo resto da vida. Aprendi que o que importa não é o que eu tenho na vida, mas quem eu tenho na vida. Aprendi que devo deixar sempre as pessoas que amo com palavras amorosas, pois pode ser a última vez que as vejo. Aprendi que eu posso ir mais longe depois de pensar que não posso mais. Aprendi que ou eu controlo meus atos ou eles me controlarão. Aprendi que há mais dos meus pais em mim do que eu supunha. Aprendi que a maturidade tem mais a ver com os tipos de experiências que eu tive, e o que aprendi com elas, do que com quantos aniversários já celebrei. Aprendi que não importa em quantos pedaços meu coração foi partido, o mundo não para pra que eu o conserte. Apenas aprendi, as coisas que aprendi na vida!”  Muito obrigada a todos aqueles que se sensibilizaram pela situação do meu avô e doaram. Obrigada aqueles que rezaram pra que tudo desse certo também. GRAÇAS A DEUS ELE ESTÁ BEM!!!!!  
      
***
Três semanas depois, meu avô já estava podendo receber visitas em seu lar doce lar. Sua medula já conseguia produzir cada célula do sangue em quantidade suficiente, o que era maravilhoso, porque algumas medulas são chamadas até de preguiçosas por tornarem o processo de recuperação muito lento. Quando o Dr. Marcelo disse isso, só consegui ficar ainda mais orgulhosa do meu coroa e da sua vontade de viver. Por quê uma pessoa tão forte, e tão corajosa escondeu algo tão sério do restante da família por tanto tempo? Ás vezes essa perguntava pairava na minha cabeça, ela tinha lógica, certo? Mas logo afastava esse pensamento, já estava tudo bem, nem tinha porquê ficar remoendo um assunto que causou tanta dor. Precisava olhar pra frente!
    ****     
Meu calendário já marcava dia dois de maio, que louco a rapidez com que o tempo passa, né?! Mais oito dias e o transplante completa um mês! - pensei quando desliguei o despertador. Ontem (quinta) foi feriado, Dia do Trabalho. Passei a manhã com meu avô jogando xadrez (perdi feio) e a tarde com a Duda e o Júnior, já que vínhamos adiando uma ida ao Neo Geo Family a algum tempo e a Duda não nos deixava esquecer isso de jeito nenhum, então um feriado para nós dois veio bem a calhar. Foi um pouco difícil ele passar despercebido em pleno feriado (na verdade, ele não conseguiu e meio que formou-se uma fila pra falar com ele maior do que aquelas para as atrações do parque) e isso deixou a minha pequena cheia de ciúmes. Foi a primeira vez que o ciúmes dela ficou mais visível pra mim, e achei engraçado porque ela ficou com um bico enorme até que ele terminasse de atender todos, ou pelo menos boa parte das crianças, a maioria delas ficava feliz apenas com um sorriso direcionado a elas e voltavam para os brinquedos, então não foi nada muito demorado e cansativo. Nesse momento descobri, sem querer, algo que antes sempre devia passar despercebido por mim: o Júnior fica muito à vontade no meio de crianças, diferente de quando um adulto o aborda pra pedir foto ou autógrafo e ele parece ficar mais tímido do que a pessoa que está pedindo. Cheguei a conclusão, (e guardei-a só pra mim, claro) de que ele ainda devia se perguntar o porquê de alguém querer tirar foto com ele, mas com as crianças era diferente, porque ele se via nelas. O fato é que os papéis estavam invertidos. Sim, eu sei que não devia ter ficado prestando atenção nisso... ou nele, mas foi mais forte que eu, juro. Quando vi já estava sorrindo ao ver a cumplicidade dele com elas. Não deu pra evitar, nunca dá. Porém, foi um sorriso rápido, sumiu assim que alguém perguntou sobre o nosso relacionamento e ele disse que éramos bons amigos. Bons amigos! Nós chamamos atenção sempre que saímos juntos, infelizmente os sites especulam o que querem, e nunca tinham nos perguntado nada mas... Bons amigos? Ok. 
Tirando isso, foi uma tarde... agradável, pelo menos pra Duda porque eu lembrei por diversas vezes de alguns dos momentos que passamos nos parques de Paris e foi impossível não ficar um pouco pra baixo, só tentei não deixar isso muito obvio. Pois é... nunca ia consegui superar nada que aconteceu entre nós... mesmo que fôssemos só bons amigos. 
Enfim, como a pequena foi dormir no seu outro quarto, meu feriado terminou com a Manu. Aceitei o convite dela pra ir na inauguração da casa noturna de um colega que trabalhou com ela até o início do ano, e foi bom, chegamos super tarde mas foi bom. O único problema foi ter disposição para acordar no dia seguinte, afinal, ela poderia dormir até mais tarde já que só trabalharia no turno da tarde, eu não. Ainda tinha uma longa sexta-feira pela frente. Longa mesmo
Levantei morrendo de preguiça, meus olhos ardiam de tanto sono mas o dever me chamava. Fui direto pro chuveiro e tomei um banho de cabeça que me ajudou a acordar de verdade. Um bom banho sempre ajuda. Escovei os dentes, sequei o cabelo como deu, me enrolei na toalha e voltei pro quarto. Passei hidratante no corpo, me vesti, arrumei minha bolsa, coloquei meu óculos dentro do estojinho e joguei dentro dela, preferi não prender o cabelo já que ainda estava meio molhado, me perfumei, peguei o celular e saí. Ia passar direto pelo corredor, mas algo na porta do quarto da Manu me chamou à atenção. Parei pra ler, e comecei a rir logo em seguida, me perguntando quando ela colocou aquilo ali, se ainda entrou no quarto primeiro que eu. Uma baita sacanagem comigo, só porque ia poder dormir mais que eu, que absurdo. Tive que tirar uma foto e ainda rindo, postei. 
 clarabarcelar_: Um amor de amiga, porque começar o dia rindo não tem preço!  @mannubarros
Passei na cozinha, coloquei ração pro meu filhote, tomei um copo de suco e saí sentindo falta de algo: levar a Duda pra escola. Toda vez que ela dorme na casa do pai é a mesma coisa, não que não tenha me acostumado mas é algo instintivo, faz parte da rotina. Desci com alguns vizinhos no elevador, destravei as portas do meu carro, entrei, dei partida, passei no posto de gasolina antes, depois segui pro CT. A manhã foi tranquila, apesar de ter alguns sócios circulando pelas instalações; privilégios do Sócio Rei. Na hora do almoço, estava tão entretida na edição da Santástico que só percebi que os meninos já tinham descido quando a Gio falou.
Giovanna - Você está bem?
Clara - Estou - respondi mesmo sem entender o motivo da pergunta - Por quê?
Giovanna - Não sei. Agora que o feitiço virou contra o feiticeiro, pensei que... - interrompi-a, achando que, ou ela estava doida ou eu estava muito lenta, porque continuava sem entender nada -
Clara - Não estou conseguindo te acompanhar, Gio. Desculpa - ri, e ela riu também antes de mexer um pouco no iPad, depois virou-o pra mim. O riso cessou imediatamente, e aí entendi o porquê do provérbio "o feitiço virou contra o feiticeiro". Ele era o título da matéria de um site qualquer de fofoca que continha fotos da atriz com outro cara. Fiquei chocada, parecia até pegadinha - Quê?
Giovanna - Você não sabia mesmo disso? Acho que é assunto desde o início da semana
Clara - Não - respondi um pouco aérea. Então será que foi por isso que perguntaram pro Júnior sobre nós no Parque? Imaginaram que já estávamos juntos de novo? Será que a Manu sabia e não me disse nada? Meu Deus! Se sim, só tinha que agradecê-la porque isso não tinha nada a ver comigo, não era da minha conta. Preferia até continuar sem saber, mas tinha plena noção de que a Gio não fez por mal - Não, eu não sabia. Procuro ficar longe desse tipo de site, e... ninguém me contou
Giovanna - Ai, desculpa. Eu realmente achei que soubesse
Clara - Não tem problema, Gio. Eu sei disso, e uma hora ia ficar sabendo mesmo - tentei sorrir -
Giovanna - E o que acha disso?
Clara - Sei lá, acho que não tenho uma opinião formada a respeito do assunto, não diz respeito a mim - encolhi os ombros - Poderia dizer apenas que o uso do provérbio é meio equivocado, porque ele não me traiu
Giovanna - Não?
Clara - Não
Giovanna - Acredita mesmo nisso?
Clara - Sim. Falei pra você que ele terminou comigo primeiro, antes dessa aí assumir algo
Giovanna - Sim, ele terminou antes de assumir, mas...
Clara - Gio, por favor
Giovanna - Você sabe que não falo por mal, não é? Muito menos odeio ele ou algo do tipo. É só que essa história toda é muito difícil de entender
Clara - Eu sei, mas prefiro não falar sobre isso
Gio - Tudo bem - ela se desculpou mais uma vez, e eu tentei voltar a me concentrar no que estava fazendo antes, mas sem sucesso. Uma preocupação enorme tomou conta de mim, o Júnior não podia estar envolvido em tantos problemas extra-campo -
Clara - Por quê que eu me importo? - pensei alto, indignada por ter perdido o foco -
Giovanna - Falou comigo?
Clara - Não, desculpa - baixei a cabeça, fechei os olhos, contei de um à dez e voltei ao trabalho. Perdi a fome e não desci pra comer, estava sozinha quando a madrinha me mandou uma mensagem avisando que o Luis Álvaro queria falar comigo e era sério. Pensei que algo bom não era e preferi ir logo. Bati na porta dele tremendo de nervoso, e ouvi a sua permissão para entrar - Quer falar comigo? - perguntei, implorando pra ele dizer não -
Luis Álvaro - Sim, pode sentar - sorriu e eu fiz o que pediu - Soube da melhora do seu avô. Que bom, fico feliz
Clara - Obrigada - sorri também -
Luis Álvaro - Bom, mas te chamei aqui porque durante o recesso natalino a diretoria realizou algumas reuniões e decidimos que para melhoria do Santos Futebol Clube algumas mudanças precisariam ser feitas
Clara - Ah... - fiquei com um vontade louca de começar a roer minhas unhas, morrendo de medo -
Luis Álvaro - Você está incluída nessas mudanças
Clara - Estou? - isso era obvio, mas doeu ouvir da mesma forma -
Luis Álvaro - Sim, e tudo isso que vem acontecendo na sua vida pessoal só nos fez ter mais certeza da nossa decisão - f e r r o u, ferrou bonito, minha carreira está acabada -
Clara - Eu sei... eu sei que tenho vacilado um pouco nos últimos meses. Eu sei que não é legal meu nome estar estampado em sites de fofoca... mas eu amo o que faço, amo estar aqui, amo o Santos - ele sorriu - Estava e ainda devo estar passando por uma avalanche intensa na minha vida pessoal, tentei vestir a máscara profissional nos momentos certos, e fiz de tudo pra não misturar as coisas mas é como já disse, eu amo esse clube e só quero o melhor pra ele também, então o que vocês decidiram, eu aceito - disse tudo isso com uma dor enorme no peito, lutando pra não chorar ali mesmo -
Luis Álvaro - Que ótimo, porque não sei onde encontraríamos uma outra gerente de marketing tão boa quanto você por aí
Clara - Quê? - meu queixo deve ter ido parar no chão -
Luis Álvaro - É isso mesmo que ouviu, e não adianta voltar atrás porque você mesma acabou de dizer que o que nós decidimos, aceitaria - riu -
Clara - Meu Deus! Mas é claro que eu aceito. Só pensei que... - nem consegui completar a frase -
Luis Álvaro - Eu sei o que pensou e devo ter me expressado de forma errada, desculpa. O que estava querendo dizer é que nós já tínhamos decidido te promover desde o recesso, mas surgiram os problemas e resolvemos esperar. Você se mostrou forte o tempo todo, não pediu para faltar um dia sequer, e foi mais do que profissional. Além disso, suas ideias ano passado foram geniais, todas muito bem faladas
Clara - Obrigada! - comecei a rir, e era isso ou ia começar a chorar - Nem sei o que falar
Luis Álvaro - Não precisa falar nada, apenas aceite. E decida se vai querer trocar de sala
Clara - Trocar de sala?
Luis Álvaro - Sim, para uma mais ampla aqui ao lado
Clara - E... se eu quiser ficar na mesma?
Luis Álvaro - Você quer?
Clara - Sim. Minhas ideias não seriam nada sem o pessoal que trabalha comigo
Luis Álvaro - Bem que a Juliana falou - riu - Tudo bem, fique onde preferir. Só preciso que passe aqui antes de ir embora para assinar alguns papéis
Clara - Certo - levantei com um sorriso de orelha a orelha, quase sem acreditar na nova função que exerceria dentro do clube do meu coração. Como uma gerente de marketing não ia fazer nada de muito diferente, continuaria elaborando os projetos de marketing, mas passaria a coordená-los também, além de passar a promover ações de venda e cuidar da imagem do Santos. O que mais queria? Já podia dizer que estava totalmente realizada a nível profissional. Pelo menos isso. Voltei pra sala contando a novidade pra todo mundo que via, estava tão feliz que minha tarde passou até mais rápido do que queria. Meu expediente terminou, e depois de receber um abraço apertado da madrinha, fui até a sala do Luis Álvaro novamente, mas ele ainda estava em reunião. Fiquei na sala de espera trocando mensagens com o Di. 
 clarabarcelar_:  @dilopes 
Quando as pessoas saíram, o Luis Álvaro pediu que eu entrasse, li e assinei meu novo contrato com um sorriso enorme e fui liberada. Desci, fui direto pro estacionamento, e entrei no meu carro pra ir buscar minha pequena, como tinha combinado com o Júnior no dia anterior. Dirigi até o prédio dele, e com minha entrada liberada, estacionei em uma vaga para visitantes. Subi, toquei a campainha e a Joana atendeu, simpática como sempre. Não tinha ninguém na sala, mas ela disse que ia chamar a Duda pra mim. Ia sentar pra esperar, só que ouvi passos descendo a escada, sabia muito bem quem era e comprovei isso quando ele surgiu na minha frente. Estava tão abatido. Será que gostava tanto assim da atriz a ponto de ficar mal pela traição? Fiquei com náuseas só de pensar nisso.
Neymar - Ela já está descendo
Clara - Certo - respondi e passei a admirar minhas unhas, que estavam horríveis por sinal -
Neymar - Como seu avô está?
Clara - Muito bem, obrigada
Neymar - E você?
Clara - Por que o interesse? Acha que pode rolar um flashback comigo agora que a sua namorada te traiu? - me xinguei um pouco internamente, nunca fui de jogar nada na cara de ninguém, acho que a raiva falou mais alto... mas ele não pareceu se abalar muito -
Neymar - Não estava namorando aquela garota
Clara - Agora é fácil falar
Neymar - Eu sempre te disse isso
Clara - E por que será que é tão difícil de acreditar? - ele balançou a cabeça, um pouco transtornado, talvez -
Neymar - Você me... odeia? - perguntou de repente, se aproximando de mim -
Clara - O quê? - fui recuando, até ficarmos distante novamente -
Neymar - Me odeia? - voltou a se aproximar e dessa vez desisti de me afastar, ele parecia tão vulnerável -
Clara - Como é que você tem coragem de me perguntar uma coisa dessa?
Neymar - Seja lá qual for a sua resposta, eu vou entender - estava começando a me assustar, por isso resolvi ser sincera -
Clara - Júnior, eu te desejo nada além de sorrisos, nada além de alegria, paz e felicidade. Independente do que passamos, você merece, assim como eu, toda a felicidade que o mundo tem para te dar. Já faz tempo que desisti do ódio e da raiva, agora eu só quero sentir amor e com você não seria diferente. Já que não pode ser eu, que sua nova namorada te faça tão feliz quanto eu planejei fazer. Ou ex namorada, não sei
Neymar - Não tenho namorada - respondeu um pouco exaltado, me assustei mais ainda -
Clara - Engraçado, antes voce não negava nem afirmava nada. Agora já nega? Por quê? -  ele se aproximou ainda mais, e acho que ia falar mas ouvimos a voz da Duda -
Eduarda - Mãe!! - olhamos ao mesmo tempo e ela sorriu -
Clara - Desce devagar, filha - ele me olhou um pouco frustrado, mas não falou mais nada e se afastou pra ir se despedir dela, abri logo a porta e fiquei esperando porque quanto mais rápido saísse dali, melhor. Toda vez que ficávamos sozinhos em algum cômodo daquela casa algo estranho acontecia, que sina. Queria falar com a Tia, ou com a Rafa, mas isso significaria ficar mais tempo, e podia ligar pra elas depois, então assim que a Duda terminou de se despedir dele, descemos. Respirei aliviada quando já estávamos dentro do carro, pena que o alívio durou por pouco tempo -
Eduarda - Ih, mãe! - fez carinha de espanto, enquanto eu colocava o seu cinto -
Clara - Que foi?
Eduarda - Esqueci a Loly
Clara - Esqueceu a Loly?
Eduarda - É, e ela não pode dormir sozinha. E agora?
Clara - A gente liga pra sua tia depois e pede pra ela dormir com a Loly - sugeri, mesmo sabendo que não ia dar muito certo e já prevendo como que isso ia acabar, ou seja, íamos subir de novo -
Eduarda - Mas a Loly só gosta de dormir comigo - fez beicinho -
Clara - Não acredito nisso, Duda. Vamos mesmo ter que subir de novo?
Eduarda - Por favor, por favorzinho - juntou as duas mãozinhas pra pedir, e eu não podia negar isso a ela por causa de um capricho meu -
Clara - Tá, vamos rapidinho - tirei o seu cinto e ela me abraçou como deu, depois beijou minha bochecha -
Eduarda - Obrigada, mãe. Por isso que a Loly também gosta muito de você - não consegui segurar o riso, e retribuí o beijo no rostinho dela -
Clara - Também adoro a Loly. Vamos lá pegar ela - saímos do carro, travei as portas novamente, deixei as nossas bolsas lá e pegamos o elevador na garagem mesmo. Subimos, toquei a campainha e a Joana atendeu novamente. Riu quando contei o motivo da nossa volta - Onde ela está?
Eduarda - Em cima da cama, eu acho
Clara - Fica aqui com a Joana que eu vou pegar, porque quando você entra naquele quarto esquece do mundo, e aí não vamos sair daqui hoje - ela e a Joana riram - Volto com a Loly rapidinho - pisquei pra ela e subi correndo, com receio de esbarrar com alguém pelo corredor. Fui direto pro quarto da Duda, peguei sua nova e inseparável bonequinha de pano em cima da cama, saí, fechei a porta devagarzinho pra não chamar atenção e comecei a ouvir vozes, uma bem exaltada inclusive, que iam ficando mais altas a medida que eu ia andando de volta pra escada, precisava ir embora logo. Porém, estagnei quando percebi que as vozes vinham do quarto do Júnior e ele parecia estar... chorando, ou desabafando, não sei. Fiquei preocupada imediatamente e isso me fez parar para escutar, mesmo que isso não fosse nada certo -
Neymar - Eu não aguento mais isso, mãe
Tia Ná - Então acaba com essa tortura. Conta a verdade pra ela, agora você pode, deve aliás. Eu no seu lugar já tinha colocado um ponto final nisso a muito tempo
Neymar - Não posso
Tia Ná - É claro que você pode - formou-se um silêncio estranho, já estava pensando em sair dali mas voltei a ouvir a voz dela - Quando nos importamos com alguém, é compreensível que queiramos proteger essa pessoa da dor. Isso funciona muito bem em algumas ocasiões. Mas em outras corremos o risco de carregar nos ombros mais estresse e responsabilidade do que seria justo, você precisa falar
Neymar - Nem sei como - sua voz estava tão desesperada... e eu comecei a ficar também, me perguntando se era de mim que estavam falando -
Tia Ná - Você já fez muito, meu filho. Chegou a hora de correr atrás da sua felicidade de novo, ela ainda está ao alcance das suas mãos
Neymar - Se ela acreditar em mim, acho difícil que me perdoe
Tia Ná - Por que não acreditaria? A Clara te ama, e não tem nada pra ser perdoado. Apenas me escuta, e vai atrás da sua felicidade antes que seja tarde demais - eu era o tema da conversa e não estava participando dela... ok, e isso nem era a coisa mais estranha que estava acontecendo no momento porque para piorar eu não estava conseguindo entender nada. Ia bater na porta quando ele falou novamente e o meu mundo desabou de uma vez só em cima de mim -
Neymar - Como é que eu vou falar que fui chantageado pela Bruna pra salvar vida do avô dela?
Clara - Que brincadeira é essa? - não consegui ficar calada e escondida perante a loucura absurda que ouvi e entrei no quarto mesmo sem ser convidada -
Tia Ná - Clara!
Neymar - Clara... - não sei qual dos dois ficou mais surpreso mas ele, sem dúvidas, ficou ainda mais desesperado do que estava antes, notei isso apenas pelo seu tom de voz -
Clara - Sim, acho que sou eu. Isso... isso que vocês estavam conversando... é brincadeira, não é? Por que estão falando disso? - eles se entreolharam enquanto eu esperava por uma resposta -
Tia Ná - Fica calma, tudo tem uma explicação
Clara - Explicação pra que? É claro que eu ouvi mal - ri, não porque estava achando graça daquela situação, mas porque estava muito nervosa e nem sabia o motivo - A Bruna não ia chantagear você por ser compatível com meu avô, né? - ri novamente, olhando pra ele, que estava muito sério. Meu coração pareceu ter parado por alguns milésimos de segundos, senti uma dor excruciante começar a latejar no peito, o ar faltou - Pelo amor de Deus, me digam que eu ouvi mal - silêncio total, e ninguém olhava pra mim - Isso não pode ser verdade. Pode? - tentei fazer com que falassem. O desespero estava começando a passar pra mim e algo me dizia que era apenas o começo -
Tia Ná - Tua felicidade veio atrás de você, não deixa ela escapar - falou pra ele ao levantar -
Clara - Tia... - estava me sentindo uma criança com medo de agulha, prestes a tomar vacina -
Tia Ná - Ouve - chegou mais perto de mim e segurou a minha mão com força - Apenas ouve o que ele tem pra te dizer e tudo vai fazer sentindo
Clara - Ouvir o que? - ela saiu do quarto sem dizer mais nada e eu estava com tanto medo que nem sei porque não saí também - Ouvir o que, Júnior? Vocês estavam brincando, certo?
Neymar - Não - respondeu depois do que pareceu uma eternidade e levantou também, ficamos frente à frente -
Clara - Não... o que?
Neymar - É tudo verdade
Clara - O que é verdade? - minha voz começou a tremer por antecipação e a Loly caiu da minha mão -
Neymar - A Bruna descobriu que era compatível com seu avô e aceitou ser doadora dele, contanto que eu me separasse de você
Clara - NÃO! - gritei horrorizada e fui parar no mesmo lugar que a Loly, não sei o que aconteceu, minhas pernas perderam completamente as forças - NÃO, NÃO E NÃO! - tentava dizer pra mim mesma que aquilo não era verdade, mas o que ele disse ficava se repetindo na minha cabeça, me fazendo querer gritar e chorar até não ter mais voz -
Neymar - Clara... - sentou no chão, ao meu lado, e tentou falar... tentou -
Clara - NÃO!
Neymar - Por favor, me ouve
Clara - NÃO PODE SER - eu queria ouvi-lo, juro que queria, só não estava conseguindo. "A Bruna descobriu que era compatível com seu avô e aceitou ser doadora dele, contanto que eu me separasse de você" ainda se repetia na minha mente, era só o que conseguia ouvir - ISSO NÃO ESTÁ ACONTECENDO
Neymar - Desculpa - olhei-o e quando percebi que também estava chorando, uma raiva enorme de tudo tomou conta de mim, queria apenas sumir do planeta. Qualquer coisa seria melhor do que vê-lo naquele estado ali, na minha frente e... por minha causa (?) -
Clara - Você podia ter falado comigo, a gente resolvia isso... Eu não acredito!
Neymar - Eu sei que podia, mas não tive coragem... Eu te conheço e...
Clara - E O QUE? - levantei quase arrancando meus cabelos. Por que não percebi nada? Meu Deus, como fui burra! - A gente podia ter resolvido isso juntos. Íamos achar um jeito, uma saída pra que tudo terminasse bem sem que ficássemos longe um do outro. Você viu como fiquei depois que descobri o que eles estavam me escondendo, sabe como que me senti traída... Por que fez isso também?
Neymar - PORQUE EU NÃO PENSEI, ANA CLARA! NÃO PENSEI - gritou, e eu me encolhi com o susto. Nunca o tinha visto tão desesperado e isso só me fez chorar ainda mais - Simplesmente não pensei - continuou mais baixinho - Depois que ela fez a... chantagem e eu fiquei sozinho pensando em tudo, foi como se... Foi como se tivesse revivendo tudo de alguns anos atrás, só que com papéis invertidos
Clara - Como assim? - perguntei com um fio de voz, sem entender onde queria chegar -
Neymar - Me coloquei no seu lugar, como você pediu que eu fizesse várias vezes - fiquei boquiaberta e engoli em seco - A vida do seu avô estava... nas minhas mãos - sua voz falhou, meu coração já estava em pedaços - Por isso me odiei por ter pensando em te odiar a quatro anos atrás, quando você fez o que fez. Você só pensou em mim quando foi embora. Eu só pensei em você agora - levantou também e se aproximou de mim - O que você faria se fosse o meu avô? - não respondi nada porque sim, eu provavelmente faria o mesmo - Eu sei que você também faria o que eu fiz, eu sei - a essa altura já não sabia dizer nem quem estava chorando mais e isso estava me destruindo por dentro - No momento que aceitei... terminar com você, não pensei em mim em nenhum momento porque te ver triste era a pior coisa do mundo e eu só queria te ver sorrir de novo. Sabia que com o seu avô bem, você voltaria a sorrir e... e depois acharia quem te fizesse mais feliz do que eu - balancei a cabeça, não querendo ouvir mais nada - Querendo ou não, isso tudo só veio reforçar que o você tinha feito quando foi embora, foi por amor. Porque fiz a mesma coisa agora. Eu queria te ver bem, mesmo que pra isso, eu precisasse ficar mal
Clara - Eu... não sei o que pensar. Não sei de mais nada. Não estou conseguindo lidar com isso, acho que não vou digerir nunca
Neymar - Você e a Eduarda são os meus maiores bens, e sabendo o quanto vocês o amam... eu não ia conseguir me perdoar nunca se acontecesse alguma coisa com ele, quando eu podia ter feito alguma coisa, por mais que tenha sido algo... louco.
Clara - Isso não pode estar acontecendo. Quando acho que minha vida está finalmente entrando nos eixos essa bomba explode... - ele ia falar algo, mas precisei interrompê-lo - Não, sério. Eu... eu preciso ir pra casa
Neymar - Assim? Desse jeito?
Clara - Por favor, me deixa ir
Neymar - Você não está bem
Clara - Era pra estar?
Neymar - Fica aqui. Vamos conversar
Clara - Não sei se quero ouvir mais alguma coisa, não sei se consigo. Só quero ficar sozinha. Só quero tentar assimilar tudo isso, acreditar...
Neymar - Não acredita em mim?
Clara - O problema não é esse
Neymar - Você confia em mim?
Clara - O problema não é esse...
Neymar - Confia ou não?
Clara - CONFIO A MINHA VIDA A VOCÊ. SERÁ QUE É O SUFICIENTE? - gritei também, com a cabeça prestes a explodir e antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, ele me puxou para um abraço tão forte, mas tão necessário, como se precisássemos dele para recarregar as nossas fracas baterias. Dentro daquele abraço nada parecia real, por isso que eu queria permanecer nele pra sempre. Só que ouvir os seus soluços era quase como se uma faca tivesse atravessando o meu peito. Vê-lo chorar sempre foi a minha ruína, então fui eu que desfiz o abraço para enxugar cada lágrima dele - Claro que acredito em você, nunca duvidei da sua palavra, e não é isso que está em questão. Só que... é muita coisa pra digerir
Neymar - A gente vai conversar, não vai? Você vai me deixar explicar tudo? - assenti, talvez não muito convincente - Tem certeza que não prefere se acalmar primeiro e ir embora depois?
Clara - Não vou me acalmar, mas estou com a Duda. Minha atenção vai ser redobrada, não precisa se preocupar. E... não chora mais - passei a mão no seu rosto, enquanto ele também tentava enxugar as minhas lágrimas, em vão - Já estou me sentindo péssima por não ter percebido antes e ter feito você guardar isso por tanto tempo
Neymar - Não se culpa. Nenhum de nós tem culpa de nada - nem respondi. Ainda estava achando muito surreal as mãos dele no meu rosto - Avisa quando chegar? - assenti mais uma vez, ele me soltou e eu abaixei para pegar a Loly. Tentei enxugar o rosto com as mangas do blazer e dei as costas, ainda meio tonta. Já estava na porta quando ouvi a sua voz de novo e olhei pra trás - Eu te amo - parecia a primeira vez que ouvi isso da boca dele, precisei olhar pro teto, piscando algumas vezes. Se começasse a chorar de novo, como ia parar? -
Clara - Eu te amo. Agora mais do que nunca... - sorri em meio as lágrimas, não só por aquele ser um dos maiores sentimentos que residia em mim, mas por ter ouvido a voz da Dona Glória também “Ah, minha neta... às vezes a gente tem que se afastar das pessoas que amamos, mas nem por isso nosso amor por elas é menor, aliás podemos chegar a amá-las ainda mais”. Quando é que ela não está certa? O destino prega peças inimagináveis em nossas vidas.

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Vocês são incansáveis! Agradeço imensamente por cada palavrinha e por não terem desistido de mim, ou melhor da fic, apesar dela já ser um pedacinho de mim também!!   
PARABÉNS (alguns bem atrasados, eu sei, espero que ainda esteja valendo) pra todas as pessoas que me pediram um capítulo como presente. As Ju's do grupo, Hanna, Lari... enfim, para aquelas que fizeram aniversário nesse último mês que passou e para quem ainda vai fazer nesse mês. Sintam-se todas abraçadas!   

Agora uma curiosidade: A descrição do blog (aquela frase ali debaixo do título), mudei antes de postar o capítulo 54 - início da reviravolta - alguém reparou ou nem? Bem, pelas reações, aposto que muitas não repararam, ou não ligaram muito pro sentido dela hahahahaha . Ao meu ver, eu dei muitas dicas para que vocês não """"odiassem"""" o Júnior. Mas entendo que tenha sido difícil, afinal, pra mim era fácil detectar as pistas, eu sabia de tudo, vocês não. Mas agora já sabem, e eu espero que essa longa espera, e tudo que fiz pra consegui postar o quanto antes tenha valido a pena. 
Fiquem bem e até a próxima!