quarta-feira, 18 de junho de 2014

Capítulo 50 - “Eu devia estar ao seu lado e não me divertindo enquanto você está sofrendo”


 Acordei um pouco inquieta e assustada com algum outro sonho... ou pesadelo, sei lá. Dessa vez nem quis pensar muito. Me desvencilhei dos braços do Júnior, e rapidamente peguei o celular mas não havia nenhuma chamada perdida ou mensagem. Suspirei de alívio e meus ombros relaxaram quase que imediatamente mas meu sono já tinha evaporado e o relógio ainda não marcava nem 05h30. Levantei com cuidado (e com medo de me bater em alguma coisa porque sou ótima nisso), sentei na minha cadeira, acendi o pequeno abaju deixando a luz bem fraquinha e liguei o macbook também. Atualizei meu e-mail e quando já não tinha mais o que fazer ali, desliguei-o, peguei uma das pastas com meus recatados desenhos e comecei a fazer mais, inspirados na cidade do amor e nos dias maravilhosos que passei lá e que claro, nunca vou esquecer. Me distraí, e só parei quando senti o Luck deitar nos meus pés. Nem lembrava mais que ele tinha dormido no quarto também mas sabia que já estava querendo sair. Levantei, abri a porta e ele saiu. Deixei-a destrancada mesmo, guardei as pastas, peguei meu fone de ouvido e sentei na cama encostada na cabeceira. Sabia que não ia voltar a dormir e se deitasse ia terminar acordando o Júnior porque não ia consegui ficar em uma única posição por muito tempo. Ele apenas se mexeu um pouco e deixou seu braço pousar nas minhas pernas. Conectei o fone ao celular, e deixei que as músicas tocassem aleatoriamente em um volume razoável. Os minutos foram passando e já tinha perdido a conta de quantas músicas tinha ouvido mas continuava bem acordada, fitando o teto ou o rosto do Júnior.
 clarabarcelar_: Tem gente que chama de insônia. Eu chamo de pensar em você... ️ 
Ele se mexeu novamente, baixei o olhar e encontrei-o sorrindo. Sorrindo enquanto dorme? Isso pra mim é novidade.
Clara - É bom que você esteja sonhando comigo ou com a sua filha! - falei como se ele estivesse me escutando e ri. Fiquei perambulando por alguns aplicativos, entrei no Chicfeed e no eBay Fashion, depois fui ver os últimos comentários no site da Santástico. Todos eram positivos, com opiniões construtivas e sugestões que salvei mentalmente para testar depois. Deixei o celular de lado, e tentei tirar o braço dele das minhas pernas pra poder levantar e consegui mas ele acordou - Bom dia, dorminhoco!
Neymar - Bom dia - coçou os olhos que nem a Duda e eu ri - Que horas são?
Clara - Hora de acordar pra me fazer companhia - fiz bico -
Neymar - Está acordada a muito tempo? - assenti - Vem aqui - abriu os braços. Deitei e fiquei enroscadinha no seu peito - Por quê?
Clara - O que?
Neymar - Por que acordou tão cedo?
Clara - Não sei. Mas até que foi bom... - ergui a cabeça e olhei-o - Te vi sorrindo
Neymar - Me viu sorrindo? - riu -
Clara - Sim. Enquanto dormia - sorri - E a propósito, lembra com o que estava sonhando?
Neymar - Ah, sim... Lembro - sorriu amplamente -
Clara - Sério?
Neymar - Seríssimo
Clara - Bom, aconselho pensar muito bem antes de me contar
Neymar - Boba! Era com você
Clara - Conta
Neymar - Na verdade era com a gente. Eu estava te pedindo em casamento em Paris
Clara - Não acredito! - ri -
Neymar - Pode acreditar, e se eu estava sorrindo já pode adivinhar qual foi a sua resposta também né? - gargalhei - Agora já sei o que devo fazer - falou com um ar pensativo -
Clara - Ah, que besta! Quer dizer que eu só vou dizer sim se o pedido for em Paris? - ele levantou as mãos segurando o riso como se estivesse dizendo eu não disse isso - Pois sabe onde eu acho que seria perfeito?
Neymar - Lá vem... - fuzilei-o com o olhar - Veneza? Londres? Barcelona? Amsterdã? Buenos Aires? - olhei-o embasbacada - Que foi? Ando fazendo minhas pesquisas - foi impossível segurar o riso de novo -
Clara - Adoraria conhecer esses lugares. Talvez possamos pensar neles para nossa lua de mel
Neymar - Hum... - ergueu uma das sobrancelhas enquanto passava a mão no queixo -
Clara - Não tente me desconcentrar. Para ter lua de mel precisa ter um casamento e antes disso, um pedido. Ou seja, vamos voltar para o assunto inicial - rimos -
Neymar - E qual seria o lugar perfeito na sua opinião?
Clara - Aparecida
Neymar - Está falando sério? - sorriu -
Clara - Sim. Estaria mentindo se dissesse que nunca imaginei isso e... durante o tempo que ficamos separados... também sonhei com algo assim. A praia estava perfeitamente decorada e claro que não entendi como isso aconteceu, mas ela estava linda e vamos combinar que nos nossos sonhos tudo é possível - rimos - Ok que sonhei com isso quando nem estávamos juntos mas o que posso fazer se nunca esqueci?
Neymar - Você nunca esqueceu porque primeiro tinha que compartilhar comigo - eu ri - Mas posso continuar falando do meu sonho?
Clara - O que? Tem mais?
Neymar - É lógico que tem. O casamento aconteceu
Clara - Ai, meu Deus! - riu da minha cara - Por que não disse logo? Conta
Neymar - Só sei que você estava linda e grávida - fiquei boquiaberta e ele falou tão naturalmente que parecia ser o que realmente queria -
Clara - É como eu disse... nos nossos sonhos tudo é possível - gargalhou -
Neymar - É só a gente querer que tudo se torna realidade
Clara - Na verdade, nunca me imaginei casando grávida
Neymar - Agora vai começar a imaginar - rimos. Sim, eu ia começar a imaginar. Ouvimos uma batida quase imperceptível na porta e nos olhamos por já saber quem era - Entra, amor - a porta se abriu lentamente e ela entrou, agarradinha com uma pelúcia que ganhou de uma fã dele e subiu na cama -
Clara - Bom dia, mocinha
Eduarda - Bom dia - respondeu com a voz ainda rouquinha, se inclinou e beijou primeiro o meu rosto depois o dele -
Clara - Que foi? - perguntei porque sabia que ela queria pedir alguma coisa -
Eduarda - A gente pode brincar de bicicleta? - eu e ele rimos. Claro que para ter pulado da cama relativamente cedo tinha que ter um bom motivo - Por favor, por favor, por favor
Neymar - Tudo bem mas só se hoje for aqui no prédio mesmo. Outro dia a gente vai na pracinha, pode ser?
Eduarda - Sim!! - respondeu imediatamente para não deixar dúvidas do quanto queria estrear logo seu novo brinquedo -
Neymar - Ela é bem convincente quando quer - disse assim que ela pulou da cama pra ir tirar o pijama -
Clara - É? - levantei também e fiz um coque doido no cabelo - Se eu te dissesse a quem ela puxou, tu nem ia acreditar - riu. Saí do meu quarto para entrar no dela, separei sua roupinha e deixei sobre a cama que ela desajeitadamente já tinha arrumado. Deixei que ela tomasse banho, escovasse os dentes e se vestisse sozinha, apenas sob a minha supervisão e o Júnior entrou no quarto com uma bermuda qualquer, ainda sem camisa e com o rosto meio molhado. Com certeza ainda não tinha tomado banho. Ela se aproveitou da sua presença para pedir que ele penteasse seu cabelo, o que eu adorei e fiquei para assistir tudo, claro -
Neymar - E aí? - perguntou assim que terminou -
Clara - Hum... está lindo - segurei o riso -
Neymar - Quero a verdade, Ana Clara
Clara - Razoável
Neymar - Ainda não é a verdade. Fala logo
Clara - Ok... as marias chiquinhas estão meio tortinhas. Mas dou nota 10 pelo seu empenho e esforço
Neymar - Você adora me ver nessas situações, não é?
Clara - Amo - rimos - Vou tomar banho pra poder preparar nosso café - levantei e sussurrei pra Dudoca - Tá linda, amor - pisquei e ela riu. Saí do quarto, entrei no meu e a cama também já estava arrumada - Olha isso, já pode até casar - falei comigo mesma e ri. De repente me peguei pensando no assunto que estávamos conversando mais cedo e me imaginei vestida de noiva com uma barriguinha linda de três ou quatro meses e... abanei a cabeça rapidamente afastando meus pensamentos loucos. "Agora vai começar a imaginar." Filho da mãe!! Ri e fui até o guarda roupa, peguei uma roupa fresca, abri as persianas, entrei no banheiro e tomei banho sem molhar o cabelo. Fiquei enrolada na toalha para escovar os dentes, depois me enxuguei, passei hidratante no corpo, me vesti, desfiz o coque e penteei o cabelo em um rabo de cavalo. Saí do banheiro, peguei o celular, coloquei no bolso e fui para cozinha. Sabia que a Manu ainda não estava em casa então preparei o café da manhã apenas para nós três. Quando terminei tudo e arrumei a mesa, fiquei na sala com a Dudoca assistindo "Os Padrinhos Mágicos" enquanto o Júnior tomava banho. Demora quase nada (*ironia mode on). Quando ele finalmente deu o ar da sua graça, tomamos café, limpei a cozinha, fui pegar a coleira e a guia do Luck na área de serviço, ele deixou colocar todo contente por saber que ia sair um pouco e descemos para o estacionamento. O Júnior destrancou a porta-malas do meu carro, pegou a bicicleta e trancou-o novamente. Fomos para área de lazer ao lar livre, onde (tirando o parquinho com escorregadeira e balanço) o espaço é bem amplo, perfeito para as crianças pedalar ou correr. Já havia pais e/ou babás por ali acompanhado algumas crianças e não foi surpresa nenhuma para eles ver o Neymar Júnior ali, até porque os momentos de tietagem foram só no início e agora eles o tratavam como um vizinho normal. Enfim, filmei com o celular mesmo ele ensinando pra ela os primeiros passos para aprender a pedalar e ela caiu uma, duas, três vezes... mas não chorou nem desistiu em momento nenhum, pelo contrário, eu só conseguia vê-la mais disposta a aprender. E o resultado foi positivo porque terminei a filmagem com o abraço gostoso que ela deu nele depois de ter conseguido pedalar mais de um metro sem que ele estivesse segurando-a. Limpei a lágrima boba que insistiu em rolar pelo meu rosto e ela me abraçou também, feliz da vida. Até o Luck ganhou abraço -
Eduarda - Você viu, mãe? Eu consegui! - falava enquanto dava pulos com os bracinhos pra cima - Meu pai falou que eu sou uma campeã
Clara - E você é, boneca - abracei-a novamente e beijei seu rosto suado - Parabéns! - sorri -
Eduarda - Obrigada - agradeceu já correndo para perto do Júnior de novo. Ele olhou pra mim, e piscou com um sorriso lindo também. Eles continuaram treinando enquanto fiquei caminhando por ali mesmo com o Luck. Aproveitei para ligar pra madrinha e matar um pouquinho das saudades e quando voltei para o meu ponto de partida, a Duda já estava no parquinho com uma outra menina. Sentei ao lado do Júnior e ele me deu dois beijinhos, um de leve nos lábios e outro na pontinha do meu nariz, eu ri mas nem tive tempo de falar nada porque meu celular tocou. 
 - início -
Clara - Fala, Manu! - ela berrou algo que eu não entendi, mas parecia estar rindo - O que aconteceu, criatura? Está gritando por que?
Manu - Meus pais chegaram
Clara - Ah, então o motivo é válido - rimos - Já está com eles?
Manu - Não. Estou indo buscá-los no aeroporto com o Gil. Depois que eles conhecerem o apê vamos almoçar juntos, ok?
Clara - Vamos?
Manu - Sim
Clara - Posso falar com o Júnior primeiro?
Manu - Eu já garanti que vocês vão
Clara - Emanuelle!! - gargalhou -
Manu - Te amo, amiga. Até daqui a pouco - desligou sem me deixar falar mais nada -
 - término -
Neymar - Que foi?
Clara - Os pais da Manu chegaram e ela meio que já nos convocou para almoçar com eles. Você topa?
Neymar - Ver o Gil com os sogrinhos pela primeira vez? Topo muito - rimos -
Clara - Acho que vai ser super de boa. A Manu é a cópia da mãe e não é só fisicamente, inclusive deve ser por se parecerem tanto que elas brigam com mais facilidade
Neymar - E o pai?
Clara - Ele também é tranquilo e dos três é o que mais tem juízo - riu - Espero sinceramente que eles sosseguem agora e fiquem por aqui mesmo porque a Manu pode não demonstrar tanto mas sente muita falta deles - olhei pro relógio e por ainda ser 10h30 deixamos que a Duda ficasse brincando mais um pouco e só subimos quando a temperatura já estava ficando meio insuportável.
 clarabarcelar_: “A maravilha da infância é que para elas tudo é maravilha.”  
    ****
XxX - Chegamos! - ouvi uma voz diferente mas familiar e rapidamente soube que era da Fatinha, sim porque se eu ousar chamá-la de tia corro risco de apanhar, de Fátima então... Tudo faz parte do seu jeitinho jovial de ser. Entrei na sala e seus cabelos mais loiros do que nunca foi a primeira coisa que me chamou atenção. Ela sorriu ao me ver, jogou a bolsa no sofá e abriu os braços, fui até ela, abracei-a e beijei sua bochecha - O que é que tem na água de Santos pra vocês estarem assim tão grandes? - rimos do seu exagero -
Manu - Isso porque você ainda não viu a Duda, mãe
Clara - Tio Théo! - com ele ''tio'' é liberado -
Théo - Sim, eu também vim - riu. Abracei-o e ele beijou primeiro a minha testa depois a minha bochecha. Olhei pro Gil e ele parecia sereno e um tanto quanto aliviado, talvez por não ser mais o centro das atenções da Dona Fátima porque ela com certeza já devia ter deixado-o envergonhado ou muito perto disso com seu questionário intimidador à la Fatinha. Mesmo sendo só pressão, e ele deve saber disso também. Ela conquista todo mundo muito fácil e no fundo gosta apenas de se sentir mais jovem do que realmente é, não que seja velha mas a minha mãe também não é e elas são completamente diferentes. Acho que a única coisa que elas devem ter em comum é o amor pelas filhas. O Théo é bem mais pé no chão, apesar de concordar em ficar rodando pelo mundo, conhecendo lugares novos com a esposa... às vezes acho que ele faz isso por amor, porque ela gosta, e admiro isso nele. Pelo menos nunca vi nenhum dos dois infelizes e fazem todo mundo sorrir por onde passam -
Clara - Ué, cadê as malas?
Théo - Deixamos no hotel onde vamos ficar hospedados até acharmos um lugar fixo - olhou pra Manu e ela sorriu amplamente. A Duda e o Júnior entraram na sala também e ela demorou um pouco para reconhecer a Fatinha e o Théo, ficou paradinha por um tempo olhando pra eles e tentando puxar da memória de onde conhecia-os e quando isso aconteceu, abraçou-os sem pestanejar, o que nos levou a rir -
Fatinha - Neymar!! Oh, my God!! - fingiu estar muito espantada depois caiu na risada e nós fizemos o mesmo - Você é muito mais bonito pessoalmente - ele sorriu, e se ela o conhecesse bem saberia que conseguiu deixá-lo constrangido. Eu ri por dentro -
Neymar - Muito obrigado
Fatinha - Oh, não consegui deixar vermelhinho - olhou de relance para o Gil - Mas deixa pra próxima. Pode vim aqui me dá um abraço também - sorriu. Ele se aproximou e ela abraçou-o sem nenhuma cerimônia - Sabe que eu tenho um pedacinho de você comigo, né?
Neymar - Tem? - franziu a testa -
Fatinha - Um pedacinho de você não é bem o termo correto mas eu estava lá em St. Gallen, na Suíça, em um amistoso da Seleção Brasileira contra a Bósnia e no final do jogo pedi a sua camisa e você me deu. Agora, é claro que vou querer um autógrafo nela, com uma dedicatória bem bonitinha também
Manu - Mãe! - riu -
Neymar - Pode deixar - riu -
Théo - Não dá ouvidos pra essa aí não porque é a idade chegando - eles riram e se cumprimentaram -
Fatinha - Eu ouvi, heim?! E estou na flor da idade, só pra vocês saberem - rimos. Eles sentaram, um de cada lado da Dudoca, ainda espantados com o tamanho dela (a propósito, ela já se lembrava muito bem deles), a Manu e o Gil sentaram no mesmo sofá com eles e eu o Júnior juntos em uma das poltronas. Passamos a hora seguinte ouvindo eles falarem um pouco sobre alguns lugares que conheceram e contando sobre o início da nossa estádia em Santos também. Depois a Manu levou-os para um tour pelo apartamento e a Dudoca foi junto com a missão de apresentá-los ao Luck -
Clara - E aí, passou no teste da sogrinha? - não resisti em zoar o Gil -
Neymar - Teste?
Gil - A mulher é muito doida, cara - rimos -
Clara - Vai se acostumando porque a Manu mais velha será bem assim. Mas diz, o que ela aprontou?
Gil - Vindo pra cá ela perguntou pra Manu, na minha frente, se eu realmente sou bom em todos os campos - gargalhei fortemente -
Neymar - E a Manu?
Gil - Enrolou e não respondeu
Neymar - Que sorte heim, parceiro - deu dois tapinhas na perna dele, que também não resistiu e riu com a gente -
Clara - Por que, Júnior? Você sabe como ele é em todos os "campos"? - gesticulei as aspas e o Gil começou a rir descontroladamente -
Neymar - Assim você me ofende, amor - entrou na brincadeira fazendo uma carinha irresistível de ofendido -
Gil - Pergunta direta, resposta direta e eu ainda não ouvi nenhuma, parceiro - falou a última palavra com uma pontinha de ironia e deu dois tapinhas na perna dele também -
Clara - Mas como assim? Existe uma outra resposta que não seja a que eu acho... ou achava ser obvia...?
Gil - Puta merda! Mulher é complicada demais
Clara - Vocês se enrolam no que falam e eu sou complicada?
Gil - A Emanuelle nunca reclamou de mim em nenhum campo, satisfeitos? - lágrimas incontroláveis já rolavam dos meus olhos de tanto que eu ria com a cabeça encostada no ombro do Júnior, que também não sabia como parar de rir - Palhaços, se merecem mesmo!
Clara - Por isso adoro a Fatinha. Mal chegou e mesmo sem saber já me fez chorar de rir - apertei os olhos, respirei fundo e consegui me conter. Quando abri os olhos novamente, olhei pro Gil e sorri, ele retribuiu de maneira irônica - Ok, vamos voltar ao assunto inicial...
Gil - Ótimo - tentou falar sério encarando outro ponto qualquer da sala que não fosse a gente pra não rir também -
Clara - Qual a primeira impressão que teve deles?
Gil - O Théo é bem tranquilo né? Aquele discurso do tipo ''se magoar a minha filha vai se ver comigo" já tinha acontecido via skype - riu - Por isso agora foi bem de boa. E em relação a Fatinha... - olhou pra nós dois sabendo que íamos rir - Acho que só não me surpreendi muito por causa da convivência com a Manu - rimos -
Clara - Ela é assim exagerada na maioria das vezes, fala tudo que vem na cabeça mesmo mas adora fazer todo mundo rir
Gil - É né, percebi - rimos. Eles voltaram e em conjunto decidimos almoçar em casa mesmo, ou seja, eu teria que cozinhar. Deixei todos eles na sala conversando sobre os mais variados assuntos e fui para cozinha. Preparei uma lasanha grande de peito de peru e queijo ao molho branco enquanto Jessie J ressoava por toda cozinha me deixando mais bem humorada do que já estava. Fiz um pavê de chocolate também e depois de colocá-lo na geladeira, arrumei a mesa, dei pause no player de músicas do celular, dando fim ao meu show particular também, deixei-o em cima do balcão mesmo e fui chamá-los para o nosso almoço um tanto quanto tardio. A Fatinha e o Théo elogiaram a minha comida e isso me deixou até orgulhosa de mim mesma porque eles com certeza já tinham comido nos melhores restaurantes do mundo. Algo a mais para acrescentar ao meu bom humor. Comemos a sobremesa na sala, e eles quiseram lavar a louça depois mas como não deixei, a visita ao Esquenta foi adiantada e eles saíram com a Manu e o Gil. Lavei a louça e enquanto o Júnior guardava, peguei meu celular. Meu coração acelerou ao ver sete chamadas perdidas do meu pai. Sete. Sentei na banqueta e pisquei pra ter certeza do que estava vendo -
Neymar - Está se sentindo mal?
Clara - Não - mostrei o celular pra ele - Sete chamadas do meu pai - ele não conseguiu esconder a surpresa também mas tentou não demonstrar -
Neymar - Não fica pensando besteira e retorna logo - ele estava certo, mas porque que eu estava com tanto medo do que poderia ouvir? Se fosse apenas uma chamada talvez nem me deixasse tanto em estado de alerta mas foram... sete. Meu celular vibrou na minha mão e quase deixei-o cair com o susto que levei. Era o meu pai. Olhei pro Júnior e ele me incentivou a atender logo. Foi o que fiz.
 - início -
Murilo - Clara! Finalmente! - ele parecia ansioso, nervoso e falava bem baixinho. Levei um tempo para respondê-lo -
Clara - Oi, pai. Só vi suas ligações agora, desculpa
Murilo - Tudo bem, desculpa eu se te assustei com tantas chamadas... mas precisava falar com você o quanto antes - sua voz continuava no mesmo tom baixo, como se estivesse falando escondido -
Clara - O que aconteceu? - perguntei sem rodeios e dessa vez foi ele quem demorou para responder -
Murilo - A febre do seu avô não passou e nós estamos no hospital - apertei os olhos com força, meu coração acelerou mais um pouco e eu estava começando a ficar com medo do que poderia acontecer caso ele acelerasse mais, principalmente porque senti que meu pai não estava contando tudo -
Clara - Que hospital? - consegui formular uma única pergunta e atraí rapidamente a atenção do Júnior -
Murilo - São Luiz, no Morumbi - fez uma pausa, acho que falou algo com alguém perto dele e eu queria falar também mas não sabia o quê - Vou ter que desligar agora porque a sua mãe não sabe que estou falando com você. E só te liguei porque não acho mais certo o que estamos fazendo... não mais. Não quando estamos no hospital.
Clara - Não estou te entendendo pai, e você está me assustando
Murilo - Eu também nem sei se o que estou fazendo é o certo, mas vem... quando você chegar aqui vai ficar sabendo de tudo
Clara - Como eu acho vocês quando chegar aí? - perguntei já sabendo que ia começar a chorar. "Quando você chegar aqui vai ficar sabendo de tudo." Acho que pela primeira vez não queria saber de nada -
Murilo - Quinto andar. Você vai consegui nos ver assim que chegar na recepção
Clara - Ok
Murilo - Não vem sozinha, por favor. Um beijo - não falei mais nada e depois de quase um minuto a chamada foi encerrada por ele. 
 - término -
Deixei o celular cair no balcão e respirei fundo, engolindo cada lágrima que eu jurava que não ia consegui segurar. Ok que estava assustada e com um pressentimento horrível mas não ia me deixar abater enquanto não soubesse de tudo.
Clara - Preciso ir até lá - levantei rapidamente -
Neymar - Aonde você vai? - parou na minha frente e colocou as mãos no meus ombros tensos que relaxaram instintivamente ao seu toque. Abracei-o sem dizer nada e ele me apertou forte o bastante para deixar claro que estava ali para tudo -
Clara - Lembra quando fui ver meus avós ontem à noite? - assentiu - Percebi que meu avô estava meio quente demais, ou melhor dizendo, ele já estava com febre. E por algum motivo ela não passou... por isso ele está no hospital agora. Eu preciso ir pra lá - não tenho certeza se ele entendeu tudo que eu disse porque falei depressa demais -
Neymar - Que hospital?
Clara - São Luiz
Neymar - Qual unidade?
Clara - A do Morumbi. É longe?
Neymar - Sim. Eu vou com você
Clara - Não, amor. Eu queria muito que você fosse comigo mas não quero a Duda lá sem saber direito o que está acontecendo
Neymar - A gente deixa ela com a minha mãe
Clara - Vai demorar mais. Por favor, fica aqui
Neymar - Você acha que tem condições de dirigir?
Clara - Sim. Mas posso pegar um táxi se você preferir
Neymar - Prefiro
Clara - Tudo bem, vou me arrumar - saí da cozinha e passei pela sala, onde a Duda estava brincando com o tablet, como um furacão. Entrei no quarto, fui direto ao guarda-roupa, e não fiquei escolhendo muito por dois motivos: não estava com paciência, nem queria perder tempo. Peguei a roupa, entrei no banheiro, tomei um banho bem rápido, me enxuguei, me vesti e borrifei um pouco do meu perfume ao mesmo tempo que soltava o cabelo para penteá-lo. Calcei uma sapatilha, peguei minha carteira, joguei em uma bolsa qualquer, peguei-a, saí do quarto e fui na cozinha pegar o celular -
Eduarda - Vai sair, mãe?
Clara - Sim, amor. Mas vou tentar não demorar, tudo bem? - assentiu. Dei um beijinho na sua testa, o Júnior levantou e me acompanhou até a porta. Peguei a minha chave no porta-chaves e virei pra ele -
Neymar - Me avisa quando chegar lá e tenta não pensar em coisas ruins no caminho
Clara - Pode deixar - respondi tentando me convencer de que não ia pensar mesmo. Abri a porta mas ele não soltou a minha mão e me puxou para um beijo que eu não sabia que estava precisando mas que me fez um bem enorme -
Neymar - Eu te amo. Vai pensando nisso, tá? - sorri como eu achava que já não seria possível depois da ligação do meu pai. Segurei o seu rosto entre as minhas mãos e beijei-o novamente -
Clara - Juízo! - ele riu, porque isso era o que sempre dizia quando deixava ele e a Duda sozinhos. Saí, chamei o elevador, desci e ao chegar no térreo, o porteiro me informou que um táxi estava me esperando. Quis subir e abraçá-lo de novo por ser tão maravilhoso comigo, mas sabia que podia fazer isso depois. Saí do prédio, entrei no táxi e falei o meu destino. 1 hora e 15 minutos depois estávamos em frente ao Hospital São Luiz. Paguei e agradeci ao motorista, saí e mandei uma mensagem para o Júnior. 
Obrigada pelo táxi. Acabei de chegar.
Consegui não pensar besteira durante o caminho todo! ️ 
Não esperei por nenhuma resposta, coloquei o celular no silencioso, e tomei coragem para entrar no hospital. Vi um painel com os andares, procurei pelo quinto e quando achei levei outro choque. Unidade de hematologia. O que meu avô estava fazendo nessa unidade? Todos os pensamentos que tentei deixar de lado porque o Júnior pediu voltaram com toda força. Meu humor tinha descido a níveis inatingíveis. Segui as indicações até o elevador, esperei com mais algumas pessoas que ele chegasse, entramos, marquei o quinto andar e esperei. Fechei os olhos e rezei até ele parar onde eu queria. Saí em um corredor longo mas vi a recepção logo a minha frente e sentadas, ao lado do meu pai que estava de pé, minha mãe e minha avó. Ele me viu mas não disse nada e esperou que eu me aproximasse. Ao ouvir meus passos, elas levantaram a cabeça e posso dizer com certeza que esperavam ver qualquer pessoa ali menos eu. A surpresa era muito obvia nas duas.
Débora - Clara... - elas levantaram -
Clara - Eu - sorri falsamente -
Glória - O que você está fazendo aqui, minha filha?
Clara - O mesmo que vocês - meu tom de voz ainda era calmo e isso me surpreendeu - Porque ele está nessa unidade de hematologia? - fui direto ao ponto mas elas não responderam, em vez disso olharam para o meu pai -
Murilo - Sim, fui eu quem a chamei - assumiu -
Glória - Por que você fez isso?
Murilo - Já está mais do que na hora disso acabar
Glória - Essa decisão não tinha que ser sua
Clara - Eu estou aqui - falei e todos se viraram pra mim - Vocês realmente acham que ainda podem mentir pra mim? - perguntei olhando apenas para elas, e minha voz já tinha subido alguns decibéis mas controlei-me ao perceber que não existia só nós quatro na recepção - O que é que está acontecendo? - minha mãe respirou fundo, claramente sem saber o que fazer e sentou com os braços apoiados nos joelhos. Minha avó soluçou e virou de costas pra mim. Aquilo doeu e duas lágrimas grossas rolaram antes que eu pudesse impedir -
Murilo - Clara? - olhei-o e passei as mãos no rosto. Ele estendeu a mão pra mim e a vontade de chorar aumentou - Vem comigo
Clara - Onde?
Murilo - Vem - o que é que eu tinha a perder ali? Nada. Na verdade ele parecia ser o mais disposto a me contar alguma coisa, seja lá o que fosse. Passei pela minha avó, que estava chorando com as mãos no rosto e segurei a mão dele - Desculpem. Mas isso não está certo - foi o que disse antes de me levar dali. Não fiz questão de saber pra onde estávamos indo, mas pegamos o elevador, descemos em silêncio, ele não soltou a minha mão em momento nenhum e chegamos ao refeitório quase vazio. Sentamos frente a frente e ele olhou pra mim tentando achar as palavras certas para começar - Seu avô está doente - apesar disso já ser muito obvio meu estômago embrulhou, e comecei a recear o que ainda tinha por vim - E como você já deve suspeitar, não tem nada a ver com resfriado - completou de uma forma contida, como se estivesse com medo da minha reação (e estava), conseguia ver isso no jeito como me olhava -
Clara - O que ele tem?
Murilo - Aplasia medular - um arrepio percorreu meu corpo e eu não estava com frio. Meu estômago deu mais umas voltas e achei que fosse vomitar ali mesmo. Se não estivesse sentada com certeza ia cair. Ele continuou falando mas eu não estava mais ali, não queria estar ali, não queria ouvir nada. Como é que tudo tinha mudado em tão poucas horas? -
Clara - Aplasia medular é leucemia? - consegui formular uma pergunta coerente em meio a tantos pensamentos embaralhados -
Murilo - Não, são doenças diferentes - suspirou - A leucemia é um tipo de câncer no sangue que impede a produção normal das células sanguíneas, já aplasia medular tem a produção dessas mesmas células reduzida ou simplesmente eliminada
Clara - E o tratamento? Tem cura, certo?
Murilo - Sim. Por enquanto o tratamento está sendo com medicamentos imunossupressores que estimulam a produção de células do sangue pela medula óssea
Clara - Por enquanto?
Murilo - É - baixou o olhar e eu acho que já sabia o motivo, mesmo assim perguntei -
Clara - Por que?
Murilo - Se não der certo, pode ser necessário um transplante - meu coração afundou no peito só de pensar na possibilidade por saber como é difícil achar doadores compatíveis, até mesmo entre familiares -
Clara - Como isso aconteceu?
Murilo - As causas nem sempre são conhecidas mas no caso do seu avô ela pode estar relacionada a algumas infecções que ele teve. A aplasia é uma doença rara, mas muito séria e nós também não sabíamos muita coisa sobre ela
Clara - Como eles descobriram? - minhas perguntas pareciam meio robóticas, eram automáticas. Ele parava de falar e elas saíam -
Murilo - Através de exames de sangue solicitados pelo médico clínico geral, aqueles de rotina. Depois confirmaram com hemograma e uma biópsia
Clara - Ele fez uma... biópsia? - minha voz tremeu -
Murilo - Sim - eu não estava querendo nem conseguindo acreditar em tudo que ouvia -
Clara - Tudo isso debaixo do meu nariz? - ele não teve como me responder, eu suspirei - A infecção que ele teve quando eu estava em Paris pode ter sido a causa? - mudei o tópico da conversa, sabendo que o fato do meu avô ter feito tanta coisa sem que eu soubesse não ia passar em branco -
Murilo - Não. Aquela infecção foi devido à diminuição das defesas do organismo - franzi a testa - Ou seja, ele já estava doente quando vocês viajaram - ouvir isso foi como se tivesse levado um soco nas costas -
Clara - Como é que é?
Murilo - É isso. Mas ele não queria de jeito nenhum que você soubesse, aliás ele não queria que ninguém soubesse
Clara - Eu não entendo... por que isso?
Murilo - Porque não queria que olhassem pra ele com pena - abaixei a cabeça e deixei que as lágrimas fossem pingando na mesa - Quando a sua avó contou pra Débora, ela ficou sem saber o que fazer, desesperada... e foi por isso que depois teve a ideia de chamá-los pra vim pra cá... No início eles não queriam, mas terminaram aceitando
Clara - Espera... - interrompi-o - Quando eu cheguei de viagem e fui até a casa de vocês, o papo de que eles tinham chegado de surpresa era mentira?
Murilo - Sim
Clara - Por que vocês fizeram isso comigo?
Murilo - Ele pediu, Clara. E eu posso te garantir que a Débora foi contra também... mas ele é pai dela
Clara - E daí? - levantei e bati na mesa com tanta força que os funcionários que passavam por ali olharam pra mim assustados -
Murilo - Calma - levantou também e tentou pegar na minha mão de novo mas dessa vez não deixei - Senta
Clara - Não quero
Murilo - Senta - estava tão sem condições de lutar que terminei sentando, minhas mãos tremiam de uma forma terrível. Abaixei a cabeça e deixei que as lágrimas rolassem furiosamente. Percebi que ele se afastou, e depois de um tempo voltou - Bebe - colocou um copo descartável na minha frente -
Clara - Isso não vai me deixar melhor - ele ignorou o que eu disse e aproximou o copo ainda mais de mim -
Murilo - Ele quer te ver - essas palavras tiveram um efeito totalmente contrário do que eu esperava. Não sabia mais se queria vê-lo. Todo eles mentiram pra mim. Todos. Me fizeram pensar que eu estava louca e paranoica em vez de me contar que meu avô está doente. Está errado, está tudo errado. Mas por outro lado, imaginei-o vulnerável e não consegui ignorar o fato de que ele queria me ver. Ergui a cabeça, bebi a água toda em um único gole, levantei e passei as mãos no rosto. Meu pai não tentou pegar na minha mão dessa vez e fiquei aliviada por isso. Pegamos o elevador com mais algumas pessoas e ao chegar na mesma recepção de antes, minha mãe e minha avó não estavam mais. Fiquei parada praticamente no meio daquela sala enorme enquanto ele foi até uma das recepcionistas e quando voltou pediu que o seguisse. Voltamos para o corredor do elevador, e ele abriu uma das muitas portas existentes ali, não olhei o número. Elas pararam de falar ao me ver, meu pai entrou também e fechou a porta. Não sei por quanto tempo ficamos nos olhando. Meu olhar percorreu o quarto todo e meu avô estava com uma intravenosa no braço. Eu nem sabia dizer o que estava sentindo no momento. Era um misto de raiva por ele ter sido tão egoísta a ponto de preferir sofrer sozinho, com vontade de abraçá-lo e não soltar nunca mais. E abracei-o. Sem falar uma única palavra, abracei-o como nunca devo ter abraçado antes. Não tinha pena. Tinha medo -
Marcos - Fica calma. Estou bem agora
Clara - Por que vocês fizeram isso comigo? - era uma das muitas perguntas que pairavam na minha cabeça sem uma resposta boa o suficiente para fazê-la ir embora. Ninguém falou nada, então continuei o meu desabafo - Por isso te achei mais magro e pálido assim que te vi, vô. Por isso a infecção. Por isso o tal resfriado, a febre, o remédio... Como vocês tiveram coragem de me esconder isso?
Marcos - Clara, eu é que não queria. A culpa é toda minha
Clara - E do que adiantou vô? Eu estou aqui agora, e me sentindo traída por todos vocês, quando já podíamos estar enfrentando isso juntos a muito mais tempo
Glória - Seu avô só estava pensando... no melhor pra você
Clara - No melhor pra MIM? Por favor, pensando no melhor pra mim? Parece que a cada minuto eu escuto algo mais absurdo
Glória - Nós amamos você
Clara - Eu também amo vocês e é por isso que estou assim. Vocês por acaso se colocaram no meu lugar em algum momento? Se eu estivesse doente e escolhesse não contar pra ninguém, qual seria a reação de vocês ao descobrirem?
Marcos - É diferente
Clara - É diferente porque se eu amo vocês da mesma forma? - passei as mãos no rosto já completamente molhado de novo - Vocês iam sentir o que eu estou sentindo agora. E eu posso garantir que dói, dói muito saber que enquanto eu estava me divertindo na França, meu avô estava aqui passando o maior sufoco - minha mãe e minha avó estavam chorando tanto quanto eu - "Fica tranquila, confia em mim", "É paranoia, sério.", lembram disso? - elas olharam pra mim sabendo que eu tinha citado falas delas - Eu confiei em você, vó
Glória - Desculpa, meu amor - ela balançou a cabeça sem consegui olhar pra mim -
Clara - Eu achava que estava enlouquecendo de verdade, mãe. Pensando besteiras da hora que acordava até ir dormir
Débora - Eu não podia, filha... - quase não ouvi a sua voz, que estava abafada na camisa do meu pai. Ela estava abraçada a ele -
Marcos - Clara, elas só fizeram o que eu pedi. Não fica com raiva
Clara - Eu devia estar ao seu lado e não me divertindo enquanto você está sofrendo. Isso é ridículo - estava me sentindo sufocada ali, não sei se pelas palavras ou pela vontade de chorar mas precisava sair - E vou estar do seu lado sempre, vô, pode ter certeza. Mas vocês foram desleais comigo e eu não sei se vou consegui esquecer isso - saí do quarto sem dizer ou ouvir mais nada. Talvez eu é que estivesse sendo egoísta no momento mas... dane-se. Sempre me coloco no lugar das pessoas antes de fazer qualquer coisa para evitar machucá-las, porque é tão difícil fazer o mesmo comigo? Não entendo. É errado querer o bem de quem eu amo? Merda. Merda. Merda! Estava com raiva até de mim por não ter percebido nada. Tá certo que foi ele quem pediu, mas ninguém devia ter concordado porque eu nunca concordaria. Ele poderia até me odiar inicialmente mas ia passar. Nunca passei por nada parecido mas em qualquer situação o apoio familiar é tudo. Minha cabeça estava girando, me deixando tontinha. Pressionei o botão do elevador repetidas vezes, impaciente e querendo sair dali logo -
Débora - Filha, não sai assim - ouvi a sua voz mas nem virei - Você veio sozinha?
Clara - Sim
Débora - Eu te levo
Clara - Não, obrigada - senti ela se aproximar mais e virei o rosto ao vê-la do meu lado -
Débora - Não me trata assim
Clara - Eu posso estar sendo uma idiota, mãe. E não me importo se estiver porque sei que o que estou sentindo não chega nem aos pés do que o que meu avô está sentindo. Nem dá pra comparar. Mas o fato é que esse é o meu jeito, estou me sentindo traída sim, e não posso fazer nada pra mudar isso
Débora - Eu sei, e você pode não acreditar mas me coloquei no seu lugar diversas vezes
Clara - E em nenhuma delas se dignou a me contar. Preferiu sofrer sozinha?
Débora - Você não entende? - começou a chorar novamente e eu sabia que não ia aguentar ver isso. A dor deles parecia passar pra mim triplicada, e isso é o que mais doía, mesmo que eu não dissesse em voz alta -
Clara - Não, não entendo - pressionei o botão do elevador de novo -
Débora - Me deixa te levar, por favor
Clara - Me deixa ficar sozinha, por favor - olhei-a e ela percebeu que dessa vez quem não ia mudar de ideia era eu -
Débora - Você veio dirigindo?
Clara - Não, de táxi
Débora - Tudo bem, vai com cuidado - me encaminhei para escada e quando comecei a descer os primeiros degraus ouvi o blip anunciando a chegada do elevador. Mas continuei. Quando cheguei ao térreo devia estar com uma cara horrível porque todos olharam pra mim, uma enfermeira perguntou se eu estava bem e só consegui assentir. Saí do hospital e fiquei vagando por aquelas ruas quase desconhecidas pra mim, sem saber pra que lado seguir. Na verdade queria apenas encontrar um buraco para me refugir e só sair quando percebesse que tudo não tinha passado de um pesadelo terrível. Desde sempre aprendi que não se resolve nada fugindo mas por parecer a opção mais fácil, parecia a mais certa também e foi a primeira coisa que passou pela minha mente. A raiva diminuía a cada passo que dava mas em compensação já nem sabia o que estava sentindo. Era um medo angustiante tão grande que cheguei a me perguntar se não seria melhor não saber de nada e viver com a minha paranoia... Não! Afastei meus pensamentos nada coerentes, peguei um táxi e quando o motorista perguntou qual era o destino, não soube responder logo de cara e demorei mais do que queria. Precisava ficar sozinha pra tentar digerir a montanha russa de emoções que tinha se instalado dentro de mim em menos de cinco horas. E depois do que me pareceu longos minutos já sabia qual era o lugar perfeito pra isso... Quando cheguei, a praia estava pouco movimentada, havia um casal correndo na areia, mais umas quatro pessoas se aventurando no mar meio agitado e só. Nenhum quiosque estava aberto e imaginei que todos deviam estar no clima do Natal ainda. Ou nem todos. Não tirei a sapatilha, desci da calçada e sentei na areia. Peguei o celular, ignorei as chamadas perdidas sem olhar de quem eram, desliguei-o e o joguei na bolsa de novo. Escolhi o horizonte como um ponto fixo e fiquei olhando pra ele como se estivesse anestesiada. Meus pensamentos pareciam estar congelados e as lágrimas tinham secado. Ainda estava difícil acreditar que um turbilhão de coisas vinha acontecendo debaixo dos meus olhos e eu não conseguia ver nada. E se fosse necessário um transplante? Meu avô ia deixar que me contassem ou... Não, Ana Clara! Isso não vai ser necessário e você também ja sabe de tudo. Não pense nessa hipótese! Fiquei assistindo o início do pôr do sol e com o passar do tempo comecei a ficar com frio mas não queria me mexer e quando o vento passou por mim, senti o meu perfume predileto no ar e não precisei virar pra saber que a única pessoa que queria ali comigo estava atrás de mim. Conhecendo-o bem sabia que ele ainda não estava ao meu lado por achar que eu queria distância. E eu realmente queria... até sentir a sua presença e perceber que o seu abraço era mais do que uma necessidade naquele momento. Provavelmente a anestesia ia passar e as lágrimas iam voltar mas ouvindo o meu lado racional sabia que era disso que estava precisando e quanto mais rápido conseguisse colocar tudo pra fora, mais rápido iria me recompor para ajudar meu avô. Era nele que tinha que pensar, apenas nele. Levantei, me virei e como se fosse o meu ímã, ele se aproximou de mim no mesmo segundo, me abraçando confortavelmente. Eu quebrei instantaneamente, as lágrimas não tinham cessado coisa nenhuma, estavam apenas esperando que eu ficasse ainda mais vulnerável e voltaram com toda a força. Queria parar de chorar e agradecê-lo por estar ali por mim e pra mim, mas isso parecia impossível, minha voz tremia, meu corpo perdeu completamente as forças e eu cairia se não estivéssemos abraçados. Ele gentilmente pediu para que sentássemos e eu obedeci, ficando no seu colo, com a cabeça enterrada no seu pescoço ensopando a sua camisa até enfim, ter forças para encará-lo. Ele começou a enxugar o meu rosto, meus olhos se fecharam ao sentir seu toque e ao terminar ele beijou as minhas pálpebras. Não sei o significado de um beijo nos olhos, nem se existe um, mas me pareceu algo tão íntimo e profundo que eu quis retribuir e sorrir mas acho que não consegui -
Clara - Quem foi que te ligou?
Neymar - A sua mãe. Ela já me contou tudo, não precisa falar nada - assenti - Está melhor?
Clara - Não
Neymar - O que é que você está sentindo agora?
Clara - Agora... - pensei por um momento - Agora estou me sentindo muito mal por ter saído do hospital do jeito que sai e talvez por ter deixado eles se sentirem pior do que já estavam. Eu devia ter ficado, sabe? Mas olhava pra eles e parecia ouvir cada mentirinha que me contaram para esconder algo tão sério, depois olhava para meu avô e o via ali, em uma cama de hospital, tão abatido, tão debilitado... Era muita coisa pra processar, eu queria mas se ficasse ia terminar em uma cama de hospital também
Neymar - Ei, não fala isso - me apertou um pouco mais - Eu entendo que você precisava desse tempo e o do seu espaço. E a sua mãe também entende
Clara - Entende?
Neymar - Sim. Ela disse que do jeito que você estava quando saiu de lá, era bem provável que não fosse pra casa e quisesse ficar sozinha pra digerir tudo. Por isso vim pra cá
Clara - Ah...
Neymar - Mas já está escurecendo, a gente tem que ir
Clara - Tudo bem
Neymar - Seu avô está melhor, só vai ficar internado até amanhã para receber antibiótico intravenoso
Clara - Obrigada - não sei bem se estava agradecendo pela informação ou por ele estar ali, acho que pelas duas coisas. Ele sorriu levemente e nos levantamos. Peguei a minha bolsa e caminhamos até o seu carro de mãos dadas -
Neymar - Falei pra minha mãe que a Duda ia dormir lá mas se quiser ir buscá-la... - colocou o cinto e eu fiz o mesmo -
Clara - Não. Você fez bem, é melhor ela ficar por lá hoje - ele deu partida, o curto caminho até o apê foi em silêncio e quando chegamos a Manu ainda não estava. Não tive muito entusiasmo para brincar com o Luck e deixei-o sob os carinhos do Júnior pra poder ir tomar um banho. Quando entrei no quarto, tirei o celular da bolsa, liguei-o e me assustaria com a quantidade de ligações e mensagens dos meus pais se não soubesse o motivo. Resolvi mandar uma apenas dizendo que estava bem - na medida do possível - e em casa. Depois peguei um pijaminha e entrei no banheiro, tomei um banho gelado e apesar de estar ciente do horário, molhei o cabelo mesmo assim porque estava precisando disso. Quando saí do box, me enrolei em uma toalha, sequei o cabelo superficialmente com outra, desembaracei-o e o deixei solto para que secasse por conta própria até a hora que o sono me dominasse, o que não ia demorar muito para acontecer por culpa do meu enorme cansaço emocional. Vesti o pijama, saí do quarto e fui atrás do Júnior, encontrei-o na cozinha procurando por algo na geladeira e apesar de estar sem nenhum apetite pensei em tomar um copo de suco pelo menos -
Neymar - Só vai ficar com isso? A última coisa que comeu foi o almoço?
Clara - Sim, mas não tenho fome - sentei na banqueta -
Neymar - Hum... e se eu fizesse algo?
Clara - Você? Como assim? Fazer o que? - tomei um gole do meu suco e ele sorriu -
Neymar - Não sei, sanduíches talvez
Clara - Sanduíche?
Neymar - É, posso não me lembrar agora mas eu já devo ter feito alguma vez na vida
Clara - É sério?
Neymar - Não - riu. E se aquilo tudo era uma alguma técnica para tentar me distrair estava começando a funcionar - Mas e aí, topa comer comigo?
Clara - Topo. Vai fazer sanduíche de que?
Neymar - Pra começar, vai ser de coração - e ele conseguiu o que eu julgava ser impossível naquela noite: me fazer rir, por mais breve que tenha sido foi verdadeiro e eu acho que estava amando-o ainda mais por isso. Ele se aproximou do outro lado do balcão, tirou meu cabelo do rosto e o prendeu atrás da minha orelha - É sério, eu vou fazer mas você tem que comer e mentir
Clara - Mentir?
Neymar - Sim, tem que dizer que está bom - sorri -
Clara - Pode deixar
Neymar - Prefere de que? - voltou a abrir a geladeira -
Clara - Pode ser de coração mesmo - riu e olhou pra mim - Você escolhe - ele assentiu e eu fiquei apenas observando o seu trabalho como cozinheiro - um tanto quanto desastrado, mas eu também sou. Dez minutos depois havia um sanduíche de requeijão, presunto e queijo, com uma aparência ótima na minha frente. Dei a primeira mordida e ele me olhou com expectativa - Tenho mesmo que mentir e dizer que está bom?
Neymar - Não, boba - riu -
Clara - Ainda bem, porque está mais do que bom - sorriu perfeitamente, iluminando o meu mundinho que estava tão triste. E não falei apenas para vê-lo sorrir, falei porque estava realmente bom. Comemos em silêncio, nos olhando - e sorrindo - ocasionalmente e por mais improvisado que tenha sido eu sabia que não ia esquecer esse jantar tão cedo. Primeiro, pelos motivos óbvios (a catástrofe que foi o meu dia) e segundo porque foi feito por ele com a intenção de me distrair e me alegrar, nem que fosse por curtos minutos. Quando terminamos e limpamos a cozinha, fomos para o quarto, ainda sem nenhum sinal da Manu mas ela devia estar curtindo com os pais. Depois de fazermos nossas higienes, deitamos e antes que eu pedisse, ele me puxou para o seu colo e devo ter adormecido com as suas mãos passeando pelo meu cabelo ainda meio úmido porque deixei o cansaço apoderar-se de mim, me sentindo totalmente destruída emocionalmente.



Meus amores!! ️ vocês nem ligam mais pra minha demora não é? Digam que não, por favor!
Estou me dividindo em várias pra consegui fazer tudo que quero, por isso está tão puxado. Pra dificultar ainda mais, eu amo ler, amo demais e é realmente muito difícil escolher entre meus livros e a escrita... mas eu sei que tenho um compromisso com vocês e se Deus quiser vou com ele até o fim!! Vou começar meu cursinho por agora também, ou seja, o tempo vai encurtar mais ainda, então sejam apenas pacientes comigo, até porque nem sempre que dá pra escrever a criatividade ajuda. Aproveito pra pedir desculpas as donas das fanfics que eu costumava acompanhar sempre, mas acho que já consegui ficar atrasada em todas. E com minha falta de tempo, ou leio ou escrevo. Mas vou tentar mudar isso, prometo.

NOTA: As informações contidas aqui sobre aplasia medular são do meu conhecimento de acordo com algumas pesquisas que fiz mas vocês sabem que cada site diz uma coisa então caso queiram saber mais a respeito sugiro que pesquisem também. Além do mais, tudo aqui não passa de ficção!! 
 É só, beijinhos!  

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Capítulo 49 - “...Ser pai é maravilhoso em qualquer ocasião”


Acordei com algumas vozes ressoando pelo quarto, abri os olhos mesmo contra a minha vontade, lembrei que não estava na minha casa, não tinha mais ninguém ao meu lado e me dei conta de que as vozes eram da Rafa e da Duda. Da minha visão periférica percebi que elas estavam conversando, ou melhor, tramando algo. Continuei quieta e quando elas pegaram duas almofadas não deixei que o plano se concretizasse. 
Clara - O que vocês pretendiam fazer? - ambas pularam de susto e eu ri - Bom dia pra vocês também - sorri ironicamente -
Rafa - Quem mandou acordar? Volta a dormir agora - gargalhei - Íamos te acordar de um jeitinho especial
Clara - É, acho que percebi. Talvez se vocês fossem mais silenciosas até desse certo
Rafa - Acabou com a nossa brincadeirinha, Dudoca - fizeram beicinho -
Clara - Quem sabe um outro dia...
Rafa - Sem graça! Levanta então, chega de dormir - puxou meu cobertor -
Clara - Preguiça! - coloquei o travesseiro no rosto -
Rafa - Se tivesse deixado nossa brincadeirinha ir até o fim com certeza a preguiça ia embora rapidinho. E ainda está em tempo, é só fingir que está dormindo
Clara - Você não conhece limites, Rafaela - gargalhou - Isso tudo é vontade de jogar almofadas em mim? - assentiram empolgadas - Pois então que comece a guerra - joguei dois travesseiros na direção delas, que não estavam esperando, mas revidaram imediatamente e no minuto seguinte já estávamos as três fazendo a maior bagunça em cima da cama em uma guerra de travesseiros onde ríamos mais do que outra coisa. Só paramos quando eu já estava cansada de tanto pular, me joguei na cama e elas caíram em cima de mim - Socorro, eu preciso respirar! - riram e levantaram - Agora que não levanto mesmo. Preciso de mais umas duas horinhas de sono
Rafa - Nem pense! Está todo mundo te esperando na piscina, vamos - começou a me puxar por um braço e a Duda por outro -
Eduada - É, mãe... vamos! - pediu do jeitinho que só ela sabe -
Clara - Eu vou descer, mas por favor, deixem meus braços nos seus devidos lugares - me soltaram - Muito obrigada - rimos - A Manu ainda está aí?
Rafa - Não, foi em casa mas disse que volta
Clara - Ótimo, vou pedir pra ela trazer uma roupa pra poder sair mais tarde. Acho que aqui não tem nenhuma adequada
Rafa - Vocês vão pra São Paulo mesmo? - assenti -
Clara - E tu não mudou de ideia? Vamos
Rafa - Daqui não saio, daqui ninguém me tira
Clara - Debochada - levantei e ela mostrou a língua - Filha, vai lá contar pro seu pai a bagunça que a Rafa fez na cama dele - ela riu e levantou na mesma hora -
Rafa - Até porque fui eu sozinha não é? Não vai, Duda - ela parou, olhando para nós duas sem saber quem obedecer -
Clara - Rafaela, pára
Rafa - Eu nem falei nada
Clara - Mas fazer os olhinhos do gatinho do shrek funciona com ela, então pára - rimos -
Eduarda - Eu posso ir? - perguntou com as mãozinhas na cintura, fingindo estar impaciente com a espera e nós rimos ainda mais -
Clara - Pode amor, vai lá. Mas sem correr
Eduarda - Tudo bem - sorriu pra mim e olhou pra Rafa novamente, mas não esperou que ela dissesse mais nada e saiu do quarto -
Rafa - Você está semeando a discórdia na família e isso não está certo - tentou falar sério mas não conseguiu e nós caímos na risada -
Clara - Você sabe que eu também te amo - soltei um beijo pra ela e em troca recebi um travesseiro que não chegou até o meu rosto porque peguei-o - Que violência! Não ajudo a arrumar a cama também - entrei no banheiro -
Rafa - Não! Volta aqui, eu te amo muito mais - gargalhei -
Clara - Eu sei - abri a porta e espreitei o quarto, soltei outro beijo e ela ameaçou jogar outro travesseiro mas fechei a porta antes. Tirei o meu pijama improvisado: uma camisa do Júnior, tomei um banho frio e rápido, quando terminei, peguei uma toalha, me enrolei nela e escovei os dentes. Removi os restos da maquiagem que o sono não me deixou tirar, voltei pro quarto, não vi a Rafa em nenhum cantinho, a cama já estava arrumada e minha pequena estava sentada nela, vestida com seu maiô cheio de desenhos de princesas - Falou com ele?
Eduarda - Falei. Ele deu risada, e a vovó e o vovô também - respondeu com uma expressão confusa, de quem estava esperando outras reações e não apenas... risos -
Clara - É que eles sabem que nós também bagunçamos - falei como um sigilo e ela riu. Achei um biquíni, um short e uma regatinha na pequena parte do closet dele separada para algumas roupas minhas, me vesti, entrei no banheiro de novo e penteei o cabelo. Quando voltei pro quarto, abri apenas a persiana e o sol invadiu sem pedir licença. Sentei ao lado da Duda pra ler e responder algumas mensagens com ela, entrei no twitter também bem rapidinho porque apesar de ter pensado em deletar a conta devido os comentários negativos que lia, não o fiz e acho até que já cansaram de me xingar, graças a Deus.
 clarabarcelar_Dia bom!!  
Descemos, e a mesa do café da manhã estava na área exterior, próximo a piscina e ainda recheada de coisas gostosas.
Clara - Bom dia, bom dia! - saudei a todos com beijinhos no rosto. Em ordem: o tio Neymar, a tia Ná, a Joana que estava tirando/colocando algumas coisas na mesa, o Gil que já estava tomando sol e o meu amor que ainda estava comendo
Tia Ná - Dá até gosto de ver essa alegria toda - sorri pra ela e sentei ao lado do Júnior
Clara - Natal sempre foi minha festa predileta e esse ano parece que estou gostando ainda mais...
Tia Ná - Deve ter algum motivo... - respondeu sabendo muito bem a quem me referia e olhou pro Júnior e pra Duda alternadamente
Clara - E tem. Alguns motivos bem importantes - ele também olhou pra mim, sorriu e beijou minha bochecha. A Duda já estava comendo sua salada de frutas empolgadíssima, sem prestar nenhuma atenção ao que falávamos
Neymar - Fiquei sabendo da bagunça lá na minha cama 
Clara - Bagunça? Oi? Que cama? - rimos
Rafa - A cama que eu arrumei sozinha - veio da cozinha
Clara - Meu amor, bom dia - coloquei o maior sorriso do mundo no rosto apenas para provocá-la
Rafa - Cínica - rimos
Clara - Nada mais justo você ter arrumado a cama sozinha, já que subiu para me acordar com más intenções
Rafa - Más intenções? - encenou um pequeno drama - Mas eu nem sei o que é isso 
Clara - E eu que sou a cínica - rimos. Me servi com um copo de suco de laranja com morango, duas fatias de pão integral e requeijão. Na mesa estávamos somente eu, a Duda e o Júnior mesmo. A Tia Ná e o Tio Neymar estavam sentados em espreguiçadeiras na sombra. A Rafa sentou em uma outra perto do Gil. Comemos enquanto decidíamos o melhor horário para sairmos e chegamos a conclusão de que o final da tarde era a melhor opção. Quando terminamos, eles foram logo para borda da piscina, e ajudei a Joana a tirar a mesa, mesmo contra a sua vontade, afinal fui a última a levantar. Depois tirei o short, a regatinha e sentei na espreguiçadeira ao lado esquerdo do Gil. Ficamos falando sobre a Manu (vale ressaltar que ele não tirava o sorriso do rosto toda vez que pronunciava o nome dela) e até confessou que estava ansioso para conhecer pessoalmente os sogrinhos. E eu também queria vê-lo enfrentando a mãe da Manu, que na verdade é uma versão dela mais velha. Eu ri só de imaginar. Estava tudo bem até que ele entrou na piscina e ficou esguichando água em mim com a ajuda da Rafa, tive que me afastar e ir para outra espreguiçadeira porque não queria que meu cabelo molhasse, e foi só falar que o motivo era esse para insistirem ainda mais pra eu poder entrar também. Não mudei de ideia e eles ainda tiveram que parar de tentar me molhar porque sentei propositalmente ao lado da Tia Ná. O Júnior, que estava na parte mais rasa com a Duda, gargalhou ao ver que a minha estratégia deu certo - Meus pais ligaram, tia?
Tia Ná - Sim. Ligaram hoje mais cedo, se desculparam por ontem mas está tudo certo - sorriu - Chamei-os para vim aqui hoje mas não deram certeza
Clara - Sério? Então vou ligar pra reforçar o convite 
Tia Ná - Faça isso - peguei o celular em cima da mesa, marquei o número fixo deles e quem atendeu foi o meu pai no terceiro toque. 
 - início
Clara - Oi pai 
Murilo - Ah, oi pequena. Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
Clara - Nossa, calma - eu ri - Aqui está tudo ótimo e aí?
Murilo - Também, meu amor
Clara - Liguei apenas pra dizer bom dia - riu levemente - Brincadeira. Foi pra reforçar o convite da tia também. Venham pra cá 
Murilo - Nós até íamos mas a Débora disse que não está com muita vontade de sair hoje
Clara - Minha mãe está doente? 
Murilo - O quê? Claro que não 
Clara - Ok. Eu não vou insistir, mas vou passar aí quando voltar de São Paulo 
Murilo - Vai pra lá ainda hoje?
Clara - Sim. Conhecer a tão falada Fonte Multimídia no Parque do Ibirapuera
Murilo - Ouvi falar que é bem bonita 
Clara - É... eu também - ficamos em um silêncio insuportável - Pai?
Murilo - Diz, minha filha 
Clara - É Natal... 
Murilo - Eu sei... 
Clara - Por favor, parem com isso ou eu vou enlouquecer 
Murilo - Está falando de que?
Clara - Você sabe de que. Não adianta mais você ou a minha mãe tentarem me enrolar porque agora eu tenho certeza que tem algo me escapando... só queria saber o que é
Murilo - Clara...
Clara - Não. Sem aquilo de dizer que é paranoia minha. Vocês nem saem de casa agora... e se estão lutando tanto pra me esconder é porque envolve a mim também. Eu não vou mais perguntar o que é, mas se eu descobrir por conta própria vou ficar bem chateada com vocês - ele não respondeu, o que só me irritou e aumentou ainda mais as minhas certezas
Murilo - Como você mesma disse, é Natal. Vai aproveitar teu dia 
Clara - Eu vou... eu vou tentar. Até mais tarde então, pai
Murilo - Até mais tarde
 - término
Tia Ná - Ei?! - olhei pra ela e percebi que o Tio Neymar também já estava na piscina. Ela me chamou para sentar ao seu lado, onde ele estava - Que carinha é essa? Eles não vão vim?
Clara - Não...
Tia Ná - E é só por isso que você está assim?
Clara - Não...
Tia Ná - Quer falar?
Clara - Estou com medo, tia
Tia Ná - Medo? - assenti e olhei pro céu, decidida a não chorar - De que?
Clara - Do desconhecido. O pior de tudo é que estou com medo do desconhecido - ela franziu a testa sem entender - Eles estão me escondendo algo e não é de hoje. A cada dia que passa sinto que é algo importante e o fato deles não me contarem me dá medo. Já pensei em tanta coisa... em tanta besteira
Tia Ná - Então tenta não pensar
Clara - É difícil 
Tia Ná - Posso imaginar que sim. Mas não acho que eles iam te esconder algo pra te prejudicar
Clara - Também acho isso...
Tia Ná - Então vamos fazer um acordo: tentamos esquecer isso pelo menos por hoje, e amanhã vou falar com a Débora. Não posso garantir que ela vá falar alguma coisa pra mim, mas posso tentar... ou fazer com que ela fale com você, não sei. O que for melhor pra todo mundo
Clara - Jura que faria isso? 
Tia Ná - Isso e muito mais! - sorriu - Contanto que a senhorita mude essa carinha - sorri - Assim está melhor - sentei mais perto dela e abracei-a
Clara - Obrigada
Tia Ná - Não há de quê, mas estamos combinadas?
Clara - Sim 
Tia Ná - Ótimo! - riu - Vou resolver os preparativos do almoço para liberar a Joana mais cedo, já volto 
Clara - Precisa de ajuda?
Tia Ná - Não. Preciso que se distraia e acho que ali - apontou discretamente com a cabeça para onde a Duda e o Júnior estavam brincando - É o melhor lugar pra isso agora - sorriu, levantou e foi pra cozinha. Olhei pra eles e resolvi seguir o seu conselho. Primeiro mandei uma mensagem pra Manu explicando o que queria, deixei o celular em cima da mesa, fui até a borda, sentei, e coloquei apenas as pernas na água. Depois de ter feito ela boiar, ele a colocou sentada sobre os seus ombros e se aproximou de mim
Neymar - Tudo bem?
Clara - Sim
Neymar - Mesmo? - ergueu uma das sobrancelhas
Clara - Agora sim 
Neymar - Preciso me preocupar?
Clara - Não. Continuem brincando, por favor. Gosto de ver vocês juntos - sorriu, se aproximou de mim cuidadosamente e me deu um beijo rápido, depois abaixou um pouco e minha pequena beijou a minha testa. Eu ri - Amo muito vocês. Não esqueçam nunca! 
Eduarda - Nunquinha! - prometeu beijando a pontinha dos seus dois dedinhos indicadores que formaram uma cruz em seus lábios e eu sorri muito amplamente - Faz também, pai - pedinchou com aquela vozinha que ninguém sabe dizer não e ele repetiu o seu gesto e as suas palavras
Clara - Lembrem que eu sou uma manteiga derretida, então não queiram me ver chorando aqui e agora - rimos
Neymar - Não vai entrar mesmo?
Clara - Já estou dentro, olha - balancei os pés na água e ele riu
Neymar - Você entendeu 
Clara - Não. E a propósito, fiquem sempre pertinho de mim porque assim terei certeza que nem o Gil nem a Rafa vão tentar me molhar - rimos. Eles voltaram a brincar, e eu me tornei uma mera observadora da diversão deles que automaticamente se transformava na minha diversão também. Lógico que o Gil e a Rafa não desistiram de tentar me molhar mas consegui me esquivar de todas as tentativas. A Manu chegou um tempinho depois, agradeci por ter levado o que pedi e ela ficou me fazendo companhia enquanto pegava uma corzinha também. Perto da hora do almoço, todo mundo subiu pra tomar banho e a Rafa se prontificou a cuidar da Dudoca. Eu e o Júnior tomamos banho juntos, e apesar de não termos conseguido deixar nossas mãos quietas, conseguimos, pelo menos, ficar minimamente comportados. (In)felizmente foi apenas.... uma diversão rápida. Peguei um vestidinho branco de renda tomara que caia, me vesti e soltei o cabelo que até então estava em um simples coque.
 clarabarcelar_: Talvez o melhor enfeite de Natal seja um grande sorriso!  
Ele saiu do closet também já vestido, com o cabelo totalmente desgrenhado e eu sorri.
Neymar -  Aconteceu alguma coisa? Te vi conversando com minha mãe e parecia ser sério
Clara - Não foi nada, relaxa - tentei tranquilizá-lo. Se começasse a falar sabia onde ia acabar e não queria. Ele também não merecia ficar me ouvindo falar as mesmas coisas. É chato e cansativo -
Neymar - Coisas de mulheres? - sugeriu, mas suponho que foi apenas para me fazer sorrir e conseguiu -
Clara - Sim - ri, e sei que ele não se convenceu -
Neymar - Não vou insistir porque faço uma pequena ideia do assunto e você sabe que estou aqui pra te ouvir sempre, seja lá o que for
Clara - Eu sei, obrigada - levantei da cama e como ele estava na minha frente, ficamos bem juntinhos. Coloquei meus braços ao redor do seu pescoço e os seus também rodearam minha cintura - Não vamos mais falar sobre isso porque como você mesmo disse, se eu tiver que saber, na hora certa vem à tona - avaliou minha expressão, percebeu que eu estava sendo sincera e assentiu - Até porquê temos assuntos melhores para conversar
Neymar - Qual, por exemplo?
Clara - Como está sendo seu primeiro Natal como papai? - riu -
Neymar - Posso ser sincero?
Clara - Deve
Neymar - Agora, com o ano acabando e depois de tantas experiências novas, estou percebendo que ser pai é maravilhoso em qualquer ocasião - sorri com sua espontaneidade - Mas ok, o Natal teve... algo a mais... nunca fiquei tão preocupado na hora de comprar um presente e tão ansioso pra ver a reação da pessoa - gargalhei -
Clara - Não valeu a pena?
Neymar - Valeu muito. O sorriso dela recompensa qualquer coisa
Clara - É que nem o seu - automaticamente sorriu também e me beijou calmamente, sem nenhuma pressa e aproveitando cada segundo. Mordi levemente seu lábio inferior e me afastei um pouco (quase nada) - Devem estar esperando apenas por nós dois e já demoramos demais, vamos - tentei passar mas só consegui nos deixar mais juntos de novo já que ele nem se mexeu - Eu não quero ter que lidar com os possíveis comentários da Manu e do Gil por causa da nossa demora, sério
Neymar - Em outras palavras, não quer ficar vermelha na frente dos meus pais - riu descaradamente -
Clara - Sim, isso também então colabora, vai - não se mexeu novamente e estava claramente se divertindo com a situação, afinal me ver que nem um tomate é quase o seu hobby favorito. Revirei os olhos e aproximei meu rosto do seu de novo dando a entender que ia beijá-lo - Por favor - sussurrei pertinho da sua boca com a voz mais doce do universo -
Neymar - Pedindo assim... - roubou mais dois selinhos, prolongando o último enquanto nos girou, de modo que não ficaria mais presa se quisesse sair porque a porta estava mais perto de mim, mesmo assim ele sorriu pra nem me deixar pensar em mais nada, pegou a minha mão e saímos do quarto. Descemos e por causa do Guilherme, do Gustavo e do Jota que tinham acabado de chegar nem a Manu nem o Gil lembraram de fazer algum comentário inapropriado. Ainda bem. Depois do almoço minha tarde voou. Passei a maior parte do tempo no térreo com a Duda, a Rafa, a Manu e o carrinho elétrico, além da Laila, a Marcela e a Tayná que chegaram depois e passaram um bom tempo conosco. Depois fomos para quadra assistir a partida amigável dos meninos que teve mais bagunça do que gols. Quando terminou, 6 a 5 para o time do Júnior (aqueles que estavam sem camisa), eu, ele, a Duda e a Rafa subimos. Os meninos (e a Manu) permaneceram lá embaixo de papo com os demais jogadores, dos quais só conhecia alguns e de vista por serem do mesmo prédio. Já as meninas, se despediram de nós e foram embora. Deixei o Júnior entrar no banheiro primeiro e fui com a Rafa pro quarto da Dudoca arrumá-la também. Já de banho tomado, vesti-a com um shortinho xadrez, uma blusinha branca e deixei separado um casaquinho para levar também porque com o anoitecer ia esfriar com certeza. Ela calçou sua sapatilha, e deixou a Rafa pentear seu cabelo. Voltei para o quarto do Júnior, a porta do banheiro já estava aberta mas ele devia estar no closet porque a carteira e o celular ainda estavam em cima da cama. Peguei a bolsa que a Manu trouxe pra mim, entrei no banheiro e tomei um banho frio. Saí, me enxuguei, me enrolei na toalha e abri a bolsa porque conhecendo-a como conheço ela não tinha colocado ali somente as roupas. E acertei. Tinha meu hidratante, apesar de já ter um que não sai mais do banheiro dele também, um dos menores estojinhos de maquiagem que tenho e um colar combinando com a roupa. Ela pensou em tudo, claro. Passei o hidratante, me vesti e do estojinho usei apenas o primer, base, corretivo, blush, sombra, lápis nude e um brilho labial. Penteei o cabelo deixando-o solto mesmo, arrumei a bagunça que sempre faço no banheiro quando me arrumo nele e voltei pro quarto. Ouvi a voz da Duda vinda do closet também, sentei na pontinha da cama, peguei o mesmo sapato da noite anterior, calcei-o e eles saíram de lá. O boné dele rapidamente me chamou a atenção. Era novo. Com "girl's dad" escrito em uma espécie de manuscrita moderna na frente. Ele percebeu que eu estava olhando, mexeu no boné propositalmente como se estivesse dizendo eu sei que é lindo e sorriu. Eu ri e não precisei dizer mais nada. Ele estava certo. 
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Apesar de termos combinado que íamos bem no finalzinho da tarde, quando saímos ainda estava longe de escurecer. O Júnior disse que tinha algo para mostrar pra Dudoca antes de irmos para o Parque Ibirapuera e nos levou para a zona norte de São Paulo, mais precisamente: Shopping Center Norte. Estranhei quando percebi que estávamos indo pra lá, mas percebi o motivo antes mesmo de chegarmos perto porque de longe já se avistava o Papai Noel gigante ao lado de uma caixa de presente também enorme próximo a entrada do shopping, no canteiro da Marginal Tietê. Ele estacionou no lugar adequado, saiu, carregou-a e eu fiz o mesmo. A iluminação ainda não estava totalmente acesa e mesmo assim ele não deixava de ser lindo. A Duda ficou com a cabecinha inclinada, admirada com o tamanho dele, depois riu e quis se aproximar um pouco mais. Só a caixa de presentes devia ter uns 4 metros de altura, o Papai Noel então, uns 20. Mas como não queríamos chamar muita atenção ali, ela deu um tchau entusiasmado para o gigante bom velhinho e voltamos para o carro. Enfim, para o nosso destino principal. Quando chegamos ao Parque ainda não estava tão cheio. O Júnior ajeitou o boné, carregou a pequena de novo e entrelaçou sua mão com a minha. Havia pessoas correndo, andando de bicicleta, patins, skate, jogando bola, meditando e até fazendo piquenique. Não é à toa que o lugar é conhecido por algumas pessoas como “a praia dos paulistanos” e algo me dizia que ali ia lotar em pouco tempo. 
 neymarjr: O presente mais lindo que a vida me deu!!
Enquanto esperávamos aquilo que realmente queríamos ver, ficamos passeando pelo Parque, (sim, conseguimos essa proeza, houve interrupções, é obvio, mas conseguimos) confesso que já não lembrava de muita coisa ali, além do mais as mudanças também eram muitas e notórias. Visitamos a Oca, mas não ficamos muito tempo porque a exposição do momento era “Dinos na Oca” e digamos que a Dudoca não gostou muito de ver. Fomos ao MAM - Museu de Arte Moderna também, e por estar mais vazio que a Oca ficamos lá por mais tempo, quando saímos já tinha anoitecido, o tempo já tinha esfriado e o Parque estava bem cheio, como tinha previsto. Todas as árvores decoradas com lâmpadas de LED também já estavam acesas. Vesti o casaquinho na Dudoca, comprei pipoca pra gente e ficamos pertinho do Lago pra não perder nada, e o melhor de tudo é que parecíamos meros desconhecidos ali no meio de tanta gente, o que era ótimo. Demorou mas enfim a Fonte Multimídia começou o seu show. A música de abertura foi o clássico natalino “We wish you a Merry Christmas”, cantado por um coral infantil enquanto a dança das águas e das luzes no lago ficavam cada vez mais intensas. As projeções começaram a mostrar cenas sobre o surgimento dos símbolos de Natal, como a árvore, o Papai Noel, as renas, além de imagens da noite de Natal por todo o Brasil e mensagens de otimismo e esperança. O espetáculo durou cerca de 25 minutos, utilizando todos os recursos de coreografia e cores proporcionados pela Fonte. E durante os 25 minutos acho que esqueci do mundo. Éramos só nós três ali, como se não existisse lugar melhor para estarmos naquele momento. Por fim, as águas dançantes terminou sua apresentação com um enorme gêiser de deixar qualquer um boquiaberto e encantado.
 clarabarcelar_: Show de luzes!!  
Antes que o pessoal começasse a dispersar, saímos o mais discretamente possível do nosso lugarzinho, por incrível que pareça não fomos parados por ninguém no caminho até o carro e entramos.
Neymar - Casa? - olhou pra mim depois de conferir novamente que a Duda estava totalmente segura na cadeirinha e eu ri por dentro -
Clara - Não. Falei pro meu pai que ia passar por lá antes de ir pra casa, pode ser?
Neymar - Claro - deu partida e fomos o caminho inteiro ouvindo a Duda cantar as mesmas musiquinhas natalinas da sua apresentação na escola uns dias antes do recesso. Chegamos, a nossa entrada estava liberada, ele estacionou, saímos do carro e subimos. Toquei a campainha e dessa vez quem atendeu foi a minha mãe -
Débora - Você veio mesmo! - sorriu de lado -
Clara - Sim. Mas se preferir podemos voltar daqui mesmo - nem eu mesma sei se falei brincando ou para testá-la -
Débora - Deixa de ser besta - deu espaço pra gente entrar, me abraçou, falou com a Duda e o Júnior e fechou a porta. Meu pai estava no sofá rodeado de papéis mas sorriu ao nos ver e levantou para nos cumprimentar também -
Clara - Cadê os coroas?
Murilo - No quarto
Clara - Já foram dormir?
Murilo - Não
Débora - Sim - responderam ao mesmo tempo. Percebi que ela meio que o repreendeu com o olhar e ele ficou constrangido mas preferi fingir que não vi -
Clara - Foram ou não foram dormir?
Murilo - Na verdade sim, eles disseram que já iam dormir porque seu avô não estava se sentindo muito bem - o alerta que até então estava tentando manter desligado, acendeu na hora e nem me importei com a troca de olhares deles novamente. Tentei (não sei se em vão ou não) agir como eles, o mais naturalmente possível -
Clara - E eu posso ir vê-los? Só quero desejar boa noite - meu sorriso saiu mais irônico do que eu realmente queria e sei que eles perceberam. Senti as mãos do Júnior no meu ombro, olhei-o e sabia que ele estava pedindo para me acalmar. O fato é que o clima naquela sala não era dos melhores porque não estava mais aguentando ver que eles sabiam de algo e eu não. Tentei sorrir, até mesmo pra Duda não ficar com uma impressão estranha - Posso?
Murilo - Vai lá - seu sorriso se igualou ao meu. Olhei para o Júnior novamente e ele assentiu, sentando no sofá maior logo em seguida com a Duda no seu colo. Meus pais não falaram mais nada então segui para o quarto. Bati na porta e a abri lentamente -
Clara - Posso entrar? - minha avó assentiu. Ela estava sentada em uma poltrona reclinável ao lado da cama com um livro, e meu avô deitado. Não sei se ela estava lendo em voz alta, mas sorri imaginando que sim - Passei apenas pra desejar boa noite - sorriram também - Está tudo bem?
Marcos - Sim
Clara - É mesmo? - entreolharam-se rapidamente - Já sei que você não estava se sentindo muito bem hoje, vô
Marcos - Não foi nada demais
Clara - E mesmo assim você não ia me dizer nada... - calei-os por alguns segundos - Ok, quem não está muito bem sou, desculpem. Vou deixar vocês descansarem - me aproximei mais da cama, beijei o rosto da minha avó, e fiz o mesmo com meu avô - Você está tão quente - falei espantada passando a mão no seu rosto -
Marcos - Você acha? - perguntou hesitante, olhando de relance para minha avó -
Clara - Acho não, tenho certeza. Parece febre
Marcos - É, acho que vou ficar resfriado
Clara - Resfriado?
Glória - É minha filha, também estou achando que vou ficar. Talvez por causa da mudança de temperatura, não sei
Marcos - Precisa se preocupar não que daqui a pouco é hora do remédio e a febre vai embora
Clara - Está tomando remédio? Mas foi ao médico?
Marcos - Não... é aquele de sempre pra mandar qualquer resfriado embora antes mesmo de chegar
Clara - Certo, então eu vou mas vocês vão ter que me prometer algo
Glória - O quê?
Clara - Qualquer coisa, por mais que vocês achem ''nada demais'', me liguem
Glória - Por quê? - perguntou receosa -
Clara - Apenas prometam, por favor
Glória - Está prometido - olhou pro meu avô - Mas, Clara... - não deixei que ela terminasse -
Clara - Não adianta falar mais nada, já está prometido e eu espero sinceramente poder acreditar em vocês
Glória - Tudo bem - respondeu um pouco surpresa -
Clara - E se cuidem, por favor - beijei o rosto deles novamente e me despedi, mesmo sem querer, com o coração apertadinho. Saí do quarto e do corredor mesmo já podia ouvir a voz entusiasmada da Dudoca falando sobre o Papai Noel gigante que viu. Claro que ela não vai esquecer isso por um bom tempo e sua animação me fez sorrir um pouco antes de entrar na sala - Vamos? - ela já estava no colo do meu pai -
Murilo - Mas já? - apertou a neta nos seus braços como se não quisesse soltá-la - Vocês já jantaram?
Clara - Não - respondi naturalmente, depois me toquei e olhei pro Júnior - É... nós ainda não jantamos
Neymar - Não - riu -
Débora - Então fiquem
Murilo - É... a presença de vocês aqui deixa o ambiente mais alegre - sorri pra ele. Olhei para o Júnior novamente, ele encolheu levemente os ombros e olhou de relance para Duda. Entendi na hora -
Clara - Tudo bem, a gente fica
Murilo - Ótimo - levantou - Vem, pequena - pegou a mãozinha dela e levou-a para sala de jantar. Minha mãe segui-os com uma expressão mais tranquila daquela que estava quando chegamos. Pelo menos isso -
Clara - Você quer ficar?  - me aproximei e ele levantou -
Neymar - Pela sua carinha, não era pra ser eu fazendo essa pergunta? - eu ri. Definitivamente não dava para enganá-lo - Como é que estão seus avós? - passou a mão delicadamente no meu rosto -
Clara - Aparentemente bem, não sei - balancei a cabeça - Não se de mais nada, mas também já disse que não vou insistir nisso porque é um tiro no escuro
Neymar - Você que sabe, eu já disse que vou te apoiar no que você decidir
Clara - Eu sei - sorri e passei os braços envolta do seu pescoço para lhe dar um beijo - Duda está com fome, não está? - assentiu - E você também
Neymar - Talvez - rimos -
Clara - Acho que esqueci que não tínhamos jantado porque na minha cabeça, meus planos eram: chegar em casa, tomar um banho e me jogar na cama - fiz uma careta interna para os meus planos em pleno natal (apesar deles não estarem assim tão errados, já que aproveitei muito e da melhor forma possível: com meus amores) - Você queria jantar em outro lugar? Ou até mesmo na sua casa...?
Neymar - Eu quero terminar o dia de hoje como comecei: com você e a Duda comigo. E se vocês estão aqui, está tudo ótimo. Sem falar que depois do clima lá na sala, é bom que você fique um pouco mais com seus pais
Clara - É, eu também acho. Por isso nem pensei em recusar quando meu pai fez o convite... não quero que eles pensem que quero distância. Aliás, distância é o que eu menos quero no momento. Mas tudo bem, vamos parar de falar e ir comer - peguei a sua mão, e me virei mas ele não saiu do lugar, ficou apenas me olhando estarrecido e sorrindo - O que foi?
Neymar - Eu te amo - não sei como mas ele sempre sabe a hora certa de dizer tudo e isso meio que me deixa orgulhosa -
Clara - Eu também te amo, amor - ri da minha própria voz que saiu um pouco chorosa, beijei carinhosamente a sua bochecha, depois seus lábios da mesma forma - Agora vamos comer porque eu não quero ser demitida por ter sido a culpada do baixo peso do camisa onze no dia da reapresentação lá no CT - gargalhou -
Neymar - Seria por justa causa - rimos. Ele passou os braços ao redor da minha cintura e fomos assim para sala de jantar. A Duda estava sentadinha ao lado do meu pai enquanto a minha mãe tirava os pratos sujos e colocava os limpos. Sim, eles já tinham jantado mas ficaram na mesa com a gente e por causa da Duda tivemos assuntos mais descontraídos para conversar. Quinze minutos depois que começamos a comer, minha avó passou para cozinha e voltou rapidinho com uma jarra de água e um copo, deu um beijinho em nós três e voltou pro quarto. Quando terminamos, minha mãe pediu a minha ajuda para tirar a mesa e eu sabia que era apenas um pretexto pra ficar só comigo. Levamos tudo para cozinha, ela lavou a louça e só quando eu já estava guardando, tomou coragem para falar -
Débora - Eu te amo, filha - paralisei. Fiquei como uma estátua mesmo, tinha acabado de colocar os dois últimos pratos no armário e olhei-a sem reação mas nem falei nada para não intimidá-la, caso tivesse mais coisas pra dizer - Tudo que já fiz e ainda vou fazer na vida sempre vai ser pensando em você, sabe disso não sabe? - de repente fiquei com um medo enorme de responder essa simples questão por causa da intensidade das suas palavras mas não queria, nem podia decepcioná-la. Respirei fundo e minha voz saiu fraca mas saiu -
Clara - Sei - ela suspirou de alívio, como se estivesse tensa a muito tempo apenas por isso. Deixei o pano de prato de lado e abracei-a bem forte, querendo que o que quer que ela estivesse sentindo passasse pra mim também... mas não passou - Eu também te amo - ouvi o seu soluçar mas ela não deixou que nenhuma lágrima caísse. Não falei, e não perguntei nada, deixei apenas que me apertasse o quanto quisesse. Quando me soltou, passei a mão no seu rosto e ela sorriu de forma contida -
Débora - Não sei o que está acontecendo comigo nessas últimas semanas... estou parecendo até uma mocinha naqueles dias - riu e eu sorri. Ok, posso fingir que acredito nisso! Melhor do que nada. Terminamos de limpar a cozinha, voltamos pra sala e depois de um tempo falando basicamente como foi a nossa manhã/tarde, eles nos levaram até a porta -
Murilo - Obrigado por terem ficado mais esse tempinho aqui com a gente. Falei sério sobre a presença de vocês deixar o ambiente mais alegre
Neymar - Que isso, sogrão, é só chamar - rimos. O clima já não era o mesmo daquele que se instalou quando chegamos, ainda bem. Nos despedimos deles, fiquei tentada a ir ver meus avós novamente mas eles prometeram ligar caso acontecesse algo, e já deviam estar dormindo também, por isso descemos -
Clara - Me deixa dirigir?
Neymar - Tem certeza?
Clara - Sim... me distrai, pelo menos
Neymar - Hum, não sei se distração e trânsito combinam - sorriu e eu tive que retribuir porque sei que foi essa a sua intenção - Pega - jogou a chave pra mim. Soltei um beijo como agradecimento, ele riu e prendeu a Dudoca na cadeirinha, para depois entrar e sentar ao meu lado. Dei partida, saí do estacionamento e segui para o apê em silêncio, aliás o carro estava tão silencioso que a Duda pegou no sono. Quando chegamos, o Júnior carregou-a porque ela acordou mas ainda estava meio sonolenta, peguei minhas coisas, travei as portas do carro deixando a bicicleta dela dentro do porta-malas mesmo para pegarmos no dia seguinte, chamei o elevador e subimos. No apartamento só o Luck estava, e mal nos viu, começou a fazer festa como sempre -
Clara - Você cuida dela?
Neymar - Sim. Vai tomar aquele banho que você queria - sorri e assenti. Ele foi pro quarto dela, tirei o salto, fui até a área de serviço apenas pra ter certeza que o Luck ficou bem abastecido o dia inteiro e voltei pra sala. Peguei minha bolsa, passei pelo quarto da Dudoca, vi ele vestindo o pijaminha nela, entrei só pra dar um beijinho de boa noite na dorminhoca e fui para o meu. Peguei logo um pijama também e entrei no banheiro. Removi toda a maquiagem, me despi, prendi o cabelo, e tomei um precioso banho frio. Me enxuguei, me vesti, escovei os dentes e me olhei no espelho. Pensando bem, não tinha o que reclamar do meu Natal. Depois de passar por tantas coisas foi o melhor, sem dúvidas e não mudaria nada, foi perfeito do jeito que foi. Voltei pro quarto, guardei todos os meus presentes, liguei a TV em um volume quase inaudível e me joguei na cama, literalmente. Peguei meu celular e deixei ao lado do meu travesseiro. É... acho que vou dá motivos para me chamarem de paranoica até descobrir o que estão me escondendo. O Luck entrou no quarto e deitou nos pés da cama, sorri e fechei os olhos. Cinco minutos depois o Júnior também entrou e fechou a porta com cuidado achando que eu já estava dormindo. Ouvi ele abrindo uma das portas do meu guarda-roupa, mexeu um pouco lá, depois entrou no banheiro. Não demorou muito, e quando saiu apenas diminuiu a intensidade da luz e logo em seguida se bateu em algum móvel, acho que foi a minha mesinha, não virei pra ver mas não consegui segurar o riso também por mais baixinho que fosse. Ele deitou ao meu lado, e me puxou para os seus braços, nos deixando de conchinha - Muito bonito ficar rindo de mim enquanto eu estava tentando fazer de tudo para evitar barulho achando que você já estava dormindo - ri ainda mais -
Clara - Desculpa. Foi totalmente sem querer
Neymar - Imagino que sim - deu um beijo demorado no meu rosto e um silêncio bom e calmo, se instalou por todo o quarto. Só conseguia ouvir as nossas respirações -
Clara - Sabe... eu realmente não estou me sentindo confortável com o fato de que algumas pessoas estão me escondendo algo e claro que preferia que isso não estivesse acontecendo mas... ontem e hoje lá no lago, eu esqueci disso - olhei-o e ele tirou a franja solta do meu rosto - No meu Natal passado, nem passava pela minha cabeça que o próximo seria com você e a Duda. Os dois pertinho de mim nessa data que é tão especial. É quase surreal... - senti o seu corpo apertar ainda mais o meu e agradeci-o mentalmente por isso. Era tudo bem real - É por isso que apesar de tudo esse foi o melhor Natal da minha vida. Não vou esquecer nunca!
Neymar - Esse foi só o primeiro dos muitos que ainda vamos passar juntos, eu prometo! - não estava mais olhando-o mas podia apostar que ele estava sorrindo e isso me fez sorrir também. O silêncio voltou a pairar e depois de um tempinho percebi que ele tinha pego no sono, já eu demorei muito para consegui adormecer porque querendo ou não estava com um certo medo de dormir e acordar com o celular tocando.

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