Acordei cedo. Na verdade, nem consegui dormir direito e o motivo eu sabia que iria descobrir dentro de poucas horas. Isso me aterrorizava, sempre tive medo do desconhecido. Decidida a não ficar rolando na cama pensando em mil e uma loucuras, levantei, tomei uma ducha, escovei os dentes, me vesti e prendi o cabelo em rabo de cavalo alto. Peguei o celular, o fone de ouvido, e saí do quarto. Passei na cozinha e comi 3 biscoitos simples. Dei um beijinho no Luck ao passar pela sala, peguei minha chave e desci para academia. Precisava me distrair, tentar liberar a tensão que estava instalada em mim desde que ouvi "Tenho uma coisa meio séria pra falar com você". Ficava ansiosa só de lembrar, por isso mesmo comecei a fazer alguns exercícios aeróbicos enquanto escutava música porque pelo menos naquele momento não precisava ficar pensando no que não queria.
clarabarcelar_: “Don’t lose who you are, sometimes it’s hard to follow your heart. It’s okay not to be okay…tears don’t mean you’re losing. Just be true to who you are.” ️
Passei as duas horas seguintes malhando, até pulei corda. A Manu ficaria orgulhosa de mim. Estava começando a me acostumar e já não sentia tantas dores. Voltei pro apê, fui direto pro chuveiro e aproveitei para lavar o cabelo. Saí do box, me enxuguei, e me vesti, desembaracei o cabelo, e decidi deixá-lo solto para secar por conta própria; não estava com vontade de perder tempo usando o secador. Fui pra cozinha, preparei um café da manhã reforçado, e comi mais do que devia (culpa da ansiedade), disso a Manu não ia gostar, mas ela não precisava saber também. Depois lavei a louça, fui na sala apenas abrir as portas da varanda e voltei pro quarto. Fiquei desenhado até meu celular apitar, notificando uma nova mensagem no whatsapp. "Amor". Brincamos tanto de trocar nossos nomes nos celulares um do outro, que da última vez o meu nome no celular dele terminou ficando o velho e clichê "Amor", assim como o dele no meu, detalhe: foi apenas coincidência, não sabíamos que tínhamos colocado os mesmos nomes mas quando descobrimos, decidimos não trocar mais.
A Duda já chegou?
UAU! Bom dia pra você também, dormi muito bem, obrigada. Também estou com saudades!
Não. Nem sei se minha mãe vem trazê-la hoje ou amanhã, vou saber disso mais tarde
Tô indo aí agora
Ok
Minha ansiedade deu lugar a raiva. Por que estava me tratando de um jeito tão... frio? Nem quando esqueci nosso almoço ele me tratou dessa forma, por mais que eu merecesse. Por quê? Meu Deus, será que esqueci de mais alguma coisa? Uma data importante pra gente, talvez...? Não. Isso não! Guardei meus rascunhos, arrumei a cama, abri as persianas, fui pra sala e liguei a TV. Esperei... esperei... esperei... esperei... e trinta minutos depois a porta foi aberta por ele - lhe dei a chave reserva quando percebi que não havia lógica ele tocar a campainha toda vez que quisesse aparecer. - Nos olhamos por sei lá quanto tempo, não entendi o porque dele ter ficado parado na porta mas estava com tanta saudade que a raiva foi embora rapidinho, levantei e corri para abraçá-lo. Me sentia inatingível nos seus braços, pena que ele não correspondeu da mesma forma e isso me deixou confusa. Mais do que confusa, me deixou com medo. Apavorada é a palavra certa.
Neymar - A gente precisa conversar
Clara - Tem que ser agora? - não queria soltá-lo, na verdade não sabia direito se queria ouvir o que ele tinha pra dizer porque seu rosto estava indecifrável -
Neymar - Sim - olhei-o. Seus olhos estavam tristes, logo os meus também ficaram -
Clara - O que aconteceu para estar sério desse jeito? - soltei-o relutante -
Neymar - É que o assunto é sério... e complicado - não tinha mais pra onde fugir. Na verdade tinha, eu podia muito bem sair, certo? Errado. Não podia ser tão infantil, se ele queria conversar, iríamos conversar. Desliguei a TV, fui pro meu quarto e ele me seguiu em silêncio. Respire, Clara. Acalme-se! -
Clara - Tudo bem, pode falar - incentivei-o, já que os minutos estavam passando, meu nervosismo aumentando, e ele apenas me olhando, me olhando e me olhando -
Neymar - Eu acho que a gente devia dar um tempo - disse depois de um minuto quase eterno de silêncio, com um fio de voz, e esperava ouvir qualquer coisa, inclusive que já tinha assinado com um time do Japão e estava indo pra lá, menos o que eu realmente ouvir -
Clara - Oi?
Neymar - É... apenas um tempo
Clara - Tempo pra que? Por quê? O que está acontecendo? O que você está me escondendo?
Neymar - Não estou escondendo nada - falou com uma intensidade tão grande que cheguei a me arrepiar e não gostei nada disso-
Clara - Então.. por que? - comecei a rir, pensando que aquilo só podia ser uma brincadeira - Está brincando, é isso? Não tem graça, estou rindo de nervoso...
Neymar - Eu... - interrompi-o imediatamente -
Clara - Não teve graça mesmo, meu coração não aguenta, não faz mais isso
Neymar - Clara, eu não estou brincando - gelei -
Clara - Como é que é?
Neymar - É isso mesmo que você ouviu. Vai ser melhor pra nós dois - não estava conseguindo compreender, na verdade todos os meus sentidos se recusavam a entender. Isso não podia estar acontecendo -
Clara - Um tempo? - perguntei com a voz entrecortada -
Neymar - É - não conseguia reconhecer a sua voz, aliás, não conseguia reconhecer a pessoa que estava diante de mim -
Clara - Isso é pra me chamar atenção? Porque eu sei que ultimamente não tenho te dado a atenção que você merece, eu sei que não tenho sido uma boa namorada e nem em mim mesmo tenho pensado nos últimos dias mas você sabe o motivo. Está difícil pra mim
Neymar - Eu sei, e não estou te julgando. Apenas não dá mais. Pra mim não dá. Acho que a nossa história começou no tempo errado - contei de um à dez rapidamente e respirei fundo, mas não adiantou muita coisa, suas palavras me irritaram -
Clara - Tempo errado? - berrei mesmo, aquela conversa estava tomando rumos inesperados - Que tempo? Agora ou a alguns anos atrás?
Neymar - Não dificulta, por favor
Clara - Eu estou dificultado? - minha ironia me fez gargalhar, mesmo com os olhos já ardendo muito - Não, muito pelo contrário, só estou tentando te ajudar. O que você está tentando fazer ou falar? Quer terminar? É isso? Porque se for, chega desses rodeios irritantes e fala logo - pedi, morrendo de medo do que poderia ouvir, desejando que ele não colocasse em palavras, porque ia machucar ainda mais, o que seus olhos já estavam me dizendo - Fala! - insisti mais irritada do que nunca com seu silêncio e o seu jeito indiferente, como se tivesse até ensaiado tudo direitinho, todas as falas -
Neymar - Sim, eu quero terminar! - dor... dor... muita dor... era só isso que conseguia sentir -
Clara - Isso é algum tipo de vingança? Você ficou comigo esse tempo todo pra depois me fazer sentir a mesma coisa que você sentiu quando te deixei? É isso? - fui colocando pra fora as primeiras palavras que consegui organizar em frases na minha mente -
Neymar - Não - respondeu imediatamente - Não, não é nenhum tipo de vingança se isso te faz ficar melhor
Clara - FICAR MELHOR? VOCÊ TEM IDEIA DO QUANTO ESTÁ ME MACHUCANDO? - gritei totalmente fora de mim - Você não está falando coisa com coisa e está me enlouquecendo querendo que eu aceite um adeus sem motivo. Acha mesmo que eu vou ficar melhor? - ele fechou os olhos e apertou-os com força. O que estava acontecendo? Por que estávamos tendo aquela conversa ridícula? -
Neymar - Não quero te machucar. Não quero machucar nem você nem a mim, por isso é melhor terminamos
Clara - Por favor, me diz que isso não passa de uma brincadeirinha de muito mal gosto - arrisquei me aproximar e ele não se afastou - Me diz, eu te desculpo. A gente esquece isso, mas me diz que é uma brincadeira - implorei e as lágrimas não quiseram mais esperar, desceram uma atrás da outra sem dó nem piedade. Ficamos apenas nos olhando por segundos... ou minutos, não sei, pareceram horas. Mas por fim, suas palavras me deram outro soco no estômago -
Neymar - Eu já falei tudo que queria - decretou o final ali, olhando nos meus olhos, com uma frieza que eu desconhecia, e de repente, parecia não ter mais oxigênio no quarto, não consegui respirar direito. Me afastei e virei de costas. Ele estava me deixando, como no meu pesadelo. Meu Deus, ele estava saindo da minha vida, e eu não merecia nem um explicação plausível pra isso. Não conseguia enxergar um palmo à minha frente devido as lágrimas, e quanto mais chorava mais queria chorar -
Clara - Obrigada por ter me feito acreditar que ia ficar do meu lado sempre, inclusive agora quando estou passando por um momento difícil e me deixar na primeira oportunidade por que não dei a atenção que você merece - me obriguei a olhar pra ele de novo e vi o impacto que as minhas palavras lhe causaram - Muito obrigada!
Neymar - Não é assim... - deu um passo a frente, mas deve ter pensando melhor porque voltou atrás - É só que... surgiram novas prioridades pra mim
Clara - Novas prioridades? - passei as mãos no rosto com ódio -
Neymar - Sim, talvez você entenda mais pra frente. Ou talvez não fosse pra gente dá certo mesmo - fiquei boquiaberta, nem o meu pesadelo tinha sido tão cruel comigo -
Clara - Eu não quero entender nada. Eu não quero ouvir mais nada. Tudo que está saindo da sua boca está me destruindo e se é pra acabar, vai logo embora. Te desejo boa sorte com as suas novas prioridades - consegui falar com o que restava da minha dignidade, e ele desviou o olhar do meu -
Neymar - As minhas coisas...
Clara - Leva logo tudo agora - sentei na cama e escondi o rosto com as mãos. Depois de um tempo pude ouvir seus passos pelo quarto, abrindo o guarda-roupa, fechado gavetas, entrando no banheiro. Meus soluços só ficavam ainda mais altos. Por que eu estava ali assistindo o amor da minha vida pegando as suas coisas para ir embora de vez? Porque não saí do quarto? Estava me saindo uma bela masoquista -
Neymar - Clara? - não me movi - A gente precisa conversar sobre a Duda
Clara - É mesmo?
Neymar - É
Clara - Não quero conversar com você
Neymar - Mas precisa
Clara - Por que? - levantei a cabeça - Vai querer tirar ela de mim de novo?
Neymar - Eu terminei com você... - ouvir isso era tão doloroso que comecei a respirar com dificuldade, tentando segurar o choro novamente - Não com a minha filha, então por favor, não nos afaste de novo, é só isso que estou pedindo
Clara - Vai embora
Neymar - Não sem antes você prometer que não vai fazer isso
Clara - Até parece que você dá valor a alguma promessa, não é? Mas eu não vou fazer isso! Agora, pela terceira vez, vai embora! - pedi, voltando a chorar. Não tinha como segurar, mas quando vi que ele ia passar pela porta, não me contive - Júnior? - me olhou imediatamente e vi que seus olhos estavam brilhando, mas não daquele jeito que eu acho lindo - Não sei porque você está fazendo isso... nem sei se quero saber. Mas eu desejo, do fundo do meu coração, que você não me esqueça - não era um desejo. Era mais um pedido, estava implorando para que não fizesse isso -
Neymar - Obrigado - dito isso, saiu rapidamente do meu campo de visão. Ele agradeceu por eu ter pedido para não me esquecer? Oh, Deus! Me faz, por favor, entender tudo que aconteceu dentro desse quarto! Pedi, olhando pro teto. Quando ouvi a porta bater, gritei. Frustrada, com raiva, desesperada e morrendo de vontade de sair correndo atrás dele. Levantei e dei de cara com o guarda-roupa meio aberto, suas roupas não estavam mais no seu cantinho, nem alguns bonés que acabavam ficando na minha parte. Seu perfume não estava mais ao lado do meu, assim como a sua escova de dente que tinha abandonado a minha no banheiro. Doía tanto, que eu só queria destruir tudo que estava ao meu redor, depois sumir. E foi movida por essa vontade que soquei o espelho ao ver o meu reflexo nele. Quebrei-o. Machuquei a minha mão. Gritei ainda mais e me joguei no chão. Saia sangue, e mesmo assim aquela maldita dor não era nada comparada ao que estava sentindo por dentro. Ouvi passos apressados e de repente a Manu entrou no banheiro assustada -
Manu - Clara!! - ela se ajoelhou ao meu lado, não tive forças para olhá-la - O que foi que aconteceu aqui? - pegou a minha mão machucada e avaliou-a, depois olhou para o espelho - Meu Deus... fala comigo, amiga. O que aconteceu?
Clara - Não sei... - talvez ela tenha entendido, talvez não. Eu só sabia chorar -
Manu - Clara, respira... e me conta. Estou preocupada e não gosto disso
Clara - Acabou - seus olhos arregalaram-se quando olhei-a. Ela viu a mesma pessoa humilhada que eu vi quando me olhei no espelho, foi por isso que quebrei-o -
Manu - O que acabou?
Clara - Ele acabou com tudo... terminou comigo
Manu - Como é?
Clara - Não me faz repetir isso, por favor
Manu - Desculpa mas é que... não dá pra acreditar - olhou ao redor do banheiro -
Clara - Ele estava decidido, irredutível e foi tão direto - funguei - Chegou aqui falando uma montanha de coisas sem sentido e por um momento, eu parecia estar me ouvindo quando terminei com ele e o deixei
Manu - Você teve um motivo forte pra isso
Clara - Eu sei... sei também que não vinha tendo tempo nem cabeça pra dar a atenção que ele merece. Não estava sendo uma boa namorada mesmo, sei assumir isso - tentei continuar controlando o choro para falar, mas até o fato de conjugar um verbo no passado doía - Será que ele não conseguia ver o motivo de tudo isso? Meu avô está doente e é só nisso que consigo pensar. Caramba, onde é que ele enfiou o "Vou estar contigo em todos os momentos" e "Mesmo que me mande embora vou continuar aqui"?
Manu - Eu acho que tem algo errado aí, depois vocês conversam - tentou amenizar a situação, como se fosse possível - Não é possível que ele tenha apenas... se enchido de tudo
Clara - Eu não quero conversar com ele, Emanuelle, não quero. Pensando bem agora, ele pode até ter terminando por causa da falta de sexo, então espero sinceramente que ele se dane
Manu - Eu acreditaria, se você acreditasse nas suas palavras também - foi a gota d'água, o choro voltou com força total -
Clara - Porque ele fez isso comigo? Por que? E porque mesmo depois disso eu quero ele aqui? - ela não soube me responder. Tudo bem, eu também não sabia - Devo ser uma merda de pessoa mesmo, não consigo salvar meu avô, não consigo fazer a pessoa que eu amo ser feliz comigo e se brincar não consigo nem ser uma boa mãe. O que eu ainda estou fazendo nesse mundo?
Manu - Ana Clara! - me repreendeu perplexa - Você se ouviu? Ouviu as merdas que disse? Pede desculpas agora!
Clara - Desculpa.... ai, me desculpa, Deus! - escondi o resto novamente, dessa vez com uma mão só, morrendo de vergonha de mim mesma -
Manu - Vem aqui - me puxou para o seu colo, tomando cuidado com a minha mão machucada e vi seus olhos cheios de lágrimas também -
Clara - O mundo resolveu desmoronar em cima de mim e eu não posso fazer nada pra impedir isso, Manu. Até ontem eu sabia que se caísse ele estaria do meu lado, me amparando, me dando forças... e agora? Eu não sei se vou aguentar... não sei mesmo. Estou na beira de um precipício
Manu - Ei, você não está sozinha! Eu não vou largar a sua mão, entendeu? A gente vai dar um jeito em tudo isso, você vai ver. Vai aparecer um doador pro tio Marcos logo e com o Júnior você conversa depois, com mais calma
Clara - Pra que? Ele só queria vingança, você não vê isso? Queria me fazer sentir o que ele sentiu quando o deixei, mas dói tanto...
Manu - Oh, minha menina. Não pensa assim - começou a me balançar no seu colo como se tivesse ninando um bebê e continuou assim por bastante tempo - Vamos levantar, lavar essa mão e correr pro pronto-socorro
Clara - O quê? Não!
Manu - Sim, nós vamos
Clara - Eu mesma posso cuidar disso
Manu - Não pode não. Nem sabemos a profundidade desse corte, está bem feio. E se tiver entrado algum caquinho de vidro na sua pele? Está sagrando muito - olhei pra minha mão, depois para os cacos de vidro espalhados pelo chão e me senti ainda mais horrível do que já estava -
Clara - Tudo bem - murmurei. Levantei com a sua ajuda e percebi que tanto o seu pijama quanto a minha blusa estavam sujos de sangue. Ela colocou minha mão debaixo da torneira, abriu-a e estremeci ao sentir a água gelada, ardeu demais. Depois de lavar direitinho com sabão neutro, o sangue estancou um pouco, ela pegou uma toalha fina de rosto, fez uma volta no corte e amarrou, talvez tenha apertado demais, mas nem reclamei -
Manu - Vou trocar de roupa, me espera - me deixou sozinha no banheiro. O silêncio era perturbador, ainda conseguia ouvir a voz dele me dizendo coisas horríveis, como se tudo aquilo não o abalasse em nada, como se quisesse que eu o odiasse. “Vai ser melhor pra nós dois”, pois bem, não foi. E mesmo assim, não conseguia odiá-lo, por que? Por que não? Se eu o odiasse tudo ia ser tão mais fácil. Olhei para o espelho quebrado. Aquela não era eu. O que é que eu tinha feito? Já estava completamente arrependida porque minha mão direita latejava, e o que tinha ganhado, além de mais uma dor pra suportar? Um problema a mais, já que sempre fui destra -
Clara - Burra! Mil vezes burra! - saí do banheiro me xingando muito, com raiva de tudo, de mim principalmente. Tirei a blusa manchada de sangue, fechei os olhos, abri o guarda-roupa e tentei a sorte: consegui pegar uma regata cor de rosa, e vesti-a sem pensar muito porque meus movimentos era meio robóticos; não fazia porque queria, e sim porque precisava. Por que fechei os olhos? Pra não ter que ver o vazio que estava ali dentro, talvez doesse menos. Peguei meus documentos, coloquei no bolso e fui pra sala. Meu quarto nunca mais seria o mesmo pra mim. Sentei no sofá, olhei pra varanda e meu subconsciente gritava com um louco que a sacada nunca esteve tão convidativa, "Vai lá, as dores passam rapidinho!" Fiquei enojada por não ter conseguido impedir esse pensamento horrível. Balancei a cabeça para afastá-lo, fechei os olhos e disse pra mim mesma que não ia mais deixar isso acontecer. Não podia deixar meus pensamentos pisarem no que ainda restava de mim. Minha vida estava como o espelho que quebrei: em pedaços. Eu estava destruída, mas continuava viva. Meu avô precisava de mim. Minha filha precisava de mim. Meu Deus, minha filha! Como é que eu pude pensar em uma atrocidade tão grande, tendo um ser ainda tão dependente de mim? Minha bonequinha... Ah, que ódio! -
Manu - Vamos? - levantei a cabeça ao ouvir sua voz. Ainda bem, estava começando a ter medo da direção dos meus devaneios nada coerentes. Não falei nada, apenas levantei, ela pegou as chaves e saímos. Não descemos direto na garagem, como eu esperava, mas sim na portaria. Manu falou com o porteiro e digitou algumas coisas no celular, acho que estava pegando o endereço de onde queria me levar. Permaneci em silêncio o tempo todo, depois fomos para garagem, entramos em seu carro e ela deu partida - Está doendo?
Clara - Sim, muito - sabia que ela estava se referindo a minha mão, mas entendeu o que eu quis dizer. Rapidamente chegamos naquele que, suponho eu, era o pronto-socorro mais próximo. Ela estacionou, saímos do carro, entramos e fomos direcionadas para a ala de emergências. O lugar estava lotado e eu só fui atendida um hora e meia depois. Uma enfermeira me perguntou o que tinha acontecido enquanto tirava a tolha da minha mão e quando disse que tinha socado um espelho, ela olhou pra mim como se eu fosse uma louca que esqueceu de tomar os remédios... mas não disse nada e foi chamar o médico. O corte foi grande; não quis olhar muito pra ele, mas fiz um belo estrago e ainda levei dois pontos. Nunca havia levado um único ponto em 21 anos de vida. Durante o processo chorei como uma criança, não porque estava doendo (a anestesia fez efeito), mas sim porque lembrava o tempo todo o que me fez ir parar ali. Minha mão ficou quase toda enfaixada, só o polegar ficou de fora. Que maravilha, como é que eu ia dirigir? Tudo só estava piorando e a culpada era eu mesma. No fundo sabia que eu tinha uma parcela de culpa em tudo. Tudo mesmo. Fugi daquele lugar quase claustrofóbico assim que ouvi que estava liberada -
Manu - Nada de desenfaixar antes dos cinco dias que o médico pediu, ok?
Clara - Eu preciso trabalhar, Manu. Como é que vou dirigir assim? - mostrei a mão pra ela -
Manu - Posso te levar
Clara - Não. Posso deixar isso aqui até amanhã, na segunda antes de sair, tiro e faço um curativo menor
Manu - Clara...
Clara - Tá vendo? Era por isso que não queria vim aqui
Manu - Eles fizeram o certo e o melhor pra você, então deixa essa mão quieta e enfaixada durante os dias recomendados
Clara - Ok, vamos pra casa, por favor - não contestou mais, entramos no carro e o silêncio voltou. Ela parou em uma farmácia, comprou pra mim anti-inflamatório e uma pomada para curativos que o médico receitou, agradeci e seguimos pra casa. Quando chegamos, ela me ajudou a tirar o que tinha sobrado do espelho, recolher os cacos e limpar o chão que tinha umas manchinhas de sangue. Depois deitei e fiz a única coisa que que tinha vontade de fazer: chorei. Repassei mentalmente os últimos momentos que vivi com o Júnior; queria entender onde eu havia errado mas só consegui sofrer ainda mais porque parecíamos tão bem, felizes até. Não estávamos na nossa melhor fase, muito por minha causa, mas tinha plena consciência que se voltássemos no tempo, a duas semanas atrás mais ou menos, eu agiria da mesma forma. Afinal, como ia mudar o meu jeito de ser? Sempre fui extremamente altruísta, sempre pensei nos outros antes de mim, e achei que ele me conhecesse, que íamos estar juntos em todos os momentos, em todas as fases. Boas ou ruins. Caramba, ele prometeu! Que valor eu daria as promessas agora? Ele não cumpriu com a sua. Não cumpriu e eu, idiota, ainda pedia à Deus pra ele voltar me pedindo desculpas, dizendo que tudo não tinha passado de um mal entendido terrível. Sabia que isso estava muito longe de acontecer, pra não dizer que era impossível mesmo. A gente já viveu isso e repetir parecia ser duplamente doloroso. Ouvi meu celular tocar em cima da mesinha mas nem me mexi. Ele continuou tocando, então a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi: jogá-lo na parede. Só que lembrei que não era a única pessoa com problemas no mundo, podia ser algo importante, inclusive envolvendo meu avô. Levantei e peguei-o. Minha mãe. Respirei fundo algumas vezes e clareei a voz, ainda bem que tinha conseguido parar de soluçar.
- início -
Débora - Minha filha, até que enfim
Clara - Oi, mãe
Débora - Você está bem? Que voz é essa?
Clara - Estava dormindo
Débora - A essa hora?
Clara - É que... acordei cedo demais e fui malhar, daí o cansaço se apoderou de mim. Cadê a Duda? - perguntei antes que desse continuidade ao interrogatório porque ainda não estava em condições de falar nada -
Débora - Está ensinando o Murilo a brincar com o tablet dela, um amor - riu - Você vai lá no hospital amanhã?
Clara - Vou
Débora - Então de lá você vai pra casa com ela, pode ser?
Clara - Pode, claro
Débora - E obrigada por ter deixado ela ficar durante esses dias aqui, tá? Nos distraiu bastante. Ela é uma criança tão maravilhosa, cada dia nos surpreende mais
Clara - Não precisa agradecer, mãe. Tenho certeza que a Duda também gostou de ficar aí com vocês e é isso que importa
Débora - Tudo bem, quer falar com ela agora?
Clara - Não, eu ligo depois
Débora - Então tá, um beijo
Clara - Beijo
- término -
Coloquei o celular no mesmo lugar e voltei a deitar. Uns vinte minutos depois, a Manu entrou no quarto e sentou na pontinha da cama mas permaneci quieta, fitando o teto.
Manu - Clara? - me chamou quase como um sussurro e eu olhei-a - Reage. Eu não aguento te ver assim, é sério. Seus olhos estão quase se fechando de tão inchados, já viu isso? - balancei a cabeça, negando - Nem veja. Você vai querer quebrar outro espelho e vai terminar machucando a outra mão - não respondi, nem esbocei nenhuma reação, por isso ela deitou ao meu lado e suspirou profundamente - Não sei muita coisa sobre o amor, você me conhece e sabe disso né? - deduzi que fosse uma pergunta retórica, portanto não respondi - Só sei o suficiente para ter certeza de que amo o meu namorado, ele me ama e...você e o Júnior também se amam muito - ficou durante alguns segundos em silêncio - Ou se amavam muito, desculpa, depois de tudo que aconteceu hoje minha cabeça está uma confusão. Mas a relação de vocês era invejável, vocês se entendiam só com um olhar, sorriam ao falar o nome um do outro, pouco brigavam, sabiam conversar, e isso porque acima do namoro vinha a amizade. Uma cumplicidade linda, e todo mundo via isso - sabia muito bem o que ela estava querendo e tentando fazer, sabia porque estava usando o pretérito perfeito, sabia... e aquilo era a pior forma de tortura que podia existir. Apertei os olhos com força, mas ela achou que ainda não era o suficiente - Vocês não... - só que não deixei que terminasse e explodi -
Clara - CHEGA, MANU! CHEGA!! - levantei o mais rápido que consegui por causa da minha mão e ela nem se assustou porque era o que estava esperando - Queria que eu gritasse? Queria que eu reagisse? Ok, conseguiu, mas chega, pelo amor de Deus, eu não aguento mais!! - desabei num choro desenfreado. Ela levantou imediatamente e me puxou com facilidade para um abraço mais do que apertado -
Manu - Sim, era exatamente isso que eu queria, desculpa se te magoei. Não queria falar essas coisas, mas precisei... você estava parecendo uma morta-viva e isso me assustou. Pode gritar comigo à vontade, me xinga também se quiser mas coloca tudo isso pra fora, não guarda pra você, é muito pior - falava baixinho enquanto acarinhava o meu cabelo - Nunca passei por isso, não imagino o quanto, mas sei que está doendo, só que infelizmente não posso te dizer nada além daquilo que a maioria das pessoas dizem... Vai passar, amor. Vai passar - me soltou um pouco e passou as mãos no meu rosto, enxugando-o; totalmente em vão porque no segundo seguinte mais lágrimas já estavam rolando - Promete que não vai ficar aqui dentro trancada durante os dias seguintes? Promete pra mim que vai viver e não apenas sobreviver?
Clara - Eu... - não podia, não podia, não podia. Promessas tinham perdido totalmente o sentido pra mim - Não me faz prometer nada - consegui pronunciar entre soluços -
Manu - Tudo bem, desculpa. Mas não estou pedindo isso por mim, é por você mesma. Só hoje vou te deixar aqui quietinha e sozinha, e não vou entrar no quarto se você não me chamar, ok? - assenti, tentando me controlar - Amanhã eu quero a minha melhor amiga, que por sinal é muito mais forte do que pensa, de cabeça erguida e disposta a enfrentar qualquer coisa
Clara - Obrigada - fiquei emocionada com as suas palavras e a sua paciência comigo -
Manu - Eu amo você, só quero te ver bem
Clara - Eu também amo você
Manu - Não duvido disso - sorriu de lado, enxugou meu rosto novamente e beijou minha bochecha - Qualquer coisa, é só chamar - assenti de novo e ela saiu do quarto. Sentei novamente e pensei em tudo que ouvi, em tudo que a Manu teve coragem de me dizer, como boa amiga que é e sempre foi. Ela tinha toda razão. A vida segue pra todo mundo, não é verdade? Não podia me dar ao luxo de chorar o dia todo... ou a semana toda (era o que estava planejando fazer). Minha vida não ia parar pra eu poder sofrer à vontade pelo meu amor perdido, depois voltaria ao normal como se nada tivesse acontecido. O tempo não espera por ninguém, essa é a realidade de todos. Respirei fundo e levantei da cama. Queria e precisava ocupar a minha mente ou podia entrar em uma depressão profunda, o que seria dramático demais, para não dizer patético. Tinha que tomar a iniciativa e fazer algo, por isso peguei meu porta CD e enquanto procurava por um percebi que nada ali ia me fazer bem, todas as músicas me fariam lembrar do que não queria -
Clara - Droga! - praguejei, depois me dei conta que já tinha esgotado minha cota de xingamentos - leves ou não - do dia. Lembrei de um CD do Timberlake (da Manu, é claro, e eu suspeitava que ela não sabia que estava na minha mão), achei-o entre as minhas coisas e o coloquei no macbook. Dei play e aumentei até onde deu, não queria de jeito nenhum ouvir meus pensamentos, ou até LoveStoned/I Think She Knows ia me fazer chorar. Comecei uma faxina louca no meu quarto, tirei e troquei de lugar tudo que podia, desarrumei e arrumei de novo minha prateleira de livros, limpei a poeira inexistente até de cima do guarda-roupa, o que quase me rendeu uma queda porque subi na cadeira giratória, me desequilibrei e não pude me segurar com as duas mãos; sempre fui péssima só com a esquerda. Mas enfim, não caí, foi só um susto. Troquei o lençol, o edredom e todas as fronhas, ou o perfume que estava impregnado em tudo ali não me deixaria dormir. Entretanto, ainda havia o urso que ganhei na véspera do Natal... não podia me desfazer dele. Pensei em colocá-lo no quarto da Duda mas de qualquer forma ia vê-lo sempre, então que ficasse no mesmo lugar. “Não faça isso! Tire-o daqui agora!” meu lado racional gritava comigo. “Deixe-o aí. Você quer que ele fique!” sussurrava meu - abaladíssimo - lado emocional. Será que é difícil adivinhar qual lado eu ouvi? Certamente não... O urso tinha um lugar especial: a cabeceira do lado esquerdo da cama era só dele. Me aproximei devagar, como se tivesse até com medo e vi o cartãozinho entre os dois corações. Li aquele simples papel tantas vezes que já sabia tudo que estava escrito ali. Mesmo assim, como se não bastasse ver e lembrar, peguei-o e li mais uma vez.
“Não tem preço sonhar com você, acordar e ao abrir os olhos lembrar que você está do meu lado. Não tem preço dormir de mal jeito, acordar com dor e de quinze em quinze minutos olhar pra ver se eu não estou roubando seu lençol. Não tem preço fechar os olhos e sentir o ar quente da sua respiração no meu rosto, ou virar pro outro lado e ser envolvido pelos seus braços. Não tem preço tentar dormir e acordar com você rindo por algum motivo que só Deus deve saber, ficar brincando de ordenar o inspira e o expira só pra lembrar que até na hora de respirar somos iguais. Não tem preço ter você ao meu lado deitada, de pé, sentada, nas noites frias, quentes, alegres ou tristes. Não tem preço ter você. Obrigado por existir.”
Engoli cada lágrima com uma dificuldade sem tamanho, mas não chorei. Fiz de tudo: olhei pra cima, apertei os olhos, segurei a respiração...não chorei. Não queria chorar. Guardei o cartãozinho dentro de uma gaveta que nunca usava, na parte de baixo da mesma cabeceira do urso, onde posteriormente também guardei a gargantilha que ganhei em Paris quando me disse “Que seja eterno enquanto dure”. E com uma dor ainda maior no coração, tirei a pulseira que ele me deu quando me pediu em namoro de novo, a data que nos conhecemos gravada no símbolo do infinito me destruiu. Balancei a cabeça para espantar as recordações, estava começando a não gostar mais de lembranças, porque com elas as lágrimas vinham facilmente, e eu sabia que teria uma grande e constante batalha pela frente, uma guerra entre lembrar e esquecer. Quando dei minha faxina como terminada, olhei sem querer para meu mural de fotos e meu coração se reprimiu instantaneamente. Não ia me fazer bem olhar para certas fotos, mas eu estava preparada para tirá-las dali? “Não faça perguntas! Tire-as, é para o seu bem!”, ok... dessa vez decidi ouvir o lado racional sem nem esperar os argumentos do emocional. Tirei todas as nossas fotos e guardei-as na mesma gaveta de recordações. O mural ficou tão mais vazio... então peguei um álbum que sempre guardei junto com minhas pastas de desenho e adicionei fotos minhas com a Duda de um ensaio que fizemos (presente da minha mãe) nos espaços que tinham ficado vazios.
Pronto, só faltava providenciar outro espelho para o banheiro, faria isso depois, de preferencia com a minha mão já 100% boa. Por falar nela, acho que exagerei nos esforços porque começou a doer. Precisava tomar o remédio, e antes disso precisava colocar algo a mais no estômago. Tirei o CD, desliguei o mac e antes de sair do quarto, vi um pedaço de papel no chão. Ele não estava ali a pouco tempo atrás, pelo menos eu não tinha visto. Peguei-o e o abri.
“Certo, você não me chamou mas eu também não cheguei a entrar no quarto, então mantive a minha palavra. Só queria dizer que aprovo a trilha sonora e que já tinha desistido de achar esse CD. Obrigada por encontrá-lo.
PS:. Já passou da hora do almoço, vem comer!!”
Coloquei o papel em cima da mesinha, saí do quarto e fui direto pra cozinha.
Manu - Oi, veio almoçar? Fiz lasanha - apontou para a travessa que estava em cima do fogão e eu franzi a testa - Ai, ok. Só fiz tirar da caixinha e colocar no microondas. Não queria comer minha omelete hoje de novo - fez uma careta - É de frango com catupiry - sorriu um pouco, é a minha predileta - Ah, meu Deus! Mas será que você pode comer? E se inflamar seu machucado? Nem tinha pensado nisso - ficou meio desesperada, parecia até minha mãe -
Clara - Não sei se vai descer algo, mas vou tentar porque quero tomar o remédio e é melhor não arriscar, um macarrão instantâneo está de bom tamanho
Manu - Está incomodando muito?
Clara - É suportável. Mas quanto menos dor sentir, melhor
Manu - Entendo, senta aí que eu faço o macarrão - sentei e esperei. Quando ela colocou o prato na minha frente, me dei conta de que estava realmente com fome, só não tinha vontade de comer. Fiz um esforço enorme, mas não dava pra segurar o garfo com firmeza com a mão direita e comer com a esquerda se tornou uma tarefa difícil, parei depois da quinta garfada, e comi mais do que achei que comeria, porém, a Manu ainda me fez tomar um copo gigante de suco de maracujá, fiquei quase dopada. Suco de maracujá em demasia, quando não leva minha pressão para o ralo, me faz dormir. E não deu outra, assim que tomei o anti-inflamatório, deitei no sofá e apaguei. Acordei recebendo lambidas por todo o rosto, abri os olhos e o Luck me encarava, como se tivesse me dizendo que já tinha dormido demais e estava na hora de acordar. Olhei ao redor e a sala já estava escura... o Luck tinha razão. Bati levemente no meu colo, chamando-o, e ele subiu rapidinho, deitando em cima de mim, com o focinho bem perto do meu rosto -
Clara - Você não vai me abandonar também, né? - fiz um carinho na sua cabeça e ele tentou fazer a mesma coisa que me acordou, mas virei o rosto - Tudo bem, já entendi que não, obrigada - poderia dizer que estava me sentindo ridícula conversando com um cachorro mas o fato é que não estava e naquele momento a presença dele era bem reconfortante. Ouvi passos vindo do corredor e a Manu surgiu na sala logo depois - Não vai sair?
Manu - Não
Clara - É sábado
Manu - Eu sei
Clara - Não tem nenhum compromisso?
Manu - Não
Clara - Você tinha, mas desmarcou - deduzi, mas sabia que não estava errada -
Manu - Desmarquei
Clara - Por quê?
Manu - Prefiro ficar aqui. Nada, nem ninguém é mais importante que você hoje
Clara - Trocou uma diversão garantida ou, talvez um jantar com o seu namorado pela minha chata companhia em um sábado à noite?
Manu - Ele está trabalhando - piscou - Não se preocupe. Eu te aturo, você me atura e isso basta
Clara - E se eu te pedir pra mudar de ideia e sair?
Manu - Sinto muito, mas não vai adiantar
Clara - Quer mesmo ficar aqui?
Manu - Quero. Comprei um super pote de sorvete e separei o box completo de Gossip Girl pra gente assistir e dizer as falas dos personagens antes deles até enjoar, como fazíamos em Florianópolis - sorriu e eu tentei fazer o mesmo por causa do seu esforço em me fazer bem -
Clara - Eu já te agradeci hoje?
Manu - Sim - agachou um pouco para ficar à minha altura - Você faria o mesmo por mim? - assenti - Eu sei que sim - sorriu - Então, ficamos aqui, vamos pro meu quarto ou pro seu?
Clara - Não sei... podemos ficar aqui mesmo
Manu - Ótimo, vou pegar as coisas - levantou e sumiu no corredor. Fiz o Luck sair do meu colo para levantar também, fui ao meu quarto, e peguei o celular. Havia duas chamadas perdidas da Tia Ná, pensei... pensei... pensei... pensei e decidi não retornar. Voltei pra sala, pro meu sofá e marquei o número da minha mãe. Depois do quarto toque, alguém atendeu.
- início -
Eduarda - Mãe!! - gritou eufórica -
Clara - Oi, meu amor
Eduarda - A vovó disse que sabia que era você e me deixou atender - riu - Você vem aqui também?
Clara - Por que, também? Quem foi aí?
Eduarda - Meu pai - meu coração começou a palpitar descontroladamente - Mas ele foi embora muito rápido - não estava vendo, mas sabia que ela estava fazendo beicinho -
Clara - O que ele fez aí?
Eduarda - Me deu um abraço e foi embora - riu, estava bem feliz e isso era obvio - Ah, e disse que me ama - fiquei durante alguns segundos processando o que ouvi. Saber que ele esteve com ela me deixou um pouco agoniada. Ele não contou nada, então... era pra eu contar? Será que até isso teria que sobrar pra mim? - Mãe? Você tá aí?
Clara - Sim - tentei retomar a falar, preferi não comentar nada e fiz um esforço para lembrar o que ela tinha perguntado antes - Não, hoje não vou aí, pequena. Mas amanhã a gente vai se ver. Está com saudades de mim?
Eduarda - Sim. Muitas, muitas, muitas - repetiu mais algumas vezes mas parei de contar na terceira porque ela começou a rir -
Clara - Também estou morrendo de saudades - meu coração, que estava tentando voltar ao seu ritmo normal, apertou um pouquinho e senti vontade de chorar. A saudade era enorme mesmo, e juntando isso com os acontecimentos do meu dia as lágrimas não achariam dificuldades para rolar - Já jantou?
Eduarda - Ainda não, mas a vovó tá chamando
Clara - Então vou desligar, come tudinho e não esquece de escovar os dentes antes de dormir
Eduarda - Eu sei, eu sei
Clara - Dorme bem, amor. Eu te amo muito - sabia que se ela estivesse na minha frente teria ficado igual um tomatinho -
Eduarda - Também te amo, mãe. Beijo - soltou mesmo um beijo e ouvi ela entregar o celular pra minha mãe encerrar a ligação.
- término -
Só quando desliguei percebi que a Manu já estava na sala também, com dois cobertores, o box de DVDs de uma das nossas séries favoritas, um super pote de sorvete ferrero rocher e duas colheres. Sabia que não ia consegui prestar atenção como queria mas não podia fazer uma desfeita tão grande à minha amiga; não quando ela deixou de sair e se divertir pra me fazer companhia em um dos piores dias da minha vida. Ela começou a colocar o primeiro DVD enquanto minha mente, muito longe daquela sala, trabalhava a mil por hora; ele foi vê-la, mas não disse nada pra ela. Queria entender se isso era bom ou ruim, mas ainda não tinha como saber, então voltei a dar atenção as minhas hipóteses loucas, que ainda procuravam um motivo acreditável para me fazer entender de uma vez por todas quão real tinha sido o meu dia. Eis as hipóteses: a) Simplesmente cansou de mim, como no meu pesadelo. b) Não aguentou a pressão da doença do meu avô no nosso relacionamento. c) Já está de malas prontas para ir embora, sair do Brasil e realizar o sonho de jogar em um grande clube europeu. Meu peito doía só de pensar em todas as alternativas e antes que a Manu visse, passei a mão esquerda no rosto, limpando as duas lágrimas que rolaram sem que eu percebesse. Droga! Respirei fundo e uma voz que já não ouvia a um tempinho me chamou a atenção na televisão. “Aqui é a Gossip Girl, sua primeira e única fonte sobre a vida escandalosa da elite de Manhattan.” Foco na TV, Clara! A Manu fechou as portas da varanda e as cortinas, e a sala escureceu ainda mais, depois sentou ao meu lado e beijou minha bochecha. Colocou os cobertores sobre nós, da cintura pra baixo e o pote de sorvete no meio de nós duas. Qual a lógica de tomar sorvete como se tivesse com frio, enrolada em um cobertor? Bem, não tem lógica. Achávamos engraçado quando fazíamos isso em Florianópolis e sim, dizíamos as falas dos personagens antes deles e ríamos como malucas. A única diferença ali, naquele momento, é que eu não conseguia ver graça em nada e pior fiquei quando o casal preferido da Manu protagonizou uma cena que me levou as lágrimas.
“- O que quer que seja que você está passando, eu quero estar aqui por você.” – Blair
“- Nós falamos sobre isso. Você não é minha namorada.” – Chuck
“- Mas eu sou eu. E você é você. Nós somos Chuck e Blair. Blair e Chuck. A pior coisa que você já fez, o pensamento mais sombrio que você já teve, eu ficarei do seu lado até o fim de qualquer coisa.” – Blair
“- E por que você faria isso?” – Chuck
“- Porque eu te amo.” – Blair
Claro que já tinha assistindo aquela cena antes (e nunca havia chorado por causa dela), mas naquele momento só tive vontade de pegar o DVD e quebrar em pedacinhos. Me contive. A Manu pulou de episódio ao ver o meu estado mas não falou nada, e eu me obriguei a continuar assistindo. Fomos dormir quase meia noite, ela até tentou ficar comigo mas tinha quase certeza de que o Gil ainda ia aparecer, por isso pedi pra ficar sozinha e ela respeitou. Quando entrei no meu quarto senti uma solidão dolorosa, mesmo com o Luck deitado no seu cantinho. Nem troquei de roupa, deitei na cama do jeito que estava mesmo, infelizmente fiquei acordada durante horas, me martirizando com meus próprios pensamentos e quando o sono chegou, tentei resistir... mas adormeci abraçada ao urso.
Olá, amores
Como vocês estão? Eu, apesar de ter chorado horrores (sem dúvida foi o que capítulo que mais me fez chorar), estou feliz porque foi um dos mais fácies de escrever também. Deve ser porque gosto de uma pitadinha daquele drama básico que vemos em novelas ou filmes, daí as coisas fluem com mais facilidade, não sei... o fato é que gosto de escrever brigas, separações e afins. Espero que continuem gostando de mim depois de descobrirem isso ahahahahahaha. Estava ansiosa pra escrever esse capítulo e para postar, agora estou ansiosa pra saber quais vão ser as reações de vocês.
As reações do capítulo anterior foram surpreendentes, como sempre. Amei muito ler cada opinião/sugestão, é realmente muito importante pra mim!
Para finalizar, respondendo a uma das minhas lindas anônimas: Não, não pretendo ser escritora!
PS: O blog alcançou mais de 300.000 de visualizações em apenas 1 ano, 1 mês e 17 dias! OMG! Vocês são...UAU! Nem tenho palavras! Obrigada, obrigada, obrigada. Amo vocês!! <3









