terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Capítulo 62 - “Eu queria te ver bem, mesmo que pra isso, eu precisasse ficar mal”

Os dias que sucederam o episódio do beijo nada tiveram de diferente. Não houve mudanças mas eu meio que já esperava por isso. Minha relação como Júnior continuou a mesma: parcial, educada e no mínimo, respeitosa. Agimos como se nada tivesse acontecido, como se não tivéssemos falado nada de importante no seu quarto. Na verdade, aquele dia parecia ter sido extinto da nossa convivência, ou pelo menos era isso que nós dávamos a entender, já que não tocamos mais nesse assunto. Por quê que eu falaria sobre isso sabendo que ele ainda estava com a outra? Do que adiantaria? Por que me humilharia? Claro que não! Doía, mas não podia dar o braço a torcer, então tinha que manter o meu papel e continuar fingindo que sofria de amnésia também. Só com a Duda conseguíamos ser nós mesmos, sem nenhuma máscara. Como prometi, passamos a ficar mais tempo juntos, os três, ríamos e até brincávamos... mas só com ela e por ela. Meu pai tinha toda razão, acima de tudo tínhamos uma filha, o nosso bem mais preciso, então precisávamos fazer os nossos papéis de pais.
Descarreguei toda minha frustração emocional e amorosa na academia (consegui até emagrecer sem querer) e no trabalho. A ideia que eu e a Gio tivemos sobre o blog foi pra frente, criamos o Bem, amigas e a cada dia o número de visualizações e comentários só crescia no site. 
Também fiz o que, pra Manu, foi uma loucura impensada e eu iria me arrepender depois mas pouco estava me importando porque sabia que isso não iria acontecer. Na parte superior interna do braço esquerdo, tatuei um trecho de uma das minhas músicas prediletas da Jessie “Tears don't mean you're losing”, que tinha um significado importante pra mim, principalmente no estado atual em que me encontrava “Lágrimas não significam que você está perdendo”. E no tornozelo, expressei minha outra paixão com o desenho de uma câmera fotográfica bem pequena e discreta, com “Carpe Diem” escrito nas bordas da lente. Pensei muito bem antes de fazer as duas, por isso sabia que não me arrependeria. Pelo contrário até, estava completamente apaixonada por ambas.
Nesse meio tempo, também recebi um cartão-postal da Marie, a namorada do Lucas que conheci em Paris, e lógico que não havia esquecido-a, só que como tínhamos mantido pouco contato até então, não achei que ela lembrasse de mim. Fiquei muito surpresa e muito feliz, ainda mais por ter reconhecido o seu esforço para escrever a dedicatória em português. Retribuí o carinho e com a grande ajuda da Fatinha, mandei um pra ela também escrito em francês. 
Tirando isso, nada bom o suficiente para ser contado ou lembrado, aconteceu comigo até o mês de março finalmente chegar ao fim, (ao meu ver, demorou mais do que o normal). Quero dizer... isso por que não considero o fato de passar a usar óculos de grau algo... bom. Foi necessário. Graças aos resultados dos últimos exames de rotina que fiz no oftalmo depois de algumas dores de cabeça em sequência. E antes mesmo de saber o motivo pelo médico, minha avó já sabia. No fundo, eu também, afinal ela sempre usou óculos pra ler, meus pais também... a probabilidade dessa herança passar pra mim era grande. Porém, eu tinha apenas um pequena hipermetropia que podia ser corrigida com o óculos de descanso; principalmente para leituras, computadores ou TV. Resumindo, ao utilizá-lo eu criaria o hábito de enxergar sem dores e sem desconforto, quanto mais usasse, melhor e mais rápido podia me livrar dele. Isso não quer dizer que sem o óculos não enxergava mais nada, mas andava me dando bem com ele, estávamos conseguindo conviver em harmonia. Foi uma surpresa e tanto, entretanto, como tudo na minha vida, tive que aprender a lidar. Além do mais, era para o meu bem. 
 Abril mal começou e eu iniciei a minha contagem regressiva interna também, pra manter a esperança lá em cima até a chegada do tão esperado dia 10. E ele chegou! Quando acordei na quinta-feira que mais esperei chegar em toda minha vida (por sorte, dia de folga pra mim, se tivesse que ir trabalhar ficaria com a cabeça no hospital o dia todinho), antes de qualquer outra coisa, fiz uma pequena oração. Primeiro agradecendo a Deus pela oportunidade que estava dando à vida do meu avô, e depois pedindo para que continuasse dando tudo certo. Estava me sentindo quase feliz. Faltavam duas coisas pra me sentir totalmente completa: a primeira era ouvir do médico que tudo já estava bem com meu avô depois do transplante, e a segunda coisa... Bem, a segunda já me fazia falta a um bom tempo, então nem adiantaria falar sobre. 
 A Duda dormiu na minha cama, não a levaria para a escola porque ela pediu pra ir comigo pro hospital e apesar de saber que aquilo não é ambiente pra ela, não consegui dizer não. Podia até ser um pouco egoísta, mas a verdade é que queria a minha filha ao meu lado sim e dane-se a lógica, o que é certo ou o que falariam. Acordei-a também, e depois de me dá um beijo gostoso de bom dia, ela pulou da cama pra ir escolhendo sua roupa. Sorri sozinha, lembrando de quando eu ainda precisava fazer isso por ela. Levantei também, arrumei a cama e não fiz questão de demorar muito olhando pro guarda-roupa, isso era o menos importante. Peguei uma legging preta, uma regata simples e completaria o look com uma sapatilha. Deixei tudo separado e fui ver a Duda, em cima da sua cama já tinha um vestido sem manga estampado, um conjunto blusa e saia nas cores azul e preto e outro de calça e blusa com estampa do snoopy. Ia rir, mas sei lá como, lembrei do Réveillon: quando o pai dela também estava indeciso com a roupa que ia usar. Por quê eles tinham que ser tão parecidos em tudo? 
Eduarda - Não sei o que vestir, mãe - fez biquinho - 
Clara - Posso ajudar? - ri, e ela assentiu rapidamente - Hum, acho que prefiro a calça com a blusa do snoopy porque o ar condicionado do hospital é muito forte, filha - ela olhou para as roupas, depois pra mim de novo e por fim, concordou. Guardou direitinho as outras e entrou no banheiro. Tomou banho, escovou os dentes e eu enxuguei-a, vesti-a e penteei seu cabelo. Ela calçou uma sapatilha também, se perfumou e fomos pra cozinha. O Luck ainda dormia. Enquanto preparava algo pra ela comer, vi um bilhetinho da Manu colado na geladeira. 
 "Sei que já sabe que não posso faltar no trabalho, mas minhas vibrações positivas vão estar no hospital e vou pra lá assim que der. 
                                                                 Beijo, te amo" 
Sorri. Que fofa é a minha amiga! Deixei a Duda tomando seu leite com wafer e fui pro meu quarto. Tomei um banho mega rápido, escovei os dentes, me enxuguei, passei hidratante no corpo e me vesti. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo meio doido, me perfumei e tirei o celular do carregador. 
 clarabarcelar_: “E que seja o que for pra ser, ou melhor, que seja o que for da vontade de Deus.”   
Voltei pra cozinha pra esperar a Duda terminar de comer, respondi algumas mensagens daqueles que desejavam boa sorte ao meu coroa lindo, depois saímos. Descemos, destravei as portas do meu carro, prendi minha pequena na sua cadeira, entrei também e dei partida. A medida que ia chegando perto do hospital, minha calma ia se dissipando, tanto que quando estacionei já estava uma pilha de nervos. Mas não ia deixar isso transparecer, nem podia. Eu e a Duda entramos, peguei o crachá de identificação e subimos para o andar indicado. Meus pais já estavam presentes, e a minha avó... Bom, a Dona Glória estava no hospital desde o início da semana, quando meu avô foi internado para começar a se preparar para o transplante. Claro que a Duda, mesmo sem saber, ajudou bastante a diminuir o nervosismo deles, conversando sem parar; ao contrário do meu, que só aumentava. O relógio de parede da sala da recepção parecia estar parado, sério, estava começando a achar que ele só ia marcar 09h no próximo século. Levantei, comecei a andar de um lado pro outro, quase abrindo um buraco no chão, até ouvir o que menos esperava naquele momento.
Eduarda - Pai! - demorei uns cinco segundos para olhar pra trás. A Duda já estava nos braços do Júnior, e ao lado dele, a Rafa e a Tia Ná sorriam pra mim. Fiquei pasma, por isso nem reagi direito quando as duas me abraçaram mas estava feliz por elas estarem ali. O meu problema era outro e estava na minha frente, olhando diretamente pra mim. Me aproximei um pouco mais dele, só o suficiente para as outras pessoas que também estavam na recepção (e que por sinal, prestavam atenção em nós) não ouvissem -
Clara - Posso falar com você?
Neymar - Agora? - franziu a testa -
Clara - Se possível, claro - ele olhou pra Duda, deu um beijo no rosto dela e a colocou no chão. Ela foi pra perto da Rafa e eu caminhei para perto dos elevadores, tinha menos gente por ali, ele me seguiu -
Neymar - O que aconteceu?
Clara - Eu que pergunto. Está fazendo o quê aqui?
Neymar - Quê?
Clara - Quero saber porque está aqui
Neymar - Precisa mesmo que eu lhe dê um motivo?
Clara - Lógico! Você abandonou o meu avô e hoje se acha no direito de estar aqui?
Neymar - Abandonei? - perguntou muito surpreso -
Clara - Sim! Abandonou
Neymar - Do que você está falando? - revirei os olhos, sem um pingo de paciência -
Clara - Quantas vezes você foi vê-lo depois que terminou comigo?
Neymar - Não muitas, mas sempre que pude - quase caí pra trás -
Clara - Como é que é?
Neymar - Visitei o vô Marcos sim, sempre em horários diferentes do seu, mas visitei - ele chamou o meu avô de? -
Clara - Você está me dizendo que visitava o meu avô? Na casa dos meus pais?
Neymar - Sim
Clara - Não brinca com coisa séria
Neymar - Não estou brincando. Sempre ligava antes pra saber se você estava lá, por isso não nos encontramos nunca
Clara - E por que eu não sabia disso?
Neymar - Porque eu não queria que soubesse
Clara - Por que não?
Neymar - Sei lá. Qual seria sua reação se me visse lá?
Clara - Eles mentiram pra mim? - preferi mudar o rumo da conversa, realmente não sabia qual seria minha reação -
Neymar - Não. Clara, por favor, isso não! - respondeu imediatamente - Ninguém mentiu pra você. Eu nunca pedi para que eles não te dissessem que eu aparecia por lá, inclusive achei que já soubesse. Mas como eu sempre ligava antes pra saber se você estava lá, devem ter achado que era melhor deixar tudo como estava e....
Clara - Tá, tudo bem - interrompi-o, achando que aquilo já estava indo longe de mais - Desculpa. Você não tem que me dá satisfação nenhuma, eu é que estou uma pilha de nervos hoje. O hospital não é meu...
Neymar - Você quer que eu vá embora?
Clara - Não precisa ir por minha causa
Neymar - Não foi isso que eu perguntei
Clara - Faz o que você quiser - dei as costas e voltei pra recepção. Sentei ao lado da Tia Ná e ela ficou segurando a minha mão até o Dr. Marcelo aparecer para avisar que apenas uma pessoa ia poder acompanhar tudo, claro que nem ouve discussão e depois de abraçar todos nós, minha avó foi junto com ele. E aí o nervosismo deu lugar a ansiedade. Durante as duas longas horas seguintes quase ninguém falou nada, até a Duda percebeu que o clima não era bom pra muito papo e ficou quietinha, revesando entre o meu colo e o do pai. Tinha vontade de perguntar como é que estava ocorrendo tudo a toda enfermeira que passava por nós, mas conseguia me manter sentada no último segundo. Não podia parecer uma maluca, certo? Eu sei, só que esperar nunca me pareceu tão angustiante. E creio que não era só eu que estava desse jeito, porque quando o Dr. Marcelo voltou, sozinho, com um semblante cansado e indecifrável, todos nós levantamos no mesmo instante. Acho que ele ficou esperando quem ia falar primeiro, perdi a fala de repente e minha mãe resolveu acabar logo com a nossa aflição -
Débora - Deu tudo certo, Dr? - mais direta impossível. Ele nos olhou com expectativa, e sorriu -
Dr. Marcelo - O paciente não poderia estar melhor - soltei todo o ar que estava preso nos pulmões e as lágrimas começaram a rolar sem piedade, uma coisa de louco, parecia até que alguém tinha aberto uma torneira - A medula é sempre transportada em uma bolsa que contém, além da própria medula, um líquido conservante que poderá causar alguns sintomas como náuseas, tosse seca, vômitos, muita sensação de calor, formigamento, entre outros. Também pode haver alteração da pressão arterial e dos batimentos cardíacos, por isso será necessário que ele permaneça aqui conosco para ser observado de perto. Mas nada anormal, ele está ótimo
Neymar - Mas está tudo bem mesmo? A aplasia já é uma página virada? - a sensação que tive ao ouvir a sua pergunta foi semelhante a um pequeno choque, fiquei muito surpresa. Ele realmente se preocupava com meu avô? -
Dr. Marcelo - Sim e... sim - respondeu cauteloso, tentei sorrir mas a minha torneira ainda estava aberta - Claro que precisamos ir devagar, mas o transplante foi uma maravilha, não há porque temer
Tia Ná - Graças a Deus - abraçou a minha mãe de lado, e elas sorriram emocionadas -
Rafa - E a vó Glória?
Dr. Marcelo - Provavelmente foi trocar de roupa, já deve estar vindo pra cá. O paciente vai ser levado para um quarto apropriado mas visitas hoje não
Murilo - E o transplante, como foi?
Dr. Marcelo - Foi um procedimento relativamente rápido, ele recebeu a medula sadia como se fosse uma transfusão de sangue através do cateter. Agora as células progenitoras transfundidas estão sendo levadas pela corrente sanguínea para se dirigirem até a medula, onde vão se instalar e começar lentamente o processo de recuperação. Em pouco tempo ele estará apto a retomar suas atividades diárias - ouvi um suspiro de alívio quase coletivo -
Débora - E a partir de agora? O que a gente faz? Quais são os cuidados?
Dr. Marcelo - Agora vem a parte mais chata, uma fase um pouco complicada...
Débora - Por quê? - ficou alarmada imediatamente -
Dr. Marcelo - Porque é o período em que as células transplantadas ainda não são capazes de produzir glóbulos brancos, vermelhos e plaquetas em quantidade suficiente, então o paciente estará sujeito a sangramentos, infecções... Mas acalmem-se, complicações após o transplante são frequentes e esperadas, basta apenas ter um acompanhamento adequado para que possamos detectar essas alterações precocemente e tratá-las rapidamente
Débora - O que fazer pra isso não acontecer?
Dr. Marcelo - É essencial reforçar os cuidados com a higiene, limitar contato direto com as pessoas, incluindo beijos, abraços, muita proximidade ao falar, e mais alguns outros cuidados, mas vou entregá-los por escrito a vocês. Não se preocupem
Tia Ná - Quando vamos poder vê-lo?
Dr. Marcelo - Em breve - sorriu levemente - Agora se vocês me dão licença - se afastou, e aí a minha ficha foi caindo aos poucos, conforme o burburinho da recepção passou a chamar mais atenção, e mesmo assim não conseguia parar de chorar. Esperei tanto tempo pra ouvir tudo que o Dr. Marcelo tinha falo que estava com medo de acordar de um sonho maravilhoso. Meus pais me abraçaram ao mesmo tempo, falaram algumas coisas, também ao mesmo tempo, e pra falar bem a verdade, não entendi nadinha mas sabia que era culpa da felicidade extrema. A Tia Ná estava perto do filho e a Rafa parecia estar contando tudo de uma maneira mais fácil pra Duda, porque ela estava quase dando pulinhos de alegria. Consegui finalmente sorri, mas da minha boca não saiu nada. Sentei pra tentar me acalmar, e vi quem sentou ao meu lado depois de alguns minutos, só que preferi fingir que não, estava decidida a ignorá-lo, e teria conseguido isso se ele não tivesse que abrir a boca -
Neymar - E o sol volta a brilhar... - sussurrou e parei até de raciocinar. Minha respiração falhou, meu coração deu um pulo altíssimo e não era só por causa da frase, aliás, ela nem era uma simples frase. Não demorei nada pra entender o que ela significava. Afinal, estávamos ali, exatamente no mesmo lugar onde eu disse algo que nunca ia esquecer "Estamos no meio de uma tempestade horrível, mas o sol vai voltar a brilhar" quando descobrimos que nenhum de nós era compatível com meu avô. Por quê ele tinha que ter dito aquilo? As lembranças daquele dia voltaram com força total, e claro que ficou mais difícil fechar a torneira. O mesmo lugar, dias tão diferentes... Não estava mais chorando de tristeza, lógico que não, era um choro de alívio, e eu segurei por tanto tempo que talvez por isso não tivesse conseguindo parar... Estava tão concentrada em colocar tudo pra fora, que quando percebi já estava dentro de um abraço apertado (apertadíssimo). Quando me dei conta disso fiquei inerte, não consegui me mexer mais e o choro até cessou. De repente, entendi que era isso o que eu mais queria, era esse abraço que o meu corpo mais desejava, era o bater do coração dele pertinho de mim que o meu queria. Aquilo não me parecia certo, mas não fui eu que tomei a iniciativa, a minha consciência estava tranquila, tinha plena noção do que estava fazendo e ela não iria pesar mais tarde. Só que... estava me sentindo tão em paz dentro daquele abraço que as lágrimas voltaram, mas dessa vez eram de saudades... isso, ou tudo isso. O que eu podia/devia fazer, a não ser abraçá-lo de volta e aproveitar para criar mil e uma ilusões? -
Clara - Obrigada por ter ficado - falei antes de ter coragem para soltá-lo, não queria, mas tinha a impressão de que estávamos sendo observados por um estádio lotado. Comprovei isso ao olhar ao redor, mas sei lá por que, nem liguei. Olhei pra ele novamente e vi que os seus olhos também estavam marejados. Era possível reviver tudo de novo? Estava me segurando para não falar o que realmente queria, quando ele me surpreendeu mais uma vez, tirando o meu óculos delicadamente pra poder enxugar as minhas lágrimas. Ok, aquilo também não estava certo e eu queria pedir que parasse, mas ele sempre era mais rápido que eu -
Neymar - Falei que ia terminar tudo bem - sorriu, e eu estava me sentindo tão... idiota, não conseguia desviar o olhar de jeito nenhum - Não chora, não - tentou passar a mão no meu rosto, mas a razão pediu pra eu me afastar ou... Enfim, era melhor pra todos. Me afastei, só o suficiente para que não houvesse mais nenhum tipo de contato entre nós. Fiquei constrangida com a situação que eu também ajudei a criar retribuindo o abraço, e baixei o olhar. Ele levantou, ainda com o meu óculos nas mãos, e saiu do meu campo de visão, fiquei sem entender nada mas não ousei olhar pra ninguém também, permaneci quieta até ele voltar. Me devolveu o óculos, que antes estava um pouco embaçado por causa das lágrimas, impecavelmente limpo. Tentei reprimir um sorriso quando olhei-o novamente -
Clara - Não precisava
Neymar - Não há de que - sorriu de novo. Não sabia o que ele estava querendo mas precisava manter o foco -
Eduarda - Mãe! - surgiu na minha frente, mas não ficou entre nós dois, já que ele estava de pé. Me concentrei apenas nela, meu pequeno foco - É sério que o biso já tá bom? Ele não vai mais precisar ficar aqui, né? A gente pode ir ver ele? - parou um pouco só pra me olhar com mais atenção - Por que tava chorando tanto? Seus olhinhos estão vermelhos
Clara - Filha, calma. Uma pergunta de cada vez - sorri e coloquei o óculos de volta - Sim, o biso já está melhor mas ainda vai precisar ficar aqui por uns dias, eu acho
Eduarda - Por quê? Ele não tá bem?
Clara - Está. Mas é preciso, para o bem dele, amor. E nem vão ser tantos dias assim - sorri - Infelizmente a gente ainda não pode vê-lo, ele está um pouco cansado, entende? - assentiu - E por fim, estava chorando de alegria - ela sorriu - Ufa, acho que consegui responder todas as perguntas - ouvi o pessoal rindo -
Eduarda - Ahh - balançou a cabeça - Igual a todo mundo, né? - olhou para meus pais, a Tia Ná e a Rafa - Menos o papai - riu e ele piscou pra ela -
Clara - É... igual a todo mundo. Nada de chorar de tristeza agora - ela sorriu, igualzinho uma pessoa fez a alguns minutos atrás, e abriu os braços para me abraçar, praticamente se jogou em cima de mim. Ainda bem que tinha conseguido fechar a torneirinha, senão alagaria a recepção. Estava um poço de vulnerabilidade -
Rafa - Todo mundo ficou olhando pra vocês - falou no meu ouvido quando sentou ao meu lado -
Clara - Suspeitei - olhei-a e ela sorriu - Isso não devia ter acontecido, muito menos aqui
Rafa - Por quê?
Clara - Teu irmão é um doido, não sabe o que quer da vida
Rafa - Eu sei o que ele quer
Clara - Não começa, heim?! Hoje nada estraga meu dia
Rafa - Principalmente depois do abraço mais demorado que já vi na vida né? - cerrei os olhos, desejando ter o poder de fuzilar com eles - Tá, já calei - levantou os braços, segurando o riso, preferi desviar o olhar. Ainda bem que ninguém estava prestando atenção nessa conversa louca -
Clara - Por que será que minha avó está demorando tanto?
Glória - Já estou aqui - apareceu com um sorriso enorme, mas os olhinhos inchados de chorar também. Levantei, coloquei a Duda sentada no meu lugar e fui abraçá-la. Por incrível que pareça, nem chorei - Acabou, meu amor. Acabou o sofrimento - me apertou o quanto pôde, rindo e chorando ao mesmo tempo, e só consegui retribuir da mesma forma, muito feliz. Feliz demais! Depois ela nos contou, de uma forma mais simples que a do Dr. Marcelo, como que foi todo o processo e contou também que só poderíamos vê-lo de pertinho no dia seguinte. Queria muito poder abraçá-lo, mas contanto que ele estivesse bem pra eu poder fazer isso depois, dava pra aguentar mais algumas horas. Mesmo sabendo disso, ninguém deu sinais de que queria ir embora, ninguém. Estávamos todos com as emoções tão confusas... deve até ter sido por esse motivo que aconteceu o que não devia ter acontecido a instantes atrás. Claro que foi por isso. E claro que eu não ia dar importância a algo tão... prescindível. Não quando o sol resolveu voltar a brilhar. 
 clarabarcelar_: “Quando a dor ataca, frequentemente fazemos perguntas erradas, como: Por que eu? As perguntas corretas são: O que posso aprender com isso? O que posso fazer a respeito disso? O que posso realizar apesar disso? E eu aprendi. Aprendi que falar pode aliviar minhas dores emocionais. Aprendi que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la. Aprendi que eu posso fazer, em instantes, coisas das quais me arrependerei pelo resto da vida. Aprendi que o que importa não é o que eu tenho na vida, mas quem eu tenho na vida. Aprendi que devo deixar sempre as pessoas que amo com palavras amorosas, pois pode ser a última vez que as vejo. Aprendi que eu posso ir mais longe depois de pensar que não posso mais. Aprendi que ou eu controlo meus atos ou eles me controlarão. Aprendi que há mais dos meus pais em mim do que eu supunha. Aprendi que a maturidade tem mais a ver com os tipos de experiências que eu tive, e o que aprendi com elas, do que com quantos aniversários já celebrei. Aprendi que não importa em quantos pedaços meu coração foi partido, o mundo não para pra que eu o conserte. Apenas aprendi, as coisas que aprendi na vida!”  Muito obrigada a todos aqueles que se sensibilizaram pela situação do meu avô e doaram. Obrigada aqueles que rezaram pra que tudo desse certo também. GRAÇAS A DEUS ELE ESTÁ BEM!!!!!  
      
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Três semanas depois, meu avô já estava podendo receber visitas em seu lar doce lar. Sua medula já conseguia produzir cada célula do sangue em quantidade suficiente, o que era maravilhoso, porque algumas medulas são chamadas até de preguiçosas por tornarem o processo de recuperação muito lento. Quando o Dr. Marcelo disse isso, só consegui ficar ainda mais orgulhosa do meu coroa e da sua vontade de viver. Por quê uma pessoa tão forte, e tão corajosa escondeu algo tão sério do restante da família por tanto tempo? Ás vezes essa perguntava pairava na minha cabeça, ela tinha lógica, certo? Mas logo afastava esse pensamento, já estava tudo bem, nem tinha porquê ficar remoendo um assunto que causou tanta dor. Precisava olhar pra frente!
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Meu calendário já marcava dia dois de maio, que louco a rapidez com que o tempo passa, né?! Mais oito dias e o transplante completa um mês! - pensei quando desliguei o despertador. Ontem (quinta) foi feriado, Dia do Trabalho. Passei a manhã com meu avô jogando xadrez (perdi feio) e a tarde com a Duda e o Júnior, já que vínhamos adiando uma ida ao Neo Geo Family a algum tempo e a Duda não nos deixava esquecer isso de jeito nenhum, então um feriado para nós dois veio bem a calhar. Foi um pouco difícil ele passar despercebido em pleno feriado (na verdade, ele não conseguiu e meio que formou-se uma fila pra falar com ele maior do que aquelas para as atrações do parque) e isso deixou a minha pequena cheia de ciúmes. Foi a primeira vez que o ciúmes dela ficou mais visível pra mim, e achei engraçado porque ela ficou com um bico enorme até que ele terminasse de atender todos, ou pelo menos boa parte das crianças, a maioria delas ficava feliz apenas com um sorriso direcionado a elas e voltavam para os brinquedos, então não foi nada muito demorado e cansativo. Nesse momento descobri, sem querer, algo que antes sempre devia passar despercebido por mim: o Júnior fica muito à vontade no meio de crianças, diferente de quando um adulto o aborda pra pedir foto ou autógrafo e ele parece ficar mais tímido do que a pessoa que está pedindo. Cheguei a conclusão, (e guardei-a só pra mim, claro) de que ele ainda devia se perguntar o porquê de alguém querer tirar foto com ele, mas com as crianças era diferente, porque ele se via nelas. O fato é que os papéis estavam invertidos. Sim, eu sei que não devia ter ficado prestando atenção nisso... ou nele, mas foi mais forte que eu, juro. Quando vi já estava sorrindo ao ver a cumplicidade dele com elas. Não deu pra evitar, nunca dá. Porém, foi um sorriso rápido, sumiu assim que alguém perguntou sobre o nosso relacionamento e ele disse que éramos bons amigos. Bons amigos! Nós chamamos atenção sempre que saímos juntos, infelizmente os sites especulam o que querem, e nunca tinham nos perguntado nada mas... Bons amigos? Ok. 
Tirando isso, foi uma tarde... agradável, pelo menos pra Duda porque eu lembrei por diversas vezes de alguns dos momentos que passamos nos parques de Paris e foi impossível não ficar um pouco pra baixo, só tentei não deixar isso muito obvio. Pois é... nunca ia consegui superar nada que aconteceu entre nós... mesmo que fôssemos só bons amigos. 
Enfim, como a pequena foi dormir no seu outro quarto, meu feriado terminou com a Manu. Aceitei o convite dela pra ir na inauguração da casa noturna de um colega que trabalhou com ela até o início do ano, e foi bom, chegamos super tarde mas foi bom. O único problema foi ter disposição para acordar no dia seguinte, afinal, ela poderia dormir até mais tarde já que só trabalharia no turno da tarde, eu não. Ainda tinha uma longa sexta-feira pela frente. Longa mesmo
Levantei morrendo de preguiça, meus olhos ardiam de tanto sono mas o dever me chamava. Fui direto pro chuveiro e tomei um banho de cabeça que me ajudou a acordar de verdade. Um bom banho sempre ajuda. Escovei os dentes, sequei o cabelo como deu, me enrolei na toalha e voltei pro quarto. Passei hidratante no corpo, me vesti, arrumei minha bolsa, coloquei meu óculos dentro do estojinho e joguei dentro dela, preferi não prender o cabelo já que ainda estava meio molhado, me perfumei, peguei o celular e saí. Ia passar direto pelo corredor, mas algo na porta do quarto da Manu me chamou à atenção. Parei pra ler, e comecei a rir logo em seguida, me perguntando quando ela colocou aquilo ali, se ainda entrou no quarto primeiro que eu. Uma baita sacanagem comigo, só porque ia poder dormir mais que eu, que absurdo. Tive que tirar uma foto e ainda rindo, postei. 
 clarabarcelar_: Um amor de amiga, porque começar o dia rindo não tem preço!  @mannubarros
Passei na cozinha, coloquei ração pro meu filhote, tomei um copo de suco e saí sentindo falta de algo: levar a Duda pra escola. Toda vez que ela dorme na casa do pai é a mesma coisa, não que não tenha me acostumado mas é algo instintivo, faz parte da rotina. Desci com alguns vizinhos no elevador, destravei as portas do meu carro, entrei, dei partida, passei no posto de gasolina antes, depois segui pro CT. A manhã foi tranquila, apesar de ter alguns sócios circulando pelas instalações; privilégios do Sócio Rei. Na hora do almoço, estava tão entretida na edição da Santástico que só percebi que os meninos já tinham descido quando a Gio falou.
Giovanna - Você está bem?
Clara - Estou - respondi mesmo sem entender o motivo da pergunta - Por quê?
Giovanna - Não sei. Agora que o feitiço virou contra o feiticeiro, pensei que... - interrompi-a, achando que, ou ela estava doida ou eu estava muito lenta, porque continuava sem entender nada -
Clara - Não estou conseguindo te acompanhar, Gio. Desculpa - ri, e ela riu também antes de mexer um pouco no iPad, depois virou-o pra mim. O riso cessou imediatamente, e aí entendi o porquê do provérbio "o feitiço virou contra o feiticeiro". Ele era o título da matéria de um site qualquer de fofoca que continha fotos da atriz com outro cara. Fiquei chocada, parecia até pegadinha - Quê?
Giovanna - Você não sabia mesmo disso? Acho que é assunto desde o início da semana
Clara - Não - respondi um pouco aérea. Então será que foi por isso que perguntaram pro Júnior sobre nós no Parque? Imaginaram que já estávamos juntos de novo? Será que a Manu sabia e não me disse nada? Meu Deus! Se sim, só tinha que agradecê-la porque isso não tinha nada a ver comigo, não era da minha conta. Preferia até continuar sem saber, mas tinha plena noção de que a Gio não fez por mal - Não, eu não sabia. Procuro ficar longe desse tipo de site, e... ninguém me contou
Giovanna - Ai, desculpa. Eu realmente achei que soubesse
Clara - Não tem problema, Gio. Eu sei disso, e uma hora ia ficar sabendo mesmo - tentei sorrir -
Giovanna - E o que acha disso?
Clara - Sei lá, acho que não tenho uma opinião formada a respeito do assunto, não diz respeito a mim - encolhi os ombros - Poderia dizer apenas que o uso do provérbio é meio equivocado, porque ele não me traiu
Giovanna - Não?
Clara - Não
Giovanna - Acredita mesmo nisso?
Clara - Sim. Falei pra você que ele terminou comigo primeiro, antes dessa aí assumir algo
Giovanna - Sim, ele terminou antes de assumir, mas...
Clara - Gio, por favor
Giovanna - Você sabe que não falo por mal, não é? Muito menos odeio ele ou algo do tipo. É só que essa história toda é muito difícil de entender
Clara - Eu sei, mas prefiro não falar sobre isso
Gio - Tudo bem - ela se desculpou mais uma vez, e eu tentei voltar a me concentrar no que estava fazendo antes, mas sem sucesso. Uma preocupação enorme tomou conta de mim, o Júnior não podia estar envolvido em tantos problemas extra-campo -
Clara - Por quê que eu me importo? - pensei alto, indignada por ter perdido o foco -
Giovanna - Falou comigo?
Clara - Não, desculpa - baixei a cabeça, fechei os olhos, contei de um à dez e voltei ao trabalho. Perdi a fome e não desci pra comer, estava sozinha quando a madrinha me mandou uma mensagem avisando que o Luis Álvaro queria falar comigo e era sério. Pensei que algo bom não era e preferi ir logo. Bati na porta dele tremendo de nervoso, e ouvi a sua permissão para entrar - Quer falar comigo? - perguntei, implorando pra ele dizer não -
Luis Álvaro - Sim, pode sentar - sorriu e eu fiz o que pediu - Soube da melhora do seu avô. Que bom, fico feliz
Clara - Obrigada - sorri também -
Luis Álvaro - Bom, mas te chamei aqui porque durante o recesso natalino a diretoria realizou algumas reuniões e decidimos que para melhoria do Santos Futebol Clube algumas mudanças precisariam ser feitas
Clara - Ah... - fiquei com um vontade louca de começar a roer minhas unhas, morrendo de medo -
Luis Álvaro - Você está incluída nessas mudanças
Clara - Estou? - isso era obvio, mas doeu ouvir da mesma forma -
Luis Álvaro - Sim, e tudo isso que vem acontecendo na sua vida pessoal só nos fez ter mais certeza da nossa decisão - f e r r o u, ferrou bonito, minha carreira está acabada -
Clara - Eu sei... eu sei que tenho vacilado um pouco nos últimos meses. Eu sei que não é legal meu nome estar estampado em sites de fofoca... mas eu amo o que faço, amo estar aqui, amo o Santos - ele sorriu - Estava e ainda devo estar passando por uma avalanche intensa na minha vida pessoal, tentei vestir a máscara profissional nos momentos certos, e fiz de tudo pra não misturar as coisas mas é como já disse, eu amo esse clube e só quero o melhor pra ele também, então o que vocês decidiram, eu aceito - disse tudo isso com uma dor enorme no peito, lutando pra não chorar ali mesmo -
Luis Álvaro - Que ótimo, porque não sei onde encontraríamos uma outra gerente de marketing tão boa quanto você por aí
Clara - Quê? - meu queixo deve ter ido parar no chão -
Luis Álvaro - É isso mesmo que ouviu, e não adianta voltar atrás porque você mesma acabou de dizer que o que nós decidimos, aceitaria - riu -
Clara - Meu Deus! Mas é claro que eu aceito. Só pensei que... - nem consegui completar a frase -
Luis Álvaro - Eu sei o que pensou e devo ter me expressado de forma errada, desculpa. O que estava querendo dizer é que nós já tínhamos decidido te promover desde o recesso, mas surgiram os problemas e resolvemos esperar. Você se mostrou forte o tempo todo, não pediu para faltar um dia sequer, e foi mais do que profissional. Além disso, suas ideias ano passado foram geniais, todas muito bem faladas
Clara - Obrigada! - comecei a rir, e era isso ou ia começar a chorar - Nem sei o que falar
Luis Álvaro - Não precisa falar nada, apenas aceite. E decida se vai querer trocar de sala
Clara - Trocar de sala?
Luis Álvaro - Sim, para uma mais ampla aqui ao lado
Clara - E... se eu quiser ficar na mesma?
Luis Álvaro - Você quer?
Clara - Sim. Minhas ideias não seriam nada sem o pessoal que trabalha comigo
Luis Álvaro - Bem que a Juliana falou - riu - Tudo bem, fique onde preferir. Só preciso que passe aqui antes de ir embora para assinar alguns papéis
Clara - Certo - levantei com um sorriso de orelha a orelha, quase sem acreditar na nova função que exerceria dentro do clube do meu coração. Como uma gerente de marketing não ia fazer nada de muito diferente, continuaria elaborando os projetos de marketing, mas passaria a coordená-los também, além de passar a promover ações de venda e cuidar da imagem do Santos. O que mais queria? Já podia dizer que estava totalmente realizada a nível profissional. Pelo menos isso. Voltei pra sala contando a novidade pra todo mundo que via, estava tão feliz que minha tarde passou até mais rápido do que queria. Meu expediente terminou, e depois de receber um abraço apertado da madrinha, fui até a sala do Luis Álvaro novamente, mas ele ainda estava em reunião. Fiquei na sala de espera trocando mensagens com o Di. 
 clarabarcelar_:  @dilopes 
Quando as pessoas saíram, o Luis Álvaro pediu que eu entrasse, li e assinei meu novo contrato com um sorriso enorme e fui liberada. Desci, fui direto pro estacionamento, e entrei no meu carro pra ir buscar minha pequena, como tinha combinado com o Júnior no dia anterior. Dirigi até o prédio dele, e com minha entrada liberada, estacionei em uma vaga para visitantes. Subi, toquei a campainha e a Joana atendeu, simpática como sempre. Não tinha ninguém na sala, mas ela disse que ia chamar a Duda pra mim. Ia sentar pra esperar, só que ouvi passos descendo a escada, sabia muito bem quem era e comprovei isso quando ele surgiu na minha frente. Estava tão abatido. Será que gostava tanto assim da atriz a ponto de ficar mal pela traição? Fiquei com náuseas só de pensar nisso.
Neymar - Ela já está descendo
Clara - Certo - respondi e passei a admirar minhas unhas, que estavam horríveis por sinal -
Neymar - Como seu avô está?
Clara - Muito bem, obrigada
Neymar - E você?
Clara - Por que o interesse? Acha que pode rolar um flashback comigo agora que a sua namorada te traiu? - me xinguei um pouco internamente, nunca fui de jogar nada na cara de ninguém, acho que a raiva falou mais alto... mas ele não pareceu se abalar muito -
Neymar - Não estava namorando aquela garota
Clara - Agora é fácil falar
Neymar - Eu sempre te disse isso
Clara - E por que será que é tão difícil de acreditar? - ele balançou a cabeça, um pouco transtornado, talvez -
Neymar - Você me... odeia? - perguntou de repente, se aproximando de mim -
Clara - O quê? - fui recuando, até ficarmos distante novamente -
Neymar - Me odeia? - voltou a se aproximar e dessa vez desisti de me afastar, ele parecia tão vulnerável -
Clara - Como é que você tem coragem de me perguntar uma coisa dessa?
Neymar - Seja lá qual for a sua resposta, eu vou entender - estava começando a me assustar, por isso resolvi ser sincera -
Clara - Júnior, eu te desejo nada além de sorrisos, nada além de alegria, paz e felicidade. Independente do que passamos, você merece, assim como eu, toda a felicidade que o mundo tem para te dar. Já faz tempo que desisti do ódio e da raiva, agora eu só quero sentir amor e com você não seria diferente. Já que não pode ser eu, que sua nova namorada te faça tão feliz quanto eu planejei fazer. Ou ex namorada, não sei
Neymar - Não tenho namorada - respondeu um pouco exaltado, me assustei mais ainda -
Clara - Engraçado, antes voce não negava nem afirmava nada. Agora já nega? Por quê? -  ele se aproximou ainda mais, e acho que ia falar mas ouvimos a voz da Duda -
Eduarda - Mãe!! - olhamos ao mesmo tempo e ela sorriu -
Clara - Desce devagar, filha - ele me olhou um pouco frustrado, mas não falou mais nada e se afastou pra ir se despedir dela, abri logo a porta e fiquei esperando porque quanto mais rápido saísse dali, melhor. Toda vez que ficávamos sozinhos em algum cômodo daquela casa algo estranho acontecia, que sina. Queria falar com a Tia, ou com a Rafa, mas isso significaria ficar mais tempo, e podia ligar pra elas depois, então assim que a Duda terminou de se despedir dele, descemos. Respirei aliviada quando já estávamos dentro do carro, pena que o alívio durou por pouco tempo -
Eduarda - Ih, mãe! - fez carinha de espanto, enquanto eu colocava o seu cinto -
Clara - Que foi?
Eduarda - Esqueci a Loly
Clara - Esqueceu a Loly?
Eduarda - É, e ela não pode dormir sozinha. E agora?
Clara - A gente liga pra sua tia depois e pede pra ela dormir com a Loly - sugeri, mesmo sabendo que não ia dar muito certo e já prevendo como que isso ia acabar, ou seja, íamos subir de novo -
Eduarda - Mas a Loly só gosta de dormir comigo - fez beicinho -
Clara - Não acredito nisso, Duda. Vamos mesmo ter que subir de novo?
Eduarda - Por favor, por favorzinho - juntou as duas mãozinhas pra pedir, e eu não podia negar isso a ela por causa de um capricho meu -
Clara - Tá, vamos rapidinho - tirei o seu cinto e ela me abraçou como deu, depois beijou minha bochecha -
Eduarda - Obrigada, mãe. Por isso que a Loly também gosta muito de você - não consegui segurar o riso, e retribuí o beijo no rostinho dela -
Clara - Também adoro a Loly. Vamos lá pegar ela - saímos do carro, travei as portas novamente, deixei as nossas bolsas lá e pegamos o elevador na garagem mesmo. Subimos, toquei a campainha e a Joana atendeu novamente. Riu quando contei o motivo da nossa volta - Onde ela está?
Eduarda - Em cima da cama, eu acho
Clara - Fica aqui com a Joana que eu vou pegar, porque quando você entra naquele quarto esquece do mundo, e aí não vamos sair daqui hoje - ela e a Joana riram - Volto com a Loly rapidinho - pisquei pra ela e subi correndo, com receio de esbarrar com alguém pelo corredor. Fui direto pro quarto da Duda, peguei sua nova e inseparável bonequinha de pano em cima da cama, saí, fechei a porta devagarzinho pra não chamar atenção e comecei a ouvir vozes, uma bem exaltada inclusive, que iam ficando mais altas a medida que eu ia andando de volta pra escada, precisava ir embora logo. Porém, estagnei quando percebi que as vozes vinham do quarto do Júnior e ele parecia estar... chorando, ou desabafando, não sei. Fiquei preocupada imediatamente e isso me fez parar para escutar, mesmo que isso não fosse nada certo -
Neymar - Eu não aguento mais isso, mãe
Tia Ná - Então acaba com essa tortura. Conta a verdade pra ela, agora você pode, deve aliás. Eu no seu lugar já tinha colocado um ponto final nisso a muito tempo
Neymar - Não posso
Tia Ná - É claro que você pode - formou-se um silêncio estranho, já estava pensando em sair dali mas voltei a ouvir a voz dela - Quando nos importamos com alguém, é compreensível que queiramos proteger essa pessoa da dor. Isso funciona muito bem em algumas ocasiões. Mas em outras corremos o risco de carregar nos ombros mais estresse e responsabilidade do que seria justo, você precisa falar
Neymar - Nem sei como - sua voz estava tão desesperada... e eu comecei a ficar também, me perguntando se era de mim que estavam falando -
Tia Ná - Você já fez muito, meu filho. Chegou a hora de correr atrás da sua felicidade de novo, ela ainda está ao alcance das suas mãos
Neymar - Se ela acreditar em mim, acho difícil que me perdoe
Tia Ná - Por que não acreditaria? A Clara te ama, e não tem nada pra ser perdoado. Apenas me escuta, e vai atrás da sua felicidade antes que seja tarde demais - eu era o tema da conversa e não estava participando dela... ok, e isso nem era a coisa mais estranha que estava acontecendo no momento porque para piorar eu não estava conseguindo entender nada. Ia bater na porta quando ele falou novamente e o meu mundo desabou de uma vez só em cima de mim -
Neymar - Como é que eu vou falar que fui chantageado pela Bruna pra salvar vida do avô dela?
Clara - Que brincadeira é essa? - não consegui ficar calada e escondida perante a loucura absurda que ouvi e entrei no quarto mesmo sem ser convidada -
Tia Ná - Clara!
Neymar - Clara... - não sei qual dos dois ficou mais surpreso mas ele, sem dúvidas, ficou ainda mais desesperado do que estava antes, notei isso apenas pelo seu tom de voz -
Clara - Sim, acho que sou eu. Isso... isso que vocês estavam conversando... é brincadeira, não é? Por que estão falando disso? - eles se entreolharam enquanto eu esperava por uma resposta -
Tia Ná - Fica calma, tudo tem uma explicação
Clara - Explicação pra que? É claro que eu ouvi mal - ri, não porque estava achando graça daquela situação, mas porque estava muito nervosa e nem sabia o motivo - A Bruna não ia chantagear você por ser compatível com meu avô, né? - ri novamente, olhando pra ele, que estava muito sério. Meu coração pareceu ter parado por alguns milésimos de segundos, senti uma dor excruciante começar a latejar no peito, o ar faltou - Pelo amor de Deus, me digam que eu ouvi mal - silêncio total, e ninguém olhava pra mim - Isso não pode ser verdade. Pode? - tentei fazer com que falassem. O desespero estava começando a passar pra mim e algo me dizia que era apenas o começo -
Tia Ná - Tua felicidade veio atrás de você, não deixa ela escapar - falou pra ele ao levantar -
Clara - Tia... - estava me sentindo uma criança com medo de agulha, prestes a tomar vacina -
Tia Ná - Ouve - chegou mais perto de mim e segurou a minha mão com força - Apenas ouve o que ele tem pra te dizer e tudo vai fazer sentindo
Clara - Ouvir o que? - ela saiu do quarto sem dizer mais nada e eu estava com tanto medo que nem sei porque não saí também - Ouvir o que, Júnior? Vocês estavam brincando, certo?
Neymar - Não - respondeu depois do que pareceu uma eternidade e levantou também, ficamos frente à frente -
Clara - Não... o que?
Neymar - É tudo verdade
Clara - O que é verdade? - minha voz começou a tremer por antecipação e a Loly caiu da minha mão -
Neymar - A Bruna descobriu que era compatível com seu avô e aceitou ser doadora dele, contanto que eu me separasse de você
Clara - NÃO! - gritei horrorizada e fui parar no mesmo lugar que a Loly, não sei o que aconteceu, minhas pernas perderam completamente as forças - NÃO, NÃO E NÃO! - tentava dizer pra mim mesma que aquilo não era verdade, mas o que ele disse ficava se repetindo na minha cabeça, me fazendo querer gritar e chorar até não ter mais voz -
Neymar - Clara... - sentou no chão, ao meu lado, e tentou falar... tentou -
Clara - NÃO!
Neymar - Por favor, me ouve
Clara - NÃO PODE SER - eu queria ouvi-lo, juro que queria, só não estava conseguindo. "A Bruna descobriu que era compatível com seu avô e aceitou ser doadora dele, contanto que eu me separasse de você" ainda se repetia na minha mente, era só o que conseguia ouvir - ISSO NÃO ESTÁ ACONTECENDO
Neymar - Desculpa - olhei-o e quando percebi que também estava chorando, uma raiva enorme de tudo tomou conta de mim, queria apenas sumir do planeta. Qualquer coisa seria melhor do que vê-lo naquele estado ali, na minha frente e... por minha causa (?) -
Clara - Você podia ter falado comigo, a gente resolvia isso... Eu não acredito!
Neymar - Eu sei que podia, mas não tive coragem... Eu te conheço e...
Clara - E O QUE? - levantei quase arrancando meus cabelos. Por que não percebi nada? Meu Deus, como fui burra! - A gente podia ter resolvido isso juntos. Íamos achar um jeito, uma saída pra que tudo terminasse bem sem que ficássemos longe um do outro. Você viu como fiquei depois que descobri o que eles estavam me escondendo, sabe como que me senti traída... Por que fez isso também?
Neymar - PORQUE EU NÃO PENSEI, ANA CLARA! NÃO PENSEI - gritou, e eu me encolhi com o susto. Nunca o tinha visto tão desesperado e isso só me fez chorar ainda mais - Simplesmente não pensei - continuou mais baixinho - Depois que ela fez a... chantagem e eu fiquei sozinho pensando em tudo, foi como se... Foi como se tivesse revivendo tudo de alguns anos atrás, só que com papéis invertidos
Clara - Como assim? - perguntei com um fio de voz, sem entender onde queria chegar -
Neymar - Me coloquei no seu lugar, como você pediu que eu fizesse várias vezes - fiquei boquiaberta e engoli em seco - A vida do seu avô estava... nas minhas mãos - sua voz falhou, meu coração já estava em pedaços - Por isso me odiei por ter pensando em te odiar a quatro anos atrás, quando você fez o que fez. Você só pensou em mim quando foi embora. Eu só pensei em você agora - levantou também e se aproximou de mim - O que você faria se fosse o meu avô? - não respondi nada porque sim, eu provavelmente faria o mesmo - Eu sei que você também faria o que eu fiz, eu sei - a essa altura já não sabia dizer nem quem estava chorando mais e isso estava me destruindo por dentro - No momento que aceitei... terminar com você, não pensei em mim em nenhum momento porque te ver triste era a pior coisa do mundo e eu só queria te ver sorrir de novo. Sabia que com o seu avô bem, você voltaria a sorrir e... e depois acharia quem te fizesse mais feliz do que eu - balancei a cabeça, não querendo ouvir mais nada - Querendo ou não, isso tudo só veio reforçar que o você tinha feito quando foi embora, foi por amor. Porque fiz a mesma coisa agora. Eu queria te ver bem, mesmo que pra isso, eu precisasse ficar mal
Clara - Eu... não sei o que pensar. Não sei de mais nada. Não estou conseguindo lidar com isso, acho que não vou digerir nunca
Neymar - Você e a Eduarda são os meus maiores bens, e sabendo o quanto vocês o amam... eu não ia conseguir me perdoar nunca se acontecesse alguma coisa com ele, quando eu podia ter feito alguma coisa, por mais que tenha sido algo... louco.
Clara - Isso não pode estar acontecendo. Quando acho que minha vida está finalmente entrando nos eixos essa bomba explode... - ele ia falar algo, mas precisei interrompê-lo - Não, sério. Eu... eu preciso ir pra casa
Neymar - Assim? Desse jeito?
Clara - Por favor, me deixa ir
Neymar - Você não está bem
Clara - Era pra estar?
Neymar - Fica aqui. Vamos conversar
Clara - Não sei se quero ouvir mais alguma coisa, não sei se consigo. Só quero ficar sozinha. Só quero tentar assimilar tudo isso, acreditar...
Neymar - Não acredita em mim?
Clara - O problema não é esse
Neymar - Você confia em mim?
Clara - O problema não é esse...
Neymar - Confia ou não?
Clara - CONFIO A MINHA VIDA A VOCÊ. SERÁ QUE É O SUFICIENTE? - gritei também, com a cabeça prestes a explodir e antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, ele me puxou para um abraço tão forte, mas tão necessário, como se precisássemos dele para recarregar as nossas fracas baterias. Dentro daquele abraço nada parecia real, por isso que eu queria permanecer nele pra sempre. Só que ouvir os seus soluços era quase como se uma faca tivesse atravessando o meu peito. Vê-lo chorar sempre foi a minha ruína, então fui eu que desfiz o abraço para enxugar cada lágrima dele - Claro que acredito em você, nunca duvidei da sua palavra, e não é isso que está em questão. Só que... é muita coisa pra digerir
Neymar - A gente vai conversar, não vai? Você vai me deixar explicar tudo? - assenti, talvez não muito convincente - Tem certeza que não prefere se acalmar primeiro e ir embora depois?
Clara - Não vou me acalmar, mas estou com a Duda. Minha atenção vai ser redobrada, não precisa se preocupar. E... não chora mais - passei a mão no seu rosto, enquanto ele também tentava enxugar as minhas lágrimas, em vão - Já estou me sentindo péssima por não ter percebido antes e ter feito você guardar isso por tanto tempo
Neymar - Não se culpa. Nenhum de nós tem culpa de nada - nem respondi. Ainda estava achando muito surreal as mãos dele no meu rosto - Avisa quando chegar? - assenti mais uma vez, ele me soltou e eu abaixei para pegar a Loly. Tentei enxugar o rosto com as mangas do blazer e dei as costas, ainda meio tonta. Já estava na porta quando ouvi a sua voz de novo e olhei pra trás - Eu te amo - parecia a primeira vez que ouvi isso da boca dele, precisei olhar pro teto, piscando algumas vezes. Se começasse a chorar de novo, como ia parar? -
Clara - Eu te amo. Agora mais do que nunca... - sorri em meio as lágrimas, não só por aquele ser um dos maiores sentimentos que residia em mim, mas por ter ouvido a voz da Dona Glória também “Ah, minha neta... às vezes a gente tem que se afastar das pessoas que amamos, mas nem por isso nosso amor por elas é menor, aliás podemos chegar a amá-las ainda mais”. Quando é que ela não está certa? O destino prega peças inimagináveis em nossas vidas.

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Vocês são incansáveis! Agradeço imensamente por cada palavrinha e por não terem desistido de mim, ou melhor da fic, apesar dela já ser um pedacinho de mim também!!   
PARABÉNS (alguns bem atrasados, eu sei, espero que ainda esteja valendo) pra todas as pessoas que me pediram um capítulo como presente. As Ju's do grupo, Hanna, Lari... enfim, para aquelas que fizeram aniversário nesse último mês que passou e para quem ainda vai fazer nesse mês. Sintam-se todas abraçadas!   

Agora uma curiosidade: A descrição do blog (aquela frase ali debaixo do título), mudei antes de postar o capítulo 54 - início da reviravolta - alguém reparou ou nem? Bem, pelas reações, aposto que muitas não repararam, ou não ligaram muito pro sentido dela hahahahaha . Ao meu ver, eu dei muitas dicas para que vocês não """"odiassem"""" o Júnior. Mas entendo que tenha sido difícil, afinal, pra mim era fácil detectar as pistas, eu sabia de tudo, vocês não. Mas agora já sabem, e eu espero que essa longa espera, e tudo que fiz pra consegui postar o quanto antes tenha valido a pena. 
Fiquem bem e até a próxima!   

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Capítulo 61 - “Se depender de mim, nada vai cair no esquecimento”

Dedicado ao #TeamClamar  
Depois de uma sexta-feira caótica e até um pouco melancólica (acordei no meio da noite, não consegui dormir mais, fiquei escutando Distante com o modo repetição ativado, e chorei todas as vezes que ouvi o trecho "Só não quero imaginar você vivendo outros amores por aí..."), tive direito a um sábado mais tranquilo, a Manu conseguiu me convencer a passar o dia na casa dos seus pais e a Duda adorou, brincou na piscina até não poder mais. Sua felicidade era tão nítida, que olhando pra ela ali tão risonha, consegui ficar com ainda mais raiva de mim mesma por não ter percebido antes que ela também estava sofrendo com tantas mudanças. Fui egoísta demais, só estava pensando em mim! Mas graças a Deus isso mudou e tudo que estivesse ao meu alcance para não vê-la mais triste, eu iria fazer. 
No domingo, levei-a pra casa da Tia Ná depois do almoço pro Tio Neymar levá-la pra Vila. O Júnior queria entrar em campo com ela novamente e eu não negaria isso a nenhum dos dois, sabia o quanto ela também gostava de estar lá com ele. Assisti o jogo na casa dos meus pais, transbordando de orgulho por vê-la com o uniforme completo do Santos. Queria estar no estádio pra poder tirar fotos e mais fotos, mas me contentei apenas em guardar a cena na memória. Sabia que aquela não seria a última vez, teria outras oportunidades. 
    ****
A segunda-feira foi massacrante, quando cheguei em casa não tive forças nem pra malhar, a Manu até tentou me fazer mudar de ideia, mas não conseguiu me tirar do sofá, onde me enfiei assim que tomei um banho e vesti qualquer coisa, só saí dali pra jantar. Porém, recuperei o tempo perdido na terça de manhã e pela tarde acompanhei meu avô em mais uma sessão de quimioterapia. Na quarta, saí do CT mais cedo por conta de alguns problemas nos sistemas dos computadores, então aproveitei para dar uma passadinha na Academia de Ballet (a aula de quinta tinha sido transferida, porque as professoras teriam que viajar para um congresso). O Júnior estava lá, ficou surpreso ao me ver mas não falou nada, claro que não posso dizer o mesmo da Duda, que assim que nos viu sentados lado à lado, fez questão de deixar todos saberem o quanto estava feliz, primeiro com gritinhos histéricos, depois nos abraçando apertado. Era só isso que ela queria: a nossa presença. E a gente podia fazer isso. Por ela, a gente devia fazer isso. Além do mais, tinha tempo que não assistia suas aulinhas, estava com saudades também. Depois ainda fomos tomar sorvete juntos e não vou dizer que foi a situação mais confortável do mundo mas também não foi a mais desconfortável; nos conhecíamos tão bem... e a Duda não nos deixou em nenhuma saia justa, nem criou nenhum momento constrangedor, aliás, por causa dela, conseguimos até rir. Seria estranho demais se eu dissesse que gostei? Bom, melhor não pensar muito.
Quinta-feira tive uma surpresa enorme e muito boa: Diego. Ele chegou sem avisar, e para ir embora apenas na segunda, ou seja, tínhamos um bom tempo para colocar muita saudade em dia. O Júnior é que não gostou muito disso (a Duda contou pra ele por telefone, bem animada por sinal - e isso deve ter deixado-o ainda mais irritado, já que nunca gostou do Di), mas ele não tinha que gostar ou desgostar de nada, certo? 
Na sexta-feira (28/03), lá estava eu nos sites de novo. Por causa de uma foto com o Diego, já especulavam que eu também tinha seguido em frente e chegaram ao cúmulo de postarem que eu já devia estar pensando em um irmãozinho pra Duda. A mídia é um saco mesmo! Não sei como tem gente que gosta de ser famoso. Mas não dei bola, o melhor a se fazer sempre é não dar importância ou a coisa cresce ainda mais. Esperança é um sentimento que vinha tendo a cada dia. Tinha confiança que tudo ia melhorar, tinha certeza que as preocupações iam cessar, e os dias começariam a ser mais felizes. Não podia ocupar minha mente com coisas que não me trariam alegria e tranquilidade. Preferi gastar o meu tempo ajudando o Gil a por a sua surpresa pra Manu em prática, e a minha parte consistia apenas em tirá-la de casa, e deixar a minha chave com o porteiro pra ele poder entrar e fazer o resto (na verdade, ele também me pediu para ajudá-lo na escolha de um texto bom, porque não sabia se conseguiria dizer tudo que queria com suas próprias palavras - um fofo -, indiquei um do Caio Fernando Abreu bem a cara deles, mas não fazia ideia do que ele pretendia). 
Manu - Pelo amor de Deus, Clara! O que é que nós vamos fazer na feira a essa hora? - perguntou, ou melhor resmungou, quando já saíamos do prédio. Antes disso, deixei minha chave com o porteiro e pedi pra ele entregar ao Gil. E ela não parava de reclamar, o Diego só sabia rir porque contei pra ele o motivo dessa ida repentina à feira -
Clara - O que é que se faz na feira?
Manu - Sim, eu sei. Mas já está tarde. O que você acha que ainda vai encontrar lá? - riu ironicamente -
Clara - Não está tarde. E se essa é a hora que chego do trabalho, não tenho outra saída né?
Manu - Podíamos ir amanhã
Clara - Amanhã não quero fazer nada e minha vó ligou hoje pra me dizer que os legumes estavam muito bonitos
Manu - Claro, e isso foi que horas? Provavelmente nove da manhã, não cinco da tarde
Clara - Deixa de pessimismo, vou achar tudo que quero sim - ela fez bico e cruzou os braços. O Di riu novamente e eu me segurei para não fazer o mesmo. A Manu queria estar em casa, ou melhor, na academia porque é lá que desconta toda sua frustração por não poder estar com o Gil. A saudade é grande, mas o orgulho parece ser maior ainda. Isso tinha que acabar logo. Dirigi sem nenhuma pressa até a feira livre de Nova Cintra, tive que estacionar um pouco distante e a Manu se enganou, porque ainda tinha muita gente circulando por ali, muita mesmo. Sempre gostei de feiras, afinal, elas têm espaço para todos os gostos e tipos, e chamam a atenção especialmente pela simpatia dos vendedores que sabem atender e conversar muito bem. Acompanhava minha avó todo domingo quando morávamos em Florianópolis, era maravilhoso. Fiquei batendo perna por um tempo, sempre de olho no relógio, já que o Gil tinha dito que não precisaria enrolar demais; ele só precisava estar lá dentro quando chegássemos, então quando ela resmungou de novo (era bom que o plano dele desse certo porque ela estava insuportável e o motivo até a Duda já sabia), comprei algumas frutas, legumes e verduras e voltamos pro carro. Pedi pra ela dirigir, só pra poder ir trocando mensagens com o Gil e segundo ele, estava tudo certo. Quando chegamos ao prédio, pedi pro Diego me ajudar com as sacolas para que a Manu subisse de mãos vazias, assim ela usaria a chave dela sem perguntar pela minha. E foi exatamente o que aconteceu. Ela abriu a porta, entramos, e percebi o Luck meio agitadinho, mas a sala estava silenciosa. Achei que ia encontrar pétalas de rosas pelo chão ou algo parecido, sério. Ri discretamente dos meus pensamentos -
Manu - O que é isso aqui? - parou de frente pra mesa de jantar, me aproximei e o que vi me fez sorrir. 
Ela analisou cada cantinho da sala, depois ficou nos olhando de um jeito acusador.
Manu - São pra mim mesmo? - perguntou olhando pro Diego -
Diego - Quê? Eu não tenho nada a ver com isso não - riu -
Manu - Clara! - ergueu uma sobrancelha (quase) intimidadora -
Clara - Luck, assume logo que foi você, por favor
Manu - Engraçadinha
Clara - Ué, tem seu nome no cartão, e ao invés de abrir, fica tentando descobrir quem mandou?
Diego - Como se não soubesse também, né? - eu ri com ele, ela não achou muita graça. Pegou primeiro a rosa vermelha que estava sozinha, desfez o laço que prendia uma folha de papel nela e a abriu -
Manu - Eu conheço essa letra... - murmurou quase tão branca quanto a folha que estava na mão - Mas aqui pede para ler em voz alta - franziu a testa - É sério que vocês não estão brincando comigo?
Clara - Claro que não, Manu - dessa vez não rir, ela assentiu, balançou a cabeça meio contrariada e depois de dar mais uma olhada ao redor da sala, começou a ler. 
Ela segurou todas as lágrimas, não deixou que nenhuma caísse, nenhuma mesmo e também não nos olhou antes de pegar o outro envelope, o que estava junto com o grande buquê. Acho que finalmente percebeu que eu e o Diego não tínhamos realmente nada a ver com aquilo. Respirou fundo antes de começar a ler novamente. 
“Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar.”
Reconheci o texto do Caio Fernando Abreu e sorri. A Manu... Bem, ela tinha desistido de segurar as lágrimas. Me aproximei para abraçá-la, bastante emocionada também e ela chorou ainda mais no meu ombro. 
Manu - Ele realmente fez isso? - sussurrou em meio a soluços e... risos - Mas como? Eu não consigo acreditar - desfiz o abraço, e passei as mãos em seu rosto, enxugando as suas lágrimas -
Clara - Será que agora está claro o quanto ele te ama, sua boba?
Manu - Eu não queria que ele provasse nada, eu só... - voltou a chorar, e deixei. Ela precisava colocar pra fora mesmo - Eu só... Ai, meu Deus! Eu preciso fazer alguma coisa, não é?
Clara - Precisa. Ele não pode remar sozinho - pisquei -
Manu - Ele não vai remar sozinho - sorriu como não sorria a tempos, olhou para as rosas, pegou-as e inspirou o aroma delas por um tempo - Eu vou atrás dele
Gil - Não precisa - abriu as cortinas e saiu da varanda. Confesso que até eu fiquei surpresa. Sabia que ele estava ali, mas não sabia onde -
Manu - Você. Está. Aqui - pronunciou com a voz trêmula e eu voltei pra perto do Di porque com certeza ela não precisaria mais do meu apoio -
Gil - Eu precisava saber se você continuaria remando ou deixaria o barco afundar de vez - ela soluçou e sem falar mais nada, correu para os braços dele. Foi meio que uma cena de novela ao vivo na minha sala. Ele a segurou firme, beijou-a e obvio que ela correspondeu com a mesma intensidade ou até mais, sem um pingo de constrangimento por ter mais pessoas na sala. Se não fosse assim, não seria Manu. Procurei entender o lado deles, afinal, estavam a bastante tempo sem se ver, mas não sei o que aconteceria naquela sala se o Diego não pigarreasse. Ou melhor (ou pior), sei muito bem o que aconteceria. E eles riram, na maior cara de pau quando olharam pra gente. Nem pareciam os mesmos de alguns minutos atrás. Fiquei feliz por vê-los felizes de novo, porque apesar de dizerem que não, eu me sentia culpada pela briga que tiveram sim, e sabia que só ia sossegar quando visse a cena que tinha acabado de presenciar. 
    **** 
Meia hora depois, Diego e eu ficamos apenas na companhia do Luck, porque o casal foi, provavelmente, recuperar o tempo perdido; a Manu só colocou as rosas em um vaso, o Gil me agradeceu muito pela ajuda, e depois saíram com sorrisos enormes. Nem perguntei se ainda voltariam, seria uma pergunta meio desnecessária. Minha pequena foi pra casa do pai ontem à noite porque teve consulta de rotina no dentista hoje pela manhã e pedi pra Tia Ná levá-la.
Diego - Sempre ajudando todo mundo, né? - saiu da poltrona e sentou ao meu lado -
Clara - Dessa vez eu precisava mesmo fazer alguma coisa. Eles brigaram por minha causa
Diego - Eu sei, você me contou. Mas e os seus problemas?
Clara - Os meus problemas?
Diego - Sim. Quem cuida deles?
Clara - Não tenho problemas - desviei o olhar -
Diego - Não?
Clara - Não! Minha vida está muito bem encaminhada agora, tudo resolvido - menti deslavadamente -
Diego - Espero que esteja, pelo menos, confiante no que diz - sorriu, um pouco sarcástico, talvez -
Clara - E estou
Diego - Então me deixa te pedir uma coisa
Clara - Que coisa? - perguntei sem querer entender a sua aproximação -
Diego - Um beijo - fiquei um pouco chocada e balancei a cabeça -
Clara - Diego...
Diego - Não vou te cobrar nada, juro - falou enquanto se aproximava ainda mais, e eu paralisei. Inexplicavelmente, e de uma maneira bem rápida, minha mente voou para o dia que vi as fotos do Júnior no aeroporto com a atriz, lembrei da raiva incontrolável que senti, e sem pensar em mais nada, eu mesma fiz os meus lábios se chocarem com os do Diego. A princípio foi isso mesmo: um choque. Ele não reagiu, muito menos eu. Não era a primeira vez que nos beijávamos, mas estava tudo muito estranho, meus lábios pareciam rejeitar os dele, desconheciam aquele toque. E foi então que entrei em pânico. Percebi que beijei o Diego, o meu amigo, aquele que eu sabia que gostava de mim, querendo sentir o que sabia que era impossível sentir com ele. Me afastei rapidamente, sentindo repulsa de mim mesma. Não passou de um selinho humilhante (pelo menos ao me ver foi e muito, para ambos) e eu estava querendo me estapear. Não conseguia nem olhá-lo -
Clara - Desculpa. Ai, me desculpa - coloquei as mãos no rosto - Minha vida não está estabilizada coisa nenhuma. Ainda estou totalmente presa a um passado que não vai me abandonar nunca, me desculpa. Não sei o que deu em mim
Diego - Se acalma, Clara - me fez olhar pra ele, e as lágrimas começaram a rolar. Por que nós tínhamos que amar as pessoas erradas? -
Clara - Me perdoa. Eu não devia te usar assim
Diego - Você não me usou
Clara - É claro que usei
Diego - Não usou - passou a mão delicadamente no meu rosto - Não precisa se martirizar por isso. Está tudo bem. Falei que não ia te cobrar nada e não vou
Clara - Você é um anjo - e não devia gostar de mim, devia sair por essa porta e nunca mais querer me ver, completei meu raciocínio só pra mim -
Diego - Lembrei do meu primeiro beijo - riu, como se o que eu tivesse acabado de fazer não o afetasse. Ele sabia esconder o que sentia muito bem -
Clara - Aposto que foi muito melhor do que esse selinho ridículo
Diego - Não foi, acredite - gargalhou e eu sorri -
Clara - Só você pra me fazer sorrir depois de uma situação como essa
Diego - Eu não ia te beijar, Clara - ficou sério de repente, parei de sorrir também -
Clara - Não?
Diego - Não. Não por falta de vontade também, mas por saber que não sou eu quem você quer - corei e baixei o olhar - Seus olhos até tentam, mas não conseguem mentir. Sua frieza é notável, mas não sobrepõe à fragilidade - sorriu levemente - Só queria te fazer entender que não há vida sem problemas, e você sabe que tem, só não pode resolvê-los sozinha, muito menos com essa saudade que carrega nas costas - apenas concordei com um aceno, sem coragem pra dizer mais nada -
Clara - Hum, acho que vou lá pra dentro
Diego - Tá certo - deu um meio sorriso, mas dessa vez não consegui retribuir. Fui pro meu quarto, tranquei a porta e comecei a me perguntar porque tinha feito aquela burrada, e pior, porque estava me sentindo tão... suja. Como se tivesse traído alguém... Não presto nem pra me vingar, pelo amor! Pensei na minha avó e no que ela me diria em uma situação como essa “Você pode fechar os seus olhos para as coisas que não quer ver, mas não pode fechar o seu coração para as coisas que não quer sentir.” Às vezes até consigo me fazer acreditar que sou bem forte, mas cheguei a conclusão de que a única coisa forte é a minha vontade de ser forte, mais nada. Estava me sentindo dentro de um filme dramático, aqueles com finais horríveis, que nos faz querer bater na televisão. Trágico, eu sei. Nunca me pareceu tão certo, me comparar com aqueles pedacinhos de vidro do espelho que quebrei. Por dentro, era exatamente assim que estava, despedaçada, e a cada decepção, parecia estar derramando álcool nos cortes, sem dó nem piedade. Enxuguei as lágrimas ousadas que já encharcavam meu rosto, peguei minha pasta de desenhos, folhas em branco, lápis e tentei me distrair. Depois de quase quinze tentativas, e rascunhos jogados fora, não consegui fazer nada além de um desenho que não tinha nada a ver com meu estado de espírito, mas não consegui jogar no lixo também. Coloquei a data e guardei. Tomei um banho, me vesti, peguei o celular, liguei pra minha mãe, conversei um pouco com ela e quando desliguei fui ao quarto da Duda. Ela faz uma falta absurda! Tirei seus desenhos do varalzinho que fizemos e guardei todos na sua pasta, cada um ali tinha um significado diferente e eu sabia que ela gostava de todos. Voltei pra sala, e o Diego estava escutando música. Ainda estava com vergonha do que tinha feito, mas tirei seus fones e ele sorriu. Claro, quando é que ele não sorrir? Chega até a ser constrangedor -
Clara - Não está com fome?
Diego - Pra falar a verdade, estou
Clara - Quer comer o quê?
Diego - Sei lá, você decide. Qualquer coisa
Clara - Não sei fazer qualquer coisa - riu - Pensando bem, acho que vou ligar pra Temakeria que a Manu já é freguesa. Que tal?
Diego - Estou aceitando qualquer coisa que não seja omelete - falou, relembrando o jantar que a Manu fez no dia que ele chegou - 
Clara - Juro que ela já fez melhores. Só que estava meio pra baixo esses dias... você viu. Aí até a omelete desandou - rimos. Liguei para encomendar o nosso jantar, sentei ao seu lado e liguei a TV. Ele deixou o fone de lado - Sabia que eu me pergunto quando é que a sua paciência comigo vai acabar?
Diego - Por quê?
Clara - Porque eu quero te ver feliz, Diego. Porque você merece ser feliz
Diego - E quem disse que eu não sou?
Clara - Seus olhos até tentam, mas não conseguem mentir - repeti as suas palavras e ele riu um pouco - É sério
Diego - Você nunca me deu nenhuma esperança desde que terminou aquilo que nós tínhamos e que nem chegou a ser um namoro, nunca! Não me deixou criar ilusões, e é por isso que prezo a sua amizade mais do que qualquer outra coisa
Clara - Outro em seu lugar já teria saído da minha vida a muito tempo
Diego - Por quê? A gente não erra em amar uma pessoa, Clara. A gente erra em esperar que ela nos ame da mesma maneira. E eu tive que errar pra aprender que cada um só pode dar aquilo que tem a oferecer. Então acredita em mim quando eu digo que sou feliz em te ter como amiga e prometo que só saio da sua vida se você pedir
Clara - Não
Diego - Não o quê? - me olhou meio assustado -
Clara - Não precisa prometer
Diego - Por que não?
Clara - Porque todos que prometem vão embora. Quem realmente quer ficar não precisa prometer nada, apenas fica e ponto. Promessas... machucam. As pessoas prometem porque sentem que podem surgir obstáculos pelo caminho, e sabe qual a pior parte nisso? Desistem sempre nos primeiros que surgem - um risinho irônico escapuliu dos meus lábios - Deve ser da natureza humana correr quando as coisas ficam difíceis. Por isto apenas fique, não prometa. Se tiver que ir algum dia, pelo menos não terá me dado esperanças - ele assentiu e não disse mais nada, acho que percebeu que associei tudo que disse a outra pessoa também... não deu pra evitar. Depois disso preferi ficar calada também, pelo menos até o nosso jantar chegar porque aí o clima ficou melhor.
 clarabarcelar_:   
Comemos, e depois de arrumar a cozinha, nem quis assistir mais nada, desejei boa noite pra ele e fui pro meu quarto. O Luck preferiu ficar fazendo companhia a ele. Ainda estava me sentindo mal pelo que tinha feito, queria apenas enfiar a cabeça no travesseiro pra esperar um novo dia chegar e tentar apagar mais um episódio trágico da minha vida. Imagina só se eu colecionasse todos eles... Troquei de roupa, escovei os dentes, peguei o celular e deitei. Pensei em ouvir música até o sono chegar, mas desisti e entrei no instagram. Curti a foto que a Rafa havia acabado de postar com uma legenda cômica dizendo que a minha princesa estava mais interessada no joguinho do tablet do que nela. Eu ri, e cinco minutos depois meu celular tocou. Falei primeiro com a Duda, ela me contou direitinho como é que foi a consulta com o dentista e depois de se despedir do seu jeito meloso de sempre, passou pra Rafa. 
 - início
Rafa - E aí, Ana Chata!
Clara - Vou fingir, mais uma vez, que nem nem ouvi isso, ok? - riu - Estou com saudades da minha filhota. Quem vem trazê-la?
Rafa - Vem pegar ela, aproveita e fica um pouco comigo 
Clara - Sem chantagem emocional
Rafa - Sério, você podia vim jantar aqui amanhã - sugeriu entusiasmada
Clara - Ficou louca?
Rafa - Por quê? Meu irmão está sempre aí no apê, você também vem aqui. Vocês não vão se matar se ficarem mais do que uns minutos no mesmo ambiente
Clara - Não garanto nada
Rafa - Deixa de ser exagerada - rimos - Vem, por favor 
Clara - Não dá
Rafa - Por quê?
Clara - O Diego. Não posso deixar ele aqui sozinho, a Manu está meio que em Lua de Mel - gargalhou
Rafa - Voltaram?
Clara - Graças a Deus! - rimos
Rafa - Mas então traz ele também
Clara - Ficou louca de vez mesmo. Você sabe que o Júnior não suporta o Diego, Rafa. E tenho quase certeza que é recíproco 
Rafa - Mais um motivo pra você vim e trazê-lo
Clara - Quê?
Rafa - Adoraria ver o Júnior se mordendo de ciúmes - riu
Clara - Ciúmes? 
Rafa - É, não é por isso que ele não gosta do Diego?
Clara - Isso era antes
Rafa - Não importa, venham
Clara - Melhor não, Rafa. Vamos evitar problemas 
Rafa - O mínimo que pode acontecer é o meu irmão ver finalmente como está sendo um trouxa
Clara - Juro que não estou te entendendo - na verdade estava, só que preferia não estar - Ele tem namorada... - falei em voz baixa
Rafa - Esse namoro está mais frio agora do que como era antes. Nem aqui ela veio ainda, só vejo os dois juntos pelas fotos que saem na mídia, acredita?
Clara - É... não duvido 
Rafa - Vem?
Clara - Não sei 
Rafa - Mas vai pensar com muito carinho?
Clara - Talvez
Rafa - Tá vendo porque chamo de chata? - rimos
Clara - Ok, falo com o Diego e te dou uma resposta depois 
Rafa - Vou falar pra minha mãe fazer lasanha de frango com catupiry 
Clara - Achei que tinha deixado claro que não gosto de chantagem emocional, Rafaela - gargalhou -
Rafa - Vou ficar esperando sua resposta, beijo 
Clara - Beijo, chata 
 - término
Continuei com o celular na mão, respondendo algumas mensagens, e depois de um tempo recebi uma da Rafa também. Muito amor por mim, não?! Abri a mensagem rindo, mas franzi a testa ao ver que o texto era apenas uma frase meio sem sentido: "Sei lá, só pra lembrar mesmo!" mas que vinha acompanhado de um link do instagram. Cliquei nele, ainda sem entender nada, e apareceu uma foto nossa. Até aí tudo bem, mas era exatamente a foto que ela havia postado com a legenda "Minha eterna cunhadinha". Fiquei pasmada, juro que até tentei rir... não consegui. Mas tentei não pensar muito no que ela queria dizer com aquela mensagem ou a minha mente entraria em curto-circuito. Não respondi nada, deixei o celular de lado, peguei um livro e li até o sono chegar. Quando não é um, é outro tentando me deixar doidinha da Silva.
**
 Viva a insônia! (só que não!) 
Acordei cedinho, e como quase sempre, todas as minhas tentativas para voltar a dormir, foram em vão, mas continuei deitada por um tempo, pensando nas coisas que a Rafa tinha me dito (e na mensagem). Gostaria de poder pensar como ela em alguns aspectos, só que as coisas sempre são mais fáceis para aqueles que estão de fora. Nem sempre dura. Nem sempre é eterno. E precisamos lidar com isso. Nem que seja na marra. Nem que tenha que engolir o choro de vez em quando. Nem que a gente tenha que fingir que está tudo bem... Existem os finais felizes e os finais necessários. Levantei, meio cambaleando ainda (estava com sono, só não conseguia dormir mais) e entrei no banheiro. Tomei um banho frio, porque já que estava acordada não queria ficar parecendo um zumbi, escovei os dentes, me vesti, calcei o tênis, fiz um rabo de cavalo no cabelo, peguei o ipod, o fone de ouvido e saí do quarto. Passei na cozinha pra tomar um copo de leite forçado, peguei meu chaveiro e saí. Desci de escada para começar a aquecer e fui pra academia. Chovia bastante, acho que por esse motivo ela estava meio vazia, e eu também gostaria de estar na minha cama, muito bem enrolada e só acordar lá pelas 11h, como a maioria dos meus vizinhos. Mas estava acordada ás 07h da manhã de um sábado chuvoso, então só me restava malhar. Fiz questão de suar bastante, estava exausta quando subi, e o Diego já estava acordado.
Clara - Bom dia 
Diego - Bom dia - me olhou surpreso - Achei que ainda estivesse dormindo. Quanta disposição! 
Clara - Lógico. Estou ficando bem fortinha, não estou? - brinquei e mostrei o meu muque pra ele, bem orgulhosa de mim - Pode falar 
Diego - Nossa! Quase mais do que eu - gargalhou
Clara - Olha que eu te faço comer omelete hoje de novo, heim?! Vai rindo - não consegui falar sério, então voltamos a rir mesmo - Por falar nisso, a Manu deu algum sinal de vida?
Diego - Nada até agora 
Clara - Até ficaria preocupada se não a conhecesse - riu - Vou tirar essa roupa suada e volto pra gente tomar café - olhei-o e ele piscou discretamente. Sorri e fui pro meu quarto, dessa vez o Luck me acompanhou. Dei um beijinho de bom dia nele, e fui direto pro banheiro. Tomei um banho rápido, passei hidratante no corpo, e me vesti. Fiz um coque no cabelo, fui pra cozinha, coloquei ração pro Luck primeiro, depois comecei a preparar o café da manhã. O Diego entrou na cozinha, e até passou pela minha cabeça falar com ele sobre o convite da Rafa mas não falei. Seria muito doido (absurdo até), eu não me sentiria bem jantando na casa do Júnior com o Diego ao meu lado, não nessas circunstâncias. Esse final de semana não teria jogo, então é claro que ele estaria lá. A não ser, claro, que fosse ver a atriz. Bom, preferi ficar calada, era o melhor para todos. Depois do café mandei uma mensagem pra Rafa avisando que ia pegar a Duda no finalzinho da tarde e só. A Manu ligou, disse que estava bem e muito feliz - disso eu não tinha dúvidas - e mandou uma foto das outras surpresas que a sua noite de reconciliação teve. O Gil quis realmente surpreendê-la e conseguiu. Eu e o Di tínhamos combinado de ir à praia, mas nosso plano foi totalmente por água abaixo, então só nos restou passar o dia jogando Midnight Club e comendo pipoca. Quando a chuva deu uma trégua, lá pelas 17h, resolvi ir pegar a Duda logo mas fiquei sem jeito de deixá-lo sozinho, então sugeri que me acompanhasse. Ele ficou meio que com o pé atrás, bastante receoso, mas aceitou. Eu também não pretendia demorar lá, e com sorte (eu falando de sorte, olha que irônico), talvez, nós nem cruzássemos com o Júnior. Se bem que eu não tinha absolutamente nada a esconder dele, só queria mesmo evitar um momento constrangedor pra mim. Fui no meu quarto rapidinho, apenas para me agasalhar mais, troquei o shortinho por uma saia branca e vesti uma blusa de pano mais grosso. Estava frio, tanto que as portas da varanda que sempre ficam abertas, estavam fechadas - Vamos? - peguei o celular e coloquei no bolso, ele assentiu. Saímos, tranquei a porta, descemos na garagem, destravei as portas do meu carro, entramos e dei partida. Não gosto de pista molhada, então dirigi com cuidado redobrado e quando chegamos ao prédio, a minha entrada já estava liberada (na verdade, mesmo depois do término, minha entrada nunca foi cancelada)
Diego - Melhor eu ficar aqui, né? - perguntou assim que estacionei
Clara - Não - tirei o meu cinto de segurança - Claro que não, não vou demorar. Vamos subir
Diego - Tem certeza?
Clara - Você disse que tem orgulho de me ter como amiga, não disse?
Diego - Disse
Clara - Eu também tenho orgulho de te ter como amigo. Não preciso te esconder de ninguém - ele sorriu de lado - Vamos, vai - saí do carro e esperei que ele fizesse o mesmo, depois travei as portas, chamei o elevador e subimos. Não posso dizer que não fiquei nervosa a medida que o elevador subia, porque fiquei, e nem sabia o por que. Quando chegamos ao andar certo, respirei fundo antes de tocar a campainha. Qual não foi a minha surpresa, quando o Júnior abriu a porta (preciso me lembrar de não falar mais em sorte, porque eu definitivamente não sei o que é isso). A primeira reação foi unânime: nós três ficamos surpresos. Não devia ter ficado muito, ali era a casa dele, mas fiquei. Por favor, não tinha mais ninguém em casa pra atender a porta? Puta merda! A segunda reação foi diferente para todos: o Júnior nos olhava de um jeito severo, muito sério, dava pra ver sua mandíbula tensa, os dentes cerrados. O Diego parecia sustentar o olhar dele, inquebrantável. E eu... eu estava me sentindo uma idiota ali. Uma bela idiota. Mas antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa, o Júnior deixou a porta aberta e, sei lá, sumiu. Meu Deus, por favor, não deixe que eu me arrependa de ter vindo até aqui. Por favor! Pedi internamente. Entrei, puxei o Diego pra dentro também e logo depois ouvi a voz da Tia Ná, acho que ela estava falando com a Joana
Tia Ná - Meu amor! - abriu os braços na mesma hora para me receber e não esperei nada para abraçá-la - Que bom te ter aqui - beijou meu rosto, e eu sorri fraco. Ela cumprimentou o Diego normalmente e pediu que nós sentássemos - A Rafa acabou de subir pra tomar banho 
Clara - Ah, então acho que ela vai ficar bem irada porque não vou esperar - ri levemente - E a Duda? 
Tia Ná - Lá em cima também, disse que ia trocar as roupinhas das bonecas antes de ir - nós duas sorrimos - Sobe 
Clara - Não, espero aqui mesmo 
Tia Ná - Então vai ficar pra jantar, não é? Porque ela quando entra naquele quarto pra brincar esquece o mundo - o pior é que eu sabia muito bem disso e olhei pro Diego meio receosa - Pode ir, eu fico aqui com ele - piscou e sorriu -
Clara - Certo. Tudo bem? - olhei pra ele
Diego - Claro, vai lá - sorriu. Não deixa o seu filho se aproximar muito ou pode sair faíscas, tia. Pensei quando me levantei, mas como é obvio, não falei. Penso muito, não?! Ainda bem. Subi rapidinho, e assim que cheguei no amplo corredor, evitei olhar para a porta de um certo quarto mas assim que passei por ele, estagnei
Neymar - Clara? - a primeira coisa que me veio a cabeça foi perguntar o que ele estava fazendo ali, só que me dei conta de que a intrusa era eu. Virei para olhá-lo e percebi que estávamos a menos de um metro de distância. Meu alarme interno de periculosidade apitou
Clara - Oi - limpei a garganta - Só estou indo chamar a Duda. Não se preocupa porque não vou ficar aqui por muito tempo com o Diego - seu olhar quase suave, mudou radicalmente e voltou a ficar muito sério, diria até assustador. Mas não tive nem tempo de pensar, pisquei e de repente, ele estava segurando o meu braço e entrando comigo no seu quarto. Só não gritei por que... não sei por que - Ficou maluco? - perguntei, porém, nem sei se ele respondeu. Entrei em um transe causado pelo choque ao olhar ao redor e ver que o seu quarto continuava idêntico ao que vi da última vez que estive nele e não falo dos móveis ou da decoração. Falo das... nossas fotos. Estavam meio escondidinhas atrás de uns porta-retratos grandes com tarefinhas feitas pela Duda especialmente para ele, mas estavam ali. Eu vi porque já conhecia as fotos, talvez outra pessoa nem percebesse. Pisquei algumas vezes, e ainda cheguei a esfregar os olhos pra ter certeza. O que é que nossas fotos estavam fazendo ali?
Neymar - Você ainda guarda nossas fotos - sua voz me acordou
Clara - Quem disse isso?
Neymar - A Duda - franzi a testa, mas lembrei que foi isso mesmo que falei pra ela: que tinha guardado. Ok, as fotos estavam bem escondidas, claro que não joguei fora, é como você; prefiro não encontrar, mas não consigo me desfazer, pensei
Clara - Acho que isso não é da sua conta - fui grossa mesmo (tentei) e quando dei um passo a frente para sair logo daquele lugar, ele também fez a mesma coisa, se colocando perfeitamente na minha frente
Neymar - Você transou com ele? - perguntou o que, acho eu, estava lhe atormentando, porque a sua voz estava tensa demais. Não devia, mas achei graça disso. Será que a Rafa tinha razão? 
Clara - O quê? 
Neymar - Não me faça repetir isso 
Clara - Eu é que não acredito que ouvi isso 
Neymar - Me responde, por favor
Clara - NÃO! 
Neymar - Não?
Clara - Não é da sua conta também. Sinceramente, quando a minha vida sexual virou o tema da conversa?
Neymar - Eu só quero saber, é tão difícil assim falar a verdade?
Clara - Obvio que é. Nada da sua vida me interessa, logo, nada da minha devia te interessar, não acha?
Neymar - Não acho. E se você quiser saber da minha eu digo... 
Clara - Não! Me poupa, por favor - coloquei as mãos no rosto, e no mesmo momento ele me puxou pela cintura. Soltei um gritinho de susto e fiquei sem reação. O que é que estava acontecendo?
Neymar - Você foi a minha primeira e é a minha última! - a intensidade das suas palavras me acertou em cheio, o impacto delas foi grande... e muito forte
Clara - Quê? - sussurrei, abalada não só pelo que tinha acabado de ouvir mas por estar tão perto dele
Neymar - Não fiquei com ninguém depois de você, nem pretendendo. Tenho certeza que você também não se envolveu com ele... mas quero ouvir 
Clara - Se acha demais, não é? Mas não sabe de nada - sorri ironicamente 
Neymar - É mesmo? - não me pergunte o motivo, mas ele também sorriu - E ele te fez sentir coisas assim? - suas mãos desceram rapidamente para o meu bumbum e apertou-o levemente, nos deixando ainda mais colados. Corei e quase gemi, quase
Clara - Não... 
Neymar - Ou assim? - suas mãos voltaram a subir, dessa vez mais devagar e pararam na minha nuca, me arrepiei da cabeça aos pés. Filho da mãe!
Clara - Não... - não queria responder, não devia responder nada, só que parecia involuntário. Meu corpo (um traidor, diga-se de passagem) respondia ao dele, e isso eu não tinha como negar ou esconder
Neymar - Não o quê? 
Clara - Não, ele não me fez sentir nada disso porque não, eu não me envolvi com ele - me afastei pra poder pensar com mais clareza, ainda sem acreditar no que estava acontecendo. Ele se afastou também, fechou os olhos, e passou a mão nervosamente pelos cabelos, depois voltou a se aproximar. Seu olhar estava calmo de novo
Neymar - É feio isso que você fica fazendo, sabia?
Clara - O que é feio?
Neymar - Tentar, e conseguir me fazer ciúmes
Clara - Não sei do que você está falando
Neymar - Sabe. E devia ter um pouco de consideração pelo seu amiguinho... ele vai achar que você está dando esperanças pra ele 
Clara - Você não sabe de nada. Não fala merda - tentei sair novamente, só tentei
Neymar - Fica aqui - sua voz também suavizou um pouco
Clara - Não
Neymar - Por favor 
Clara - Não. E por que não vai atrás da atriz?
Neymar - Não tenho nada com ela - respondeu baixo demais pro meu gosto. Gargalhei impulsionada pela ironia e pelo nervosismo
Clara - Ok - tentei passar pelo lado oposto, e dessa vez ele segurou o meu braço, então ficamos muito próximos de novo - Me solta 
Neymar - Eu te amo - meu coração acelerou imediatamente, minhas pernas viraram geleia e minha boca ficou seca. Merda!
Clara - Eu devia te bater - sorriu torto. Merda dupla! - Não sorri, estou falando sério. Não consigo entender você. Me deixa, fica praticamente chamando fotógrafos para verem você com aquela lá, e agora que ninguém está olhando vem atrás de mim? Qual é o seu problema, afinal? 
Neymar - Eu te amo - repetiu. Minha mão coçou... não sei por que seu olhar me parecia tão sincero - Você costumava acreditar em mim
Clara - Isso era antes... quando você também costumava dizer que ficaria do meu lado sempre - ele me soltou bem devagarzinho, como se tivesse ouvindo a frase aos pouquinhos. Saí logo de perto mas quando cheguei na porta e coloquei a mão na maçaneta (cheguei a abrir), voltei - A propósito, te agradeço. Não por ter me magoado e ido embora como se nada tivesse acontecido, mas por ter me ensinado a ser mais forte. E menos idiota! - dei as costas, dessa vez decidida a sair mesmo. Pena que ele me puxou pelo braço de novo, ainda mais forte que da outra vez e o embate dos nossos corpos foi tão intenso que quase nos beijamos sem querer. Ficamos com os rostos muito próximos, e eu sabia que se ele tentasse alguma coisa, eu não iria resistir. Não queria resistir. E para o mal dos meus pecados, ele avançou, fazendo minha respiração ficar irregular imediatamente, mas recuou. Estava brincando comigo? Só podia ser isso! As lágrimas começaram a me ameaçar (demorou) - Eu não te amo mais - sussurrei, tentando acreditar em mim mesma, pra ver se ele acreditava também
Neymar - Está tentando me convencer ou se convencer? - perguntou sem se afastar um milímetro
Clara - Os dois 
Neymar - E acha que está funcionando?
Clara - Estou me esforçando - murmurei e me surpreendi por estarmos falando tão baixo. Parecíamos estar... nos confessando - Você desistiu antes de saber se aquele era nosso ponto final, o que acha que eu devia estar fazendo? - a primeira lágrima rolou, e atrás dessa vieram as outras. Não consegui controlar e o mais incrível é que continuávamos juntos, ou melhor, colados. Depois de uns dois minutos apenas me olhando, ele começou a enxugar as minhas lágrimas com tanta delicadeza, com tanto carinho, que quando percebi já estava de olhos fechados - Aonde fomos parar? Estamos fugindo um do outro e escondendo sentimentos ou simplesmente tudo se acabou? - um soluço me interrompeu - Nossos caminhos mudaram e eu me pergunto diariamente o que fizemos com nós mesmos, com a gente - continuei de olhos fechados, ou acho que não teria coragem de falar - Procuro soluções, tentativas em vão e tudo o que encontro é apenas um labirinto de palavras não ditas, sentimentos ignorados e distanciamento. O que fizemos com nós mesmos? Onde fomos parar? O que iremos fazer? - suspirei ao perceber que suas mãos tinham se afastado do meu rosto - Me dê uma solução. Me ajude ou simplesmente iremos ficar assim, um em cada canto e deixando tudo cair no esquecimento - respirei fundo e preferi não falar mais nada, já tinha passado do ponto, não devia nem ter começado. Não estava completamente arrependida, mas estava embaraçada, com medo do que ele pudesse responder, ou sei lá... com medo de abrir os olhos e nem encontrá-lo mais na minha frente. Mas a sua resposta foi o oposto de qualquer coisa que tenha passado pela minha cabeça, porque quando já me preparava para mais uma frustração/decepção, senti a colisão impactante dos seus lábios nos meus. A surpresa me fez abrir os olhos na hora, só podia estar sonhando acordada... Mas não estava. Ele se afastou apenas o suficiente pra poder falar
Neymar - Fecha os olhos - juro que ainda não estava entendendo nada do que estava acontecendo ali naquele quarto, só sabia que estava à flor da pele, e obedeci sem nem pestanejar. E então ele me beijou de novo. ELE ME BEIJOU! E foi tão... mágico. Seus lábios nos meus, sua língua invadindo minha boca, sua mão direita na minha cintura, nos mantendo mais unidos do que nunca e a esquerda encaixada perfeitamente na minha nuca. Devo dizer que as minhas mãos ficaram meio que voando, porque demorei alguns segundos para poder cair em mim, mas ele não pareceu se importar com isso, ficou com o total controle da situação e eu só correspondi. Cada partícula do meu corpo correspondeu, e estava tudo lá, exatamente igual: cada sensação, cada emoção... cada sentimento. Tudo mais forte e real do que antes. Já estávamos ficando sem fôlego quando comecei a chorar por saber que o momento mágico estava prestes a conhecer o seu fim. E isso não demorou para acontecer mesmo, ele foi abrandando o ritmo do beijo e findou-o muito devagar, como se não quisesse parar também. Ficamos apenas ouvindo as nossas respirações, até que ele falou - Se depender de mim, nada vai cair no esquecimento - abri os olhos e como num passe de mágica, tudo foi se desfazendo, até ele enfim, sair do quarto. Fiquei parada olhando para o além, sem saber muito bem o que pensar, e sem saber porque tinha deixado tudo aquilo acontecer. Quero dizer, sabia muito bem porque eu deixei acontecer, mas e ele? Brincou comigo e com os meus sentimentos ou também sentia tudo que deixou transparecer em um beijo quase interminável? E tudo que me disse? Meu Deus, ele me disse "eu te amo". Duas vezes! Será que estava com febre, como daquela vez que ficou delirando o meu nome? Será que queria me enlouquecer? Será que a Rafa tinha razão? Ele meio que deixou claro o seu ciúmes, mas só sente ciúmes quem... ama. Não é possível! É? Tantas incógnitas, tantas interrogações, e depois de tanto pensar só conseguia me perguntar por que estávamos separados. Não nascemos para dar certo, nem para ficarmos juntos? Sei lá, vai ver o nosso felizes para sempre é cada um pro seu canto. Algumas pessoas estão destinadas a se apaixonarem, mas não para ficarem juntas... Mesmo assim sei que esse amor é aqueles que só acontece uma vez na vida, apesar de tudo ou por causa de tudo, a gente se pertence de uma forma bem estranha. Minha avó diz que o amor não tem uma explicação, eu estava começando a achar o contrário: existe sim, mas aposto que é uma bem idiota. O que mais queria era um tempo pra poder assimilar tudo que tinha acabado de acontecer, só que já tinha perdido demais. Passei as mãos no rosto, tentando me recompor, dei mais uma olhada nas fotos e saí do quarto rápido. Passei no da Duda mas ela não estava mais lá. Dei meia volta, pedi mentalmente para estar com um ar apresentável, respirei fundo e desci. A Rafa e a Duda já estavam na sala com o Di e a Tia Ná, e quando me viram, todos eles pararam de falar. Será que o Júnior também tinha passado por ali? Se sim, levando em conta o tanto que demorei (e nem cheguei a chamar a Duda), com certeza já haviam hipóteses rondando nas cabeças de cada um. Parem de me olhar, por favor!
Rafa - Minha chata! Achei que você ia embora sem falar comigo - levantou pra me abraçar e sorriu amplamente - Preciso te mostrar uma coisa, vem comigo - não me deixou responder nada e me arrastou pra cozinha, que estava vazia - Eu vi - tentou conter um grito e colocou as mãos na boca - Eu vi - 
Clara - Viu o que? - essa pergunta devia ir para o livro das mais idiotas, eu sei, mas fiz mesmo assim
Rafa - Você sabe o quê 
Clara - Não se alegre. Não sei o que deu no seu irmão... e em mim 
Rafa - Eu sei 
Clara - Tudo bem, mas eu não quero saber - ela riu e balançou a cabeça negativamente
Rafa - Vocês são o tipo de casal, que mesmo não estando juntos ainda são um casal - ai, meu Deus!
Clara - Eu... eu preciso ir, Rafa - ela assentiu e não insistiu ou me pediu pra ficar mais. Apenas me abraçou mais uma vez e me deu dois beijinhos, não tirou o sorriso do rosto. Voltei pra sala, e a Duda não estava mais lá - Cadê ela?
Tia Ná - Foi dar tchau pro pai 
Rafa - Aqueles dois são um grude, você sabe - veio falando da cozinha e sentou no mesmo lugar que estava antes, ainda sorrindo. Não respondi. Olhei pro Diego e ele parecia pensativo, absorto... completamente longe daquela sala. Aquele não era o lugar dele e eu podia ter evitado tudo se não fosse tão ingênua (pra não dizer idiota de novo) a ponto de pensar que seria normal estarmos ali. O Diego não merecia uma amiga como eu, mas eu queria merecer a sua amizade, queria muito e pra isso não podia mais errar com ele... estava disposta a não fazer mais isso. A Duda saiu da sala de jogos com o Júnior, ambos sorrindo e só porque eu já esperava que me ignorasse como se nada tivesse acontecido a minutos atrás, ele fez o oposto e olhou pra mim de um jeito que quase deixou tudo muito obvio. Na verdade, acho que era um olhar mais direcionado ao Diego. Balancei a cabeça, achando que aquilo já estava indo longe demais. Um beijo e meia duzia de palavras ditas no calor do momento não havia mudado nada: continuávamos separados - apesar de tudo, sem nenhuma chance de retorno - então ele não podia se achar o dono da situação, ou pior, o meu dono
Clara - Vamos, Di? - ele levantou imediatamente, foi quase automático - Vamos, filha? - o Júnior agachou pra dar mais um beijo nela, depois passou por todos nós e subiu. A Duda se aproximou de mim com a sua bolsa cor de rosa pouco chamativa, e enlaçou a minha cintura. Beijei o topo da sua cabeça, ela me olhou e sorriu. Nos despedimos da Tia e da Rafa (o mais rápido que deu, confesso) e descemos. Não queria mais ficar naquela casa, estava ficando tonta de tão nervosa. Entramos no meu carro, o Diego foi atrás com a Duda e durante o caminho todo só falou com ela. Não podia julgá-lo se ele quisesse parar de falar comigo pelo resto da vida. Chegamos no apê, e ao estacionar vi o carro do Gil. Subimos, e ele e a Manu estavam no sofá, apenas assistindo, ainda bem. A Duda ficou feliz por vê-los juntos de novo, chegou a sentar entre eles mas não prestei atenção na conversa animada deles, e quando vi o Diego sair da sala, só consegui pensar em segui-lo. Ele entrou no quarto de hóspedes, mas deixou a porta entreaberta, bati nela antes de entrar - Está tudo bem? - estava preparada para ouvi-lo dizer que ia embora da minha vida para sempre, mas ouvi o que menos esperava
Diego - Você está bem?
Clara - Sim, estou - Não, estou na merda!
Diego - Tudo bem, também - respondeu sem me convencer, ainda de costas pra mim - Desculpa se te causei algum transtorno 
Clara - Quê? Pelo amor de Deus! Eu é que devia estar me desculpando, não devia ter te levado pra lá. Sabia que podia não dar muito certo - me lamentei, só que já era tarde demais
Diego - Ele ainda gosta de você - virou finalmente para me olhar -
Clara - Quem? - perguntei sem querer entender o que estava querendo dizer
Diego - Ele ainda gosta de você - repetiu mais devagar, bem convicto
Clara - Diego, por favor 
Diego - Eu vi o jeito que ele te olhou, Clara. Eu conheço aquele jeito - meu coração quase parou - Me desculpa se com isso posso estar fazendo com que você crie falsas esperanças em relação a ele, mas senti que era o meu dever te falar isso. Ele ainda gosta de você 
Clara - Diego...
Diego - Não precisa falar nada, muito menos se desculpar de novo. Nós já falamos sobre isso
Clara - Mas... - tentei segurar as lágrimas, mas foi em vão - O meu lado nessa história toda é muito complicado... a única coisa que posso fazer é pedi desculpas
Diego - Não chora - sorriu de lado, se aproximou e me abraçou - Depois a gente ainda vai rir de tudo isso - falou bem baixinho. Intensifiquei a força do abraço, querendo mais do que tudo que aquilo fosse verdade - Vai lá aproveitar a Dudoca, deve estar com saudades dela - enxugou as minhas lágrimas e me deu um beijo na testa. Tentei sorrir, beijei sua bochecha e saí do quarto, mas não fui pra sala... entrei no meu cantinho, no meu refúgio. Ainda me perguntava o por quê de não estar me sentindo mal por ter ficado com alguém comprometido. Ok, não sentia nenhum tipo de simpatia pela atriz, mas não gostaria de ser... traída (?) Por que é que não estava arrependida, então? Por que não sentia que tinha feito algo errado? Estava mais confusa do que nunca, tendo as palavras do Júnior ecoando junto com as palavas do Diego, da Rafa, da minha avó e da Tia. Tudo embaralhado na minha cabeça, me deixando quase zonza. Ouvi baterem na porta, e logo em seguida a Manu colocou a cabeça dentro do quarto
Manu - Posso entrar? - assenti, já sabendo que só pela sua cara, ela estava pronta para um interrogatório. Talvez eu estivesse precisando disso. Ela entrou, trancou a porta e sentou ao meu lado. Comecei a falar antes mesmo que ela perguntasse algo, acho que foi mais porque queria desabafar mesmo. E fui falando, falando... até ficar sem fôlego e precisar parar mesmo. Mas contei tudo - Ai, meu Deus! E aí? - e que comece o interrogatório
Clara - E aí, o que?
Manu - Como assim? Vocês se beijaram! 
Clara - E daí? 
Manu - Você sabe muito bem onde eu quero chegar, nem começa 
Clara - Não sei onde você quer chegar
Manu - Tudo bem, eu esclareço - sorriu irônica - Se vocês se beijaram, isso significa que alguma coisa ainda existe entre vocês dois 
Clara - Alguma coisa é pouco... Existe muita coisa, Manu. Muita coisa! 
Manu - Então...?
Clara - Sei lá - gargalhou - Nossa, você está realmente rindo de mim?
Manu - Não estou rindo de você, é da situação. Vocês sempre foram assim complicados demais mesmo, ou como era?
Clara - Não somos complicados. Na verdade, é tudo muito fácil
Manu - Me explica então, porque eu estou tentando entender 
Clara - Eu o amo, não vou deixar de amar. Ele disse que ama, apesar de tudo, eu acredito e depois do beijo... só consegui ter mais certezas disso 
Manu - E isso porque não são complicados... - sussurrou - O que é que vocês estão fazendo separados? Porque ele está com aquela lá? 
Clara - Às vezes o amor não é suficiente - encolhi os ombros
Manu - Eu não concordo. É o suficiente sim, basta ser verdadeiro e ele supera qualquer coisa 
Clara - Não foi bem isso que eu quis dizer, Manu... É que...
Manu - É que...?
Clara - Quando voltei pra Santos, lembro dele ter me dito que parecia existir uma parede entre nós. Agora, sei lá porque ou por quem, essa parede foi construída de novo
Manu - Mas espera, essa parede era o fato de tu esconder que ele era o pai da Duda?
Clara - É... sempre soubemos o que sentíamos, mas ele nunca acreditou na minha desculpa ridícula quando o deixei aqui...
Manu - E isso não te faz pensar em nada?
Clara - Tipo o que?
Manu - Na desculpinha ridícula que ele te deu quando te deixou
Clara - Você acha que...?
Manu - É algo a se pensar
Clara - Minha avó me disse algo parecido, sabia? Meio que defendeu o Júnior e disse que ele deve ter tido um motivo forte pra ter feito o que fez, mas que eu só saberia esse motivo com o tempo. Só que eu não quero esperar quatro anos, Manu. Não posso, entende? - percebi o quanto estava desesperada e tentei manter a calma - Mas... ao mesmo tempo, morro de medo 
Manu - Medo de que? 
Clara - Daquele que eu vou considerar o vilão da história no dia em que escrever o meu livro - ela riu um pouco - O desconhecido... - sussurrei - Tenho medo mesmo de saber o verdadeiro motivo que fez ele me deixar. Não sei... talvez eu deva me conformar e ponto. Sinto que se ele quisesse realmente me contar, já teria feito isso, oportunidades não faltaram. Inclusive hoje... 
Manu - Bom, não posso mudar sua opinião quanto isso, mas eu o colocaria contra a parede
Clara - Eu sei - ela sorriu - E até poderia dizer que também vou fazer isso, mas sei que não vou. Não tenho coragem pra isso 
Manu - E o que você sente? Não conta?
Clara - Conta. Só que precisei guardar tudo em uma caixa, tranquei e escondi a chave - confessei o que ainda não tinha feito mas pretendia fazer, para o bem da minha sanidade mental. Ela não insistiu mais no assunto e fiquei grata por isso, ficar remoendo aquilo só me faria criar mais hipóteses infundadas e sem sentido. Não podia perder meu tempo com fantasias, nem idade pra isso tinha mais. Precisava mentalizar que faltava menos de quinze dias para o transplante do meu avô ser realizado. Menos de quinze dias para que tudo finalmente ficasse bem, para que nossas vidas mudassem de novo, dessa vez pra melhor, e para que nossas esperanças se renovassem ainda mais. Era nisso que tinha que pensar e me preocupar, não em como deveria me sentir depois de ter beijado alguém que (amo) teoricamente é comprometido com outra. Além do mais, assim como ele descobriu o meu segredo de um modo bem inesperado, se eu realmente tivesse que saber algo, logo viria à tona (e eu nem sabia se queria que viesse).



Olá, amores! 
Falei pra vocês que posso demorar, mas sempre vou aparecer!  
Hoje só quero pedir uma coisinha pra vocês: Votem na enquete lá em cima, por favor. É melhor pra eu ter uma base.
Beijocas, e até a próxima! Amo vocês