segunda-feira, 27 de abril de 2015

Capítulo 65 - “O próximo casamento é o nosso”

Não sei como aconteceu, mas suspeito que tenha sido o meu subconsciente que reconheceu uma mistura deliciosa de risos ecoando pelo meu quarto e me fez acordar. Abri os olhos com dificuldade por conta da claridade, me perguntando se havia marcado algum tipo de festa no meu quarto e não estava lembrada. Porém, só a Duda e o Luck estavam presentes, ambos ao meu lado, e ela com os olhos vidrados na TV, mas não precisei de mais do que alguns segundos para entender o motivo. 
- E o coração do Neymar no momento? - ouvi, e mesmo sem querer todas as minhas atenções já estavam voltadas pra TV também, mais acordada do que nunca. E então ele surgiu na tela; de bermuda, moletom, o boné que tem girl's dad gravado na frente, e uma carinha inegável de quem dormiu mais do que devia. Deduzi que aquilo fosse ao vivo, então é claro que essa era uma pergunta que não ia ficar de fora depois dos últimos acontecimentos envolvendo a sua vida pessoal. Ele sorriu. Eu sabia que aquele sorriso era pra mim, por isso sorri também sem nenhum receio do que ia ouvir porque ele saberia o que responder para o bem de nós dois.
Neymar - Tá bem tranquilo. Tranquilaço! - riu, fazendo quem quer que fosse que estivesse entrevistando-o, rir também. Foi a última pergunta, então depois me dei conta que o cenário era o Recanto dos Alvinegros, mais conhecido como o hotel da concentração -
Eduarda - Mãe! - ela só se deu conta que eu também estava acordada porque o programa deu intervalo, e passou por cima do Luck pra deitar em cima de mim - Tava assistindo o papai também? Ele falou de mim - sorriu -
Clara - Só vi o finalzinho, amor. Mas me conta, o que ele falou de você?
Eduarda - Ah, um monte de coisas - riu - Falou que eu sou o melhor presente da vida dele. E o mais lindo também - gargalhei -
Clara - Eu concordo com ele
Eduarda - Eu sou seu presente também? - ficou com as bochechas mais rosinhas que o normal e eu assenti adorando vê-la envergonhada, o que não acontece com muita frequência. Ela me abraçou rindo e escondeu o rosto no meu travesseiro -
Clara - Foi ele que pediu pra você assistir?
Eduarda - Não - respondeu balançando a cabeça - Eu liguei a televisão e aí vi o papai ali - encolheu os ombros. Uma conexão maravilhosa então, pensei e sorri. Ficamos enrolando na cama por um tempo, acho até que a Duda tinha esperanças de ver o Júnior na TV de novo, mas isso não aconteceu porque como eu já esperava, a entrevista tinha terminado com aquela pergunta. Não estava com vontade de descer pra academia, então quando finalmente levantei a primeira coisa que fiz foi reorganizar meu mural de fotos com a ajuda da Duda, (porque ela perguntou quando que eu colocaria as fotos com o Júnior ali de novo); eu pegava as fotos, aquelas que estavam guardadas no fundo de uma gaveta, e ela muito empolgada ia colocando onde achava que ficariam mais bonitas. Depois disso só escovamos os dentes e saímos do quarto, o tempo estava friozinho por isso estávamos dispostas a ficar de pijama mesmo. A porta do quarto da Manu estava aberta, mas ela não estava lá, nem na sala ou na cozinha e só quando já estava tomando café com minha pequena vi um bilhetinho dela em cima do balcão avisando que ia dar uma passadinha na casa dos pais. Eu tinha quase certeza que o motivo dessa ida até lá envolvia mais o mini wedding dos meus coroas do que qualquer outra coisa porque ela realmente ficou animada com isso. Eu também fiquei, não posso negar. Agora mais do que nunca a minha meta de relacionamento passava pelos meus pais e terminava nos meus avós. Depois do café da manhã, deixei a Duda no meio dos seus brinquedos na área da bagunça com o Luck e voltei pro meu quarto. Precisava me distrair porque volta e meia pensava no que ia fazer à noite... e não queria ficar ansiosa, muito menos nervosa. Trabalhar é sempre a melhor distração. Liguei o mac, fiz algumas pesquisas de mercado, mudei várias estratégias do projeto de marketing que tinha em mente, e revisei o portfólio que terminei na sexta-feira. Por último entrei no portal Sócio Rei para tentar a sorte e consegui comprar os ingressos pro jogo. Quando acabei, não havia sinais da Manu ainda e me dei conta que não tinha feito nada pro almoço, nem estava com vontade de fazer também, então mandei uma mensagem pra madrinha convidando-a pra almoçar e cinco minutos depois ela respondeu confirmando a hora e o lugar. Desliguei o mac, separei logo uma roupa, deixei em cima da cama e fui ver a Duda na sala, já que ela não estava mais no quarto. Sorri quando a vi, e nem sei quanto tempo perdi apenas olhando-a.
 clarabarcelar_: Quem não tem irmão brinca só? Acho que não, heim?!  
Eu realmente não sei como a Eduarda fazia isso, mas todos os dias eu achava mais um motivo para amá-la cada vez mais, falando sério mesmo. Talvez seja coisa de mãe, não sei, pode ser. Ela me viu antes que eu falasse algo, e me puxou pra brincar também, me fez cantar todas as cantigas de roda que lembrava e terminamos rindo e rodando pela sala que nem duas doidas. Eu não trocava esses momentos com ela por nada no mundo, aos olhos de outra pessoa podia não significar muito mas pra mim era tudo. Ajudei-a a guardar todos os brinquedos depois, coloquei-a no chuveiro e comecei a escolher sua roupa; peguei um shortinho xadrez, uma blusa estampada com alguns bordados na frente e coloquei um casaquinho na sua bolsa pro caso do tempo esfriar ainda mais. Ela saiu do banheiro, enxuguei-a, vesti-a, deixei seu cabelo soltinho e enquanto ela decidia o que calçar, fui tomar o meu banho também. Me vesti, soltei e penteei o cabelo, passei pomada na tatuagem, arrumei minha bolsa, peguei o celular, o óculos e já ia sair do quarto quando lembrei de algo que me fez parar. Olhei pro meu pulso vazio, e sem pensar em mais nada fui até a gaveta e peguei a pulseira que estava guardada ali, coloquei-a novamente no seu lugar - de onde nunca deveria ter saído - e saí do quarto mandando uma mensagem pra Manu porque estava supondo que ela chegaria primeiro, já que eu só voltaria depois do jogo. Respondi uma mensagem da Rafa também, que ao contrário de mim estava muito nervosa por causa do encontro que eu tinha marcado para à noite, um exagero da parte dela, lógico, mas tranquilizei-a mesmo assim. Fui chamar minha pequena, coloquei ração pro Luck e saímos de casa. 
 clarabarcelar_: always be my baby  
Descemos para garagem fazendo caras e bocas no espelho do elevador, acho até que tiramos mais umas trezentas fotos. Destravei as portas do meu carro, coloquei a Duda na sua cadeirinha e antes de colocar o cinto também peguei o celular para desejarmos boa sorte pro Júnior de uma maneira diferente.
Clara - Filha, olha aqui - ela virou e sorriu imediatamente. A câmera é uma das nossas paixões em comum, a única diferença é que eu gosto de fotografar e ela gosta de ser fotografada - Fala boa sorte pro papai
Eduarda - Boa sorte, pai - falou com a vozinha doce que geralmente usava para falar com ele pelo telefone e o deixava babando - Faz um gol pra mim, pra mamãe e pro Luck - gargalhei -
Clara - Preciso falar mais nada, né? Três golzinhos só, sem pressão - ri - Boa sorte! Que Deus te abençoe e te livre dos zagueiros mal intencionados - soprei um beijo, a Duda fez o mesmo e deu um tchauzinho. Então, como se tivéssemos ensaiado, dissemos eu te amo ao mesmo tempo e encerrei a filmagem -
Eduarda - A gente vai ver o jogo, mãe?
Clara - Sim, só que antes vamos almoçar com a madrinha, ok? - assentiu e sorriu. Enviei o vídeo pro Júnior, dei partida e no caminho até o restaurante ouvi a minha pequena falar todos os números e cores que reconhecia nos outdoors das ruas que passamos. Eu acho que ela não sabia que eu estava ouvindo, porque falava bem baixinho, mas percebi que já conhecia quase todas as letras do alfabeto e pelo menos os dez primeiros números. Por isso se sai tão bem com as tarefinhas de casa, e na semana passada conseguiu escrever o seu próprio nome sozinha. O restaurante estava bem cheio quando chegamos mas não tive dificuldades para encontrar a madrinha porque ela foi uma das poucas pessoas que preferiu uma mesa ao ar livre, levando em conta que o tempo não estava muito confiável. A Jéssica estava com ela, e as duas levantaram com sorrisos enormes para nos cumprimentar -
Juliana - Espero que não se importe por eu ter trazido uma penetra
Clara - Essa penetra é muito bem-vinda
Jéssica - Nossa, como vocês são engraçadas. Depois não aceito mensagens dizendo o quanto eu faço falta ou querendo a minha adorável companhia - rimos -
Clara - Tudo bem, Jê?
Jéssica - Tudo ótimo - respondeu mexendo no cabelo da Duda, que ela pediu que sentasse ao seu lado - E você?
Juliana - Eu suponho que ela esteja bem tranquila. Tranquilaça! - levei apenas  alguns segundos para entender o que ela quis dizer com isso e gargalhei -
Clara - Você não deixa passar nada mesmo, né Dona Juliana? Como consegue? - ela riu -
Juliana - É simples. Conheço vocês como a palma da minha mão. Agora pode começar a contar tudo, porque não tive muito tempo com ele hoje de manhã, só sei o mais importante, que no caso é o motivo desse sorriso aí - tentei parar de sorrir e mudar o foco -
Clara - Viu ele hoje?
Juliana - Tive que ir lá no hotel, mas nem tenta mudar de assunto como ele. Não pode ter sido algo tão terrível assim
Clara - Acredite, foi. Pelo menos em partes - ela franziu a testa. Pedi para fazermos logo os pedidos porque minha pequena já estava com fome, e depois contei o que dava pra ser contado ali, ainda não queria que a Duda soubesse de nada disso, então evitei falar o meu nome ou o do Júnior enquanto resumia tudo mas elas entenderam e ficaram como toda pessoa em perfeito estado ficaria depois de ouvir uma história tão louca que mais parecia coisa de novela. Almoçamos, conversamos bastante e depois fomos caminhando mesmo até a sorveteria do outro lado da rua porque apesar do tempo e das várias opções de sobremesa do restaurante, sorvete era o que realmente queríamos. Na verdade, a Duda quis e nos fez querer também. Tivemos uma tarde maravilhosa, e foi na sorveteria mesmo que nos despedimos, elas foram para um lado e eu minha pequena pra outro. O trânsito estava um pouco caótico porque a hora do jogo se aproximava e parecia que muitas pessoas deixaram pra ir pra Vila em cima da hora - assim como eu. Mas o importante é que chegamos. Estacionei, e quando saímos do carro minha pequena segurou a minha mão muito apertado, acho que o fato de ter muita gente desconhecida ao redor não a deixava muito confortável, mas isso passou assim que chegamos aos nossos lugares na arquibancada térrea lateral. Como comprei os ingressos de última hora, não pude escolher muito, só que por sorte ou não, a visão dali era maravilhosa. Depois que sentamos, só tive tempo de responder uma mensagem da minha mãe e outra da Manu, porque começou a passar o clipe da Galera da Vila (os mascotes) no telão e fiquei tão encantada quanto a Duda - só não dancei, ela dançou junto com eles. E foi exatamente nisso que pensei quando tive a ideia do clipe: entreter e divertir as crianças também, atraí-las cada vez mais pra Vila. Perceber que consegui isso, mesmo sem querer, com a minha própria filha, me deu um sensação de dever cumprido que nunca tinha sentido antes, e era a primeira vez que via o clipe ao vivo e em cores no estádio também, isso tornou o momento ainda mais especial. Depois do replay do clipe, as escalações dos dois times começaram a passar no telão e cinco minutos depois Santos e Fluminense entraram em campo. Eu nem precisei mostrar porque a Duda viu o Júnior primeiro que eu e do jeito que ficou empolgada, se tivéssemos mais perto não tenho dúvidas de que gritaria ele. O hino foi executado, houve aquilo dos jogadores se cumprimentarem e enfim o jogo começou. Não muito bom para o nosso lado, infelizmente. Aos 19min o Fluminense abriu o placar. Mas a torcida do Santos não parou de cantar um minuto sequer, e aos 32min depois de mais um ataque deles, o goleiro do Santos deu um chutão pra frente que, não sei como, conseguiu chegar no Neymar, ele invadiu a área pelo lado esquerdo, chutou rasteiro e o goleiro do time adversário até tentou pegar... mas só tentou. A torcida explodiu de alegria, eu e a Duda começamos a pular e a gritar junto, e como se pressentisse que nós estávamos ali, ele e mais dois jogadores - que eu juro que não reparei quem eram por um único motivo: só o camisa onze importava pra mim - e pra Duda, sim porque a comemoração foi pra ela. Eles foram pro cantinho do campo, ficaram quase de frente pra nós e dançaram “cabeça, ombro, joelho e pé”. Eu quase me derreti na cadeira, e ela ficou eufórica, pulando e cantando a musiquinha. Se a torcida não tivesse cantando a todo vapor, eu acho que havia a possibilidade dele ouvi-la. Tive que acalmá-la depois disso pra ela não ficar rouca, no intervalo comprei água pra gente e assistimos o segundo tempo sentadinhas - não aconteceu muita coisa interessante (gols) então não precisamos pular, nem gritar e o jogo terminou 1 a 1 mesmo. Provavelmente nós seríamos as únicas a sair do estádio felizes como se tivéssemos vencido. Deixei que a maioria dos torcedores fossem saindo logo pra dar tempo do Júnior tomar banho e mandei uma mensagem pra ele. 
Se quiser carona estou no portão 26  
Não esperei pra ver a resposta, e saí da arquibancada com a Duda. Fizemos o mesmo caminho de volta, só que dessa vez foi mais demorado porque ainda tinha uma quantidade considerável de pessoas saindo... e qual não foi a minha surpresa quando o vi encostado no meu carro, o único estacionado ali no momento, todos os outros já tinham saído. A Duda assim que o viu também apenas me olhou como se tivesse me pedindo permissão pra fazer o que tanto queria, eu apenas sorri. Ela soltou a minha mão e encurtou os poucos metros que faltavam para chegarmos até ele. O Júnior virou ao ouvir os passinhos acelerados dela e abriu não só os braços, como também um sorrisão para recebê-la. Tirou-a do chão para abraçá-la, e ficou olhando pra ela e pra mim alternadamente, depois balançou a cabeça ainda sorrindo. Estava de havaianas e sem camisa. 
Clara - Como conseguiu chegar primeiro que a gente? Achei que ia chegar aqui e esperar pelo menos mais meia hora
Neymar - Não acreditei quando vi a mensagem e vim correndo pra cá só pra ter certeza - eu ri -
Clara - Isso quer dizer que ainda não tomou banho?
Neymar - Não
Eduarda - Eca, pai - tampou o nariz e nós dois rimos -
Neymar - Por que não disseram que iam vim? - colocou a Duda no chão, mas a manteve pertinho dele -
Clara - Aí a surpresa não ia ter graça - pisquei - Mas se realmente quiser a carona vai ter que tomar banho - gargalhou -
Neymar - Dez minutos - sinalizou, enquanto começava a caminhar, de costas, de volta para o vestiário do estádio -
Clara - Certo. A partir de agora - falei olhando para o meu relógio imaginário e ele riu, porém, não por muito tempo. Parou de rir e de andar do nada, mas continuou com os olhos vidrados no meu pulso, sorri quando percebi o motivo - O tempo está passando - mexi na pulseira propositalmente e ele sorriu, caminhando na minha direção novamente, franzi a testa e fiquei esperando o que ia fazer. Ele se aproximou apenas o suficiente para me dá um beijo, nem me tocou -
Neymar - Quinze minutos - sussurrou, e saiu correndo. Eu ri, e ouvi a Duda rindo também. Destravei as portas do carro, entramos, olhei as horas e fiz as contas mentalmente de quanto tempo faltava para me encontrar com a Bruna -
Clara - Seu pai demora mais do que eu e você juntas pra se arrumar, Duda
Eduarda - Por quê?
Clara - Não sei. Acho que é pra tentar ficar bonito - olhei pra trás e ela estava com uma carinha confusa -
Eduarda - Ele não precisa tentar, ele é bonito - defendeu-o bastante séria, como eu sabia que faria -
Clara - Você acha? - tentei não rir, mas ela sabia que eu estava brincando e sorriu -
Eduarda - Claro né mãe, e você também acha se não vocês não namoravam - encolheu os ombros e eu gargalhei. Parecia que era o Júnior que estava ali falando comigo, não a Duda e talvez fosse isso mesmo, ela estava cada vez mais parecida com ele e eu amava isso -
Clara - Estou oficialmente ferrada com vocês dois - nós rimos e ficamos ouvindo música até o Júnior voltar, dessa vez bem mais cheiroso - até demais. Ele sentou atrás com a Duda e nós finalmente saímos daquele estacionamento quase deserto já -
Neymar - Bem que estranhei você não ter respondido minha mensagem depois do vídeo
Clara - Sim, tudo fazia parte do meu plano - rimos - Aliás, por falar em vídeo...
Neymar - Então... não deu
Clara - Nós nem pedimos muito, só três golzinhos. Sem pressão
Neymar - Nem quero imaginar se pedissem muito - rimos -
Clara - Tudo bem, dessa vez eu deixo passar porque foi o primeiro jogo do campeonato e o brasileirão é bastante extenso. O Luck e eu podemos continuar esperando pelo nosso golzinho também já que hoje só uma pessoa teve esse privilégio - olhei-a pelo espelho retrovisor, pisquei e ela sorriu, seu gol foi o assunto mais comentado no caminho até em casa, ou melhor, a comemoração. Quando chegamos o apê estava do mesmo jeito que deixei e a Manu já tinha avisado por mensagem que não ia dormir em casa. Agora eu precisava decidir se contaria pro Júnior antes de ir ou só quando voltasse, mas se escolhesse a segunda opção teria que inventar alguma desculpa pra poder sair e eu realmente não sou muito boa nisso, era melhor arrumar um jeito de contar logo -
Eduarda - Tô com fome, mãe - sentou no sofá pra tirar suas sapatilhas -
Clara - Eu acho que o jeito vai ser pedir alguma coisa, porque não tem nada pronto - larguei a bolsa em cima da mesa e fui pra cozinha -
Neymar - Pedir o quê? - conseguiu se livrar da marcação cerrada do Luck e me seguiu -
Clara - Não sei. Pizza? Vocês decidem - abri a geladeira, só que não queria nada, estava apenas tomando coragem pra falar e fechei-a novamente. Virei e ele estava do outro lado do balcão me olhando atentamente, abri a boca mas ele falou primeiro que eu -
Neymar - Por que ficou nervosa do nada?
Clara - Te odeio, sabia? - saiu automaticamente, ele riu e se aproximou de mim -
Neymar - O que aconteceu?
Clara - Nada. Mas eu preciso te falar uma coisa
Neymar - Ok
Clara - É importante pra mim, então por favor, tenta entender ao invés de tentar impedir
Neymar - Ok - repetiu, dessa vez mais receoso -
Clara - Eu vou encontrar a Bruna daqui a pouco
Neymar - Quem?
Clara - Sim, ela mesma
Neymar - Por que? Qual a lógica por trás disso?
Clara - Eu só quero agradecê-la
Neymar - Por ter nos separado?
Clara - Por ter salvado a vida do meu avô. Não sei se lembra, mas essa história toda envolve mais do que eu e você
Neymar - É claro que eu lembro, desculpa. Mas... - passou as mãos no rosto meio exasperado - Isso é loucura, Clara
Clara - Talvez seja. Eu quero ir - ele desviou o olhar, respirou fundo e voltou a olhar pra mim -
Neymar - Como conseguiu falar com ela?
Clara - Eu não falei com ela. A Rafa me ajudou
Neymar - A Rafaela te ajudou e não me contou nada?
Clara - Bom, vendo sua reação agora acho que fiz muito bem em pedir pra ela não contar mesmo ou ia acabar, sei lá, de castigo (?) - eu ri, ele não -
Neymar - Não tem graça
Clara - Eu sei que não, desculpa. Só queria aliviar a tensão... Não gosto do rumo que essa conversa está tomando
Neymar - Eu também não - ele segurou o meu rosto e me deu um beijo tão calmo que me fez sorrir - Eu vou com você - me deu um selinho -
Clara - O quê? Claro que não
Neymar - Claro que sim - continuou com os selinhos, parando apenas para ele falar, achando que aquilo me distrairia e me faria ceder (em outro momento, sim, com certeza). Por isso me afastei apenas o suficiente para ter condições de falar  -
Clara - Nós concordamos que a Duda ficaria fora disso, lembra? Então você fica aqui com ela
Neymar - Tem noção de como eu vou ficar aqui sabendo que vocês duas vão estar juntas?
Clara - Vamos estar em um local público, o que você acha que pode acontecer?
Neymar - Não sei. Esse é o problema - fiquei boquiaberta, porque ou ele estava exagerando demais ou eu estava sendo muito ingenua em relação a uma pessoa que eu não tinha nenhum tipo de empatia - Confio em você, mas ela já me deu motivos demais pra não confiar nela
Clara - Não vai acontecer nada
Neymar - Então me deixa ir também
Clara - Não precisa, sério. Se eu e ela já vai chamar atenção, imagina nós três
Neymar - Eu não me importo
Clara - Eu me importo. Chega de problemas pessoais interferindo na sua carreira. Fica aqui com a Duda, eu vou e volto rapidinho - lhe dei dois beijinhos repinicados e saí da cozinha o mais rápido que pude pra não deixar que ele argumentasse mais, e ao contrário do que imaginei ele não me seguiu. Encarei isso como um "Ok, vá em frente". Entrei no meu quarto e dei uma olhada no relógio: 19h15. Tomei um banho rápido e fiz questão de não me arrumar, vesti um short jeans, uma camiseta de manga comprida, prendi o cabelo em um rabo de cavalo, calcei uma rasteirinha e estava pronta. Voltei pra sala pra pegar meu celular, minhas chaves e meu óculos que ficaram em cima da mesa e só o Júnior estava no sofá - 
Neymar - Eu ainda não concordo com isso - levantou e caminhou até ficar de frente pra mim - Mas entendo seu lado sim - sorri - Pode deixar que eu falo com a Duda. Só não demora, por favor
Clara - Não vou demorar - abracei-o com força, depois beijei-o. A ideia era fazer com que fosse um beijo rápido mas ele intensificou e prolongou o quanto pôde e eu não fiz nada para impedi-lo, muito pelo contrário. Quando nos separamos ele me deu um beijo na testa e sorriu, me incentivando a ir - Obrigada - lhe dei um beijo no rosto também e saí. Desci, entrei no meu carro e segui para o Paris 6. Levei quarenta minutos pra chegar lá e quando entrei no restaurante já passava das 20h, então não tive que procurar muito para encontrar quem estava esperando por mim. Respirei fundo e fui até a mesa. Ela estava mexendo no celular, e sua expressão quando levantou os olhos e me viu foi cômica -
Bruna - O que você está fazendo aqui?
Clara - Eu sei que sou a última pessoa do mundo que você esperaria ver e acredite, também não estou feliz por estar aqui
Bruna - Cadê a Rafaela? - olhou para todos os lados -
Clara - Ela não vem, pode esquecer - sentei, e ela arregalou os olhos -
Bruna - O que você está fazendo aqui? - repetiu pausadamente -
Clara - A Rafa não pôde vim e pediu que eu viesse, simples - encolhi os ombros -
Bruna - É pra fingir que acredito? Tudo bem. Eu falo com ela depois - levantou disposta a ir embora -
Clara - Bruna! - olhou pra mim - Senta, por favor. Não vou tomar muito do seu tempo - ela olhou ao redor novamente, bastante desconfiada, mas sentou -
Bruna - O que você quer comigo?
Clara - Adivinha? Vim te ver - sorri. Não devia, só que estava adorando vê-la nervosa, doida pra fugir dali e com medo que eu armasse um escândalo porque era o que ela estava deixando transparecer: apenas medo -
Bruna - Que engraçada - deu um sorriso fingido - Não estou conseguindo te entender
Clara - Mas vai conseguir
Bruna - Como? Nós não temos nenhum assunto em comum
Clara - Temos. E você sabe que temos
Bruna - Onde é que você quer chegar com isso?
Clara - Eu e o Júnior estamos juntos de novo - revirou os olhos -
Bruna - Veio aqui jogar isso na minha cara?
Clara - Não
Bruna - Estou esperando...
Clara - Creio que você já tenha juntado as peças. Se nós estamos juntos, obviamente, eu sei de tudo
Bruna - E? - perguntou impaciente -
Clara - Você não gosta de mim. Eu não gosto de você. E isso não é surpresa pra ninguém. Mas você salvou a vida do meu avô
Bruna - Não foi por você - responde rapidamente -
Clara - Eu sei que não. Mas eu vim aqui pra te agradecer mesmo assim
Bruna - O que? - tentou, mas não conseguiu esconder sua surpresa -
Clara - Que bom que eu posso te surpreender também - sorri novamente - É isso mesmo que você ouviu. Eu... não sei como é gostar de alguém e não ser correspondida na mesma intensidade... não sei. Mas também não acho que isso seja motivo pra querer vingança... algo tão baixo, tão ridículo... enfim, não sou ninguém pra te dar lição de moral também. Estou longe de ser perfeita e já cometi inúmeros erros - ela olhou nos meus olhos pela primeira vez desde que cheguei - Então espero sinceramente que você encontre alguém que goste de verdade e que o sentimento seja recíproco - riu ironicamente -
Bruna - Fala sério, por favor
Clara - Acredite se quiser, mas eu nunca te desejei mal. Você salvou a vida do meu avô, usando os seus próprios ''critérios'' mas salvou... e por causa dos ensinamentos que ele também passou pra mim, senti que devia te agradecer
Bruna - Ok. Isso é tudo?
Clara - Sim - levantei me sentindo muito mais leve - Só mais uma coisa, Bruna
Bruna - O que?
Clara - Se você fez o que fez... se doou parte da sua medula pra uma pessoa que nem sequer conhece... você não deve ter um coração tão ruim quanto faz parecer ter - dei as costas e saí do restaurante. Foi mais rápido do que eu achei que seria, até porque o encontro não era pra ser propriamente um jantar. Entrei no meu carro e voltei pra casa, quando cheguei apenas o Júnior e o Luck estavam na sala, tinha uma séria suspeita de que a Duda já tinha pego no sono - Cheguei e estou faminta! - falei ao bater a porta, chamando a atenção dos dois -
Neymar - Já? - levantou imediatamente e me olhou de cima a baixo, foi impossível segurar o riso -
Clara - Você pediu pra que eu não demorasse, não foi? Aqui estou
Neymar - E deu tudo... certo? Quer dizer... vocês não... saíram no tapa, né? - gargalhei -
Clara - Esqueceu a quanto tempo me conhece, seu doido?
Neymar - Não, por isso mesmo estou perguntando. Te conheço melhor do que ninguém e sei que é difícil te tirar do sério, mas a Bruna é especialista nisso
Clara - Eu sei, por isso fui preparada pra tudo. Mas foi bem mais calmo do que eu imaginei
Neymar - Do que nós imaginamos então - rimos - Fez o que queria?
Clara - Sim - suspirei aliviada - Agora minha consciência está tranquila e só consigo pensar em comer - ele riu e me levou pra cozinha com os braços ao redor da minha cintura, nitidamente feliz. Eu também estava e o motivo era um só: estávamos juntos, nada mais importava - Ela já dormiu, né? - assentiu - Pudera, acordou antes de mim. Assistiu sua entrevista, inclusive
Neymar - Eu nem lembrava que teria essa entrevista hoje
Clara - Percebi pela cara de sono - ele riu e colocou a minha pizza no microondas. Ficou me fazendo companhia enquanto eu jantava, depois lavei o que sujei, passei no quarto da minha pequena só pra dar um beijinho nela e fomos para o meu. Me joguei na cama na primeira oportunidade que tive com a roupa que estava mesmo, e ele me puxou para os seus braços assim que deitou ao meu lado - Amor?
Neymar - Hum... - senti o seu sorriso no meu pescoço e só aí me dei conta da maneira que o chamei, sorri também porque foi espontâneo -
Clara - Por que não festejou seu aniversário?
Neymar - Festejei. Minha mãe fez bolo e tudo. A Duda não contou?
Clara - Isso eu sei, mas digo... festejar mesmo
Neymar - Não ia valer a pena
Clara - Por que não? - virei, ficando de frente pra ele -
Neymar - Porque foi você quem me convenceu a fazer isso, e eu sabia que você não iria. Não ia valer a pena - tirou o meu óculos delicadamente e beijou a pontinha do meu nariz - Mas não senti falta de festa também - colocou o óculos na minha cabeceira -
Clara - Certeza? - assentiu -
Neymar - Meu aniversário só começou mesmo depois que eu fui na sua sala. Lembra?
Clara - Claro que sim, mas por que?
Neymar - Porque você me desejou feliz aniversário e eu achei que não ia ter isso - sorri e quando ia beijá-lo os nossos celulares apitaram simultaneamente. Nos olhamos meio desconfiados e ele pegou primeiro o dele, já que o meu estava mais longe - em cima da mesinha -
Neymar - É da Manu
Clara - Ah, tá - tentei me esticar pra pegá-lo -
Neymar - Você não precisa ver
Clara - Não?
Neymar - Não - percebi que estava fazendo um grande esforço para não rir -
Clara - Por quê?
Neymar - É o Gil
Clara - Espera, é a Manu ou é o Gil?
Neymar - Os dois. Ela mandou. E digamos que... ele não está vestido
Clara - Como assim? - comecei a rir mais curiosa do que nunca - A Manu mandou uma foto do Gil pelado pra você? É isso mesmo? - eu nem sabia do que se tratava a foto, mas estava rindo mesmo assim -
Neymar - Claro que não
Clara - Deixa eu ver - ele negou, mas consegui pegar o celular da sua mão antes que ele tivesse tempo de reagir e quando vi a foto só consegui rir ainda mais, descontroladamente - A Manu é ridícula, meu Deus! - respirei fundo pra tentar me controlar, sem sucesso - Mas nem dá pra ver nada
Neymar - Você queria ver alguma coisa? - perguntou meio indignado, e foi o suficiente pra minha crise de riso aumentar. Claro que não falei porque queria ver algo, falei porque ele fez de um tudo pra que eu não visse e a foto não tinha nada demais, além da zoeira da Manu - Queria ver alguma coisa? - deu um jeito de ficar em cima de mim e tomou o celular das minhas mãos. Eu queria falar, só que não conseguia. As lágrimas já rolavam, e eu não sabia mais se estava rindo da foto ou do Júnior. Talvez dos dois. Ele sabia disso e foi por esse motivo que começou a espalhar beijos por todo o meu rosto. A princípio eu só senti cócegas, ou seja, ri ainda mais, mas isso foi fazendo com que todos os meus sentidos ficassem em alerta e voltassem suas atenções apenas para ele - e esse era o seu objetivo. Eu ainda achava incrível a forma como o meu corpo obedecia-o sem nem pestanejar. Quando parei de rir seu rosto estava no meu pescoço, podia sentir a sua respiração entrecortada, porém, fiquei quieta. Ele mordeu levemente a minha bochecha, depois subiu pra minha orelha esquerda e mordiscou-a só o bastante para me ver arrepiada e sorrir. Desceu novamente para encontrar a minha boca, mas foi um beijo leve, rápido, seus lábios apenas encostaram nos meus, então ele se afastou e me olhou com expectativa - a mesma que devia estar no meu olhar, porque sabíamos o que queríamos e sabíamos que ia acontecer, independente de quem ia tomar a iniciativa. 
E eu tomei. Não me importei de ser fraca nesse momento. Queria-o. Desejava-o. E o melhor, era totalmente recíproco. Ficamos tanto tempo longe um do outro, no sentido do contato físico, que não tinha nem lógica adiar ainda mais esse momento. Puxei-o pra mim e beijei-o, de verdade dessa vez. Não foi um beijo leve ou rápido, foi urgente, com saudades, nossas bocas pareciam querer fundir-se uma na outra e não se separar mais. A minha iniciativa foi somente o estopim que precisávamos, a partir daí uma coisa levou a outra. Aproveitei que, para todos os efeitos, o comando ainda era meu, assanhei ainda mais seus cabelos e enquanto uma de suas mãos apertavam a minha nuca de um jeito possessivo para me manter inerte, fiz as minhas deslizarem suavemente até a borda da sua camiseta, consegui tirá-la sem muito esforço. Não posso dizer que ele teve o mesmo sucesso com a minha, já que era de manga e de um tecido mais grosso, isso nos fez rir mas conseguimos tirá-la sem causar nenhum dano nela. Ele colou seu corpo quente ao meu novamente, deixando que eu o explorasse de todas as formas possíveis; toquei, arranhei, cheirei, beijei, instiguei-o o quanto pude ao mesmo tempo que ele beijava meu queixo, nariz, boca e deixava suas mãos correrem soltas pelo meu corpo também. Eu não sabia dizer onde ele estava tocando porque mal sentia sua mão em um lugar, e ela já estava em outro. Nossas mãos, assim como nossas bocas estavam desenfreadas, loucas e desesperadas por mais. E quanto mais tínhamos, mais queríamos. Nunca tínhamos o bastante um do outro, duvidava muito que algum dia fôssemos ter e estranho ou não, isso era bom porque só fazia com que a vontade de nos redescobrir a cada dia só crescesse. Seus beijos foram descendo aos poucos, parando propositalmente no cós do meu short e eu tremi quando senti que estava abrindo o zíper, não era nervoso, era ansiedade... talvez. Ele percebeu e travou o movimento para me olhar, até os seus olhos pareciam estar sorrindo pra mim, era a coisa mais linda de se ver, como não lhe sorrir de volta? E então a ansiedade foi indo embora junto com o meu short. Ainda assim eu não podia negar que a vontade de tê-lo em mim, dentro de mim, continuava sendo maior do que tudo. Tinha plena certeza que essa vontade era mútua porque ele também se livrou da sua bermuda o mais rápido que pôde e ficou de joelhos, com as pernas uma de cada lado do meu corpo me olhando como se estivesse terminando de me despir apenas com os olhos. Nem sei bem quanto tempo se passou, foram mais do que segundos, um minuto... dois, três.. não sei, só sei que já estava quase ficando envergonhada, quando ele terminou de se despir na minha frente. Um gesto tão íntimo que, se eu achava que não podia ficar mais excitada, essa ideia evaporou da minha mente rapidinho, não sabia nem pra qual parte do seu corpo olhar tal era o meu estado. Ainda não tinha conseguido me mexer até senti-lo entre as minhas pernas novamente e perceber que a minha calcinha estava deixando o meu corpo também, de maneira lenta, provocadora, quase dolorosa - eu mesma a teria arrancado (se tivesse condições pra isso) só pra não deixá-lo com aquela cara de satisfação ao ver como estava me torturando. Enfim -quase- despidos, ele não deixou que o seu corpo caísse sobre o meu (como eu estava implorando que fizesse, silenciosamente, é claro... pena que ele sabia me ler), apenas deixou seus olhos vaguearem pelo meu corpo novamente, sem pudor algum - o que me deu a oportunidade de fazer o mesmo, porque apesar de já conhecer cada detalhe e cada (im)perfeição, eu nunca ia cansar de olhar e pensar “Meu, meu, meu e meu”. Ele devia estar pensando o mesmo, porque quando nossos olhares se encontraram, sorriu descaradamente, passou a língua sobre os lábios e mordeu o inferior. Ergueu uma de suas mãos pra mim logo em seguida, nem hesitei em pegá-la e ele me puxou de uma vez só de encontro ao seu corpo, suspirei com o choque mas isso não foi nada comparado ao que veio depois. Sem nunca desviar o olhar - e era por isso que não precisávamos de palavras -, ele conseguiu de um jeito ágil me levantar para sentar e depois me colocar no seu colo, entrando em mim no mesmo segundo. Não sei se foi tudo muito rápido, se foi porque não estava esperando, ou foi a emoção de senti-lo me preenchendo novamente depois de tanto tempo que me deixou surpresa, mas precisei morder algo (o seu ombro, no caso) para não gritar. Ele não se mexeu logo pra nos deixar aproveitar aquela sensação o máximo de tempo possível, podia ouvir e sentir a sua respiração acelerada no meu pescoço e sabia que não estava muito diferente. Depois de apenas alguns segundos comecei a sentir os seus dedos perambulando por minhas costas, me arrepiei novamente e lembrei que ainda estava com o sutiã, ri quando percebi que não estava conseguindo e nem ia consegui abri-lo. Nos afastei um pouco para pegar as suas mãos e coloquei-as no lugar certo, na frente, onde o feche estava. Me deliciei com o seu riso e beijei-o, nos distanciando de novo apenas quando o sutiã já estava aberto para que ele pudesse tirá-lo. E então, nos momentos seguintes eu não conseguia nem ter consciência do meu próprio estado. Ele começou a se mover, primeiro quase que preguiçosamente, me beijando a cada investida, depois em um ritmo mais acelerado, louco, urgente, como se fosse o último dia das nossas vidas. Ironicamente, aquele era mais como o primeiro dia da vida que ainda teríamos juntos. Ele deixou que uma de suas mãos, que estava na minha nuca, descesse para um dos meus seios e como se não bastasse todas as sensações que já estava sentindo, começou a acariciá-lo também. Isso me causou uma descarga de adrenalina tão grande que eu só queria fazê-lo sentir o mesmo que eu, por isso comecei a me mover com ele, apertando-o contra mim e ouvi-lo suspirar profundamente em meu ouvido. Era bom ouvi-lo, muito bom... E sim, eu estava completamente entorpecida mas a minha droga tinha nome e sobrenome. 
O mesmo sobrenome que eu queria, mais do que nunca, que fosse meu também.
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Três semanas não é nada quando se está preparando um casamento. Um mini wedding, ok, mas não deixa de ser um casamento. E foi por isso que acordei cedo no tão esperado sábado, dia 24. Não queria que meus avós se preocupassem com nada e gostaria que ficasse tudo o mais próximo do perfeito possível. Eu e a Manu trabalhamos muito pra isso. A primeira coisa que fiz assim que levantei foi abrir as janelas do quarto de hóspedes da Fatinha e do Théo que estava sendo meu por algumas horas - a Duda dormiu no seu outro quarto e eu só a veria na hora certa, vestida de daminha (a Rafa ficou mais do que feliz com a missão de arrumá-la). Meu pai e meu avô também só apareceriam pouco antes da cerimônia, ao contrário da minha mãe e da minha avó que a qualquer momento poderiam chegar. O dia estava lindo, radiante e isso me fez sorrir e respirar aliviada. Afinal, outono é outono, a gente nunca sabe como o tempo vai estar. Olhei para o jardim e dois homens já estavam cuidando do gramado e podando os canteiros, além das duas tendas, mesas e cadeiras que também já tinham chegado. Ou a minha definição de cedo era diferente da definição do pessoal que trabalhava com essas coisas ou eles madrugaram mesmo, mas estava feliz com isso seja lá qual fosse a opção certa. Peguei a minha mochila - que estava uma bagunça, graças a Deus que a roupa que ia usar mais tarde não estava dentro dela - e entrei no banheiro. Tomei banho, escovei os dentes, vesti um short azul marinho e uma blusa solta de alcinha, prendi o cabelo, voltei pro quarto e tirei o celular do carregador.
 clarabarcelar_: "Quando se aponta a câmera para algum objeto ou sujeito, constrói-se um significado, faz-se uma escolha, seleciona-se um tema e conta-se uma história, cabe a nós, espectadores, o imenso desafio de lê-las."  
A Manu também tinha acabado de acordar quando passei no quarto dela, descemos juntas e os anfitriões estavam tomando café na companhia da minha avó e da minha mãe. Meu bom dia foi bastante efusivo, com beijinhos e abraços para todo mundo e eles riram de mim. Conversamos mais do comemos, repassamos tudo que precisávamos fazer e os horários em que chegariam as coisas que ainda faltavam. Nós, mulheres, bem que tentamos fazer a minha avó aceitar o seu dia de noiva (que no caso seria no dia anterior, para não haver atrasos), mas ela estava irredutível e disse que preferia ficar para nos ajudar no que fosse preciso. Quem ia discutir? Depois do café da manhã, ela e minha mãe ficaram praticamente penduradas no telefone dando indicações aos amigos que vinham de Florianópolis. A Fatinha e o Théo ficaram encarregados de receber tudo que ia chegando, e eu e a Manu fomos para o jardim (que por sinal tinha ficado impecável) levando tudo aquilo que compramos, e o que não compramos também - objetos pessoais dos meus coroas - para decoração. Pouco tempo depois os três amigos de trabalho dela que se voluntariaram a nos ajudar também chegaram. Na verdade nós íamos contratá-los porque a área deles era decoração e ambientação de eventos, mas eles decidiram não cobrar nada em consideração a Manu então foi uma ajuda muito mais do que bem-vinda. E se no início eu já sabia que a Manu daria conta do recado e deixaria tudo perfeito com as suas ideias maravilhosas, com mais três cabeças pensantes e especialistas nisso, eu não tinha ideia de qual seria o resultado final, só sabia que me surpreenderia. Colocamos as mãos na massa e começamos com a distribuição das mesas e cadeiras pra termos mais ou menos uma noção do espaço que sobraria, depois fomos para o trabalho mais pesado que era montar as tendas. Sim, apesar de já estar com as unhas feitas assim como a Manu, não fugimos, até porque sabíamos o que teríamos que fazer, principalmente depois de termos descartado a ideia de uma equipe de montagem/desmontagem porque todas que encontramos só trabalhavam em espaços alugados. As flores chegaram no momento certo, todas naturais e de tons clarinhos para combinar com o estilo vintage dos outros detalhes, e elas ficaram espalhadas por todos os lados, da entrada da casa até o corredor por onde meus coroas passariam para chegar até o que nós improvisamos com a pérgola do jardim (a parte coberta, onde ficava uma rede maravilhosa) e chamamos de altar. Levamos duas horas pra fazer tudo isso, portanto faltava apenas quatro para que tudo estivesse pronto: a cerimônia estava marcada para às 14h. Nas duas horas seguintes concluímos a decoração e ficou tudo tão lindo que a vontade de chorar veio antes da hora. A maioria dos enfeites tinha muito a ver com o gosto da minha avó pela costura, além de objetos mais antigos que eu e a Manu encontramos em um antiquário de SP e no final ficaria como presente para o nosso casal. Fizemos porcelanas antigas de jarros e os arranjos de flores das mesas ficaram dentro delas. Nos troncos das árvores e entre uma planta ou outra, colocamos plaquinhas (não, não aquelas do instagram porque não fazia muito o estilo que estávamos seguindo) com frases escritas por ele e por ela. As famosas frases que eu sempre tive o privilégio de ouvir. Já na parte de cima das árvores ficaram os mini balões chineses. O buffet completo chegou, incluindo o almoço, as bebidas, alguns docinhos - os cupcakes eram as coisinhas mais fofas do mundo, com botões em cima e o bolo, que tinha a mesma decoração de botões. As lembrancinhas foram as últimas a chegarem, afinal tínhamos que ter um cuidado especial com elas porque depois de muita indecisão, meus avós escolheram mudas de flores "para que a memória deste dia nunca pare de crescer". Todas tinham envelopes pequenos e fofinhos com mensagens diversas. Depois que os amigos da Manu se despediram e ela foi acompanhá-los até a saída - talvez pra continuar agradecendo durante o caminho, fiquei sozinha naquele jardim que de repente parecia grande demais. 
Glória - Vocês não existem - virei ao ouvi-la e encontrei-a olhando pra tudo maravilhada
Clara - E você não deveria estar aqui ainda, Dona Glória 
Glória - Eu sei, mas não resisti - riu, os olhos brilhando
Clara - E está como vocês queriam?
Glória - Está mil vezes melhor do que o que nós queríamos 
Clara - Vocês merecem
Glória - Mas isso tudo deve ter dado tanto trabalho 
Clara - Isso não importa - me aproximei e peguei as suas mãos - Está feliz? - ela sorriu, ao mesmo tempo que uma lágrima ousou rolar também
Glória - Eu vou casar pela segunda vez com o único homem que amei na minha vida. Como poderia não estar feliz? - não consegui segurar a emoção também, e ela me abraçou apertado -
Clara - Suada do jeito que estou acho que a Duda não me abraçaria desse jeito - rimos
Glória - Mas e você?
Clara - Eu o que?
Glória - Está feliz? 
Clara - Às vezes tenho medo de dizer que sim e no instante seguinte não estar mais
Glória - Então não pensa no instante seguinte. Você está feliz agora?
Clara - Muito - ela assentiu sorrindo, sentou em uma das cadeiras mais próximas e pediu que eu sentasse ao seu lado
Glória - Posso te contar uma coisinha? - sorri automaticamente -
Clara - Por favor
Glória - Eu senti na pele a angustia de não saber se o amanhã chegaria e o que ele reservava pra mim durante todo aquele tempo que o seu avô esteve no hospital. E ao contrário do que você pensa, mocinha, eu sou péssima com as palavras quando realmente preciso delas - rimos - Especialmente se tratando dele - sorri - Enquanto ele estava naquela cama de hospital eu me perguntei milhares de vezes se ele realmente sabia o quanto eu o amo e o quanto me fez e ainda me faz feliz, então me dei conta de que para ter as respostas para minhas perguntas ou dúvidas, não sei, bastava demonstrar tudo isso. Bastava demonstrar o que eu queria que ele soubesse. Tudo bem, é inevitável que depois de um longo tempo de convivência você passe a conhecer melhor o outro do que a você mesmo - encolheu os ombros distraidamente - Eu sei que ele me ama, nem por isso ele cansa de me dizer e eu de ouvir - olhou pra mim e sorriu - Então eu também demonstrei. Às vezes nem é necessário palavras pra se dizer um eu te amo, mas foi por causa do meu amor e de todos esses anos juntos e felizes que não sai do lado dele - suas palavras me levaram de volta para o corredor do hospital e quase pude ouvir a sua voz me dizendo "Não estou aqui por obrigação. Eu o amo. Não quero sair de perto dele, por favor". A lembrança fez as lágrimas voltarem também, não me incomodei mas ela enxugou-as com todo carinho do mundo - Sabe por que estou te falando isso? - balancei a cabeça - Porque você é a pessoa mais corajosa que eu conheço, meu amor. Não precisa ter medo logo da felicidade, nem de demonstrar o que está sentindo. Ok? - sorriu e eu só consegui assenti. Aliás é o que acontece com frequência quando estamos conversando, eu sempre termino sem palavras. O que é estranho, mas muito bom porque não preciso ficar falando pra que ela me entenda, é por isso que conversar com minha avó é tão maravilhoso - Eu sei o que aflige esse coraçãozinho, mas não precisa se preocupar - é claro que ela sabe! Nos últimos dias o que mais fiz, além de me dividir entre o trabalho e as coisas do mini wedding, foi conversar com ela e a minha mãe porque - não me pergunte como - estavam começando a especular sobre a minha volta com o Júnior. Quer dizer, preciso admitir que não deve ter sido muito difícil chegarem a essa especulação, porque convenhamos, ninguém termina um namoro - depois de ter sido traído - e fica tão bem como todo mundo ver que ele está. Ok, não estávamos escondendo nada, apenas não estávamos espalhando também, mais por minha causa mesmo, e eu queria acreditar que não era por medo mas a verdade é que tinha medo sim. Medo de julgarem, não eu mas ele, por não ter terminado um namoro direito e já estar em outro, afinal é isso que as pessoas fazem: apenas julgam de todas as formas que acham justas e corretas, quando na verdade não são, sem querer saber o que está por trás da história toda - Basta ser feliz sem ligar para as opiniões alheias. Deixem que falem. As pessoas que realmente gostam de vocês vão estar felizes se vocês estiverem, isso sim importa. 
Clara - Ah, vó. Igual a você não existe ninguém - suada ou não, eu mesma abracei-a dessa vez, ficamos assim por um tempinho até que outra pessoa também nos abraçou. Não foi preciso muito tempo para descobrirmos que era a minha mãe. Três gerações apaixonadas!
Débora - Eu também acho - disse assim que nos separamos, franzi a testa e ela prosseguiu - Basta ser feliz sem ligar para as opiniões alheias - repetiu - Você sempre foi boa nisso - piscou e eu sorri - Ok, está tudo muito bom mas a senhora precisa entrar pra começar a se arrumar, mãe. Acabei de ligar pra Cátia e ela já está vindo pra cuidar do seu penteado 
Glória - Ai, meu Deus! - fingiu um desespero que, obviamente, não tinha e isso nos levou a rir. Elas entraram, depois da minha mãe dizer que eu também já devia começar a me arrumar, e eu fiquei apenas esperando o ok da Manu de que estava tudo certo, então entramos também. Passamos na cozinha, e lá também estava tudo pronto, até a empregada da Fatinha já estava preparada para servir o brunch na hora certa. Faltavam cerca de 10 minutos para 13h, então a qualquer momento a equipe de filmagem poderia chegar. Eu e a Manu subimos, um aglomerado de vozes vinha de um dos quartos, só reconheci a da Fatinha, da minha mãe e da minha avó, a outra deveria ser da tal Cátia
Clara - Manu? - ela parou na porta do seu quarto e me olhou - Obrigada 
Manu - Pelo quê? 
Clara - Por tudo que você fez pra que esse dia se tornasse real pra eles 
Manu - Você também ajudou. Nós trabalhamos juntas 
Clara - Você fez mais do que ajudar. Você se entregou nisso como eu nunca tinha visto antes
Manu - Tudo bem - tentou, em vão, esconder um sorriso - A gente se acerta depois. Você sabe que eu cobro - piscou e entrou no quarto antes que eu dissesse mais alguma coisa, ri e entrei no meu também. Respondi todas as mensagens que ignorei durante a manhã - por motivos de força maior - e a última era da Rafa, uma selfie com o Júnior, a Duda, a Tia Nadine e o Tio Neymar, todos lindos e o texto dizia apenas “Estamos chegando!” Sorri, mas deixei o celular de lado, coloquei meu vestido na cama, junto com todas as coisas que pretendia usar, entrei no banheiro, prendi o cabelo em um coque pra não correr o risco de molhar e tomei banho. Passei hidrante no corpo, me enrolei na toalha pra fazer uma maquiagem levinha, me vesti e calcei um par de peep toe com estampa floral pra contrastar com o branco do vestido. Soltei e escovei o cabelo, prendendo apenas a franja pra trás e estava pronta. Ia me dar ao luxo de ficar sem o óculos, pelo menos por enquanto. Me perfumei, peguei o celular, coloquei a câmera dentro da sua bolsinha e saí. Passei no quarto ao lado, e a aglomeração de vozes continuava, mas dessa vez a Fatinha não estava. Minha avó já estava com o penteado feito e quando me viu pelo espelho sorriu. Sorri de volta, soprei um beijo pra ela e desci. Estava na cozinha conversando com a Lídia - empregada - , o Théo - que já estava pronto e o casal responsável pela filmagem, quando o meu pai e meu avô chegaram, lindos de terno e gravata. O pessoal de Florianópolis chegou logo em seguida, um timing perfeito, porque desse jeito o meu avô mesmo recebeu todos. Cumprimentei-os também, afinal foram meus vizinhos durante um bom tempo. Os meus amores - que são mais da família do que propriamente convidados - chegaram instantes depois e foi difícil parar de olhar para dois deles. Minha pequena estava uma verdadeira princesa, com um vestidinho de cetim quase da mesma cor que o da minha avó e o cabelo tão natural que eu fiquei encantada. O Júnior estava de roupa social mas totalmente diferente de como imaginei que estaria, isso me fez rir e mesmo assim fiz uma notal mental para não esquecer de tirar uma foto só deles dois pra mim
Clara - Achei que ia finalmente te ver de paletó e gravata - ele sorriu pra mim depois de me dá um beijo -
Neymar - Aquele negócio sufoca 
Clara - Aquele negócio sufoca? - repeti, tentando falar como ele -
Neymar - Demais - riu da minha cara
Clara - Essa vai ser a sua desculpa no dia do seu casamento também?
Neymar - A minha futura esposa pretende casar na praia, então acho que não vou precisar usar gravata lá - fiquei boquiaberta. Ele falou tão naturalmente, que eu nem sabia o que responder ou se precisava responder alguma coisa. É claro que ele riu do meu desconforto, mas ainda bem que ouvi a Manu me chamando antes que a situação piorasse pro meu lado. Virei para olhá-la, e ela não estava sozinha. Eu sabia que meus avós tinham convidado-o, mas também sabia que ele não tinha confirmado presença, então fiquei muito surpresa quando vi o Diego caminhando em minha direção (sozinho, a Manu desviou o caminho). Ah, que maravilha! Acabei de sair de uma situação embaraçosa e já vou entrar em outra -
Clara - Você veio! 
Diego - É... acho que fui convidado... - eu ri
Clara - Com certeza foi - abracei-o, mesmo que tenha sido de uma maneira bem estranha já que ele quase não retribuiu e eu sabia o motivo - Bem, não preciso fazer apresentações, certo? - olhei para ambos, esperando qual dos dois tomaria a iniciativa
Diego - E aí? - deu um pequeno sorriso, mas eu conhecia-o o suficiente pra saber que pelo menos não era um sorriso falso
Neymar - E aí! - estendeu a mão, e acho que o Diego ficou surpreso, mas apertou-a. Sorri comigo mesma
Clara - Que bom que veio! Eles vão ficar muito felizes - sorriu - Quanto tempo vai ficar aqui?
Diego - Volto hoje à noite 
Clara - Sério?
Diego - É, dessa vez não tenho muito tempo. Só vim por eles mesmo - o Júnior segurou a minha mão e isso me fez olhá-lo
Neymar - Eu vou ver a Duda - assenti e o vi se afastar sem saber o que estava pensando, mas torcendo para que não fosse besteira
Diego - Se quiser ir também... - balancei a cabeça
Clara - Vocês estão progredindo, que fofo - rimos
Diego - Pra você ver do que é capaz 
Clara - Eu não fiz nada 
Diego - Ele não quer perder você. Eu também não - encolheu os ombros - Mas de jeitos diferentes, é claro - completou imediatamente e eu não tive como não rir -
Clara - Eu entendi, calma - riu também - Estou realmente contente por ver você, Diego 
Diego - Eu também. Você parece bem, pelo menos comparando com a última vez que nos vimos
Clara - Eu estou. Mas você também está e não adianta esconder 
Diego - É, as coisas estão melhores... - rimos
Clara - Qual o nome dela? - perguntei logo, porque é lógico que tinha alguém envolvida nessa história de "as coisas estão melhores"
Diego - Larissa
Clara - Bonito nome 
Diego - A pessoa faz jus a ele - sorriu como eu nunca tinha visto antes, era um sorriso apaixonado. Um sorriso que eu esperei tanto tempo pra ver
Clara - Bom, eu não a conheço mas já gosto bastante dela porque ninguém nunca te fez sorrir desse jeito - ele sorriu novamente, agora meio envergonhado e eu ri - Tá, vou te deixar em paz, mas com um condição
Diego - Qual?
Clara - Me abraça direito, por favor - gargalhou
Diego - Desculpa - nos abraçamos novamente e eu dei um beijo no seu rosto antes de deixá-lo ir admirar o resto da decoração. O jardim já estava bem movimentado, com música, e eu precisava começar a tirar fotos, mas também precisava falar com o Júnior, é frustrante não saber o que se passa na cabeça dele às vezes. Avistei-o conversando com o Gil e o resto do bonde, mas chamei-o mesmo assim. Ele me deu um selinho quando se aproximou de mim
Clara - Você está bem? - eu acho que ele queria rir, mas não tenho certeza
Neymar - Por quê? Por quê deixei você lá com ele?
Clara - Talvez. Ficou chateado?
Neymar - Claro que não. Tenho motivos para estar?
Clara - Não! De jeito nenhum - respondi quase que de maneira automática e ele gargalhou - Vamos ali que eu quero fazer uma coisa e quero que você veja - ele arregalou os olhos, olhando ao redor - Não acredito que você pensou besteira
Neymar - Não pensei - respondeu rapidamente e quem gargalhou dessa vez fui eu
Clara - Vamos sentar ali, só isso - apontei para um dos sofás da área coberta
Neymar - Tá, vamos então - riu, me acompanhou até lá e sentou ao meu lado. Peguei o celular na parte da frente da bolsinha da câmera, entrei em um álbum de fotos só nossas na galeria e escolhi uma delas - Você vai...? - deixou a pergunta no ar ao me ver editando a foto -
Clara - Sim
Neymar - Mas não era você que não queria que eu pos... - beijei-o antes que terminasse de falar e ele sorriu
Clara - Deixe que falem. Basta sermos felizes sem ligar para as opiniões alheias 
 clarabarcelar_: “Eu sei viver sem você. Sei andar, comer, falar, ver um filme. Sei sorrir e nem é de mentira. Solto gargalhadas, conto piadas e sou rodeada pelos meus amigos o tempo todo. Leio livro, malho, faço amizades. Sou por inteira sem você. Não existe nenhuma parte faltando, mas eu faço ela faltar. É que eu não preciso de você pra nada, mas quero você pra tudo. Eis o grande problema.”   
Neymar - Eu sou um problema, então? - perguntou devolvendo o meu celular, com um tom de falsa ofensa na voz
Clara - Deixa de drama - levantei e puxei-o comigo, ficamos frente a frente - Vamos procurar a Duda que eu quero tirar uma foto de vocês enquanto ainda estão arrumadinhos 
Neymar - Como assim?
Clara - Vai ver como ela vai ficar quando começar a brincar com os amiguinhos que vieram de Floripa 
Neymar - Isso eu sei, mas você disse enquanto vocês ainda estão arrumadinhos
Clara - Você também está louco pra abrir pelo menos o primeiro botão dessa camisa ou dobrar as mangas dela, eu sei - ele gargalhou e me beijou, depois pegou a minha mão pra irmos procurar a Duda. Não confirmou nem negou nada mas não precisava, eu sabia que era verdade. Minha pequena estava dentro da casa, onde só minha mãe e minha avó estavam, ambas já prontas e muito lindas. Nós nos olhamos e apenas sorrimos. Claro que não consegui tirar apenas a foto do Júnior com a Duda tendo elas duas tão maravilhosas na minha frente, mas não pude demorar muito porque tinha muita coisa pra fotografar no jardim. E foi o que fiz assim que voltei pra lá, pelo menos até a madrinha me achar pra me dizer que o padre tinha chegado. A atmosfera no jardim parecia ter mudado de repente, só porque o ponto alto da festa estava se aproximando. Os burburinhos cessaram, todos tomaram seus lugares, a Manu mudou a trilha sonora e então eles surgiram. De um lado, o meu pai com a minha avó e do outro, a minha mãe com o meu avô. Meus pais deixaram eles no início do corredor e foram para os seus lugares. Meus coroas sorriram um para o outro e começaram a caminhar em direção ao padre quando a música que eu escolhi pra esse momento ecoou pelas caixas de som espalhadas pelo jardim - Endless Love do Lionel Richie com a Shania Twain. Percebi que escolhi muito bem, porque metade dos convidados já estavam em lágrimas só por causa dela. Quando chegaram ao altar, minha avó poderia ter dado o seu pequeno - e apenas simbólico - buquê para minha mãe, que estava até mais próxima dela, mas deu pra mim e o padre começou a falar antes que eu tivesse qualquer reação
Padre - Assim Deus poderia falar a um casal que completa suas bodas de ouro: - limpou a garganta e ajeitou seu óculos para continuar lendo - “Vocês são meus queridos. Um dia vocês nasceram. Tiveram sonhos. Eu mesmo os criei. Coloquei dentro de vocês essa vontade de se amarem. Coloquei em seus corpos germes de vida. O amor se misturou com a fecundidade e vocês geraram filhos e os filhos de vocês lhes deram netos. E a vida passou. Acompanhei passo a passo a história de vocês. Estive presente no momento do sim. Minha força esteve atuante no momento das dificuldades duras da vida. Vi que vocês se associaram à cruz de meu Filho em muitos momentos e vocês perceberam que a cruz foi geradora da paz e de energias novas. Vi o exemplo que vocês deram ao mundo que os cercava. Estive presente no meio de vocês quando golpes duros pareciam fazer estremecer a casa de vocês. Mas tudo estava fundado na rocha firme e a casa não caiu. Hoje recebo o coração de vocês nesse instante das Bodas de Ouro. Vocês são um sinal claro de mim mesmo no meio do mundo. Vocês viveram o amor e minha casa é a casa do amor!” - estava tentando me recuperar dessas palavras ainda quando percebi que From This Moment On tinha começado a tocar, e isso era sinal que a minha daminha ia entrar. Eu ri emocionada quando ela começou a caminhar com passinhos curtos porque lembrei do Júnior ter dito que ela ficou ensaiando na frente do espelho. Tirei bastante fotos dela. Quando chegou ao seu lugar ficou paradinha segurando as alianças que seriam trocadas depois dos votos. Confesso que esse era o momento que mais estava esperando, afinal... é uma renovação de votos e eu queria ouvi-los. Eles viraram um de frente para o outro e sorriram novamente
Marcos - Parece que foi ontem! - riu - No entanto, os meus cabelos estão mais brancos e raros enquanto você continua linda e com um sorriso maravilhoso - sorriu - O nosso amor merece ser celebrado, pois nós conseguimos viver com felicidade o desafio de partilhar a vida a dois. Não há nada mais estimulante do que conquistar todos os dias a mesma pessoa, a pessoa que já me conhece tão bem, a pessoa que conhece todos os meus defeitos, conhece até melhor do que eu e ainda assim consegue me amar. Você é a minha melhor amiga, e meu único e verdadeiro amor. E eu acho que ainda tem uma parte de mim que não consegue acreditar no quanto eu sou sortudo por me casar com você. De novo! - riu com os olhinhos brilhando de lágrimas - Minha linda, estarei sempre próximo a ti, por mais 50 anos e por toda a eternidade - ele beijou a testa dela e todo mundo aplaudiu de modo rápido pra poder ouvi-la também. E ela respirou fundo antes de começar
Glória - O nosso casamento foi algo natural, inevitável diante do amor dedicado que sempre tivemos em relação ao outro. A felicidade proveniente deste amor é algo ainda maior, pois foi construída no nosso dia-a-dia, com base num esforço solidário e comum que se nota cada vez mais raro hoje em dia, visto que nem todos os casais são capazes de enfrentar com esperança e dignidade as dificuldades que surgem pelo caminho. E apesar de todas as pedras que tivemos pelo caminho, tudo contigo tem valido a pena. Muitas das pedras que surgiram como obstáculos acabaram a revelar-se pedras preciosas; melhor dizendo, aprendemos muito com as dificuldades! Nós tivemos sempre a esperança e a coragem. Tivemos sempre a dignidade de discutirmos as nossas angústias, incertezas e desesperos. Tivemos sempre o cuidado de preservar o outro de problemas menores, aqueles que pudéssemos resolver por conta própria. Tivemos amor e ainda temos, por isso estamos aqui hoje. E eu só tenho a lhe agradecer. Obrigada meu amor, por ser o marido maravilhoso que você é. Eu te amo 365 vezes mais a cada ano - nós aplaudimos novamente enquanto eles trocavam as alianças, depois beijaram-se rapidamente. Fotografar esse momento foi mágico. Eu achei que ia formar um rio de lágrimas, mas não chorei. Estava feliz demais até pra chorar de felicidade. No final o padre deu a vez para quem quisesse falar alguma coisa, e eu odeio plateia mas ia ter que abrir uma exceção por eles de qualquer maneira então fui a primeira a me candidatar
Clara - Como foi bom ter crescido com tanto amor envolvido. Vocês me mostraram diariamente que é realmente possível viver um bom casamento, com dificuldades, erros e acertos. O amor permanece além do tempo, vocês provaram isso! Existem muitos exemplos que a vida nos dá de tudo que aprendemos, mas vocês são exemplos do amor, da compreensão e da fidelidade. Afinal de contas são cinquenta anos juntos, cinco décadas de dedicação, carinho e muita luta que fizeram de vocês duas pessoas que descobriram um no outro o que há de mais belo; a união, a entrega, a vivência de um para com o outro. Espero que este dia possa ser aproveitado com muito carinho e beijinhos, pois sei que vocês adoram fazer isto - todo mundo riu, inclusive eles - Que o brilho no olhar de vocês nunca seja apagado e que o "viveram felizes para sempre" seja bastante demorado! Que venham mais 25, 50, 70 anos juntos. E quero estar aqui para poder de novo desejar a vocês a maior felicidade do mundo. Amo vocês! - eles me abraçaram juntos, bastante emocionados e me agradeceram baixinho. Apenas dei um beijo no rosto dos dois e voltei para o meu lugar. O Júnior sorriu pra mim e entrelaçou sua mão com a minha, a Duda se aproximou de nós, sentou no colo dele e desse jeito, juntinhos, vimos algumas outras pessoas falarem coisas lindas para meus avós. Depois disso foi decretado o final da cerimônia. E o início da festa. Pra começar, meus coroas dançaram coladinhos Eu sei que vou te amar - e só eles dançaram mesmo, nós só ficamos observando (eu fiquei fotografando). Mas a medida que outras músicas foram surgindo, todos os outros casais foram entrando no clima. Quer dizer, nem todos
Neymar - Então... 
Clara - Antes tarde do que nunca. Sim, eu aceito! Vamos - levantei e eu mesma puxei-o comigo para onde todos estavam dançando Easy, também do Lionel Richie
Neymar - Por que não falou logo que queria dançar? - perguntou rindo
Clara - Porque a iniciativa tinha que vim de você, lógico - riu ainda mais
Neymar - É que não faz muito o meu estilo
Clara - Eu sei que você prefere “Caraca, Muleke!” amorzinho. Só tenta não pisar nos meus pés 
Neymar - Chata pra cacete! - resmungou - A sua sorte é que... - interrompi-o com um beijo
Clara - Você me ama - beijei-o de novo - Eu sei - de novo - Você já disse isso - e de novo - Eu também te amo - sorriu, e ficou esperando outro beijo, que não ia ter... não naquele momento - Mas chato é você - ele riu, arruinando o meu plano de parecer séria e me beijou enquanto tentávamos continuar no ritmo da música. O momento first dance só terminou quando o brunch foi servido. Comemos, depois tiramos ainda mais fotos, cantamos, dançamos, rimos... meus avós aproveitaram tudo da melhor maneira possível até chegar a hora que eles teriam que deixar a festa só pra nós porque tinham um voo marcado para Florianópolis. E não, não era uma lua de mel, eles já tinham a passagem de volta pro dia seguinte e só iam pra pegar o resto das coisas que tinha ficado lá pra morar definitivamente em Santos, e não no apartamento dos meus pais mas em uma casa que já estavam procurando. Quando eles foram trocar de roupa, meu pai fez uma ligação pra colocar o nosso plano em prática, o último pra fechar o chave de ouro; foi uma ideia louca minha e da Manu, que graças ao trabalho do meu pai na concessionária deu certo. Quando eles voltaram para o jardim, disseram que podíamos começar a escolher as lembrancinhas, abraçaram e agradeceram todos - todos mesmo - e saíram. Quase não acreditaram quando viram um cadillac preto estacionado a espera deles com motorista e tudo. Minha avó começou a rir e meu avô precisou tocar pra saber se era real
Murilo - Conseguimos alugar pra levar vocês até o aeroporto. Divirtam-se! - eles não conseguiam falar nada, mas nem precisava também, os sorrisos já diziam tudo
Clara - Avisem quando chegarem lá! - gritei quando o carro já estava arrastando e meu avô fez o sinal do legal com uma das mãos. Voltamos para o jardim e com o entardecer o Di também teve que se despedir pra voltar pra Florianópolis e aos poucos foi ficando só a família. Estava sentada em uma das cadeiras da primeira fileira pensando em tirar o salto, quando uma lembrancinha surgiu na minha frente, era uma muda de rosa vermelha, muito perfumada por sinal. Claro que não precisei virar pra saber quem estava me dando - Obrigada 
Neymar - Por nada - me deu um beijo na bochecha antes de aparecer na minha frente - Abre - apontou para o minienvelope que todas as lembranças tinham, e eu abri-o porque também estava curiosa pra saber qual mensagem tinha ali mas me surpreendi
Clara - Ué, esse está vazio? 
Neymar - Não. Vira - quase virei o papel do avesso para então achar, não uma mensagem dos meus avós para os seus convidados, mas dele pra mim. Só para mim: “O próximo casamento é o nosso”. 


Olá :) 
Vou ser bem sincera com vocês, sem enrolação: a demora foi culpa minha sim, totalmente minha. Adoro escrever, mas assim como aconteceu nas outras fics (coincidência ou não, perto do final também), bateu uma desmotivação que nem sei de onde veio. Simplesmente não tinha vontade de escrever! E isso fez com que eu me jogasse de cabeça nos livros, terminava um, começava outro e o ciclo se repetia. Eu só queria ler! Só que comecei a me sentir culpada, porque sabia (apesar de estar sem whatsapp) o quanto vocês também queriam ler. Eu também queria escrever, só não tinha motivação, vontade, sei lá... E não, é claro que não tem nada a ver com vocês. Então me esforcei ao máximo e acreditem, comemorei bastante quando consegui terminar esse capítulo. A princípio eu ia dividi-lo, mas iam ficar pequenos demais e depois de tanto tempo eu devia, pelo menos, um capítulo maiorzinho que o normal. O próximo, como vocês já sabem, será o último. Talvez tenha um epílogo, ainda não sei, mas espero que consiga fazer.