Acordei com o escandaloso do meu despertador, desliguei-o rapidamente antes que a vontade de jogar o celular, que não tem muita culpa, em algum canto, falasse mais alto. Levantei e já podia ouvir o barulhinho da chuva na janela. Arrumei a cama, peguei minha roupa, estirei-a ali, entrei no banheiro, fiz minhas necessidades, tomei um banho morno, escovei os dentes, saí, enxuguei-me, passei hidratante no corpo, vesti minhas peças íntimas, passei um pouco do creme facial para ajudar a diminuir o resultado das noites anteriores, muito mal dormidas, voltei pro quarto e me vesti. Calcei uma sapatilha preta, prendi o cabelo em um rabo de cavalo alto e apertado, arrumei minha bolsa, me perfumei e fui ver minha pequena, que por sinal, estava brincando debaixo do chuveiro e começou a rir quando percebeu que foi pega no flagra. Se para alguns, acordar os filhos de manhã cedo é complicado, tirei a sorte grande porque comigo é totalmente o contrário. Acho que por gostar muito da escola, e claro, o despertador ajuda. Arrumei-a, ela pediu para deixar o cabelo soltinho, só prender a franja e foi o que eu fiz, depois se perfumou, pegou a mochila e fomos pra cozinha. Tomei apenas um copo de iogurte e enquanto ela se deliciava com seu leite morno acompanhado de biscoitinhos doces, fiquei mexendo no celular. Atualizando o e-mail, respondendo umas duas mensagens que não tinha visto e afins.
clarabarcelar_: ️
Quando ela terminou, coloquei a louça na pia, demos um beijinho no Luck, que creio eu que tenha dormido com a Manu porque a verdade é que só usa a sua própria cama quando não estamos em casa, porque gosta de ficar sempre por perto... mas enfim, descemos, destravei as portas do carro, entramos, dei partida e a tagarelinha foi cantando até chegarmos na escola. Deixei-a lá, segui pro CT e quando cheguei a chuva já tinha diminuído, estava apenas garoando. Estacionei e saí do carro ao mesmo tempo que a Jú saia do dela, bem próximo ao meu.
Juliana - Bom dia
Clara - Bom dia - cumprimentou-me -
Juliana - Está melhor? - travei as portas e começamos a caminhar em direção a entrada principal -
Clara - Estou - revirei os olhos - E não aguento mais ouvir a mesma pergunta
Juliana - Sabia que aquele estresse todo e o excesso de trabalho não iam acabar bem
Clara - Não foi culpa do trabalho
Juliana - Ajudou, e você sabe. Mas chega de falar sobre esse assunto, até porque existem outros bem melhores - sorriu, e não foi difícil adivinhar qual era o assunto -
Clara - Soube como? - entramos e subimos -
Juliana - Tenho meus informantes, minha querida - riu e eu olhei-a intrigada - E não me olha assim porque eu não os revelo - riu novamente - Amiguinhos... que fofo - disse num tom cheio de segundas intenções -
Clara - Tá sabendo demais, heim dona Juliana
Juliana - Pois é, parece até que já estou vendo tudo acontecer de novo
Clara - Ê, não precisa tanto também. Não viaja
Juliana - Uhum, lembra do que eu te falei quando você veio fazer a entrevista e disse que só ficaria aqui temporariamente?
Clara - O quê, especificamente? Tu falou tanta coisa - riu -
Juliana - ''Isso nós vemos depois''
Clara - Acho que lembro
Juliana - Pois então, eu volto a repeti-las... isso nós vemos depois - piscou. Não respondi-a, e tomamos direções diferentes para nossas salas. Como ainda estava sozinha, aproveitei para me reiterar de tudo que já tínhamos feito, qual era a nossa situação atual em relação ao marketing e a publicidade, que é mais a minha área apesar de fazer um pouquinho de tudo, e a propósito, a promoção dos descontos dependendo da quantidade de gols por partida foi muito bem recebida pelos torcedores. O pessoal foi chegando, e começamos a trabalhar em cima dela mesmo, para facilitar a participação dos que não são sócios também. Direitos iguais. Na hora do almoço tivemos apenas a companhia da comissão técnica do Peixe, que viajaria no final da tarde para Bauru, com os jogadores, é claro, para o jogo do dia seguinte, contra o Oeste de Itápolis, no estádio Alfredo de Castilho. Mesmo que não queira, sou obrigada a estar por dentro de tudo, até mesmo para me ajudar no que faço. Quando terminamos, ainda ficamos nos distraindo assistindo Vídeo Show, mas tivemos que voltar ao trabalho. A tarde foi bem produtiva, assim como todas as outras, e as horas voaram, passamos até do nosso horário. Fui a última a deixar a sala, desci, dei um tchauzinho coletivo, saí e o estacionamento estava cheio, com os jogadores que provavelmente enfrentariam o Oeste, indo em direção ao ônibus. Minha relação com todos é boa, apesar de nos falarmos bem pouco. O Júnior também estava no meio, mas não me viu porque estava entretido, tirando fotos e distribuindo autógrafos para alguns torcedores presentes. Entrei logo no meu carro, pois já estava ameaçando chover de novo e fui pra casa. Foi só colocar o carro na garagem para as primeiras gotas começarem a cair. Ativei o alarme, subi, a Manu parecia estar conversando com os pais pelo skype e a Duda dançava pela sala com o Luck, assistindo algum dvd. Fiquei ali com ela por um tempinho, o suficiente para me contar como tinha sido a escola e tudo que tinha feito, depois fui tomar banho, aproveitando para pensar e procurar a melhor maneira de contar logo tudo pra ela, mas a verdade é que não existia ''a melhor maneira'', e de um jeito ou de outro tinha que falar. Saí, enxuguei-me, me vesti, fiz um coque no cabelo, saí do banheiro e a ela estava sentada na minha cadeira, girando em torno de si própria -
Clara - Filha - olhou-me - Eu preciso conversar contigo
Eduarda - Eu não fiz nada - negou com a cabeça -
Clara - Eu sei, meu amor - sorri - Vem cá - sentei na pontinha da cama, e ela fez o mesmo -
Eduarda - Que foi? - perguntou, ainda achando que tinha feito algo de errado -
Clara - Então... - respirei fundo - É sobre o seu pai
Eduarda - O que tem ele?
Clara - Lembra que uma vez eu disse pra você que os adultos são muito complicados e que por esse motivo ele não te conhecia?
Eduarda - Lembro - respondeu com um tom de voz esmorecido -
Clara - Parece que agora, nós, ''adultos'', estamos começando a nos entender e ele não só pode, como quer e muito te conhecer
Eduarda - Verdade? - perguntou em êxtase -
Clara - Verdade, claro. E eu quero que vocês se deem muito, muito, muito, muito bem, sabe porque? - negou - Porque vocês foram apenas ''vítimas'' de um erro que eu cometi e me condena até hoje - minha voz começou a falhar -
Eduarda - Não chora, mãe - passou a mão no meu rosto e eu sorri -
Clara - Pronto - sorriu também -
Eduarda - Eu pareço com ele? - seus olhinhos arregalaram-se de curiosidade -
Clara - Parece, parece muito. E sabe esse sinal aqui? - apontei para a região do seu ombro esquerdo e ela assentiu - Ele também tem - riu -
Eduarda - Porque?
Clara - Genética, amor
Eduarda - Genética?
Clara - É, um dia você vai aprender o que é
Eduarda - Tá bom - encolheu os ombros - Quando ele vem me ver?
Clara - Não sei, a profissão dele não permite uma rotina muito certa princesa, então não posso te dizer o dia - ficou com uma carinha pensativa, assimilando tudo que tinha escutado e eu respeitei. Na sua idade, por mais esperta que seja, essa não foi uma conversa fácil, até porque muita coisa iria mudar - Espera aqui, vou te mostrar uma coisa - assentiu. Levantei, fui até o guarda-roupa, peguei a caixinha, voltei a sentar ao seu lado, abri-a e não foi preciso procurar muito para achar o que queria e entreguei pra ela uma foto que estávamos juntos, e tão... tão felizes - É ele...
Eduarda - E você também, mãe. Ele tava na televisão - riu e eu sorri com a sua carinha de espanto. Tão natural, tão genuína... Ficou apreciando a foto, e passando seus dedinhos em nossos rostos com um sorriso lindo. Tudo era muito novo, mas acho que a vontade de conhecê-lo, e abracá-lo conseguiam superar qualquer tipo de trauma que pudesse existir nesses casos, ainda mais com a idade que ela tem. Voltei a me auto condenar por estar fazendo-a passar por isso, e quando dei por mim já tinha lágrimas rolando novamente. Ela perguntou o motivo e eu não consegui dizer nada, apenas abracá-la, com muita força -
Clara - Perdoa a sua mãe, tá? Ela não fez por mal - balançou a cabeça positivamente mesmo sem ter ideia do que eu estava falando e não sei porquê mas isso bastou para aquecer um pouco meu coração.
****
A quinta-feira também amanheceu chuvosa, mas a minha rotina foi a mesma. Levei a Duda para escola, à tarde para o balé e depois o tempo fechou de vez, tanto que o jogo do Peixe foi debaixo de uma chuva torrencial. Um absurdo. Tinham o dever de anular, ou pelo menos, esperar diminuir um pouco. Os jogadores estavam praticamente nadando, e quase não dava para enxergá-los. Claro que a Manu e até a Duda só riam de mim por estar falando com a tv. Terminou apenas com um empate em 1 a 1, com o gol do Oeste super irregular, mas o árbitro se atrapalhou por causa da chuva, o que só fez a minha revolta aumentar, e as gargalhadas das meninas também.
****
A sexta, diferente do dia anterior, não amanheceu chuvosa, apenas nublada. Levantei, separei minha roupa, arrumei a cama e entrei no banheiro. Fiz minhas necessidades, tomei um banho morno, escovei os dentes, saí, me enxuguei, passei hidratante no corpo, voltei pro quarto e me vesti. Calcei uma sapatilha, prendi o cabelo, me perfumei, peguei minha bolsa, fui arrumar a Duda e depois da nossa primeira refeição do dia, saímos.
clarabarcelar_: É você, a minha razão de dormir e acordar sorrindo! instagram.com/p/X2oz2ILjnc/
Deixei-a na escola, segui para o CT, quando cheguei ele ainda estava relativamente vazio e captei na hora que o elenco ainda não tivesse voltado de Bauru. Subi e encontrei a Gio já na sala.
Clara - Bom dia - dei dois beijinhos no seu rosto -
Giovanna - Bom dia. Estou te achando mais alegrinha
Clara - E acho que estou mesmo
Giovanna - Até que enfim, aquele estresse todo não faz bem - riu - Mas tem algum motivo especial?
Clara - Só umas coisinhas que estou conseguindo resolver - preferi não falar muito e ela não insistiu. Começamos o nosso expediente, e no meio dele lembrei de fazer algo.
For: Lela
''Rafinha, fala pro teu irmão que eu já conversei com a Dudoca, e ela está doida para conhecê-lo.''
From: Lela
''Sério??? Cara, falei e ele pirou, tu não tem noção. Ele está chegando em Santos, quer saber se pode ser hoje mesmo''
Sorri sem querer, ao ler a resposta dela.
For: Lela
''Pode, claro. Só me avisa o horário e onde. Beijos."
From: Lela
''Pode deixar, beijão''
Voltei a focar no trabalho, e só me desliguei dele na hora do almoço. Desci, a equipe técnica estava no restaurante mas não havia nenhum jogador. Comi bem rapidinho, aproveitei o restinho do meu horário vago para conversar um pouco com a Paula, o João, e o Di por whats, depois disquei o número dos meus coroas.
- início -
Marcos - Alô?
Clara - Meu amor
Marcos - Clara?
Clara - Lógico. Alguém, além de mim e da minha avó te chama assim? Acho bom que não - gargalhou -
Marcos - Tudo bem por aí, princesa?
Clara - Acho que agora está tudo se encaminhando para ficar bem sim
Marcos - Como assim?
Clara - Não existe mais mentiras me atormentando, vôzinho. Estou me sentindo mais leve, até
Marcos - Jura? Nenhuma?
Clara - Nenhuma. Tenho mais nada a esconder para ninguém
Marcos - Inclusive pra Dudoca?
Clara - Inclusive pra ela - contei resumidamente tudo que tinha acontecido - Acho que eles vão se conhecer de verdade hoje
Marcos - Que bom, você vai ver, agora tudo vai se encaixar
Clara - Tomara. Cadê a vó?
Marcos - Saiu um pouco antes de você ligar, foi ao supermercado mas eu aviso que você ligou
Clara - Avisa sim, e conta a ''novidade'' porque ela vai gostar de saber também
Marcos - Pode deixar que eu conto
Clara - Vou voltar ao trabalho, se cuidem heim
Marcos - Vocês aí também, estamos esperando a visitinha
Clara - Assim que der nós vamos. Beijo, beijo, amo vocês
Marcos - Tá certo, beijos, nós também amamos vocês
- término -
Subi com a Gio falando sobre nossos pimpolhos, os meninos já estavam na sala, e voltamos a fazer o que sabemos de melhor. O bom é que trabalhamos e nos divertimos ao mesmo tempo... A hora de ir embora chegou mas nós só saímos quando demos tudo por terminado.
(...)
Achei estranho não ter recebido mais nenhuma mensagem da Rafa, e até pensei em ligar mas desisti. ''Vai ver não deu'' - pensei, e ainda bem que não falei nada pra Duda ou ela ia criar milhares de expectativas. Pedimos pizza para o jantar, comemos, depois nos instalamos no quarto da Manu para assistirmos ''Encantada'', quando terminou a Duda já estava no sétimo sono e meu celular começou a tocar insistentemente.
Manu - Vou levá-la pro quarto dela - assenti. Levantei também, vi o nome da Tia no visor e atendi logo.
- início -
Clara - Oi tia
Tia Na - Oi minha linda, como você tá? - sua voz estava estranha, aflita -
Clara - Estou indo, como Deus quer... e as coisas por aí?
Tia Na - No momento, não muito boas
Clara - Que foi?
Tia Na - É o Juninho
Clara - O que aconteceu com ele??
Tia Na - Já estava com alguns indícios de que ia ficar resfriado, mas como não viram problemas e ele estava ótimo, jogou ontem, o que não podíamos adivinhar era aquela chuva toda. E não tinha como ser diferente. Está com uma febre insistente, e se recusa a ir ao hospital ou para o CT para os médicos de lá mesmo vê-lo
Clara - Como assim? Se recusa porque? Ficou louco?
Tia Na - Não sei, ele não quer ir e... - hesitou -
Clara - E o quê tia? Fala - comecei a pensar no pior, típico dessas horas -
Tia Na - Ele está chamando por você
Clara - O que? Chamando por mim? Tá delirando, só pode
Tia Na - E eu tenho quase certeza que está - quase não acreditei quando a ouvi -
Clara - Ele... ele está delirando?
Tia Na - Pois é, não tem ninguém aqui comigo e não sei mais o que fazer porque ele é teimoso, não ajuda e só faz chamar por você. Consigo nem pensar direito
Clara - A senhora não quer que eu vá aí, né? Isso não tem nexo tia
Tia Na - As coisas que envolvem vocês parecem que nunca tem nexo - falou naturalmente mas me deixou sem saber o que responder - Por favor, minha filha. Eu não ligaria se não estivesse à beira do desespero. Nunca o vi assim. Tento fazer tudo direitinho para a febre baixar mas ele parece um disco arranhado onde só toca o teu nome, por isso achei que já que te quer tanto aqui, pode ser que te deixe fazer tudo
Clara - Tudo bem, eu vou - falei rapidamente antes que mudasse de ideia -
Tia Na - Vou te mandar o endereço, e estou te esperando
Clara - Tá certo
- término -
Manu - Que foi? - entrou no quarto - Viu um fantasma? - riu -
Clara - Não - reagi pela primeira vez desde que desliguei a chamada - O Júnior está chamando por mim
Manu - Ãn?
Clara - Ele está com febre, delirando, entende?
Manu - E chamando por você? Ele não tinha namorada? - riu -
Clara - Manu, por favor. Agora não
Manu - Tá, parei. E o que você pretende fazer?
Clara - Vou lá
Manu - Vai?
Clara - A tia pediu, e...
Manu - E você ficou preocupada, acertei?
Clara - Em cheio
Manu - Então vai
Clara - Estou com medo
Manu - De que?
Clara - Dele me mandar embora
Manu - Mas não é por você que ele está chamando?
Clara - Esse é o problema. Ele está chamando por mim... e você sabe que as pessoas não dizem coisa com coisa quando estão delirando
Manu - Age como sempre agiu então. O que seu coração quer?
Clara - O que você acha?
Manu - Então vai, pára de perder tempo aqui criatura
Clara - É... eu vou - saí do quarto feito um furacão, entrei no meu, fui pegando as primeiras peças de roupa que via, me troquei, calcei uma rasteirinha, coloquei o celular no bolso e saí fazendo um coque no cabelo.
Manu - Se precisar, liga
Clara - Pode deixar - peguei meu chaveiro - Obrigada - piscou e sorriu. Saí do apê bem na hora que o Pedro ia tocar a campainha, dei um oi-tchau pra ele, chamei o elevador, desci, desativei o alarme do carro, entrei, olhei o endereço na mensagem que tinha recebido da tia, dei partida e tensa do jeito que estava, se não fosse o gps não sei se conseguiria chegar, apesar de nem ser assim tão longe. Estacionei no meio fio mesmo, travei as portas, entrei no prédio, o porteiro interfonou para me liberar, me informou o andar e eu subi. Respirei fundo, supliquei para não me arrepender e toquei a campainha -
Tia Na - Meu amor, que bom que você veio - me recebeu sorridente, apesar da sua preocupação evidente - Entra
Clara - Continua sozinha com ele? - entrei e dei dois beijinhos no seu rosto -
Tia Na - É. O Neymar ainda não chegou de SP, e a Rafa está em um aniversário
Clara - Como é que ele está?
Tia Na - Agora, dormindo. Mas a febre ainda não baixou
Clara - Posso ir vê-lo?
Tia Na - Deve, vamos - pegou a minha mão, subimos e paramos em uma porta quase no final do corredor. Ela abriu, me deu passagem para entrar primeiro e um arrepio percorreu o meu corpo assim que o fiz, ao olhar tudo ao meu redor e sentir o seu cheirinho natural. Me aproximei da cama e ele estava coberto da cabeça aos pés, porém, suando demais. Sentei imediatamente ao seu lado, coloquei a minha mão em sua testa e ela estava pegando fogo -
Clara - Estava acima dos 40º? - olhei-a espantada -
Tia Na - Da última vez que medi, estava 39,6º
Clara - Meu Deus, e ele tomou algum remédio?
Tia Na - Só pra dor de cabeça e no corpo, pela manhã. Quer que eu traga algum outro?
Clara - Não, melhor não. Ficar se automedicando não é bom - olhei-o - É melhor aderir a técnica da minha avó, que nunca falha
Tia Na - Qual? Me diz o que eu posso fazer
Clara - Primeiro, ficar calma - levantei parei em sua frente - Isso vai passar, porque ele pode até ser teimoso mesmo mas quando quero, eu sou muito mais - seus olhos estavam rasos - Vai ficar tudo bem
Tia Na - Eu confio em você - sorriu fraco e eu retribuí -
Clara - A técnica é fácil, e com isso tudo a senhora só não lembrou mas também conhece. Consegue pra mim um recipiente com água gelada e panos limpos?
Tia Na - Claro, pensei nesse método sim mas ele só fazia reclamar, confesso que já nem lembrava como fica chato, doente - olhou-o e sorriu boba - Mas já volto
Clara - Tia?
Tia Na - Oi - voltou -
Clara - Um chá também, de limão e bem forte de preferência mas isso é um pouco relativo, então se não tiver...
Tia Na - Tem sim, vou fazer - saiu e eu voltei a sentar ao seu lado. Peguei o termômetro, coloquei delicadamente debaixo do seu braço, esperei apitar, tirei e continuava alta demais. Puxei seu cobertor, ele se arrepiou e começou a se mexer, super inquieto -
Neymar - Clara?! - abriu os olhos bem lentamente -
Clara - Estou aqui - ainda não sabia muito bem como lidar com aquilo - Eu estou aqui, é isso que você quer?
Neymar - É - pegou em uma das minhas mãos, apertando-a e me puxou para um abraço, que como é obvio, eu não estava esperando mas não podia fazer outra coisa, a não ser, corresponder - Fica aqui comigo - sussurrou e foi a minha vez de me arrepiar, não sei se pelas palavras ou pela nossa diferença acentuada de temperatura -
Clara - Então deixa eu cuidar de você - desfez o abraço - Vem, vamos tomar um banho porque ficar aí todo coberto não vai adiantar muita coisa
Neymar - Não
Clara - Por favor, é pro seu bem
Neymar - Não quero
Clara - Quer sim
Neymar - Estou com frio, muito frio
Clara - Eu sei, e vai passar. Prometo - estendi a minha mão, ele pegou-a e a diferença de temperatura era tanta que até eu senti um calafrio. Ajudei-o a levantar, porque ele estava sentindo o corpo muito mole, passei um dos seus braços pelo meu ombro e não sei como conseguimos chegar ao banheiro porque o peso do seu corpo ficou completamente sobre o meu, me obrigando a cambalear. Encostou-se à uma parede, o que facilitou a minha tarefa de despi-lo, deixando apenas em box e por momentos me perdi olhando para tudo que não devia... para tudo que já não era mais meu - Entra - por incrível que pareça, acatou ao meu pedido e eu liguei o chuveiro, depois de me certificar que estava realmente em temperatura ambiente, mas pra ele, bem gelada -
Neymar - Chega, por favor - implorou e eu desliguei. Peguei uma das diversas toalhas que tinham naquele banheiro, e ele tremendo um pouco, enrolou-se nela e saiu do box -
Clara - Onde que fica suas roupas? - apenas apontou para outra entrada - Fica aqui - pedi e saí do banheiro. Entrei no seu enorme closet, e depois de um curta procura, encontrei o que queria. Uma box, uma bermuda, e uma camiseta qualquer. Voltei pro banheiro, e ele continuava do mesmo jeito, era de cortar o meu frágil coração. Já fiquei assim uma única vez, e a sensação não é nada agradável. Eu parecia estar completamente bêbada - Consegue se vestir?
Neymar - Não sei... acho que sim
Clara - Toma - entreguei o que tinha pego - Eu... eu vou ficar de costas... - virei, constrangida ao extremo pela situação em que me encontrava e instantes depois ouvi a sua voz -
Neymar - Pronto
Clara - Vamos voltar pra cama - fiz o mesmo processo de antes, ele deitou e eu o cobri só até a cintura - Já volto
Neymar - Não - segurou o meu braço -
Clara - Eu vou voltar, confia em mim - soltou-me, fiz o percurso para descer, me bati um pouco mas encontrei a cozinha, onde sabia que encontraria a tia -
Tia Na - E aí?
Clara - Consegui fazê-lo tomar um banho, já é um começo
Tia Na - Mas ele disse que não estava nem conseguindo levantar direito
Clara - É... eu tive que dar uma ajudinha... - confessei com as bochechas ardendo de tanta vergonha e ela apenas sorriu - Vamos? Eu ajudo
Tia Na - Estava precisando mesmo, vamos - pegou a bandeja com o chá, peguei a outra com a vasilha de água e os panos. Subimos e ele estava novamente de olhos fechados, mas não dormindo. Colocamos uma bandeja em cada cômoda, dos lados da cama, molhei o primeiro pano, passei no seu rosto e na testa, devagar porque a água estava bem gelada. Ele abriu os olhos, reclamou alguma coisa, mas fingi nem ter ouvido, a tia riu e fui repetindo o mesmo processo por um tempinho - Vou descer, qualquer coisa me chama
Clara - Pode deixar - saiu. Deixei a compressa na sua testa, e peguei o chá - Bebe
Neymar - Não quero - revirei os olhos. Quando quer, consegue ser pior que a filha -
Clara - É bom, doce e vai te fazer bem
Neymar - Vai?
Clara - Vai. Quer ficar sem treinar e perder jogos importantes?
Neymar - Não, isso não
Clara - Então, trata de tomar logo isso - bebeu em um só gole e me devolveu a xícara -
Neymar - É azedo, não é bom - sorri. Repetiu as palavras da Duda -
Clara - Desculpa, mas se dissesse que era ruim você não tomaria - coloquei a xícara na sua bandeja, e continuei com com os panos frios no seu rosto, pescoço, e testa... pelo menos, até ele me surpreender - mais uma vez - colocando as mãos no meu rosto. Olhei-o e a nossa proximidade já gerava um pouco de perigo. Seus dedos começaram a passear pelo meu rosto, bem vagamente, para terminarem contornando os meus lábios. Fechei os olhos e suspirei -
Neymar - Eu te amo - julguei ter ficado impossibilitada de respirar, independente da circunstância, ouvir essas palavrinhas tão... puras vindas dele, parecia surreal -
Clara - Eu também te amo, muito - aproximou nossas bocas e iniciou um beijo calmo, que eu queria mas não pude evitar e deixei umas lágrimas rolarem porque sabia que muito provavelmente ele não lembraria de nada... absolutamente nada. Nada do que me disse, e nada do que fez. Basicamente isso. Mas não consegui por fim, e foi ele mesmo quem pôs, com um selinho demorado. Passei a mão no rosto rapidamente e abri os olhos -
Neymar - Vai ficar aqui, não vai?
Clara - Você quer que eu fique? - minha voz falhou -
Neymar - Quero. Fica
Clara - Eu vou ficar - afirmei convicta, o suficiente, pelo menos, para ele acreditar. Voltei ao que estava fazendo e pouquíssimo tempo depois, já o tinha deitado com a cabeça no meu colo, dormindo serenamente - Porque você não vai lembrar de nada? Porquê?? - passei a mão levemente no seu rosto e as lágrimas voltaram. Dessa vez não foram uma, nem duas... Tudo é tão complicado. Peguei o termómetro, medi sua febre novamente e marcou 37,9º. Agradeci mentalmente a Deus, coloquei a sua cabeça com cuidado no travesseiro, ajeitei o cobertor e sorri. Peguei uma das bandejas, olhei-o uma última vez e preferi nem tocá-lo mais para não correr o risco de acordá-lo e já que a febre baixou, ser expulsa do quarto. Fechei a porta e desci, encontrando a tia na sala - Ele dormiu de novo, mas agora com 37,9º
Tia Na - Jura? - levantou do sofá que estava - Obrigada, meu Deus - levantou as mãos pro céu - Obrigada a você também, minha filha
Clara - Obrigada pelo quê? Não fiz nada que a senhora também não fizesse mas não fez porque se fosse a Duda eu também não lembraria de nada, ficaria bem doida - riu -
Tia Na - Mesmo assim, obrigada por ter ajudado, mesmo sabendo que no estado em que ele estava, vai acordar amanhã e provavelmente não lembre de nada - confirmou o que eu já sabia e doeu ainda mais ouvir novamente -
Clara - A senhora sabe melhor do que eu mesma o real motivo que me trouxe até aqui, eu sei que não vai lembrar mas só me importa saber que ele está bem, só isso - respondi sufocada pelas minhas lágrimas - Agora eu tenho que ir
Tia Na - Mas está tarde, fica aqui
Clara - Não, melhor não
Tia Na - Você o ajudou
Clara - E ele nem vai lembrar disso - suspirei - Prefiro ir tia, sério. Não quero que ele me veja aqui amanhã e tire conclusões precipitadas
Tia Na - Mas eu vou falar pra ele que você esteve aqui, e foi o meu anjo - sorri de lado - Posso?
Clara - Ele mal vai lembrar o que fez antes da febre muito alta começar, mas a senhora quem sabe. Agora deixa eu ir pra não ficar ainda mais tarde - me aproximei dela, e ganhei um abraço maravilhoso -
Tia Na - Torço muito por você... e por vocês também
Clara - Não sei se vale mais a pena
Tia Na - Sempre vale, desde que seja amor - meus olhos ficaram rasos, mas segurei tudo, me despedi dela, fui saindo e tio chegando. Só deu tempo mesmo pra um beijo e um abraço, deixei a tia contando o que tinha acontecido pra ele, e desci. Destravei as portas, entrei no carro e como já era 00h30 preferi não perder tempo, e dei logo partida. Quando cheguei, a casa estava em um completo silêncio, fui direto pro meu quarto, tomei um banho frio porque realmente estava precisando, escovei os dentes, vesti meu pijaminha, deitei, fiquei rolando e pensando em tudo que tinha feito, dito e ouvido... até o sono chegar.
Desculpem, mas ontem não consegui escrever
absolutamente nada por milhões de motivos e
mais alguns... enfim, espero que esse tenha
compensado.
Thabata Fidelis, meu instagram está inativo
Thabata Fidelis, meu instagram está inativo
por tempo indeterminado lol mas já que quer
tanto, é gabbsqueiroz.
E a música se chama Two is better than one. Beijos :)





