sábado, 3 de agosto de 2013

Capítulo 22 - “Fica aqui comigo”


 Acordei com o escandaloso do meu despertador, desliguei-o rapidamente antes que a vontade de jogar o celular, que não tem muita culpa, em algum canto, falasse mais alto. Levantei e já podia ouvir o barulhinho da chuva na janela. Arrumei a cama, peguei minha roupa, estirei-a ali, entrei no banheiro, fiz minhas necessidades, tomei um banho morno, escovei os dentes, saí, enxuguei-me, passei hidratante no corpo, vesti minhas peças íntimas, passei um pouco do creme facial para ajudar a diminuir o resultado das noites anteriores, muito mal dormidas, voltei pro quarto e me vesti. Calcei uma sapatilha preta, prendi o cabelo em um rabo de cavalo alto e apertado, arrumei minha bolsa, me perfumei e fui ver minha pequena, que por sinal, estava brincando debaixo do chuveiro e começou a rir quando percebeu que foi pega no flagra. Se para alguns, acordar os filhos de manhã cedo é complicado, tirei a sorte grande porque comigo é totalmente o contrário. Acho que por gostar muito da escola, e claro, o despertador ajuda. Arrumei-a, ela pediu para deixar o cabelo soltinho, só prender a franja e foi o que eu fiz, depois se perfumou, pegou a mochila e fomos pra cozinha. Tomei apenas um copo de iogurte e enquanto ela se deliciava com seu leite morno acompanhado de biscoitinhos doces, fiquei mexendo no celular. Atualizando o e-mail, respondendo umas duas mensagens que não tinha visto e afins. 
 clarabarcelar_:  
Quando ela terminou, coloquei a louça na pia, demos um beijinho no Luck, que creio eu que tenha dormido com a Manu porque a verdade é que só usa a sua própria cama quando não estamos em casa, porque gosta de ficar sempre por perto... mas enfim, descemos, destravei as portas do carro, entramos, dei partida e a tagarelinha foi cantando até chegarmos na escola. Deixei-a lá, segui pro CT e quando cheguei a chuva já tinha diminuído, estava apenas garoando. Estacionei e saí do carro ao mesmo tempo que a Jú saia do dela, bem próximo ao meu. 
Juliana - Bom dia
Clara - Bom dia - cumprimentou-me -
Juliana - Está melhor? - travei as portas e começamos a caminhar em direção a entrada principal -
Clara - Estou - revirei os olhos - E não aguento mais ouvir a mesma pergunta
Juliana - Sabia que aquele estresse todo e o excesso de trabalho não iam acabar bem
Clara - Não foi culpa do trabalho
Juliana - Ajudou, e você sabe. Mas chega de falar sobre esse assunto, até porque existem outros bem melhores - sorriu, e não foi difícil adivinhar qual era o assunto -
Clara - Soube como? - entramos e subimos -
Juliana - Tenho meus informantes, minha querida - riu e eu olhei-a intrigada - E não me olha assim porque eu não os revelo - riu novamente - Amiguinhos... que fofo - disse num tom cheio de segundas intenções -
Clara - Tá sabendo demais, heim dona Juliana
Juliana - Pois é, parece até que já estou vendo tudo acontecer de novo
Clara - Ê, não precisa tanto também. Não viaja
Juliana - Uhum, lembra do que eu te falei quando você veio fazer a entrevista e disse que só ficaria aqui temporariamente?
Clara - O quê, especificamente? Tu falou tanta coisa - riu -
Juliana - ''Isso nós vemos depois'' 
Clara - Acho que lembro
Juliana - Pois então, eu volto a repeti-las... isso nós vemos depois - piscou. Não respondi-a, e tomamos direções diferentes para nossas salas. Como ainda estava sozinha, aproveitei para me reiterar de tudo que já tínhamos feito, qual era a nossa situação atual em relação ao marketing e a publicidade, que é mais a minha área apesar de fazer um pouquinho de tudo, e a propósito, a promoção dos descontos dependendo da quantidade de gols por partida foi muito bem recebida pelos torcedores. O pessoal foi chegando, e começamos a trabalhar em cima dela mesmo, para facilitar a participação dos que não são sócios também. Direitos iguais. Na hora do almoço tivemos apenas a companhia da comissão técnica do Peixe, que viajaria no final da tarde para Bauru, com os jogadores, é claro, para o jogo do dia seguinte, contra o Oeste de Itápolis, no estádio Alfredo de Castilho. Mesmo que não queira, sou obrigada a estar por dentro de tudo, até mesmo para me ajudar no que faço. Quando terminamos, ainda ficamos nos distraindo assistindo Vídeo Show, mas tivemos que voltar ao trabalho. A tarde foi bem produtiva, assim como todas as outras, e as horas voaram, passamos até do nosso horário. Fui a última a deixar a sala, desci, dei um tchauzinho coletivo, saí e o estacionamento estava cheio, com os jogadores que provavelmente enfrentariam o Oeste, indo em direção ao ônibus. Minha relação com todos é boa, apesar de nos falarmos bem pouco. O Júnior também estava no meio, mas não me viu porque estava entretido, tirando fotos e distribuindo autógrafos para alguns torcedores presentes. Entrei logo no meu carro, pois já estava ameaçando chover de novo e fui pra casa. Foi só colocar o carro na garagem para as primeiras gotas começarem a cair. Ativei o alarme, subi, a Manu parecia estar conversando com os pais pelo skype e a Duda dançava pela sala com o Luck, assistindo algum dvd. Fiquei ali com ela por um tempinho, o suficiente para me contar como tinha sido a escola e tudo que tinha feito, depois fui tomar banho, aproveitando para pensar e procurar a melhor maneira de contar logo tudo pra ela, mas a verdade é que não existia ''a melhor maneira'', e de um jeito ou de outro tinha que falar. Saí, enxuguei-me, me vesti, fiz um coque no cabelo, saí do banheiro e a ela estava sentada na minha cadeira, girando em torno de si própria -
Clara - Filha - olhou-me - Eu preciso conversar contigo
Eduarda - Eu não fiz nada - negou com a cabeça -
Clara - Eu sei, meu amor - sorri - Vem cá - sentei na pontinha da cama, e ela fez o mesmo -
Eduarda - Que foi? - perguntou, ainda achando que tinha feito algo de errado -
Clara - Então... - respirei fundo - É sobre o seu pai
Eduarda - O que tem ele?
Clara - Lembra que uma vez eu disse pra você que os adultos são muito complicados e que por esse motivo ele não te conhecia?
Eduarda - Lembro - respondeu com um tom de voz esmorecido -
Clara - Parece que agora, nós, ''adultos'', estamos começando a nos entender e ele não só pode, como quer e muito te conhecer
Eduarda - Verdade? - perguntou em êxtase -
Clara - Verdade, claro. E eu quero que vocês se deem muito, muito, muito, muito bem, sabe porque? - negou - Porque vocês foram apenas ''vítimas'' de um erro que eu cometi e me condena até hoje - minha voz começou a falhar -
Eduarda - Não chora, mãe - passou a mão no meu rosto e eu sorri -
Clara - Pronto - sorriu também -
Eduarda - Eu pareço com ele? - seus olhinhos arregalaram-se de curiosidade -
Clara - Parece, parece muito. E sabe esse sinal aqui? - apontei para a região do seu ombro esquerdo e ela assentiu - Ele também tem - riu -
Eduarda - Porque?
Clara - Genética, amor
Eduarda - Genética?
Clara - É, um dia você vai aprender o que é
Eduarda - Tá bom - encolheu os ombros - Quando ele vem me ver?
Clara - Não sei, a profissão dele não permite uma rotina muito certa princesa, então não posso te dizer o dia - ficou com uma carinha pensativa, assimilando tudo que tinha escutado e eu respeitei. Na sua idade, por mais esperta que seja, essa não foi uma conversa fácil, até porque muita coisa iria mudar - Espera aqui, vou te mostrar uma coisa - assentiu. Levantei, fui até o guarda-roupa, peguei a caixinha, voltei a sentar ao seu lado, abri-a e não foi preciso procurar muito para achar o que queria e entreguei pra ela uma foto que estávamos juntos, e tão... tão felizes - É ele...
Eduarda - E você também, mãe. Ele tava na televisão - riu e eu sorri com a sua carinha de espanto. Tão natural, tão genuína... Ficou apreciando a foto, e passando seus dedinhos em nossos rostos com um sorriso lindo. Tudo era muito novo, mas acho que a vontade de conhecê-lo, e abracá-lo conseguiam superar qualquer tipo de trauma que pudesse existir nesses casos, ainda mais com a idade que ela tem. Voltei a me auto condenar por estar fazendo-a passar por isso, e quando dei por mim já tinha lágrimas rolando novamente. Ela perguntou o motivo e eu não consegui dizer nada, apenas abracá-la, com muita força -
Clara - Perdoa a sua mãe, tá? Ela não fez por mal - balançou a cabeça positivamente mesmo sem ter ideia do que eu estava falando e não sei porquê mas isso bastou para aquecer um pouco meu coração. 
                                                                   ****
 A quinta-feira também amanheceu chuvosa, mas a minha rotina foi a mesma. Levei a Duda para escola, à tarde para o balé e depois o tempo fechou de vez, tanto que o jogo do Peixe foi debaixo de uma chuva torrencial. Um absurdo. Tinham o dever de anular, ou pelo menos, esperar diminuir um pouco. Os jogadores estavam praticamente nadando, e quase não dava para enxergá-los. Claro que a Manu e até a Duda só riam de mim por estar falando com a tv. Terminou apenas com um empate em 1 a 1, com o gol do Oeste super irregular, mas o árbitro se atrapalhou por causa da chuva, o que só fez a minha revolta aumentar, e as gargalhadas das meninas também.
                                                                    ****
A sexta, diferente do dia anterior, não amanheceu chuvosa, apenas nublada. Levantei, separei minha roupa, arrumei a cama e entrei no banheiro. Fiz minhas necessidades, tomei um banho morno, escovei os dentes, saí, me enxuguei, passei hidratante no corpo, voltei pro quarto e me vesti. Calcei uma sapatilha, prendi o cabelo, me perfumei, peguei minha bolsa, fui arrumar a Duda e depois da nossa primeira refeição do dia, saímos.
 clarabarcelar_: É você, a minha razão de dormir e acordar sorrindo!  instagram.com/p/X2oz2ILjnc/
Deixei-a na escola, segui para o CT, quando cheguei ele ainda estava relativamente vazio e captei na hora que o elenco ainda não tivesse voltado de Bauru. Subi e encontrei a Gio já na sala.
Clara - Bom dia - dei dois beijinhos no seu rosto -
Giovanna - Bom dia. Estou te achando mais alegrinha
Clara - E acho que estou mesmo
Giovanna - Até que enfim, aquele estresse todo não faz bem - riu - Mas tem algum motivo especial?
Clara - Só umas coisinhas que estou conseguindo resolver - preferi não falar muito e ela não insistiu. Começamos o nosso expediente, e no meio dele lembrei de fazer algo.
    For: Lela 
''Rafinha, fala pro teu irmão que eu já conversei com a Dudoca, e ela está doida para conhecê-lo.''
    From: Lela 
''Sério??? Cara, falei e ele pirou, tu não tem noção. Ele está chegando em Santos, quer saber se pode ser hoje mesmo''
Sorri sem querer, ao ler a resposta dela. 
    For: Lela 
''Pode, claro. Só me avisa o horário e onde. Beijos."
    From: Lela  
''Pode deixar, beijão'' 
Voltei a focar no trabalho, e só me desliguei dele na hora do almoço. Desci, a equipe técnica estava no restaurante mas não havia nenhum jogador. Comi bem rapidinho, aproveitei o restinho do meu horário vago para conversar um pouco com a Paula, o João, e o Di por whats, depois disquei o número dos meus coroas.
 - início -
Marcos - Alô?
Clara - Meu amor
Marcos - Clara?
Clara - Lógico. Alguém, além de mim e da minha avó te chama assim? Acho bom que não - gargalhou -
Marcos - Tudo bem por aí, princesa?
Clara - Acho que agora está tudo se encaminhando para ficar bem sim
Marcos - Como assim?
Clara - Não existe mais mentiras me atormentando, vôzinho. Estou me sentindo mais leve, até
Marcos - Jura? Nenhuma?
Clara - Nenhuma. Tenho mais nada a esconder para ninguém
Marcos - Inclusive pra Dudoca?
Clara - Inclusive pra ela - contei resumidamente tudo que tinha acontecido - Acho que eles vão se conhecer de verdade hoje
Marcos - Que bom, você vai ver, agora tudo vai se encaixar
Clara - Tomara. Cadê a vó?
Marcos - Saiu um pouco antes de você ligar, foi ao supermercado mas eu aviso que você ligou
Clara - Avisa sim, e conta a ''novidade'' porque ela vai gostar de saber também
Marcos - Pode deixar que eu conto
Clara - Vou voltar ao trabalho, se cuidem heim
Marcos - Vocês aí também, estamos esperando a visitinha
Clara - Assim que der nós vamos. Beijo, beijo, amo vocês
Marcos - Tá certo, beijos, nós também amamos vocês
 - término -
Subi com a Gio falando sobre nossos pimpolhos, os meninos já estavam na sala, e voltamos a fazer o que sabemos de melhor. O bom é que trabalhamos e nos divertimos ao mesmo tempo... A hora de ir embora chegou mas nós só saímos quando demos tudo por terminado.    
     (...)    
 Achei estranho não ter recebido mais nenhuma mensagem da Rafa, e até pensei em ligar mas desisti. ''Vai ver não deu'' - pensei, e ainda bem que não falei nada pra Duda ou ela ia criar milhares de expectativas. Pedimos pizza para o jantar, comemos, depois nos instalamos no quarto da Manu para assistirmos ''Encantada'', quando terminou a Duda já estava no sétimo sono e meu celular começou a tocar insistentemente.
Manu - Vou levá-la pro quarto dela - assenti. Levantei também, vi o nome da Tia no visor e atendi logo.
 - início -
Clara - Oi tia
Tia Na - Oi minha linda, como você tá? - sua voz estava estranha, aflita -
Clara - Estou indo, como Deus quer... e as coisas por aí?
Tia Na - No momento, não muito boas
Clara - Que foi?
Tia Na - É o Juninho
Clara - O que aconteceu com ele??
Tia Na - Já estava com alguns indícios de que ia ficar resfriado, mas como não viram problemas e ele estava ótimo, jogou ontem, o que não podíamos adivinhar era aquela chuva toda. E não tinha como ser diferente. Está com uma febre insistente, e se recusa a ir ao hospital ou para o CT para os médicos de lá mesmo vê-lo
Clara - Como assim? Se recusa porque? Ficou louco?
Tia Na - Não sei, ele não quer ir e... - hesitou -
Clara - E o quê tia? Fala - comecei a pensar no pior, típico dessas horas -
Tia Na - Ele está chamando por você
Clara - O que? Chamando por mim? Tá delirando, só pode
Tia Na - E eu tenho quase certeza que está - quase não acreditei quando a ouvi -
Clara - Ele... ele está delirando?
Tia Na - Pois é, não tem ninguém aqui comigo e não sei mais o que fazer porque ele é teimoso, não ajuda e só faz chamar por você. Consigo nem pensar direito
Clara - A senhora não quer que eu vá aí, né? Isso não tem nexo tia
Tia Na - As coisas que envolvem vocês parecem que nunca tem nexo - falou naturalmente mas me deixou sem saber o que responder - Por favor, minha filha. Eu não ligaria se não estivesse à beira do desespero. Nunca o vi assim. Tento fazer tudo direitinho para a febre baixar mas ele parece um disco arranhado onde só toca o teu nome, por isso achei que já que te quer tanto aqui, pode ser que te deixe fazer tudo
Clara - Tudo bem, eu vou - falei rapidamente antes que mudasse de ideia -
Tia Na - Vou te mandar o endereço, e estou te esperando
Clara - Tá certo
 - término -
Manu - Que foi? - entrou no quarto - Viu um fantasma? - riu -
Clara - Não - reagi pela primeira vez desde que desliguei a chamada - O Júnior está chamando por mim
Manu - Ãn?
Clara - Ele está com febre, delirando, entende?
Manu - E chamando por você? Ele não tinha namorada? - riu -
Clara - Manu, por favor. Agora não
Manu - Tá, parei. E o que você pretende fazer?
Clara - Vou lá
Manu - Vai?
Clara - A tia pediu, e...
Manu - E você ficou preocupada, acertei?
Clara - Em cheio
Manu - Então vai
Clara - Estou com medo
Manu - De que?
Clara - Dele me mandar embora
Manu - Mas não é por você que ele está chamando?
Clara - Esse é o problema. Ele está chamando por mim... e você sabe que as pessoas não dizem coisa com coisa quando estão delirando
Manu - Age como sempre agiu então. O que seu coração quer?
Clara - O que você acha?
Manu - Então vai, pára de perder tempo aqui criatura
Clara - É... eu vou - saí do quarto feito um furacão, entrei no meu, fui pegando as primeiras peças de roupa que via, me troquei, calcei uma rasteirinha, coloquei o celular no bolso e saí fazendo um coque no cabelo.
Manu - Se precisar, liga
Clara - Pode deixar - peguei meu chaveiro - Obrigada - piscou e sorriu. Saí do apê bem na hora que o Pedro ia tocar a campainha, dei um oi-tchau pra ele, chamei o elevador, desci, desativei o alarme do carro, entrei, olhei o endereço na mensagem que tinha recebido da tia, dei partida e tensa do jeito que estava, se não fosse o gps não sei se conseguiria chegar, apesar de nem ser assim tão longe. Estacionei no meio fio mesmo, travei as portas, entrei no prédio, o porteiro interfonou para me liberar, me informou o andar e eu subi. Respirei fundo, supliquei para não me arrepender e toquei a campainha -
Tia Na - Meu amor, que bom que você veio - me recebeu sorridente, apesar da sua preocupação evidente - Entra
Clara - Continua sozinha com ele? - entrei e dei dois beijinhos no seu rosto -
Tia Na - É. O Neymar ainda não chegou de SP, e a Rafa está em um aniversário
Clara - Como é que ele está?
Tia Na - Agora, dormindo. Mas a febre ainda não baixou
Clara - Posso ir vê-lo?
Tia Na - Deve, vamos - pegou a minha mão, subimos e paramos em uma porta quase no final do corredor. Ela abriu, me deu passagem para entrar primeiro e um arrepio percorreu o meu corpo assim que o fiz, ao olhar tudo ao meu redor e sentir o seu cheirinho natural. Me aproximei da cama e ele estava coberto da cabeça aos pés, porém, suando demais. Sentei imediatamente ao seu lado, coloquei a minha mão em sua testa e ela estava pegando fogo -
Clara - Estava acima dos 40º? - olhei-a espantada -
Tia Na - Da última vez que medi, estava 39,6º
Clara - Meu Deus, e ele tomou algum remédio?
Tia Na - Só pra dor de cabeça e no corpo, pela manhã. Quer que eu traga algum outro?
Clara - Não, melhor não. Ficar se automedicando não é bom - olhei-o - É melhor aderir a técnica da minha avó, que nunca falha
Tia Na - Qual? Me diz o que eu posso fazer
Clara - Primeiro, ficar calma - levantei parei em sua frente - Isso vai passar, porque ele pode até ser teimoso mesmo mas quando quero, eu sou muito mais - seus olhos estavam rasos - Vai ficar tudo bem
Tia Na - Eu confio em você - sorriu fraco e eu retribuí -
Clara - A técnica é fácil, e com isso tudo a senhora só não lembrou mas também conhece. Consegue pra mim um recipiente com água gelada e panos limpos?
Tia Na - Claro, pensei nesse método sim mas ele só fazia reclamar, confesso que já nem lembrava como fica chato, doente - olhou-o e sorriu boba - Mas já volto
Clara - Tia?
Tia Na - Oi - voltou -
Clara - Um chá também, de limão e bem forte de preferência mas isso é um pouco relativo, então se não tiver...
Tia Na - Tem sim, vou fazer - saiu e eu voltei a sentar ao seu lado. Peguei o termômetro, coloquei delicadamente debaixo do seu braço, esperei apitar, tirei e continuava alta demais. Puxei seu cobertor, ele se arrepiou e começou a se mexer, super inquieto -
Neymar - Clara?! - abriu os olhos bem lentamente -
Clara - Estou aqui - ainda não sabia muito bem como lidar com aquilo - Eu estou aqui, é isso que você quer?
Neymar - É - pegou em uma das minhas mãos, apertando-a e me puxou para um abraço, que como é obvio, eu não estava esperando mas não podia fazer outra coisa, a não ser, corresponder - Fica aqui comigo - sussurrou e foi a minha vez de me arrepiar, não sei se pelas palavras ou pela nossa diferença acentuada de temperatura -
Clara - Então deixa eu cuidar de você - desfez o abraço - Vem, vamos tomar um banho porque ficar aí todo coberto não vai adiantar muita coisa
Neymar - Não
Clara - Por favor, é pro seu bem
Neymar - Não quero
Clara - Quer sim
Neymar - Estou com frio, muito frio
Clara - Eu sei, e vai passar. Prometo - estendi a minha mão, ele pegou-a e a diferença de temperatura era tanta que até eu senti um calafrio. Ajudei-o a levantar, porque ele estava sentindo o corpo muito mole, passei um dos seus braços pelo meu ombro e não sei como conseguimos chegar ao banheiro porque o peso do seu corpo ficou completamente sobre o meu, me obrigando a cambalear. Encostou-se à uma parede, o que facilitou a minha tarefa de despi-lo, deixando apenas em box e por momentos me perdi olhando para tudo que não devia... para tudo que já não era mais meu - Entra - por incrível que pareça, acatou ao meu pedido e eu liguei o chuveiro, depois de me certificar que estava realmente em temperatura ambiente, mas pra ele, bem gelada -
Neymar - Chega, por favor - implorou e eu desliguei. Peguei uma das diversas toalhas que tinham naquele banheiro, e ele tremendo um pouco, enrolou-se nela e saiu do box -
Clara - Onde que fica suas roupas? - apenas apontou para outra entrada - Fica aqui - pedi e saí do banheiro. Entrei no seu enorme closet, e depois de um curta procura, encontrei o que queria. Uma box, uma bermuda, e uma camiseta qualquer. Voltei pro banheiro, e ele continuava do mesmo jeito, era de cortar o meu frágil coração. Já fiquei assim uma única vez, e a sensação não é nada agradável. Eu parecia estar completamente bêbada - Consegue se vestir?
Neymar - Não sei... acho que sim
Clara - Toma - entreguei o que tinha pego - Eu... eu vou ficar de costas... - virei, constrangida ao extremo pela situação em que me encontrava e instantes depois ouvi a sua voz -
Neymar - Pronto
Clara - Vamos voltar pra cama - fiz o mesmo processo de antes, ele deitou e eu o cobri só até a cintura - Já volto
Neymar - Não - segurou o meu braço -
Clara - Eu vou voltar, confia em mim - soltou-me, fiz o percurso para descer, me bati um pouco mas encontrei a cozinha, onde sabia que encontraria a tia -
Tia Na - E aí?
Clara - Consegui fazê-lo tomar um banho, já é um começo
Tia Na - Mas ele disse que não estava nem conseguindo levantar direito
Clara - É... eu tive que dar uma ajudinha... - confessei com as bochechas ardendo de tanta vergonha e ela apenas sorriu - Vamos? Eu ajudo
Tia Na - Estava precisando mesmo, vamos - pegou a bandeja com o chá, peguei a outra com a vasilha de água e os panos. Subimos e ele estava novamente de olhos fechados, mas não dormindo. Colocamos uma bandeja em cada cômoda, dos lados da cama, molhei o primeiro pano, passei no seu rosto e na testa, devagar porque a água estava bem gelada. Ele abriu os olhos, reclamou alguma coisa, mas fingi nem ter ouvido, a tia riu e fui repetindo o mesmo processo por um tempinho - Vou descer, qualquer coisa me chama
Clara - Pode deixar - saiu. Deixei a compressa na sua testa, e peguei o chá - Bebe
Neymar - Não quero - revirei os olhos. Quando quer, consegue ser pior que a filha -
Clara - É bom, doce e vai te fazer bem
Neymar - Vai?
Clara - Vai. Quer ficar sem treinar e perder jogos importantes?
Neymar - Não, isso não
Clara - Então, trata de tomar logo isso - bebeu em um só gole e me devolveu a xícara -
Neymar - É azedo, não é bom - sorri. Repetiu as palavras da Duda -
Clara - Desculpa, mas se dissesse que era ruim você não tomaria - coloquei a xícara na sua bandeja, e continuei com com os panos frios no seu rosto, pescoço, e testa... pelo menos, até ele me surpreender - mais uma vez - colocando as mãos no meu rosto. Olhei-o e a nossa proximidade já gerava um pouco de perigo. Seus dedos começaram a passear pelo meu rosto, bem vagamente, para terminarem contornando os meus lábios. Fechei os olhos e suspirei -
Neymar - Eu te amo - julguei ter ficado impossibilitada de respirar, independente da circunstância, ouvir essas palavrinhas tão... puras vindas dele, parecia surreal -
Clara - Eu também te amo, muito - aproximou nossas bocas e iniciou um beijo calmo, que eu queria mas não pude evitar e deixei umas lágrimas rolarem porque sabia que muito provavelmente ele não lembraria de nada... absolutamente nada. Nada do que me disse, e nada do que fez. Basicamente isso. Mas não consegui por fim, e foi ele mesmo quem pôs, com um selinho demorado. Passei a mão no rosto rapidamente e abri os olhos -
Neymar - Vai ficar aqui, não vai?
Clara - Você quer que eu fique? - minha voz falhou -
Neymar - Quero. Fica
Clara - Eu vou ficar - afirmei convicta, o suficiente, pelo menos, para ele acreditar. Voltei ao que estava fazendo e pouquíssimo tempo depois, já o tinha deitado com a cabeça no meu colo, dormindo serenamente - Porque você não vai lembrar de nada? Porquê?? - passei a mão levemente no seu rosto e as lágrimas voltaram. Dessa vez não foram uma, nem duas... Tudo é tão complicado. Peguei o termómetro, medi sua febre novamente e marcou 37,9º. Agradeci mentalmente a Deus, coloquei a sua cabeça com cuidado no travesseiro, ajeitei o cobertor e sorri. Peguei uma das bandejas, olhei-o uma última vez e preferi nem tocá-lo mais para não correr o risco de acordá-lo e já que a febre baixou, ser expulsa do quarto. Fechei a porta e desci, encontrando a tia na sala - Ele dormiu de novo, mas agora com 37,9º
Tia Na - Jura? - levantou do sofá que estava - Obrigada, meu Deus - levantou as mãos pro céu - Obrigada a você também, minha filha
Clara - Obrigada pelo quê? Não fiz nada que a senhora também não fizesse mas não fez porque se fosse a Duda eu também não lembraria de nada, ficaria bem doida - riu -
Tia Na - Mesmo assim, obrigada por ter ajudado, mesmo sabendo que no estado em que ele estava, vai acordar amanhã e provavelmente não lembre de nada - confirmou o que eu já sabia e doeu ainda mais ouvir novamente -
Clara - A senhora sabe melhor do que eu mesma o real motivo que me trouxe até aqui, eu sei que não vai lembrar mas só me importa saber que ele está bem, só isso - respondi sufocada pelas minhas lágrimas - Agora eu tenho que ir
Tia Na - Mas está tarde, fica aqui
Clara - Não, melhor não
Tia Na - Você o ajudou
Clara - E ele nem vai lembrar disso - suspirei - Prefiro ir tia, sério. Não quero que ele me veja aqui amanhã e tire conclusões precipitadas
Tia Na - Mas eu vou falar pra ele que você esteve aqui, e foi o meu anjo - sorri de lado - Posso?
Clara - Ele mal vai lembrar o que fez antes da febre muito alta começar, mas a senhora quem sabe. Agora deixa eu ir pra não ficar ainda mais tarde - me aproximei dela, e ganhei um abraço maravilhoso -
Tia Na - Torço muito por você... e por vocês também
Clara - Não sei se vale mais a pena
Tia Na - Sempre vale, desde que seja amor - meus olhos ficaram rasos, mas segurei tudo, me despedi dela, fui saindo e tio chegando. Só deu tempo mesmo pra um beijo e um abraço, deixei a tia contando o que tinha acontecido pra ele, e desci. Destravei as portas, entrei no carro e como já era 00h30 preferi não perder tempo, e dei logo partida. Quando cheguei, a casa estava em um completo silêncio, fui direto pro meu quarto, tomei um banho frio porque realmente estava precisando, escovei os dentes, vesti meu pijaminha, deitei, fiquei rolando e pensando em tudo que tinha feito, dito e ouvido... até o sono chegar.




Desculpem, mas ontem não consegui escrever 
absolutamente nada por milhões de motivos e 
mais alguns... enfim, espero que esse tenha
compensado. 
Thabata Fidelis, meu instagram está inativo
por tempo indeterminado lol mas já que quer
tanto, é gabbsqueiroz.
E a música se chama Two is better than one. Beijos :)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Capítulo 21 - “Eu te quero muito bem, independente de qualquer coisa”


    Neymar on 
 Saí daquele apartamento completamente desorientado, apesar de já fazer uma pequena ideia da resposta que ia ouvir, a confirmação me deixou... não dá pra explicar. Meio que, sem saber como agir, o que fazer, o que falar. Tenho uma filha que irá completar quatro anos e não sabia. Porque? Por amor (?) Não. Egoísmo. Perdi o seu desenvolvimento, o seu nascimento, e todo o seu crescimento até aqui. Onde que isso está certo? Não dá pra entender. Ela não podia, nem tinha o direito de fazer o que fez. É a... minha filha!
 Se contasse para alguém a reviravolta que a minha vida deu, seria totalmente compreensível, se não acreditassem. Cheguei em casa e minha mãe estava impaciente, andando de um lado para o outro, provavelmente sem saber mais o que fazer. Meu pai, a Rafa, e os meninos, inclusive, já estavam por dentro desse assunto mas por incrível que pareça, só com ela consigo falar mais abertamente, não sei o porquê... ou até sei. Dela só ouço a verdade, querendo ou não. E foi a própria quem me convenceu a tirar essa história a limpo, porque queria, mas confesso que o receio era bem grande.
Na - E, aí?
Neymar - Você é vovó, Dona Nadine - sentei, com os cotovelos apoiados nas pernas -
Na - Ai, meu Deus. Que felicidade! - não escondeu um sorriso enorme - E agora?
Neymar - Agora eu vou querer a minha filha comigo, lógico
Na - O que você está pensando em fazer? - semicerrou os olhos -
Neymar - Isso mesmo que está passando pela sua cabeça, mãe
Na - Meu filho - sentou ao meu lado - Pensa bem se é realmente o melhor a fazer. Esquece isso de se vingar, sim porque eu posso apostar que isso é apenas para atingir a Clara, mas pensa na Duda agora. Acha que vai ser bom ela no meio de uma briga judicial?
Neymar - Já perdi tempo demais mãe, o que é o melhor a se fazer então?
Na - Conhece direito a sua filha primeiro, conquista a amizade e a confiança dela, pra começar, depois vamos resolver isso amigavelmente
Neymar - A Ana Clara tirou a minha própria filha de mim, antes mesmo dela nascer e nós temos que resolver tudo amigavelmente? - ironizei - Mãe, por favor
Na - Vocês conversaram? Você deixou ela falar?
Neymar - Conversar o quê? O que eu ouvi foi o suficiente
Na - Você está de cabeça quente, tudo bem, mas eu não vou deixar que se precípite, faça as coisas por impulso, por vingança, e depois se arrependa
Neymar - Tá do lado dela, é isso? Mesmo depois de tudo?
Na - Não estou do lado de ninguém, só quero o melhor pra todo mundo
Neymar - Vocês e essa mania de achar que podem fazer o que acham certo, o que acham que é o melhor, sem me dar opção de escolha e não é assim. Não pode ser assim - terminei descontando nela toda a tensão que carregava desde que cheguei, e vê-la defendendo a Ana Clara, só piorou a situação - Desculpa
Na - Tudo bem, eu entendo o que você tá sentindo, não imagino mas entendo
Neymar - Ela disse que foi por amor. Por amor... dá pra acreditar?
Na - Porque não? - olhei-a embasbacado -
Neymar - Não tem lógica
Na - E o amor tem lógica? - fiquei mais uma vez, pasmado - Eu acho que se tivesse, você não sentiria mais nada por ela
Neymar - Quem disse que eu sinto alguma coisa? - retorqui na mesma hora -
Na - Não sente? - insistiu, me deixando sem saber o que responder - A única lógica do amor, é exatamente a falta dela, chega até a ser engraçado mas é por esse motivo que a razão é quase, para não dizer completamente, desnecessária. Não procura entender, meu filho, até porque você não vai conseguir. Só procura lembrar sempre, que qualquer erro por amor, como eu acredito que esse tenha sido, já nasce perdoado.
    Neymar off
                                      1 semana depois...
 Durante os sete dias que passaram, vivi numa roda viva torturante. Tentava falar com o Júnior de todas as maneiras possíveis, mas ele sempre me ignorava, e da única vez que parou e me olhou, foi curto e decidido: ''Nos vemos no tribunal.'' Não precisa dizer o estado em que fiquei né? Meus pais e a Jú falaram com ele sim, mas parece que não obtiveram muito resultado, ainda ouvi dizer que o namoro dele chegou ao fim... ouvi dizer, portanto não sei até que ponto é verdade, mas se for, e dependendo do motivo do término, só consigo pensar que é mais um motivo para me odiar. Minha falta de apetite voltou, ando com os índices de irritabilidade altíssimos e desconto tudo no trabalho - onde todos já perceberam que não ando bem - não que isso seja ruim, mas chego no final do dia cansada demais. A única coisa boa foi saber que os resultados dos exames da minha pequena não deram em nada, tudo normal, graças a Deus.
 Acordei no mesmo horário de sempre para levar a Duda pra escola, e sentia meu corpo mole, como se um caminhão tivesse passado por cima. Estava me sentindo extremamente cansada e com uma pontinha de dor de cabeça. Se pudesse, ficava ali o resto do dia, mas... Desenrolei-me, e me arrepiei com a diferença acentuada de temperatura. Levantei, abri somente a cortina e o dia estava bonito, apesar do sol tímido. Deixei a cama do mesmo jeito, peguei uma roupa mais quentinha, e entrei no banheiro. Me despi, tomei um banho morno, escovei os dentes, saí, me enxuguei, passei meu hidratante, me vesti e penteei o cabelo, deixando-o solto. Calcei uma rasteirinha, peguei apenas o celular, saí do meu e entrei no quarto ao lado.
Dei um banho quentinho na Duda também, enxuguei-a direitinho, vesti-a, calcei seu tênis, penteei seu cabelo em um rabo de cavalo, deixando a franja presa, ela passou seu amado perfume, pegou a mochila e fomos para cozinha. Preparei seu cereal com leite, deixei-a comendo, tomei um copo de iogurte forçadamente e fui atrás de um comprimido. Achei, tomei, esperei ela terminar e saímos... Quando chegamos em frente a sua escola, nem saí do carro, ganhei um beijo barulhento e gostoso dos dois lados do meu rosto, e de uns tempos pra cá é uma das poucas coisas que me faz sorrir de verdade. Voltei pra casa, e me refugiei novamente no meu quarto, mais precisamente, na minha cama, debaixo das cobertas. Sim, estava sentindo um frio fora do normal, tanto que peguei no sono novamente. Acordei com alguém me chacoalhando, abri os olhos lentamente e foi o suficiente para perceber que a dor de cabeça continuava presente. 
Manu - Tá doida? Tudo fechado, ar desligado, essa blusa de frio e toda enrolada pra completar?
Clara - As pessoas costumam querer um ambiente mais quentinho quando estão com frio, Emanuelle - revirei os olhos -
Manu - Que frio o quê, tá um calor insuportável lá fora - puxou meu cobertor -
Clara - Pois é, lá fora. Eu estou com frio - puxei-o pra mim de novo -
Manu - Está doente?
Clara - Não, só quero um pouquinho de silêncio porque minha cabeça parece que vai explodir a qualquer momento
Manu - Já tomou um remédio?
Clara - Já
Manu - Tá, desculpa então. Estou lá na sala, qualquer coisa chama - assenti e ela saiu. Peguei o celular e eram 10h30. Estava muito pior do que nos dias anteriores, porque pelo menos conseguia cumprir com minhas obrigações, não tinha dor de cabeça, nem uma atração louca pela cama. Notei que meu corpo estava meio quente demais, peguei o termômetro, coloquei-o e ele marcou 37,9º. Acima de  37,8º já é considerado febre, mesmo assim, preferi não alarmar a Manu e passei o resto da manhã no meu quarto mesmo... mas a suposta febre não passou, pelo contrário, aumentou drasticamente, caí no erro de falar pra ela e pela mesma já estava em um hospital -
Clara - Não tem necessidade nenhuma de ir
Manu - Claro que tem, e essa febre do nada? A gente não sabe o motivo e quanto mais rápido descobrir melhor
Clara - Não dá, não precisa, e eu tenho que ir buscar a Duda
Manu - Isso não é problema e você sabe, eu vou buscá-la. Liga pra tia Débora
Clara - Não, pra quê? Pra dizer que estou com febre? - usei um tom irônico -
Manu - Deixa de ironias, estou falando pro seu bem. Liga pra Jú então
Clara - Não, eu não vou interromper o trabalho de ninguém por besteira
Manu - Nós ainda não sabemos se é realmente besteira e eu não quero que você vá sozinha
Clara - Manu, eu tenho 20 anos, não 10
Manu - Sinceramente? Não está parecendo - falou e eu nem respondi - Eu estou preocupada, é difícil entender isso? - respirei profundamente - Vou lá pegar a Duda e quando chegarmos, se a febre continuar, vamos sim ao médico - não disse mais nada, ela saiu do quarto novamente, me deixando apenas com o Luck e pouquíssimo tempo depois, ouvi a porta da rua sendo fechada, tal era o silêncio. Continuei deitada, até sentir uma ânsia enorme de vomitar, levantei, corri pro banheiro e coloquei não sei o quê pra fora, já que só estava com um copo de iogurte no estômago. Lavei o rosto, escovei os dentes, e tinha que admitir que a Manu estava com um pouco de razão. Qual poderia ser o motivo disso tudo? Sentei na pontinha da cama, peguei o celular e fiquei olhando para lista de contatos... será? Ela continuava me tratando bem nos últimos dias, quer dizer, bem não, continuava me tratando carinhosamente, como sempre mas... não, não. Seria muito abuso. Ok, mas quem poderia me fazer companhia? Pois é, ninguém. Tomei coragem e marquei o número dela
 - início -
Rafa - Oi, Ana Chata - riu -
Clara - E aí Rafinha, bem?
Rafa - Sim, comigo tudo bem, e contigo?
Clara - Mais ou menos
Rafa - Porque? Aconteceu alguma coisa? - perguntou de imediato - Além do que já vem acontecendo... - completou -
Clara - Está ocupada?
Rafa - Não, pode falar
Clara - Queria saber se você pode me acompanhar até uma clínica de emergência... - me interrompeu -
Rafa - Quem está lá??
Clara - Ninguém. Eu que não estou me sentindo muito bem, não quero atrapalhar meus pais, nem minha madrinha e a Manu foi pegar a Duda mas não quero que minha princesinha fique preocupada à toa
Rafa - Claro que te acompanho
Clara - Não quero te atrapalhar também
Rafa - Não atrapalha nada, vou dar um jeito aqui e já chego aí
Clara - Tá certo, obrigada
Rafa - Me agradece quando já tiver bem - riu - Até já
Clara - Até
 - término -
Deixei o celular em cima da cama, peguei uma outra roupa, entrei no banheiro, tomei um banho frio e nem assim a temperatura do meu corpo diminuiu um pouco. Começava a me assustar e não tinha nenhum remédio indicado pra mim, se bem que mesmo que tivesse, acho que não seria bom tomá-lo, levando em conta o fato de não saber o motivo de tudo. Me vesti, calcei uma sapatilha, prendi o cabelo, me perfumei, coloquei meus documentos no bolso de trás da calça, peguei meu celular e fui pra sala.
Liguei a TV, e percebi o motivo da demora da Manu no jornal local. Congestionamento por causa de um transporte público quebrado. Mandei uma mensagem pra ela, avisando que ia e com quem ia, logo depois recebi uma da Rafa. Desliguei tudo, dei um beijinho no Luck, tranquei a porta e desci. Ela ainda estava dentro de um carro.
Rafa - Vem, entra - nem discuti, não estava em condições. Dei a volta, entrei atrás também, onde ela estava e o motorista era um homem que eu não conhecia, pelo menos pessoalmente, porque a cara dele não me era estranha - Big, essa é a Clara e Chatinha, esse é o Big Black
Clara - Prazer - ele me olhou pelo retrovisor e sorriu simpático -
Rafa - Tá mal mesmo heim, que roupa é essa? Quem vê só pode pensar que você é louca ou está doente mesmo
Clara - Pois é - não estava querendo, nem conseguindo falar muito. Informei o nome da clínica, deitei a cabeça no colo dela e assim permaneci o caminho inteiro. Quando chegamos, saí primeiro, recebi uma mensagem da Manu pedindo para ligar quando soubesse o motivo dessa mudança repentina, respondi-a enquanto a Rafa falava com o Big, depois ele me deu um tchauzinho, retribuí, lógico, e nós duas finalmente entramos... Quando fui chamada, contei tudo ao Dr., inclusive sobre o vômito. Depois de me ouvir atentamente, anotar bastante, ele mediu a minha febre novamente e me mandou para um quarto. Me apavorei e a princípio não entendi, mas não demorou nada para uma enfermeira entrar com um tabuleiro cheio, do que parecia ser o meu almoço, atrasado, diga-se de passagem - Estou dividindo, não quer?
Rafa - Não, obrigada. Já almocei - riu brevemente. Tive que fazer um esforço enorme e comer pelo menos metade, para depois tomar um antitérmico adequado e o Dr. voltar a aparecer para verificar a temperatura novamente - Então doutor?
Dr. Luciano - Fiquem calmas, está tudo bem
Clara - Não tenho nada de grave, então?
Dr. Luciano - Não, nada que precise de muito alarme, apenas atenção
Clara - O que?
Dr. Luciano - Febre emocional
Rafa - Achei que isso fosse apenas mito, ou psicológico
Dr. Luciano - Alguns médicos dizem que existem outros falam que realmente é psicológico - esclareceu-a e continuou - O fato é que a febre emocional é um desses problemas que acontecem apenas na mente mas o corpo procura reagir da sua forma.
Clara - Confesso que não estou conseguindo entender
Dr. Luciano - Na maioria das vezes é causada por estresse, raiva intensa, carga horária de trabalho exaustiva ou até mesmo algum problema familiar, deixando o corpo tenso e as taxas de glóbulos alteradas, trazendo assim a febre, porque o aumento de temperatura do corpo, tem uma forte ligação com o humor. Por isso o sistema imunológico se altera, a envia para se proteger e avisar que seu corpo precisa de ajuda e cuidado
Clara - Eu estou precisando de ajuda??
Dr. Luciano - Não, calma. Por hora, a sua febre está baixando mas ela pode voltar, tudo depende dos itens que já citei. E foi ótimo não ter tomado nenhum remédio sem uma orientação, porque a febre também é um sinal de alerta que nos indica que algo de errado está acontecendo
Clara - É, eu sei...  E que horas vou poder ir embora?
Dr. Luciano - Descanse, esse é um dos melhores remédios, em breve voltarei e te libertarei - riu levemente - O susto já passou
Clara - Ok - respondi nada contente por ter que permanecer ali e ele saiu - Rafa? - olhou-me - Obrigada
Rafa - Eu te quero muito bem, independente de qualquer coisa - enfatizou e eu entendi na hora o que quis dizer - Você sabe disso
Clara - Eu sei, mas agora que só vou precisar ficar de ''molho'' - revirei os olhos e ela riu - Não precisa ficar, se não quiser
Rafa - Relaxa - seu celular começou a tocar, e ela olhou-o discretamente - Já volto - assenti. Saiu da sala, levantei um pouco só para regularizar a temperatura do ar condicionado, deitei novamente, e não sei se já era efeito do remédio mas não sentia meu corpo tão mole como antes, porém, minhas pálpebras estavam pesadas e foram fechando aos pouquinhos, por vontade própria. Despertei com o pequeno ranger que faz ao abrir a porta do quarto, por causa do soninho leve que me encontrava, mas ainda estava meio - muito - ensonada, por isso, permaneci de olhos fechados, inerte, e comecei a ouvir uma voz estranhamente familiar, mas bem distante, como se a pessoa estivesse apenas sussurrando, então não dava para entender muita coisa -
XxX - ...Precisei ouvir que estava aqui pra perceber o quão idiota estou sendo e a burrada que estava prestes a fazer... Eu sei que só estar aqui por minha culpa, eu sei que é... Desculpa - falava com alguns intervalos, com um certo... medo, talvez, não sei - ...Mas isso só veio reforçar... o quanto você é importante pra mim, mesmo depois de tudo... então... se cuida, já que não posso mais fazer isso por você - não sabia mais se estava ficando louca, ou sonhando. Seriam os efeitos colaterais do remédio? Um simples antitérmico? Pára, Ana Clara. Ok, mas o fato é que também senti um afago deliciosamente bom - e reconhecível - no meu cabelo, para logo em seguida receber um beijo na minha testa. Meu coração estava quase, mesmo quase, prestes a sair. Seu ritmo atordoado chegava me assustar. Queria abrir os olhos mas... e se não passasse de um sonho? Preferi permanecer quieta, até perceber que já estava sozinha de novo, pelo bater da porta. Abri os olhos e... Meu Deus. N-ã-o f-o-i u-m s-o-n-h-o. Não foi um sonho? É isso mesmo? Passei a mão levemente na minha testa, suspirei e um certo perfume ainda pairava no ar -
Clara - Não foi um sonho... - repetia pra mim mesma, quase não acreditando - Mas não faz sentido... faz?? Não, não faz. Quem vai acreditar se eu contar? Vou ter sido vítima, no mínimo, de um efeito colateral (inexistente), mas eu sei que foi real. Eu sei! - falava pra mim, ainda meio atarantada. Peguei o celular em uma escrivania ao meu lado, e já estava perto das 17h, ou seja, tinha perdido as contas das horas que estava trancafiada dentro daquele quarto. Febre emocional... faltava mais nada para completar essa minha maré desastrosa. É nessas horas que me pergunto sempre: Onde eu vim me meter? A porta abriu-se novamente, e em milésimos de segundos já tinha a minha boneca ao meu lado, ajudei-a a subir na cama, a coloquei sentadinha no lugar vago, bem pertinho de mim e dei um beijo no seu rosto -
Eduarda - Mãe? - olhei-a - O que você tem?
Clara - Nada amor, a mamãe já está boa - tentei sorrir -
Manu - A Rafa disse que estava dormindo
Clara - Acordei a pouquíssimo tempo
Manu - Desculpa ter vindo, mas não consegui ficar em casa
Clara - Tudo bem, mas como descobriu que era aqui que eu estava?
Manu - Liguei pra Rafa, já que a senhorita fez o favor não ligar, e seu celular estava fora de área
Clara - Desculpa, mas está tudo bem agora
Manu - Eu sei, graças a Deus
Clara - Cadê a Rafa?
Manu - Teve que ir embora, mas te deixou um beijo
Clara - E... - não queria perguntar... mentira, queria muito perguntar - Ela foi só?
Manu - Não, disse que o segurança do Neymar estava esperando por ela no estacionamento da área fechada. Eu fui chegando, e ela saindo
Clara - Segurança?
Manu - É, algum problema?
Clara - Não, claro que não
Eduarda - A gente vai ficar aqui, mãe? - ia respondê-la mas bateram na porta, dei permissão e era o Dr., repetiu tudo que eu já tinha ouvido, me entregou uma receita, caso precisasse comprar algum outro antitérmico, e o próprio para tomar no horário marcado e fui liberada. Parecia ter ficado ali durante séculos, e eu odeio essa sensação. Fomos pra casa, e assim que cheguei, fui direto pro banheiro, tomar um bom banho pra tirar o cheiro de hospital que estava entranhado em mim. Quando terminei, vesti uma roupinha qualquer porque não pretendia sair mais, e meu celular começou a tocar. Vi o nome da minha mãe e atendi.
 - começo -
Clara - Oi mãe
Débora - Clara, minha filha. Como você está? Melhor não é?
Clara - Calma, pelo amor. Estou sim, muito melhor mas como a senhora ficou sabendo que eu estava mal?
Débora - A Nadine me contou, disse que a Rafa foi contigo e tudo. Porque não me ligou?
Clara - Porque não vi necessidade
Débora - Mas eu fiquei aflita quando soube que você tinha ido parar na emergência
Clara - Desculpa, foi por isso mesmo que não liguei
Débora - Tudo bem, o que importa é que agora você está bem
Clara - É...
Débora - Mas tenho uma coisa pra te dizer, porque a Na não me ligou apenas para me falar que você estava mal, até porque ela nem sabia que eu estava por fora disso
Clara - Que foi?
Débora - O Juninho
Clara - O que tem ele? - perguntei assustada e com um receio enorme -
Débora - Quer falar contigo - paralisei por completo - Com todos nós, mais especificamente. Ele já tomou uma decisão em relação a guarda e quer nos comunicar - engoli a seco -
Clara - Ok...
Débora - Você vai estar presente, não vai?
Clara - Nem sei onde ele mora
Débora - Vai ser aqui em casa. Vamos evitar atritos, minha filha. Vem, por favor
Clara - Eu vou - suspirei - É hoje?
Débora - Sim. Mas está em condições mesmo? Eu posso falar com... - a interrompi -
Clara - Adiar mais pra quê, mãe? Não aguento mais essa angustia também, e sim estou bem, pelo menos por enquanto
Débora - Não pensa negativo
Clara - Pode acreditar que já pensei mais, agora está nas mãos de Deus
Débora - Assim é que se fala. Eles vão estar chegando aqui por volta das 19h, 19h30
Clara - Tá certo, beijo
Débora - Beijos
 - término -
Desliguei, coloquei o celular pra carregar um pouco, medi minha temperatura apenas por precaução, graças a Deus não estava mais com febre mesmo, e aproveitei a horinha que ainda tinha antes de sair para ajudar minha Dudoca com a lição de casa. Quando terminamos, ela pegou no sono, cansadinha, e eu fui atrás da Manu, encontrei-a na sala, trabalhando, apesar de estar de folga, depois de umas decorações maravilhosas em um escritório de advocacia.
Clara - Vai sair?
Manu - Não, porquê?
Clara - Parece que o Júnior se decidiu em relação a guarda e quer nos informar qual é pessoalmente, então vou ter que ir lá na casa dos meus pais mas a Duda pegou no sono
Manu - Vai na fé, porque eu não vou sair e o que tinha programado era no andar de cima, logo, pode descer - piscou. Voltei pro meu quarto, peguei uma roupa mais apropriada, me troquei, fiz um rabo de cavalo apertado no cabelo, calcei uma rasteirinha, peguei o celular e saí -
Clara - Não devo demorar - dei um beijo no seu rosto - Torce para que ele tenha tomado a melhor decisão pra todo mundo
Manu - Vou estar na torcida - sorriu. Tentei retribui mas estava tão tensa que nem isso consegui, peguei meu chaveiro e desci. Não queria dirigir mas como também não queria ficar esperando por um táxi, não tive outra opção... Cheguei em frente ao prédio, estacionei, saí do carro, ativei o alarme, entrei, cumprimentei o porteiro e como minha entrada já é liberada, subi. Respirei fundo antes de tocar a campainha e quem atendeu foi meu pai -
Murilo - Ê pequena, que susto heim. Tá boa mesmo? - me deu um abraço apertado -
Clara - Estou. Foi só isso mesmo, um sustinho - me deu passagem para entrar mas permaneci no hall de entrada -
Murilo - Mas não faz mais isso não. Liga sempre, sim. Você é prioridade, e sabe disso
Clara - Não vou mais fazer - sorriu -
Murilo - Que ótimo, agora vem - entramos na sala, e lógico, passei a ser o centro das atenções -
Clara - Boa noite - cumprimentei a minha mãe, que fez questão de repetir quase as mesmas palavras do meu pai, o tio Neymar, a tia Na e... bom, com ele troquei apenas um olhar, no mínimo, estranho. Aliás, a situação já era estranha. Não dá pra ser explicado, claro que foi intenso, mas o ocorrido na clínica não saía da minha cabeça - nem nunca vai sair - e me fazia querer ler o que tinha por trás do seu olhar que naquele momento estava, indecifrável. Mas procurei parecer normal, porque para todos os efeitos, eu estava dormindo quando recebi uma certa visita inesperada -
Tia Na - Porque a bonequinha não veio? - sorriu -
Clara - Pensei até em trazê-la mas ela pegou no sono, e a Rafa?
Tia Na - E aquela ali, pára? - riu -
Murilo - Bom, está tudo muito legal, mas... só eu estou curioso? - riu ligeiramente, e eu sentei em um dos lugares vagos -
Tio Neymar - Fala Juninho - ele respirou fundo, olhou para todos e parou em mim. Já não conseguia parar de mexer os pés de tanto nervosismo -
Neymar - Não vou mais entrar na justiça pela guarda da Duda
Clara - Não... não vai? - perguntei de forma automática, achando que tinha ouvido mal -
Neymar -  Não, não vou - respondeu calmamente e eu não estava conseguindo acreditar. Queria chorar... queria chorar tanto, de alegria - Mas como é lógico, quero poder conviver com a minha filha, e reconhecê-la oficialmente. Ninguém fez isso no meu lugar, certo?
Clara - Claro que não. E eu vou falar com ela, não sei como mas vou... e suponho que vá gostar de saber que vai te conhecer - deixou escapar um sorriso muito discreto -
Neymar - Outro ponto importante, pelo menos eu acho, é a nossa relação - nossa relação? Existe uma relação entre nós agora? Eu estava ouvindo bem? - Nós não somos mais crianças, nem cão e gato para brigar e discutir sempre que nos encontramos. Temos um vínculo eterno, e tem que haver ao menos um pouco de respeito entre nós, pela nossa filha, que seja - não posso dizer que não estava surpresa, porque estava. Não posso dizer que esperava tudo isso, porque não esperava, e não posso dizer que não tive vontade de sorrir quando ouvir ''nossa filha'', porque tive -
Clara - Concordo com você. Nós precisamos e temos totais condições de ter uma relação, no mínimo, agradável, até porque não existe mais motivos para brigas e discussões... existe?
Neymar - Não. Não existe mais motivos para brigas e discussões - confirmou com uma intensidade enorme, não só na forma como falou, como também na forma como me olhou. Parecia que não existia mais ninguém naquela sala, e pra falar a verdade, acho que nossos pais eram meros telespectadores mesmo, até nossa conversa ser dada como terminada -
Tia Na - Que felicidade! - olhamos pra ela em simultâneo - Vocês não fazem ideia do quanto eu estou feliz com isso - sorriu - Pra ficar ainda melhor, só falta...
Neymar - Mãe! - interrompeu-a -
Tia Na - Que foi? Ia dizer que só falta ser chamada de vovó - eles riram, mas o clima entre nós continuava o mesmo. O que será que ele achou que faltava pra tia? Para ter a interrompido, é porque não queria que ela falasse... Ok, isso não te interessa, Ana Clara. Minha mãe ainda tentou me fazer ficar para o jantar mas não conseguiu. Queria o quanto antes, o meu cantinho, e ficar sozinha pra ter certeza de que tudo que ouvi não foi mentira. Me despedi de todos sem nenhum tipo de contato para não passar por constrangimentos desnecessários -
Neymar - Clara? - chamou-me quando eu já esperava pelo elevador -
Clara - Estamos evoluindo... - me olhou sem entender nada - Já me chama apenas de Clara
Neymar - Não percebi - ficou... envergonhado? -
Clara - Não tem problema... mas fala
Neymar - Nunca pensei que fosse dizer isso mas é que realmente a vida é curta demais para perder tempo alimentando mágoas, amarguras e ressentimentos. Não esqueci, provavelmente nunca esqueça, mas quero passar por cima disso e recuperar tudo que perdi, por ela... pela nossa filha
Clara - Sem ressentimentos e mágoas, então?
Neymar - É difícil, mas é assim que eu quero que seja. Amigos? - estendeu a mão -
Clara - Você está falando sério? Não é nenhum tipo de brincadeira para... - me interrompeu -
Neymar - Se eu fizer algo contra você, vou estar afetando a Duda também e tudo que menos quero é me distanciar dela antes mesmo de começar a me aproximar
Clara - Ok, desculpa. Amigos então - não pude evitar sentir uma carga elétrica dentro de mim quando nossas mãos se encontraram e creio que ele percebeu, por isso mesmo não prolonguei muito o aperto - Bom, tenho que ir, mas acho que ainda não lhe agradeci pela decisão que tomou
Neymar - Não foi por mim
Clara - Não importa, obrigada do mesmo jeito
Neymar - Por nada, então - trocamos mais um curto olhar, voltei a chamar o elevador e ele deu as costas. Sem um ''tchau'', ''até logo'' ou um aceno que fosse. Tudo ainda parecia muito novo... era como se não nos conhecêssemos, apesar de sabermos que isso não é verdade, independente do tempo que passou. O elevador chegou, entrei, não o vi mais no corredor e desci. Voltei pra casa com tudo que me disse, martelando na minha cabeça. ''Amigos.'' Tudo já fazia sentindo... as palavras que consegui ouvir na clínica, e a atitude que tomou em não querer mais brigas. Mas porque não dizia tudo aquilo ''diretamente'' pra mim? Tá certo que eu ouvi sim, mas esse detalhe ele desconhece. Será assim tão difícil? Cheguei em casa, resumi brevemente tudo que tinha acontecido pra Manu, comi uma coisinha leve, esperei dar o horário do remédio, tomei-o e fui dormir com muitas perguntas sem respostas na minha cabeça.



Read: http://neymarvidalaviva.blogspot.com.br/
Lindonas, i love youuuu  
Thabata Fidelis, meu amorrr hahaha, eu te respondi
da última vez mas foi abaixo do seu próprio 
comentário, então tu não deve ter visto, mas ok. 
Teu instagram é trancado mesmo?
Beijo, beijo :*