segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Capítulo 53 - “Fingir ser uma pessoa forte dói, machuca... cansa”


Se eu disser que dormi bem estarei mentindo desladamente. Assim que abri os olhos pude sentir que eles muito provavelmente estavam bem inchados, já esperava por isso. Levantei apenas a cabeça e percebi que eu e o Júnior não tínhamos mudado de posição desde que comecei a chorar na noite passada; estava encostada no seu peito e acho que adormeci primeiro. Arregalei os olhos quando vi as horas no relógio da parede, 08h50. Como ele conseguiu dormir por tanto tempo meio sentado? Por que não me colocou do jeito certo quando eu já estava dormindo? Se você não tivesse feito dele um travesseiro isso não teria acontecido, me autocritiquei em voz alta. Levantei devagar mas ele se mexeu e pareceu me procurar nos seus braços, como eu não estava mais, abriu os olhos.
Neymar - Que foi? - perguntou visivelmente sonolento -
Clara - Você não pode continuar assim, vai ficar cheio de dores. Deita direito, por favor - acho que ele demorou um pouco pra entender o que eu tinha dito por causa do sono, depois deitou normalmente e abriu os braços pra mim. Me encolhi ali dentro e fiquei sentindo ele alisar meu cabelo... até que parou, e sabia que já estava dormindo de novo. Levantei, dessa vez com muito mais cuidado, e coloquei um travesseiro no meu lugar. Ridículo, eu sei. Claro que ele ia perceber, mas estava me sentindo culpada por ter feito ele dormir de mal jeito... só esperava que não acordasse com dores. Eu não me perdoaria. Mas claro que só saberia se ele me dissesse, o que eu duvidava muito - Desculpa, meu amor - beijei seu rosto, ele se mexeu um pouco e seus braços pousaram no meu travesseiro. Sorri. Entrei no banheiro, me olhei no espelho e confirmei o estado lastimável dos meus olhos. Escovei os dentes, e lavei o rosto mas não adiantou muita coisa. Não me importei. Ninguém precisaria me encarar ainda. Saí do quarto na pontinha dos pés, e ao chegar na sala percebi que estava totalmente enganada, afinal, teria sim quem me encarasse. A Manu estava deitada desajeitadamente no sofá, ainda de pijama e com uma tigela cheia de cereais na mão, assistindo Bob Esponja. Poderia até dizer que estava surpresa, mas não era tão cedo assim e depois que começou a trabalhar os horários dela mudaram bastante. Poderia também voltar pro quarto - ela ainda não tinha me visto - mas não quis - Bom dia - ela desviou os olhos da TV, me viu e sorriu. Depois franziu a testa e balançou a cabeça, com certeza por causa dos meus olhos -
Manu - Bom dia - sorriu de novo - Achei que ia dormir lá com o Júnior
Clara - É, eu acho que ia mesmo - minha memória de repente reavivou algo: eu realmente ia dormir na casa dele, pelo menos era o que tínhamos planejado - Nem lembrei...
Manu - Não lembrou? - fez uma expressão obvia de confusão - Vocês brigaram?
Clara - O que? Não! - ela tinha que me fazer rir - Ele está dormindo no meu quarto
Manu - Hum, então foi apenas uma mudança de planos? - sabia muito bem no que ela estava pensando: besteira, claro -
Clara - É, uma mudança radical de planos - ela me avaliou um pouco -
Manu - Por que será que não estou gostando do tom da sua voz e dessa sua carinha? - suspirei -
Clara - Chega um pouco pra lá - ela endireitou-se imediatamente, acho que foi por causa da minha voz que ficou mais séria. Sentei ao seu lado - Meu avô está no hospital, Manu
Manu - De novo? O que aconteceu?
Clara - Surgiram umas manchinhas escuras na pele dele, e lá no hospital descobrimos que os remédios não são mais suficientes para tratar e eliminar a aplasia
Manu - Como assim? Por que não? - encolhi os ombros, também queria muito as respostas para essas perguntas - Como é que ele fica agora? - perguntou receosa -
Clara - Agora ele tem que ficar lá por uns dias e esperar... por um doador
Manu - Ah, não...
Clara - Sim! A melhor saída é um transplante de medula
Manu - Sério? - nem esperou que eu respondesse - Desculpa. É que não dá pra acreditar
Clara - Eu sei. A minha ficha também não queria cair... mas quando cheguei em casa e encontrei a minha cama, ela desabou em cima de mim e eu tive que aguentar
Manu - Por isso esses olhinhos meio inchados. Vem cá - me puxou para um abraço caloroso, achei que ia começar a chorar, mas surpreendendo a mim mesma, isso não aconteceu - Ainda não achou ninguém compatível?
Clara - Não sabemos. Fizemos o exame ontem, vamos pegar o resultado hoje
Manu - Quem fez?
Clara - Meus pais, eu e o Júnior
Manu - Ele também fez? - faltou pouco pro seu queixo cair, sorri levemente -
Clara - Sim
Manu - A vó Glória não?
Clara - Não, o doador precisa ter entre 18 e 54 ou 55 anos
Manu - Ah - ficou pensativa por um tempo - Quero fazer também. Mas espero sinceramente que nem precise. Um de vocês vai ser compatível
Clara - Tomara - respondi relembrando quando o médico disse o quão difícil é encontrar um doador na família -
Manu - Suspeitei que você não estava normal porque quando respondeu a mensagem e não comentou a selfie
Clara - Posso comentar agora, pessoalmente - riu - Estava linda, mas isso não é novidade nenhuma
Manu - Ah, meu Deus! Como é maravilhosa! - beijou meu rosto - Tenho até medo de perder
Clara - Crise de carência só eu posso ter por dividir o meu namorado com tanta gente - rimos um pouco -
Manu - Até parece que precisa. Ele pode ser o amor de muita gente, mas só você é o amor dele - sorri - Além do mais, lembra que eu te disse uma vez que na vida tudo tem seu lado bom e ruim? Então.. - sorriu e eu já tinha uma resposta pronta pra dá pra ela. Claro que não lembro, Manu. Mas... lembrei. Como é que podia não me lembrar se ela disse isso um dia depois de um certo beijo no vestiário do CT? Não conseguia esquecer nada que estava ligado de alguma forma com aquele dia. Acho que se eu fechasse os olhos ali, ainda conseguiria ouvi-lo dizer que não me odiava, que se preocupava comigo e... sentia minha falta. Não era mais tão doloroso lembrar... claro que não. Agora eu o tinha comigo. Até quis sorrir, mas a Manu não ia deixar passar -
Clara - Então aquela casa da selfie é o novo lar da Família Barros? - a técnica de mudar de assunto quase nunca falha -
Manu - Sim. Eles compraram já mobiliada, mesmo assim vão me deixar mexer em algumas coisas - minha técnica não falhou e a Manu me distraiu por um tempo. Quando ela foi tomar banho, eu voltei pro quarto, estava querendo fazer algo desde que descobri sobre a doença do meu avô mas ainda não tinha tido tempo... ou coragem. Liguei o macbook, sentei na minha cadeira, e comecei a pesquisar tudo que podia sobre Aplasia Medular. Cada site dizia uma coisa mas no final tudo se resumia nas coisas que ouvi do meu pai e do médico no dia anterior. Pesquisei também sobre os tais medicamentos imunossupressores, sobre transfusões sanguíneas e sobre transplante de medula óssea. Não dava mais pra ficar fingindo ou fugindo da realidade, ela estava exposta na nossa frente. A gente só tinha que aceitar, lutar contra ela e vencer. Li muitos depoimentos emocionantes de pacientes e doadores. Tive forças suficientes para criar esperanças. Sabia que tudo aquilo estava mexendo demais comigo, mas depois de ler tanta coisa, estava mais envolvida do que nunca. Quando me dei conta o relógio já marcava 09h30 e minha barriga roncou. O Júnior ainda estava dormindo exatamente do mesmo jeito que eu o deixei, então tive uma ideia e ele não acordaria antes que eu terminasse porque devia estar cansado. Era o mínimo que podia fazer por ele. Salvei alguns sites, desliguei o macbook, peguei meu bloco de notas e escrevi umas coisinhas. Deixei-o escondidinho debaixo da minha agenda, peguei uma roupa e entrei no banheiro. Tomei apenas um banho rápido, me enxuguei e me vesti no banheiro mesmo, fiz um rabo de cavalo no cabelo, usei um pouco de corretivo pra tentar esconder as olheiras e saí do quarto. Fui ver a Duda mas ela também ainda dormia agarradinha com a sua Minnie. Entrei na cozinha e a Manu estava começando a preparar o café. Abri os armários e a geladeira pra saber se tinha tudo que eu queria, mas faltava algumas coisas -
Clara - Vamos no mercado comigo? Pode ser o da esquina mesmo, quero comprar coisa pouca
Manu - Vamos - respondeu mesmo sem entender nada -
Clara - E quando voltarmos vai me ajudar, certo?
Manu - Ajudar em que?
Clara - Preparar o café da manhã, só isso - sorri e ela cerrou os olhos - Preciso distrair a mente até a hora de ir pro hospital de novo - depois de ouvir isso, ela largou a xícara que estava na mão, e me puxou pra fora da cozinha - Calma, não é só por isso também - ela parou -
Manu - O que tu está aprontando?
Clara - Nada. Só quero realmente preparar o café da manhã, mas aqui não tem tudo
Manu - Só isso?
Clara - Só isso
Manu - E o Júnior continua dormindo no seu quarto?
Clara - Sim - não sei porque mas as minhas bochechas arderam um pouquinho -
Manu - Já falei que você é uma romântica totalmente incurável? Sério, não tem mais jeito pra você
Clara - Sim, já e você nem foi a primeira pessoa a me dizer isso. Agora, vamos - peguei a chave da porta na mesinha de centro e dei um beijinho no Luck -
Manu - Isso só prova que tenho razão - pegou o celular em cima do sofá e saiu comigo. Descemos, falamos com o porteiro e caminhamos até o mercado conversando, quer dizer, a Manu ia falando sobre a minha romanticidade e eu apenas escutava tudo pela milésima vez. O mercado não estava muito cheio por causa do horário, ainda bem, porque comprei tudo que queria e voltamos pra casa rapidinho. Ninguém havia acordado ainda. Ótimo. A Manu me ajudou com algumas coisinhas, mas não era nada demais, o que mais tomou o meu tempo foi o cappuccino, porque apesar de saber fazer a um bom tempo, nunca tinha tentado -
Clara - Acho que o Júnior não ia gostar de saber que vai ser a minha cobaia... pensando bem, ele nem precisa saber - ela gargalhou. Depois de tudo pronto, peguei uma bandeja grande com pés, e arrumei-a com o iogurte, pão torrado, queijo, presunto, pãozinho de batata, o bolo que compramos pronto, suco de frutas, café preto, e o meu lindo cappuccino, tentei fazer um coração na espuminha. A Manu provou o pouco que sobrou na leiteira e disse que estava ótimo. Sorri, peguei os guardanapos de tecido e saí da cozinha antes que ela começasse com a zoação, porém, não adiantou. Mas estaria mentindo se dissesse que não gosto. Ela me acompanhou até o corredor, abriu a porta pra mim, depois voltou pra cozinha rindo. Entrei no quarto, a cama estava vazia e o Júnior estava saindo do banheiro, já de banho tomado - Não acredito! Volta pra cama agora! - sua primeira reação foi gargalhar, depois passou a olhar pra mim e para bandeja com a surpresa estampada no rosto - Com que direito você acorda antes da hora? - fiz bico e sabia que ele queria rir mas não o fez -
Neymar - Isso... isso tudo é pra mim? - encolhi os ombros e sorri, mordendo os lábios. Corei, com certeza - Por quê? - se aproximou de mim com um sorriso largo -
Clara - Preciso de um motivo pra mimar o meu namorado? - não achei que fosse possível mas o seu sorriso ficou ainda maior. Ele tirou a bandeja das minhas mãos - estava um pouco pesada, mas isso não me incomodou muito  - e depois de dá um boa olhada nela, voltou a olhar pra mim. Seu sorriso estava me desconcentrando totalmente, estava quase me desfazendo ali mesmo quando senti suas mãos na minha cintura e no segundo seguinte já estávamos tão próximos que eu já podia sentir a sua respiração -
Neymar - Não, não precisa - sorri. Coloquei minhas mãos na sua nuca trazendo seu rosto para mais perto do meu e beijei-o em diversos pontos, de suas pálpebras, como ele tinha feito comigo quando me encontrou na praia no dia que descobri a doença do meu avô, até o seu queixo, desviando dos seus lábios -
Clara - Amo você - sorriu novamente, mas a sua boca já estava colada à minha quando retribuí. Meu corpo ainda se arrepiava como se fosse o primeiro beijo. Uma de suas mãos subiu para minha nuca também, a que permaneceu na minha cintura me apertou ainda mais, me mantendo presa à ele... como se eu quisesse me soltar. O que mais queria era estar ali, nos seus braços. Nossos lábios e línguas estavam em uma sintonia apurada, perfeita, tanto que nossas bocas mal se separavam quando implorávamos por oxigênio e voltávamos a nos beijar no segundo seguinte, como se dependêssemos daquilo para viver. Não sei por quanto tempo permanecemos assim, sem nenhuma segunda intenção, por incrível que pareça, mas lembrei do café da manhã e a muito custo consegui me afastar. Ele me puxou pra perto novamente, e colou nossas testas -
Neymar - Obrigado - murmurou -
Clara - Pelo café? Você nem provou nada ainda, aliás... já deve está tudo gelado - fiz bico novamente e ele o beijou -
Neymar - Por tudo - respondeu ainda muito próximo da minha boca -
Clara - Isso aqui não é nada perto do que você realmente merece... perto de tudo que vem fazendo por mim
Neymar - Então vamos deixar os agradecimentos de lado porque nenhum de nós faz nada por obrigação, certo? - sorri -
Clara - Certíssimo. Mas... meu café da manhã também precisa de atenção, é sério - gargalhou, e beijou a pontinha do meu nariz pra depois me soltar. Sentamos com a bandeja entre nós e a primeira coisa que lhe chamou à atenção foi o cappuccino -
Neymar - Você que fez?
Clara - Sim. Não se compara aos de Paris, mas... - rimos - Experimenta - ele fez o que pedi, depois ficou olhando pra mim com um olhar enigmático, doido para que eu perguntasse o que tinha achado mas como não fiz isso, ele riu -
Neymar - Maravilhoso!
Clara - Que bom! Esse é aquele momento que te digo que esse foi o meu primeiro cappuccino? - ele semicerrou os olhos, só o suficiente para fingir uma irritação -
Neymar - Então eu fui uma cobaia? - sorri, gosto de saber que ele pode ser um pouco previsível às vezes - Sorte sua está muito bom
Clara - Nem posso imaginar o que você faria caso tivesse ruim - ironizei -
Neymar - Não imagina mesmo? - ergueu uma das sobrancelhas, corei e ele riu com vontade -
Clara - Tento ser uma namorada legal e sou ameaçada? É isso mesmo? - ele parou de rir, se inclinou por cima da bandeja, segurou o meu rosto com uma das mãos, e me beijou, mesmo contra a minha vontade (ok, talvez eu quisesse, só não precisava deixar isso claro) -
Neymar - Você está muito acima de uma namorada legal - olhou diretamente pra mim e me perdi nos seus olhos por alguns segundos -
Clara - Você me desconcentra demais
Neymar - Você já me disse isso
Clara - Já? - assentiu - Então com certeza foi com o intuito de tentar fazer você parar, mas parece que não consegui. Tudo bem, estou tentando de novo - falei o mais sério que consegui e ele riu de mim, claro... então esqueci até do que estava falando. Poderia guardar seu riso apenas para mim, só pra poder ouvir naqueles dias ruins - Ah! Esqueci! - levantei da cama rapidamente -
Neymar - O que? - ele ainda estava rindo, só não sabia mais se o motivo era o mesmo ou se agora era porque quase derrubei a bandeja -
Clara - Quando falo que você me desconcentra, é sério - fui até a mesinha e peguei o papelzinho que estava escondido debaixo da agenda - Isso aqui era para estar dentro da bandeja - mostrei pra ele - Pra você ler antes de começar a comer
Neymar - Ainda dá tempo
Clara - Se não tivesse acordado antes da hora eu teria feito tudo do jeito certinho - ele ia falar mas já podia adivinhar o que era - Sim, eu sei. Claro que com a gente nada pode ser do jeito certinho - riu - Toma - estiquei a mão para lhe entregar o papel e ele o ignorou, segurando a minha mão e me fazendo sentar no seu colo. Pegou-o e o abriu. Eu ainda estava meio tonta com o fato de ter ido parar no seu colo de uma maneira tão rápida, então nem percebi que ele já estava lendo.
 “Que a nossa próxima semana comece cheia de boas energias, pensamentos e vibrações. Que a gente tenha paz ao final de cada dia, tranquilidade para raciocinar nos momentos mais turbulentos e serenidade para tomar decisões. Que saibamos enxergar o lado mais leve e positivo das coisas. E que tenhamos a força necessária para dar um passo de cada vez. Amém!”
Neymar - Amém! - sussurrou ao meu ouvido com uma intensidade que me arrepiou e beijou minha bochecha. Tudo que tinha escrito era o que mais queria. Estava com as emoções à flor da pele, se começasse a rir ou chorar ali, não conseguiria parar e sabia o motivo... A distração uma hora ia acabar. E a única coisa que estava me mantendo de pé, e que me fez acordar mais tranquila era a esperança de resultados positivos nos exames que fizemos. Não gostava nem de pensar no contrário -
Clara - Estou me sentindo culpada até agora por ter feito você dormir sentado - voltei pro meu lugar e começamos a comer, ele guardou o papelzinho no bolso -
Neymar - A culpa não foi sua. Depois que você adormeceu fiquei com receio de te acordar caso te colocasse completamente deitada, então terminei pegando no sono também
Clara - Mas eu fiquei muito mais confortável que você
Neymar - É bom ouvir isso - sorriu -
Clara - Não é não. Você está com dor?
Neymar - Não
Clara - Me diria se tivesse?
Neymar - Amor, não precisa se preocupar com besteira
Clara - Você não me respondeu
Neymar - Diria - revirou os olhos e eu sorri. Posso ser bem chata quando quero. Quando terminamos de tomar café, levamos a bandeja pra cozinha, lavei a louça, ele enxugou e guardou. A Manu disse que queria passar o dia com a Dudoca e eu a agradeci por isso. Hoje, definitivamente, não seria o dia certo para levá-la pra visitar meu avô. O Júnior prometeu e pretendíamos cumprir sim, em um dia mais... tranquilo. Ela acordou às 11h, mas permaneceu de pijama e enquanto eu e a Manu preparávamos algo para comer, ela e o Júnior ficaram brincando na varanda, fazendo bolinhas de sabão que o Luck tentava pegar. Como todos nós tínhamos tomado café um pouco mais tarde que o normal, nosso almoço também foi tardio. Depois dei banho na Dudoca, lavei seu cabelo e vesti uma roupa bem fresquinha nela: um short de tecido leve e uma regatinha amarela. Penteei seu cabelo, colocando apenas uma tiara de lacinho pra franja não incomodá-la já que ainda estava molhado e o deixei solto atrás. Ela calçou uma rasteirinha, se despediu de mim e do Júnior e foi pra pracinha andar de bicicleta com a Manu e o Luck. Ficamos só eu e ele. O dia não estava ensolarado mas também não ameaçava chover, estava bem ameno e um vento bom vinha da varada, o que nos atraiu pra lá. Deitamos no sofá de palha super confortável escolhido a dedo pela Manu para ser colocado exatamente ali, e me deixei ficar quietinha, apenas ouvindo o coração dele. Ainda não entendia porque aquilo me acalmava tanto. Eu sabia que uma hora a distração ia acabar... e acabou. Meus pensamentos já giravam apenas em torno do hospital. Faltava pouco para saber os resultados daqueles exames. Faltava pouco pra ver meu avô... queria tanto que ele estivesse acordado. Queria poder olhar nos seus olhos e dizer que tudo vai ficar bem. Queria consegui passar pra ele a força e a esperança que o Júnior passa pra mim... nem sei como estaria enfrentando tudo isso sem ele ao meu lado e isso só reforça o quanto sou... dependente dele. Deveria me assustar ao chegar em uma conclusão como essa... deveria. Mas não consigo ter medo de nada quando ele está comigo.
 neymarjr: Eu sempre vou estar ali, bem ali do seu lado, pra qualquer hora, momento, ou lugar. Nos melhores momentos para darmos risadas juntos e nos piores momentos para que choremos um no ombro do outro!!  
Minha mãe me mandou uma mensagem avisando que sairia de casa em uma hora pra ir para o hospital. E essa simples mensagem despertou em mim a tensão, o nervosismo, a inquietação, a apreensão e a ansiedade, tudo de uma vez só. Gostaria muito de saber esconder, e talvez até saiba, mas não dele
Neymar - Que foi? - hesitei mas entreguei meu celular pra ele e exalei um suspiro alto e frustrante
Clara - Tenho medo de... - não me deixou terminar
Neymar - Eu sei. Amor, olha pra mim - segurou o meu rosto e me fez olhar nos seus olhos, minhas joias raras - Eu ouvi o que o médico disse, só que existe uma chance. É pequena? É, mas a gente tem que acreditar nela com todas as forças - eu poderia dizer que pra quem está de fora tudo se torna mais fácil - porque realmente é - mas o fato é que ele também estava bastante envolvido nisso, então acreditava nas suas palavras e acreditava ainda mais na pequena chance que podia estar nos esperando. Tomamos banho juntos e mesmo assim eu saí do banheiro primeiro, já estava me vestindo quando ele também saiu apenas com uma toalha envolvendo a cintura e entendi o motivo da demora: ele havia tirado a barba de três dias
Clara - Você fica muito neném sem barba 
Neymar - É? - passou as mãos no rosto - Isso foi um elogio? - franziu a testa
Clara - Pode não ter parecido mas foi. Eu poderia dizer que gosto, mas acontece que eu amo todas as suas faces, então fica difícil 
Neymar - Linda! - sorriu e me deu um beijo. Terminamos de nos arrumar e saímos de casa no horário certinho, meus pais também deviam estar saindo naquele momento. Fomos no meu carro mas fui poupada de dirigir. O trânsito estava livre, e acho que chegamos juntos por esse motivo. Minha mãe estava com uma carinha bem melhor do que no dia anterior e enquanto subíamos contou que a minha avó também estava se sentindo bastante esperançosa. Quando chegamos a recepção da unidade de hematologia - estava mais vazia que o normal -, meu pai procurou por uma enfermeira e pediu para falar com o Dr. Marcelo. Minhas mãos começaram a suar enquanto esperávamos e ele apareceu cinco minutos depois - quase uma eternidade - com a minha avó e uns envelopes nas mãos
Dr. Marcelo - Boa tarde - nos cumprimentou com um aceno e nós respondemos da mesma forma - Estava agora mesmo analisando os resultados dos exames de vocês - entregou a cada um de nós um envelope com nosso nome - Vocês preferem privacidade para abri-los ou...?
Débora - Eu acho que todo mundo aqui prefere ouvir logo o resultado final, Dr. - o envelope tremia um pouco nas mãos dela, o nervosismo era visível. O médico olhou para nós e como não dissemos nada, limpou a garganta. Fechei os olhos e apertei demais as mãos do Júnior
Dr. Marcelo - Bom... eu sinto muito! Nenhum de vocês é compatível com o paciente - meu mundo ruiu em pedacinhos tão pequenos que provavelmente não seria mais possível catá-los para remontar. Estava completamente sem chão. Ninguém pronunciou uma palavrinha. O que havia pra falar? Nada - Eu realmente sinto muito. Mas se ninguém conhecido for compatível, só nos resta esperar
Clara - Esperar? Por quanto tempo? - consegui reunir míseras forças para falar
Dr. Marcelo - Há hemocentros em várias partes do país. Ele vai entrar na fila de espera, e quando aparecer um doador cadastrado compatível no REDOME, que é o Registro Nacional de Doares de Medula Óssea, essa pessoa será chamada, decidirá se realmente quer doar, e se a compatibilidade for confirmada, nós ficaremos sabendo. Não se preocupem, vou deixá-los informados sempre 
Clara - E até surgir alguém? 
Dr. Marcelo - É melhor que ele fique aqui, apenas por precaução. Aqui temos mais controle de tudo. Mas não precisa se desesperar por isso, dependendo de como ele vai continuar reagindo aos imunossupressores, poderá voltar pra casa em breve
Clara - Ele vai ficar bem, não vai? - queria começar a chorar mas também queria saber de tudo que pudesse ser importante e ninguém ali parecia em condições de falar
Dr. Marcelo - Vamos fazer de tudo pra isso, pode ter certeza. Por enquanto continuamos com os medicamentos 
Clara - A gente não pode fazer nada? 
Dr. Marcelo - Acho que podem sim - deu um sorrisinho educado - Com essa modernidade toda que temos a disposição agora, sugiro que vocês façam companhas nas redes sociais, mobilizem as pessoas, incentivem a doação. Vocês podem ajudar muitas outras pessoas também - assenti mas não quis perguntar mais nada, já tinha muito para assimilar - Estou a disposição de vocês, precisando é só chamar - assenti novamente e ele se retirou. Olhei pro Júnior e ele nem me deixou falar nada, apenas me abraçou apertado. Algumas lágrimas rolaram sem que eu pudesse controlar mas passei as mãos no rosto rapidamente
Neymar - Lembra da pequena chance? Ela ainda existe, talvez esteja até um pouco maior - sussurrou e eu apenas intensifiquei a força do abraço. Quando nos separamos, olhei pra trás e vi minha mãe e minha avó sentadas. Fui até elas e agachei para ficarmos mais ou menos na mesma altura. Limpei as lágrimas de ambas, e segurei as mãos delas
Clara - No Réveillon, quando me abraçou, ele me pediu para não esquecer nunca que o sol pode desaparecer por alguns instantes, mas nunca se esquece de brilhar - sorri, e respirei fundo, mesmo assim duas lágrimas ousadas rolaram pelo meu rosto. Minha avó limpou-as - Estamos no meio de uma tempestade horrível, mas o sol vai voltar a brilhar. Eu sei que vai, e preciso que vocês também acreditem nisso 
Glória - Eu acredito! - beijou a minha mão e deu um leve sorriso. Já era alguma coisa, tinha que mantê-las com as cabeças erguidas, dispostas a enfrentar tudo. Olhei pra minha mãe
Débora - Eu acredito! - não falou por falar, havia convicção em sua voz
Murilo - Eu acredito! - colocou suas mãos por cima das nossas
Neymar - Eu também acredito! - agachou ao meu lado e juntou suas mãos com as nossas também
Clara - Temos que fazer meu avô acreditar também. Eu não sou um pouquinho pessimista à toa, herdei isso dele, mas não podemos deixar isso falar mais alto agora. Tenho certeza que tudo vai acabar bem - nos abraçamos (sim, todos ao mesmo tempo), não tinha ninguém olhando e se tivesse... isso não faria muita diferença. Precisávamos estar mais unidos do que nunca. Eu precisava deixá-los firmes e fortes porque a minha fachada ia desmoronar mais cedo ou mais tarde. A mesma enfermeira, Cristina, nos avisou que meu avô estava acordado e todo podíamos ir vê-lo mas pedi para que eles entrassem primeiro enquanto ia ao banheiro. Não que eu quisesse, - nem cheguei a entrar nele - só precisava de uns minutinhos para respirar fundo. A fachada já estava desmoronando. Mais cedo do que eu queria, só esperou que eu ficasse sozinha mesmo. Saí da área dos banheiros, voltei para recepção e o Júnior estava ali, à minha espera. Achei que ele tinha entrado no quarto também... mas claro que não acreditou que eu ia ao banheiro. Era quase obvio demais pra quem me conhece tão bem. Obvio demais pra ele
Neymar - Vem cá - me chamou baixinho e nem hesitei. Sentei ao seu lado, ele me abraçou e as lágrimas logo vieram à tona. Queria conseguir ser mais forte, ou pelo menos aguentar até o final do dia. Queria... mas como ser forte quando a tempestade parece não ter fim e fica cada vez mais forte? Não consigo. Toda vez que acho que ela vai dar uma trégua, volta como um furacão. Os testes que fizemos era a minha grande esperança para que tudo isso acabasse o mais rápido possível mas tudo foi por água abaixo depois de ouvir “Nenhum de vocês é compatível com o paciente.” Claro que acreditava que íamos encontrar um doador e que isso não ia demorar mas era inevitável... meu peito doía só de lembrar que a chance de encontrar uma medula compatível no registro brasileiro é em média de 1 em 100.000. Todos os depoimentos que li pela manhã tinham finais felizes, apesar de muita luta e superação, por isso me emocionei tanto. Só queria que meu avô também escrevesse o seu final feliz. Não estava pedindo tanto assim... Quando levantei o rosto, me assustei ao ver lágrimas no rosto do Júnior também. Estava me sentindo tão vulnerável que isso me tocou de uma forma inexplicável
Clara - Não chora, amor - pedi, tentando parar também
Neymar - Não suporto te ver assim 
Clara - Vai passar, é só que... - olhei pro teto e apertei os olhos. Não podia fazê-lo chorar também. Não sei se meu coração aguentaria tanta coisa ao mesmo tempo - Fingir ser uma pessoa forte dói, machuca... cansa - passei as mãos no seu rosto, enxugando-o e ele fez o mesmo comigo
Neymar - Você foi maravilhosa com eles
Clara - Queria ser daquele jeito sempre
Neymar - Ei - olhei-o - Nunca ouviu dizer que até os fortes têm seus pontos fracos? - assenti - Você é forte e eu não quero que pense o contrário, ok?
Clara - Ok 
Neymar - Ele deve está perguntando por você - dei um meio sorriso, ou tentei - Vamos lá - levantou e estendeu a mão pra mim. Fomos para o quarto, batemos na porta e entramos. Ele sorriu ao me ver e eu não tive como não retribuir
Marcos - Achei que vocês tinham se perdido - riu e meu coração aqueceu um pouco
Clara - Sempre muito engraçadinho 
Marcos - É o único jeito de encarar bem o fato de ter que ficar nesse quarto por tempo indeterminado - resmungou
Clara - Vai passar logo, você vai ver. Logo tudo ficará bem - me aproximei da cama, dei um beijo no seu rosto e ele fez questão de cumprimentar o Júnior com aqueles toques de mãos doidos, até a minha avó riu. Ela e os meus pais estavam no sofá-cama. No chão havia uma mala que com certeza era dela 
Marcos - Você estava chorando - constatou ao olhar bem pro meu rosto, não neguei e nem afirmei. Tinha quase certeza que ele também chorou antes que eu entrasse no quarto - Eu não quero que você fiquei chorando, Clara 
Clara - Se fosse o contrário, você choraria?
Marcos - Essa história de "e se fosse o contrário" de novo? 
Clara - Obvio, é muito simples. Responde
Marcos - Claro que sim
Clara - Então não me pede isso 
Marcos - Teimosa 
Clara - Estava com saudades de mim que eu sei - sorriu
Marcos - Estava mesmo, mas tenho um aviso para lhe dar 
Clara - Aviso? 
Débora - É, ele acha que nós vamos obedecer
Clara - Como assim? O que é?
Marcos - Nada de ficar vindo pra cá todos os dias, tá certo? Não sei até quando pretendem me deixar aqui mas você tem a sua vida e o que menos quero a essa altura do campeonato é atrapalhar 
Clara - Não vai me atrapalhar
Marcos - Todo mundo diz isso 
Clara - Porque é a verdade. Então o assunto está encerrado 
Marcos - Teimosa - repetiu e eles riram novamente. Me aliviava um pouco saber que ele estava tentando não se deixar abater, porque pode até falar de mim mas é muito mais teimoso, orgulhoso e pessimista do que eu. Herdei apenas metade de tudo isso. 
    ****
Clara - Vó? - chamei-a assim que saímos do quarto, quase duas horas depois. E percebi que não só o seu, mas o semblante de todos nós já estava diferente de novo. Na presença do meu avô até ríamos, tudo parecia normal demais, mas era só sairmos do quarto pra seriedade e a apreensão voltarem. Nem sabíamos - ou queríamos - esconder, era bem nítido
Glória - Que foi? - se aproximou de mim, deixando o Júnior e meus pais do outro lado da ampla sala da recepção
Clara - Vi que tem uma mala no quarto... 
Glória - Ah, é. Trouxe hoje, tem coisas minhas e dele pra não precisar ficar trazendo algo todos os dias
Clara - Vó, você não precisa ficar aqui todos os dias. A gente pode revesar. Eu trabalho dia sim, dia não, lembra?
Glória - Eu sei. A sua mãe também já me propôs isso mas eu quero ficar
Clara - Vai ser cansativo demais, aquele sofá-cama não é pra você
Glória - Eu não me importo 
Clara - Eu me importo. E pelo visto a minha mãe também
Glória - Não precisa se preocupar. Seu avô já fez demais por mim, demais mesmo. Chegou a hora de retribuir 
Clara - Mas... - ela me interrompeu e segurou a minha mão
Glória - Não estou aqui por obrigação. Eu o amo - sorri emocionada - Não quero sair de perto dele, por favor - que argumentos eu ainda tinha contra uma mulher que queria apenas ficar perto do homem que ama? Nenhum! Só abracei-a e o assunto foi encerrado. Fomos embora alguns minutos depois, meus pais também se despediram da minha avó - que pelo que vi, já tinha feito amizade com a enfermeira - e assim como chegamos, saímos também juntos. Nos despedimos no estacionamento e cada um foi para um lado
Clara - Ei - ele olhou pra mim enquanto colocava o cinto - O que meu avô te disse antes de sairmos do quarto quando te chamou?
Neymar - Apenas me fez alguns pedidos
Clara - Posso saber quais pedidos foram esses? - sorriu
Neymar - O primeiro foi, não te deixar ir ao hospital todos os dias - revirei os olhos
Clara - Ele não desiste. Enfim, e os outros? 
Neymar - Pediu pra continuar cuidando de você e pra te distrair, não deixar que você fique obcecada, só pensando em quando vai aparecer um doador compatível - tão fácil falar, pensei
Clara - Só isso? - assentiu enquanto dava partida - Obrigada - beijei seu rosto, ele apenas sorriu e piscou. Revirei minha bolsinha atrás do celular e vi os resultados do exame dele e do meu. Sinceramente? Não ia nem abrir. Não precisava levar mais um soco confirmando o que já sabia. Peguei o celular, procurei por uma imagem na internet que significasse tudo que queria dizer e postei-a.
 clarabarcelar_: Amar é importante, mas o verdadeiro e incondicional amor vem de nossa própria família, podemos brigar e entrar em confusões, mas eles nunca deixarão de nos amar por sermos quem somos, não precisamos construir personagens com eles, podemos ser como somos, não precisamos sorrir quando não queremos, muito menos sermos gentis quando estamos em um mau dia... E, mesmo assim, eles não nos deixarão de amar, podemos brigar, mas eles não vão nos deixar por isso. Então, não esqueça daqueles que estiveram por toda sua vida perto de você, pois eles realmente te amam como você é, sem máscaras e sem interesse. Dê valor a sua família e, não se esqueça que, como todos, eles também estão de passagem por esse mundo... Por isso, é preciso valorizar cada momento, cada segundo e não deixar de demonstrar o quanto são importantes para nós, a vida pode parecer difícil em determinados momentos, mas, acredite, completamente sozinhos, ela se torna ainda mais...  
Passei o resto do caminho até o apê no twitter, apenas lendo tudo que me mencionavam. Posso dizer que me assustei com meu número de seguidores, e ainda achava aquilo tudo muito estranho. Quando chegamos ao meu prédio, ele estacionou na minha vaga, saímos do carro, travei as portas, chamei o elevador e subimos.
Clara - Quando vai pegar seu carro lá no CT?
Neymar - Meu pai já pegou, relaxa - chegamos ao nosso andar, abri a porta e para nossa grande surpresa, a Rafa também estava com a Manu e a Dudoca. Elas estavam arrumadas, ou iam sair ou estavam chegando de algum lugar. Apostava mais na primeira opção -
Eduarda - Mãe! Pai! - levantou do tapete, onde estava com o Luck e se aproximou de nós dois rapidamente - Como o biso está? - olhei pra Manu, ela gesticulou apenas com os lábios um “eu tive que contar” meio envergonhado e eu assenti -
Clara - Ele está bem, boneca - passei a mão no seu rostinho -
Eduarda - E quando eu vou poder ver ele?
Clara - Amanhã, pode ser?
Eduarda - Sim! - sorriu lindamente pra nós dois e voltou a dar atenção pro Luck. Sentei no sofá, ao lado da Rafa e dei um beijo no seu rosto. O Júnior também beijou o rosto dela e sentou ao meu lado, no espacinho que sobrava no sofá, já que a Manu estava em uma das poltronas -
Rafa - E aí, como foi?
Clara - Não foi - balancei a cabeça -
Manu - Nenhum de vocês é compatível? - perguntou surpresa demais -
Clara - Pois é...
Rafa - Ah, meu Deus!
Manu - Não acredito! - a reação delas me deixou tensa de novo, e ele percebeu -
Neymar - Não fiquem pensando apenas nessa parte ruim, o Dr. Marcelo disse que o nome dele já vai entrar na fila de espera e estou confiante de que logo vai aparecer alguém
Manu - Segunda-feira sem falta vou fazer esse teste que vocês fizeram também, prometo - sorri levemente -
Rafa - E eu?
Clara - Você ainda vai completar 18, bebezinha, não pode - apoiei a cabeça no seu ombro, ela riu e fez bico - Estou bem assustada com tudo isso mas... confiante também
Manu - Tem que estar, sempre!
Rafa - De outro jeito a cabeça fica uma loucura, mas vai acabar tudo bem
Manu - Também acho, e já falei isso - ficou pensativa por um tempo, por isso só ouvíamos a voz da Duda falando com o Luck, totalmente alheia ao nosso assunto sério - Acho que não tem mais clima pra sair, né? - olhou pra Rafa e ela torceu a boca -
Clara - Vocês iam sair? Que isso, podem ir. Seu Marcos odiaria saber que vocês deixaram de se distrair por causa dele, sério - rimos um pouco -
Manu - É que na verdade estávamos esperando por vocês para irmos juntos
Clara - Nos esperando? - questionei, mas olhei pro Júnior, ele encolheu os ombros então também não sabia de nada -
Manu - Primeira social do ano. Comemoraçãozinha básica do aniversário do meu amor. Red Sun - resumiu e sorriu de lado -
Rafa - Mas podemos marcar pra outro dia
Manu - É... eu concordo com o que vocês decidirem, e os meninos com certeza vão entender - estava pronta para (infelizmente) dizer não, tomar um banho e já vestir o pijama... não pretendia sair de casa. E faria isso, se o Júnior não tivesse se antecipado e confirmado a nossa presença. Não tive coragem de discordar. As meninas já estavam prontas e lindas... realmente, só nos esperando (provavelmente esperavam boas notícias também). Levantei contrariada e fui pro meu quarto, ainda precisaria de um banho porque conseguia sentir o cheiro de hospital nas minhas roupas -
Neymar - Clara? - sim, eu ouvi mas entrei no banheiro e ignorei. Claro que ele percebeu, entrou também e me prensou contra a parede - Você mesma disse que seu avô odiaria saber que você deixou de sair por causa dele - usou as minhas palavras contra mim -
Clara - Não sei se sou boa companhia hoje...
Neymar - Ok, essa desculpa não colou, tenta outra
Clara - Não sei se quero ir...
Neymar - Eu prometi pra ele que ia cuidar de você, te distrair... e vou cumprir
Clara - Sei que prometeu e te amo ainda mais por isso, mas... não dá
Neymar - Olha, a gente não precisa madrugar lá, nem rir até a barriga doer ou participar de todas as conversas... Eu sei que é difícil, o momento não é o melhor mas eu também não vou deixar você ficar em casa pensando no que não deve - todas as suas palavras me tocaram de uma forma inexplicável, incompreensível... sei lá, me fizeram bem. Por que ele sabe sempre as coisas certas pra dizer? Não sabia responder a essa pergunta mas sabia que ele era meu e me sentia extremamente sortuda por isso. Bastava, então. Ele ainda esperava que eu dissesse alguma coisa, segurei o seu rosto, que estava muito próximo do meu e apenas beijei-o -
Clara - Desculpa a minha chatice? - sorriu -
Neymar - Só desculpo se conseguir ficar pronta antes de mim
Clara - Ufa! Desculpa garantida, então - sorri verdadeiramente -
Neymar - É assim que eu quero te ver, por favor - meu pobre coração derreteu por completo. Não era um simples pedido, parecia uma súplica, como se ele dependesse de mim da mesma forma que dependo dele (no bom sentindo... se é que existe algum ruim). Seria possível sermos tão loucos um pelo outro? Sorri de novo com meus próprios pensamentos e ele sorriu também, como se conseguisse ler a minha mente. Se é nos momentos mais difíceis que descobrimos quem amamos e quem nos ama de verdade, naquele momento, sabia que tinha acabado de me apaixonar de novo pelo dono dos pequenos olhos meio esverdeados que me encaravam intensamente, com um certo brilho bem lá no fundo. Pedi internamente para ser a única a fazê-los brilharem daquele jeito especial e os nossos lábios voltaram a se encontrar, como imãs que não conseguem ficar separados por muito tempo -
Eduarda - Pai? - ouvimos a voz dela meio distante então sabíamos que ainda não estava no quarto mas estava se aproximando dele, um timing perfeito. Rimos e ele falou algo meio incompreensível enquanto me dava alguns selinhos, tenho quase certeza que pediu para eu me arrumar logo, só que estava realmente mais entretida recebendo o seu carinho repentino do que prestando atenção ao que falava, mas foi algo assim. A Duda o chamou novamente, rimos e ele saiu do banheiro. Quando saí também eles não estavam mais no quarto. Estava mais... disposta a sair. Não animada, apenas disposta... e isso significava vontade zero de ficar procurando roupa. Peguei uma saia jeans branca, uma blusinha estampada e estava ótimo pra mim. Não íamos pra nenhum lugar que precisasse de algo extravagante também. Tomei um banho rápido, me enxuguei, passei hidratante no corpo, me vesti, fiz um rabo de cavalo alto, calcei uma rasteirinha e me perfumei. Fiquei na sala com as meninas esperando o Júnior se arrumar também e dessa vez ele não demorou (sem ironia). Trancamos tudo, descemos e saímos no carro da Manu. Chegamos ao Red Sun e quando o recepcionista estava nos informando qual era a mesa dos meninos, uma fã do Júnior o reconheceu (coincidentemente ela estava atrás de nós com a família, também aguardando para serem atendidos pelo recepcionista). Ela começou a chorar, o que assustou a sua própria família, pelo menos até eles entenderem o motivo, aí o susto deu lugar a surpresa. O Júnior cumprimentou todos, abraçou-a e ela pediu um abraço e uma foto com todo mundo, inclusive comigo, que estava mais afastada com a Duda e a Manu. Fiquei processando o pedido dela por um tempo, mas se já era estranho ela pedir, seria ainda mais se eu negasse, nem tinha porquê. Tenho que dizer que a Manu adorou esse momento, aliás, ela e a Duda pareciam estar curtindo tudo, e sim, ainda estávamos na recepção da pizzaria. No final, a Amande, esse era o nome dela, agradeceu muito, ficou com os olhinhos cheios de lágrimas de novo e nos guiou com os olhos até onde conseguiu, já que a nossa mesa era do outro lado do salão. Gil, Jota, Gus, Gui, Cris, João, Alvaro, Pedro, André, Tayná, Laila, Marcela e... até a Júlia estava presente. Nós nem nos cumprimentamos, mas creio que ninguém percebeu, a mesa estava bem cheia e agitada, todo mundo falando ao mesmo tempo, enfim... foi melhor assim. Se ela parecia realmente não gostar de mim, não tinha motivos para gostar dela... logo, não seria um cumprimento sincero. Sentamos, fizemos os pedidos, e inicialmente os temas dos diálogos eram os mais variados possíveis, o Gil ainda ganhou mais alguns presentinhos das pessoas que não tinham visto ele na quinta-feira (9), dia do seu aniversário, mas depois (in)felizmente o assunto se tornou mais sério, ou seja, aquele que vinha mexendo comigo. Porém, o rumo que as conversas tomaram me animou um pouco, e até me deixou meio emocionada porque eu estava me agarrando a toda e qualquer esperança que surgisse e ter muitos deles querendo ajudar era um incentivo a mais pra ter confiança. É por isso que o Seu Marcos sempre diz que quem tem amigos, tem tudo. 
    ****
Meu relógio de pulso marcava exatamente 23h50 quando nos despedimos e cada um seguiu para um lado. Não vimos a Amande de novo, ela já devia ter ido embora. Fomos para o estacionamento e a divisão no carro teve que ser um pouco modificada por causa do Gil. Ele foi na frente com a Manu e atrás fomos eu, o Júnior, a Rafa e a Dudoca em seu colo. Quando chegamos no apê, ainda improvisamos um cineminha na sala mesmo. Minha pequena tentou ao máximo resistir ao sono mas ele falou mais alto antes que a comédia chegasse na metade e ela adormeceu com a cabeça no meu colo. Fui colocá-la no seu quarto, aproveitei pra pegar um travesseiro pra Rafa também porque elas iriam dormir juntas. Ficaria até com ciúmes se a minha companhia também não fosse tão maravilhosa porque, convenhamos, dormir agarradinha com a Duda é uma das melhores coisas que existe. Voltei pra sala e depois de dois filmes, sabíamos que não íamos conseguir assistir mais nenhum, por isso fomos para nossos quartos. 
Neymar - Então, valeu a pena sair? - saiu do banheiro e deitou com a cabeça no meu colo, já que eu ainda estava sentada -
Clara - Hum, não sei se devo responder
Neymar - Por quê não?
Clara - Você pode ficar muito convencido, ainda corro o risco de ouvir um "Eu disse, não disse?" - riu -
Neymar - Não vou falar nada, juro
Clara - Ok, foi maravilhoso, consegui me distrair um pouco. E pra isso nem precisei madrugar lá, rir até a barriga doer, muito menos participar de todas as conversas... sim, valeu a pena - sorriu de um modo admirável, sério, poderia ficar olhando para aquele sorriso sem cansar. Não resisti, e lhe dei um selinho estalado, o que o fez rir e retribuir com vários outros. Estava me sentindo exausta mas eram momentos simples como esse, de puro mimo, que me faziam esquecer as coisas ruins do meu dia. Ultimamente ele e a Duda eram a minha tábua de salvação. Não precisava ser forte com eles... apenas eu, necessitada demais de um carinho extra, e isso eles sabiam me dar sem se esforçarem muito. 

   Read → http://seumundomeumundo-njr.blogspot.com.br/
Olá, amores  
O que vocês acham que vai acontecer agora? Acho que posso dizer apenas que a partir do próximo capítulo a história vai dar uma reviravolta. Não se assustem, apenas tentem confiar nas minhas loucuras, please! ahahaha. Lendo os comentários de vocês, imagino mil e uma coisas que podem estar passando pelas cabeças de vocês, sério. Penso e tento interpretar tudo como leitora também, por isso tudo que vocês dizem é importante pra mim!! 
Amei a feliz coincidência com minha linda anônima que também está ou estava fazendo um trabalho sobre transplante de medula óssea. Quando tive a ideia do que queria fazer, estudei como se fosse um trabalho para o colégio também, ficou até mais fácil de entender um assunto tão complexo. 
É isso amores, beijocas! ️  

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Capítulo 52 - “Nós vamos vencer isso juntos”

    De volta à rotina. 
 Para alguns isso deve ser terrível, ainda mais depois de um recesso tão maravilhoso como o meu mas pra falar a verdade estava com saudades do meu trabalho, do CT, das pessoas de lá... enfim, do ambiente em si. Só não sentia falta mesmo do trânsito caótico de toda manhã e final de tarde. Mas os primeiros dias de janeiro foram tranquilos. Assim que abriram as vagas, matriculei a Dudoca na mesma escola e suas aulas começarão em breve. A Manu já fez o que ela mesma chamou de primeira loucura do ano: duas tatuagens, uma que significa amor e outra que significa resistência. Entrei na academia do prédio mesmo assim que voltamos do Guarujá, e quando chego do trabalho não tão cansada, me troco e desço. Como estava sem fazer atividade física a bastante tempo quando saio de lá, ainda fico meio dolorida, mas nada insuportável. Porém, o Júnior zoa comigo mesmo assim, nem ligo. Já a Manu só falta pular de felicidade quando dá para malharmos juntas. Assumo que também gosto, o tempo passa mais rápido. Seu sucesso profissional também é cada vez maior, o que me enche de orgulho. Ela foi promovida no primeiro dia de trabalho após o recesso e pôde escolher com qual turno queria ficar. Preferiu o da manhã, só pra não ter que me deixar na mão pra ir buscar a Dudoca na escola. Como posso não amá-la?
 O estado do meu avô ainda é o mesmo. Agora ele evita ambientes com aglomeração de pessoas, a pedido do médico também reduziu certas atividades que potencialmente podem trazer riscos de acidentes e, consequentemente, provocar sangramentos. E claro, continua o tratamento com medicamentos imunossupressores, que faz com que os sintomas da doença diminuam. Menos mal.
 Eu e o Júnior estamos mais unidos do que nunca. Acho que começar o ano ouvindo ele dizer que os nossos corações se pertencem era tudo que eu queria e precisava. Agora que a nossa rotina voltou ao normal, já que a folga também acabou pra ele, é bem mais difícil eu dormir na sua casa, mas ele quase sempre dorme na minha. Já nos acostumamos com isso. No entanto, também temos que lidar com aqueles dias mais puxados que não dá para nos vermos, afinal ele tem que estar em tantos lugares em tão pouco tempo, gravar comerciais, dar entrevistas... além de ter o direito de rever amigos que não moram em Santos também. Aprendi a me conformar que ele conhece muita gente, e claro que existe um certo ciúme, estaria mentindo se dissesse que não existe, mesmo que eu não queira, é incontrolável. Mas ele sabe (e porque adora me provocar, diz que gosta quando assumo isso, eu não acho nada engraçado) e não vou privá-lo de nada, nós dois sabemos nossos limites. Não falamos sobre o episódio “casa comigo?” do Réveillon, o que só veio confirmar as minhas suspeitas de que ouvi muito mal.
 Ele nem imagina, mas já tenho o presente do seu aniversário em minhas mãos. Não é nada demais, nem muito extravagante, mas acho que vai lhe proporcionar alguns bons minutos no seu dia. Foi uma ideia que tive do nada durante o ano novo, mas ainda é sigilo, apenas eu e duas pessoas sabem, ou devo dizer três, incluindo a Dudoca? É, acho que sim. Afinal, o presente é nosso. E fazê-lo também foi maravilhoso. 

    ****
      10 de janeiro de 2014, sexta-feira - let's go work!
Acordei com o toque do meu despertador (não, dele não estava com saudades, já que sempre toca nas melhores partes dos meus sonhos, é irritante). Levantei e espreguicei-me. Estava animada e não era só por ser sexta-feira. Muito provavelmente hoje chegaria um exemplar de uma capa da Santástico que começamos a elaborar na segunda e eu estava doida pra saber como ficou, apesar de saber que ia precisar de uns retoques básicos. A primeira revista do ano tinha tudo para agradar a todos. Eu particularmente amei o tema escolhido para a edição, que não por acaso, é o camisa onze do time. Obviamente foi uma decisão tomada em equipe mas não consegui evitar sorrir ao falar dele, então zoação não faltou durante toda a semana. Queria muito ver a capa. Arrumei a cama, peguei a roupa que já tinha escolhido na noite passada e estirei-a ali. Tirei o pijaminha, prendi o cabelo de qualquer jeito, entrei no banheiro, tomei um banho delicioso e escovei os dentes. Enxuguei-me, passei hidratante no corpo, me vesti, soltei e penteei o cabelo. Confirmei as coisas que estavam na minha bolsa, abri um pouco as persianas, me perfumei, peguei o celular e saí do quarto. A Dudoca ainda está aproveitando os últimos dias de férias, e foi dormir com o pai ontem, já que ele só precisa estar no CT no final da tarde para realizar alguns exames rotineiros de início de ano. Acho que eles vão aproveitar o dia para visitar o Instituto Neymar Jr novamente, parece que algumas crianças vão fazer uma apresentação de dança. Só estive lá uma vez, mas amei o que vi. A Manu estava na cozinha tomando o seu precioso café forte de toda manhã. 
Clara - Bom dia - deixei minha bolsa em cima do balcão e dei um beijo no seu rosto -
Manu - Bom dia - sorriu. Abri a geladeira, peguei um iogurte natural desnatado, peguei uma colher no escorredor e sentei ao seu lado. Não que estivesse com fome, mas não tinha escolha - Quando cheguei ontem você já estava dormindo, estranhei
Clara - Culpa da academia. Sinceramente, acho que isso não é pra mim - gargalhou -
Manu - Nem pense em sair
Clara - Acha que manda - revirei os olhos e ela riu novamente - Fatinha já achou uma casa que lhe agrade?
Manu - Parece que sim. Me ligou ontem pedindo pra ir conhecer
Clara - Onde dessa vez?
Manu - Vila Belmiro, eu acho
Clara - Não conheço muito, é um bairro pequeno, mas residencial... deve ser um bom lugar
Manu - Do jeito que ela falou acho que gostou também. Disse que a casa tem até uma edicula, então deve ser grande, não é?
Clara - Ou seja, a cara da Fatinha - rimos. Terminei meu iogurte, ela terminou seu café, coloquei ração pro Luck e saímos. Descemos juntas e nos despedimos no estacionamento. Destravei as portas do meu carro, entrei, joguei a bolsa no banco do passageiro e liguei a rádio.
 clarabarcelar_: Fridayyy!!
Dei partida, e não deixei o trânsito abalar o meu humor. Dificilmente isso acontece. Cheguei ao CT, estacionei naquela que já é praticamente minha vaga, peguei minha bolsa, saí, travei as portas do carro, entrei e subi.
Clara - Bom dia, Gio - cumprimentei-a alegremente -
Giovanna - Bom dia, Clarinha - a Gio era uma das poucas pessoas que me chamavam assim por ali, na verdade eu nem gostava, mas tem um carinho tão grande no seu jeito de falar que terminei me acostumando - A Jú chegou, pediu pra você ir falar com ela
Clara - É algo sério?
Giovanna - Não. Suponho que ela só queira te sufocar com um abraço, como fez comigo - gargalhei -
Clara - Vou lá - tirei o casaquinho, pendurei-o na minha cadeira, deixei minha bolsa em cima da mesa e fui até a sala da Jú. Nos vimos pela última vez bem antes das festas de fim de ano. Dei dois toques na porta e ela mandou entrar - Oi, madrinha - entrei e fechei a porta -
Juliana - Meu amor - tirou o óculos, jogando-o de qualquer jeito em cima da mesa e levantou, abrindo os braços. Ri e me aproximei para abraçá-la. Bom, a Gio não estava errada e isso me fez rir ainda mais por dentro - Que saudades - sorri -
Clara - Confesso que até estava com saudades também
Juliana - Que consideração, não falo mais nada
Clara - Dramática desde sempre - rimos -
Juliana - Senta aí - apontou para uma cadeira e sentou também. Fiz o mesmo - Como você está? - perguntou séria, de repente, sabia o motivo mas preferi fingir que não tinha entendido -
Clara - Estou bem - meu tom de voz também mudou. Sabia onde ela queria chegar. Pelo telefone não falamos muito sobre isso, inclusive ela ficou sabendo pela minha mãe -
Juliana - Desculpa - ficou um pouco constrangida, e eu ri levemente -
Clara - Não precisa se desculpar, madrinha. Meu avô está... na mesma. Então posso dizer que está bem, logo, eu também estou - sorri fraco -
Juliana - Sabe que estou aqui para tudo, não sabe? Se bem que nada me tira da cabeça que mais cedo do que a gente imagina essa doença vai embora
Clara - Deus te ouça! - pensei, talvez, alto demais -
Juliana - Era só isso. Queria apenas dá um abraço na melhor afilhada do mundo
Clara - Melhor e única
Juliana - Literalmente - rimos -
Clara - Esse excesso de carinho vai me deixar mal acostumada - levantei, contornei a mesa e dei um beijo no seu rosto - Obrigada - ela piscou e sorriu -
Juliana - Quero ver a capa da Santástico, heim?! Ouvi dizer que você caprichou nessa edição, só não sei por que - falou quando eu já estava com a mão na maçaneta. Olhei pra trás, ergui uma das sobrancelhas e ela gargalhou - Ok, pode ir. Não está mais aqui quem falou - tentei não rir, saí e fechei a porta. Voltei para minha linda sala e os meninos já estavam todos em suas mesas. A Gio estava na minha, por sinal, balançando uma caixa retangular -
Giovanna - Adivinha o que chegou? - perguntou com um sorriso de orelha a orelha -
Clara - Mentira! Já? - os meninos pararam o que estavam fazendo para rir de mim, eles fazem isso com frequência -
Caio - E só porque somos ótimos colegas de trabalho, deixamos pra você abrir
Clara - Isso é sério? - gargalhei - Não precisava - sentei de frente pra Gio -
Pedro - Não? Então passa pra cá que eu abro - levantou e estendeu as mãos -
Clara - Não, que isso. Já que vocês fizeram o favor de me esperar, eu abro - peguei a caixinha da mão da Gio - Nem sei como agradecer, sinceramente - tentei falar sério, enquanto retirava um pequeno lacre mas terminamos gargalhando de novo - Uau! - disse assim que abri a caixa. A capa tinha ficado muito mais perfeita do que tínhamos imaginado. Sim, porque a zoação pode ser muita mas quando estamos trabalhando só queremos tudo o mais perto do maravilhoso possível -
Gio - Eu amei. Pra mim não precisa tirar nem acrescentar nada
Caio - Eu acho que se o personagem principal não estivesse na capa... - começou a falar distraidamente, segurando o riso, mas parou quando olhei-o - Mudar pra que né? Está perfeito assim - rimos -
Clara - É sério, o que você achou?
Caio - Falei sério dessa vez. Você sabe que arrasa sempre
Clara - Nós arrasamos
Pedro - Modéstia à parte, né? - rimos - Mas eu preciso concordar - voltei a olhar pra capa. Estava digna de uma edição especial, e minha opinião não tinha nada a ver com a minha vida pessoal, até porque não fiz nada sozinha e nem devo misturar as coisas. Isso está no topo das minhas regras para um bom desempenho profissional.
 gioalencar: Ainda não é assinante? Acessa lá: santastico.webstorelw.com.br 
Depois de discutirmos um pouco e chegarmos a conclusão que não precisaria ser feito nenhum retoque, liguei para gráfica para confirmar a capa. Era só isso que estava faltando. Então em poucos dias - assim esperávamos, pelo menos - a revista já estaria totalmente pronta para ser entregue aos assinantes. E por ser uma edição especial, ia para algumas bancas também. Se acontecesse o que queríamos: muita gente comprando-a, íamos começar a pensar em como deixá-las mais acessíveis para todos. A manhã foi cheia, tínhamos muita coisa pra fazer e colocar em ordem: editar o site da Santástico, responder e-mails, atender e fazer telefonemas, enviar prêmios de promoções do site oficial aos sócios, nos reunir com o pessoal da comunicação, além de concluir ideias, já pensando em outras. Foi um começo de dia agitado mas por incrível que pareça, passou bem rápido. Na hora do almoço, desci, comi rapidinho (sem os jogadores aquele restaurante parece ser quatro vezes maior), e quando subi novamente, como ainda tinha um tempinho livre, peguei meu celular. Havia uma mensagem do Júnior apenas dizendo que estava com saudade. Obvio que aquilo me deixou com um sorriso estupidamente bobo - ainda bem que estava sozinha na sala. Respondi, entrei no instagram e curti as fotos que ele e a Rafa postaram rodeados de crianças no Instituto. Sorri ao ver o sorriso da minha pequena também. Eles ainda deviam estar lá, mas o Júnior não demorou nada para responder, depois começou com suas brincadeirinhas que, admito, me fazem rir sempre, mas ele não precisa saber se não estiver vendo. 
Tinha que voltar ao trabalho, então antes que perdesse a noção do tempo falando com ele, porque certamente isso iria acontecer. Estava perto, inclusive. Tivemos que nos despedir. A Gio e os meninos subiram e retomamos nosso trabalho, dessa vez terminando o que a diretoria tinha começado: fechando com mais um patrocinador; por isso ficamos horas conversando com os encarregados da empresa. Tudo só estava devidamente resolvido às 15h, mas valeu a pena. Era bom ver tanta empresa grande querendo ver suas marcas estampadas nos uniformes do Santos, não podia deixar de sentir um certo orgulho do meu clube. Depois tivemos uma reunião com o comitê de gestão, mas foi rápida, menos de meia hora. Eu amo reuniões com o comitê, não só pelos assuntos importantes sempre abordados mas também porque é uma oportunidade de ver outro lado da Jú: o sério, estritamente profissional. Até o seu olhar quando está em uma reunião é diferente e acho que me espelho nela de vez em quando, mesmo sem perceber. Quando voltamos para nossa sala, tirei o celular do bolso, estava no silencioso. Mas abri um sorriso na mesma hora. Eu não tinha como controlar. Ele estava longe e mesmo assim parecia comandar até as minhas feições. Se isso era uma coisa normal ou não, não sei, mas já era mais do que um hábito. Parecia ser mais intuitivo, automático... não sei, eu amava. Ele me fazia feliz sem fazer nada, até sem saber ou querer. Na verdade, acho que ele me fazia feliz apenas por existir. Eu sabia que ia vê-lo, ou falar com ele em alguma hora do meu dia e isso já me fazia sorrir.
 clarabarcelar_: "Estar apaixonado pode ser muito engraçado..."  
O resto da tarde passou normalmente. Estava arrumando minhas coisas pra ir embora quando meu celular tocou. Achei que fosse o Júnior decidido a me deixar corada pela terceira vez no dia, mas me enganei. Era minha mãe.
 - início -
Clara - Oi, mãe
Débora - Filha... - seu tom de voz me deixou em alerta na mesma hora. Às vezes parece não ser tão bom conhecer demais uma pessoa -
Clara - Que foi?
Débora - Prometi que não ia mais te deixar de fora de nada, por isso estou ligando
Clara - Tudo bem, mãe. Fala
Débora - Estamos no hospital de novo - sabe quando uma onda te pega totalmente de surpresa, chegando até a te deixar sem ar, e você fica sem saber como voltar a superfície? Então, foi exatamente como me senti -
Clara - Por quê? O que aconteceu?
Débora - Na verdade, eu também não sei direito. Meu pai acordou com umas manchinhas pelo corpo. Minha mãe disse que elas surgiram desde ontem mas ele não queria vim pra cá e não nos disse nada
Clara - Meu avô acha que sabe o que é melhor pra todo mundo, menos pra ele mesmo, não é?
Débora - Fica calma, minha filha
Clara - É bem fácil falar. Eu sei que você também não está
Débora - Não estou mesmo, mas não vamos antecipar o andamento dos fatos. Ainda não sabemos de nada, acabamos de chegar. Só queria te avisar logo
Clara - Ok, chego aí o mais rápido que consegui
Débora - Cuidado!
Clara - Tudo bem
 - término -
Sentei e afundei o rosto nas mãos. Não tinha mais ninguém na sala. 
Clara - Fica calma, vai ver são efeitos colaterais dos remédios. Só pode ser isso - falei comigo mesma, me agarrando com tudo nessa hipótese. Era, de longe, a melhor - Não chora! - olhei pro teto e respirei fundo. Passei as mãos no rosto, terminei de arrumar minhas coisas, vesti meu casaquinho e desci a escada mais devagar do que realmente queria. Minha cabeça já estava no hospital. Não havia quase ninguém no térreo, além de dois jogadores que nunca tinha visto por ali. Só sabia que eram jogadores porque estavam com o uniforme. Deviam fazer parte das novas contratações. Já passava das 17h, então era normal que muita gente já tivesse ido embora. Estava indo em direção ao estacionamento quando ouvi um psiu. Não precisava virar pra saber quem era, mas queria. Precisava vê-lo. De repente pareceu ser uma necessidade absurda ouvir a sua voz dizendo que ia ficar tudo bem. Girei o corpo e o vi se despedindo do Emerson Palmieri na porta do CEPRAF. Acenei discretamente pro Emerson e ele retribuiu sorrindo. Bom, pra eu sorrir ia ser um pouco mais difícil naquele momento, estava tensa até o último fio de cabelo -
Neymar - Oi - sorriu e se aproximou para me beijar, só no último segundo lembrou de onde estávamos e desviou um pouco, beijando demoradamente a minha bochecha. Suspirei e senti o seu perfume. Por impulso enlacei os braços no seu pescoço, abraçando-o. Ele ficou surpreso mas passou os braços pela minha cintura também, retribuindo e me apertando. Soltei outro suspiro longo, liberando pelo menos metade da tensão que carregava - Seu avô está bem? - mordeu o lábio inferior com receio -
Clara - Não sei. Mas preciso ir pro hospital
Neymar - Eu levo você, e dessa vez não tem desculpa
Clara - Já fez os exames?
Neymar - Sim, estava te esperando
Clara - E a Duda?
Neymar - Foi pra Elleven com a Rafa, depois a gente passa pra pegar ela - assenti - Vamos, deixo meu carro aqui mesmo - apenas assenti novamente e entreguei minha chave pra ele. Entramos no meu carro e ele deu partida. Joguei a cabeça pra trás, fechei os olhos e tentei não pensar em nada, apenas na presença dele ali ao meu lado. Se começasse a pensar besteira certamente enlouqueceria antes de chegarmos ao hospital - Vai ficar tudo bem - disse as palavrinhas mágicas que eu tanto queria escutar quando parou no sinal e colocou uma das mãos na minha perna. Exibi o melhor sorriso que consegui, lhe dei um selinho e deixei minha cabeça repousar no seu ombro, de um modo que não te atrapalhasse. Fomos o resto do caminho calados e me dei conta que ele nem sequer perguntou o que estava acontecendo, simplesmente deduziu e se prontificou a me acompanhar. Meu coração aqueceu um pouco, não muito, só o suficiente para não me deixar pensar no que não devia. Quando chegamos ao estacionamento do hospital, lembrei da última vez que tinha entrado ali e do jeito que saí... um arrepio percorreu o meu corpo quase instantaneamente. Não sei a quanto tempo o Júnior estava ao meu lado esperando que eu saísse do carro também, mas mais uma vez agradeci a Deus por tê-lo ali. Saí finalmente, ele travou as portas e segurou as minhas mãos que estavam suando frio. Entramos, chamei o elevador, e subimos. Vi meu pai, minha mãe e minha avó no mesmo lugar da última vez. Isso não podia ser sinal de coisa boa... mas tentei pensar que seria. Cumprimentamos todos e nenhum deles tinha um semblante calmo, muito pelo contrário -
Débora - Que bom que não veio sozinha - tentou sorrir pro Júnior e ele fez o mesmo -
Clara - Já sabem de alguma coisa?
Débora - Não. O Dr. Marcelo passou por aqui agora a pouco, disse que já vem nos dizer algo - assim que ela fechou a boca, um homem alto que devia ter apenas uns dois anos a mais que o meu pai saiu de uma sala próxima a recepção e se aproximou de nós com alguns papéis nas mãos. Minha avó era a única que ainda estava sentada, mas levantou imediatamente. Ele cumprimentou a mim e ao Júnior com um breve aceno -
Glória - Então, Dr?
Dr. Marcelo - Como eu já suspeitava, as manchas escuras na pele dele são consequências da diminuição do número de plaquetas - minha avó pareceu ter ficado ainda mais confusa -
Clara - Essa diminuição é efeito da aplasia, certo?
Dr. Marcelo - Sim
Clara - Mas os remédios que ele está tomando não são justamente para abrandar um pouco esses efeitos?
Dr. Marcelo - Exatamente
Clara - Então isso quer dizer alguma coisa - minha mãe olhou pra mim assustada, ela já tinha entendido o que infelizmente passava pela minha cabeça -
Dr. Marcelo - Sim... - ele parecia estar procurando o jeito certo de falar o inevitável - Bom... esses medicamentos que agem estimulando a produção de células sanguíneas pela medula óssea que está falida não são mais suficientes para curar a aplasia do paciente
Glória - Como não são mais suficientes? - falou um pouco alto demais -
Dr. Marcelo - Isso pode acontecer, dada a gravidade da doença. Uma boa parte dos pacientes podem responder muito bem ao tratamento imunossupressor e levar uma vida normal. Outros podem não apresentar uma boa resposta e acabar até se tornando um dependente de transfusões
Débora - Então como é que o meu pai fica? Ele vai virar um dependente de transfusões também?
Dr. Marcelo - Não, e nem é por isso que vamos deixar de alcançar a melhora dele. Mas vai ser necessário um transplante de medula óssea. É o mais aconselhável - levei as mãos a boca, transtornada, e caí sentada em uma cadeira que se encontrava atrás de mim. Acho que o Júnior sentou ao meu lado, não tenho certeza. Minha visão parecia embaçada, apesar das lágrimas estarem presas. Eu estava em choque. Minha avó começou a chorar, incapaz de falar mais alguma coisa, meu pai tentou acalmá-la, mas totalmente em vão. Minha mãe permanecia de pé. Não sei por quanto tempo ela também aguentaria -
Débora - Como é que isso é feito? - eu quase não ouvi a sua voz -
Dr. Marcelo - O transplante pode ser realizado com a medula doada por um parente, um irmão ou irmã, talvez
Débora - Ele não tem irmãos - ela deu sinais de que ia começar a chorar. Eu ainda não conseguia falar nada -
Dr. Marcelo - Sendo assim, eu preciso dizer que as chances de se conseguir um doador compatível na família são pequenas, mas existem. Se vocês quiserem saber se são compatíveis, os exames podem ser feitos aqui mesmo
Murilo - Sim, nós vamos fazer - meu pai respondeu por todos. Sim, porque minha mãe já tinha desistido de tentar parecer forte -
Dr. Marcelo - Ótimo. O doador reconstituirá o que doou rapidamente e poderá voltar às atividades normais também, não há nenhum risco. E não se preocupem, porque vamos começar uma busca no banco de doadores também. Enquanto isso o tratamento com medicamentos continuará, mas recomendo que ele permaneça aqui
Murilo - Aqui? Até quando?
Dr. Marcelo - Sim, até que tudo esteja mais normalizado - um silêncio terrível se formou ali, o que chegava a ser estranho, já que os telefones da recepção não paravam de tocar - Posso responder mais alguma pergunta?
Clara - Sim - ele me olhou esperando que eu continuasse - Acho que li uma vez... quer dizer, não lembro se vi em algum lugar ou me disseram - tinha noção de que não estava falando coisa com coisa, por isso parei e respirei fundo - Desculpa. Enfim, eu tenho tatuagens. Posso doar mesmo assim? - ele deu um meio sorriso, não deve ter sido a primeira vez que ouviu essa pergunta -
Dr. Marcelo - São recentes?
Clara - Não
Dr. Marcelo - Certo, vou tentar esclarecer tudo da melhor forma. O que vocês vão fazer agora é uma espécie de tipagem sanguínea, em outras palavras, um teste que vai nos dizer se algum de vocês é compatível com o paciente. E essa amostra servirá apenas para descobrirmos o código genético de vocês e depois podemos armazená-la no banco de dados. Isso se vocês quiserem doar para alguma outra pessoa posteriormente. Então sim, pessoas com tatuagens ou piercings podem fazer esse teste. Mas é muito bom que elas não sejam recentes, se você for compatível isso vai ajudar muito - só consegui assenti - Outra dúvida muito constante são os riscos para o doador. Como já falei, são praticamente inexistentes. A quantidade de medula extraída é de menos de 10% então dentro de poucas semanas a medula transplantada estará produzindo células novas. Costumo dizer que tudo seria muito simples e fácil, se não fosse o problema da compatibilidade porque é um processo seguro, não causa riscos ao doador e salva vidas mas... - mas tínhamos que achar o doador, completei o seu raciocínio mentalmente. Eu estava lutando pra fazer a ficha cair, estava difícil mesmo depois de ouvir tanta coisa. Minha garganta parecia ter um nó gigante, minha cabeça já girava loucamente, e ainda bem que estava sentada - Em alguns instantes uma enfermeira vem buscá-los para o exame, com licença - se afastou e então o silêncio voltou com força total. Meus olhos ardiam mas as lágrimas não desciam. Minha avó e minha mãe já haviam se acalmado mais, nem por isso tinham parado de chorar. Eu olhava pra elas e não sabia o que fazer, ou até mesmo o que falar. Queria poder consolar as duas, mas não conseguia nem me mexer por estar tão abalada quanto elas, inclusive acho que as lágrimas também se recusavam a acreditar em tudo que foi ouvido, por isso ainda não tinham rolado. Não sabia se isso era bom ou ruim. Senti uma mão apertar a minha e arrisquei olhar pro lado. Ele parecia bem pensativo -
Neymar - Eu vou fazer o teste também
Clara - Vai? - franzi a testa sem saber muito bem o que pensar -
Neymar - Sim
Clara - Tudo bem - respondi de modo automático, mas minha cabeça estava começando a colocar as informações recebidas nos eixos, por isso olhei pra ele de repente, quase assustada - Você vai fazer o teste?
Neymar - Vou
Clara - Mas... você pode? Quer dizer, o campeonato paulista daqui a pouco está aí. Isso não vai te prejudicar?
Neymar - O médico disse que não há riscos
Clara - Mesmo assim. É da sua carreira que estamos falando, o seu sonho. Não dá pra arriscar
Neymar - Não. É da vida do seu avô que estamos falando. Eu vou fazer - pisquei algumas vezes, sem saber o que falar. Era muita coisa pra processar. Então, ele ia fazer o teste para possivelmente ser o doador do meu avô, sem se importar com mais nada? Sem se importar com aquilo que sonhou desde muito pequenininho? Ia fazer simplesmente. Pelo meu avô... por mim. O que eu podia fazer? O que eu devia falar? -
Clara - Eu te amo - foram as únicas palavras que me permiti dizer, e achei que fosse começar a chorar. Vi um pequeno sorriso se formar nos seus lábios. Pequeno. Mas era um sorriso. Abracei-o bem forte e beijei-o demoradamente, quis mesmo aproveitar cada segundinho ao máximo. Seu beijo era a minha melhor terapia, disso já não tinha dúvidas. Depois fiquei um pouco ao lado da minha avó e da minha mãe - não falamos nada, apenas... nos olhamos e foi o bastante - até que uma enfermeira, que tinha Cristina escrito no seu crachá, apareceu perto de nós. Explicou novamente como que tudo ia funcionar, depois nós, um a um, exceto a minha avó, fizemos o exame. O procedimento da coleta foi bem simples e rápido, ainda bem. Depois disso ficamos durante um longo tempo sentados, em silêncio, por isso que quando o Dr. Marcelo reapareceu foi um alívio, mas ele pareceu surpreso por nos ver ali ainda -
Débora - Então? Já tem os resultados?
Dr. Marcelo - A enfermeira não disse?
Clara - O que?
Dr. Marcelo - As amostras vão ser submetidas a exames laboratoriais e o resultado será encaminhado para o endereço de vocês
Clara - Como assim? Quanto tempo isso demora?
Dr. Marcelo - Não muito
Clara - Dr. Marcelo, nós ainda não conseguimos nem digerir tudo direito. Acha mesmo que vamos conseguir dormir sem saber quando é que esses exames vão chegar nas nossas casas? Por favor, eu sei que nós não somos a única família enfrentando problemas aqui nesse hospital, mas não tem como vermos esses resultados logo? - ele suspirou, acho que ficou com pena de mim, não sei -
Dr. Marcelo - Estejam aqui amanhã pela tarde, se tudo der certo vou estar com os resultados em mãos
Clara - Muito obrigada - ele assentiu -
Glória - Não podemos vê-lo agora?
Dr. Marcelo - Depois de muito tentar resistir, ele pegou no sono. Vocês podem vê-lo, se puder ser um de cada vez é ainda melhor pra evitar agitação. Ah, e alguém pode passar a noite também - depois de esclarecer mais algumas pequenas dúvidas, ele levou primeiro a minha avó até o quarto. Ela ficou uns dez minutos lá, o mesmo tempo que meus pais ficaram depois. O Júnior entrou comigo porque eu pedi, ainda estava segurando a sua mão e, sinceramente, não queria soltá-la. Observei todo o quarto. Era diferente daquele que ele tinha ficado da última vez. Era mais amplo, branco com cortinas em tons amarelos bem fraquinhos, uma TV, uma poltrona grande e reclinável que parecia bem confortável ficava ao lado da cama, e um sofá-cama estava do lado oposto, perto de uma porta que provavelmente era o banheiro. Resumindo: um quarto feito para que alguém passasse a noite ali com o paciente. Meu avô dormia tranquilamente, parecia absorto a tudo aquilo que estava acontecendo ao nosso redor. Suspirei de alívio ao ver que não tinha nenhuma agulha no seu braço dessa vez, ele parecia... bem. Então eu vi as manchinhas escuras nos seus braços que estavam descobertos, instintivamente a primeira lágrima caiu. Sabia que atrás dessa viriam muitas outras mas passei a mão que tinha livre no rosto e respirei fundo. Me inclinei um pouco e dei um beijo no rosto dele -
Clara - Nós vamos vencer isso juntos! - sussurrei a passei a mão levemente no seu rosto. Quando saímos do quarto, meus pais e minha avó estavam no meio de uma pequena discussão para saber quem ia ficar. Mas a Dona Glória foi irredutível e ela mesma acabou ficando, com uma condição: no dia seguinte, pela manhã, meu pai iria ficar no seu lugar pra ela poder ir em casa tomar um banho e arrumar uma mala com algumas coisas essenciais. Infelizmente não tínhamos mais nada para fazer, apenas esperar.
    ****
Ele estacionou na garagem do seu prédio e juro que quase pedi pra ficar ali mesmo esperando, minha cara não ia enganar ninguém e ainda não sabia se já estava disposta a falar. Mas... subimos. Ele abriu a porta, e a Duda pulou do sofá, onde estava com a Rafa e a Tia Ná, assim que nos viu. Com passinhos largos e apressados, se aproximou de mim e enlaçou a minha perna com seus bracinhos. Abaixei e abracei-a apertado, sentindo seu cheirinho gostoso. 
Eduarda - Vocês demoraram. Já estava com saudades - fez beicinho -
Clara - Já estamos aqui, boneca. Você está bem?
Eduarda - Eu tô ótima, mãe - respondeu de um jeito engraçado e se fosse em outra situação com certeza iria rir, mas só tentei sorri - E você? - existiam várias respostas para aquela simples pergunta, mas nenhuma era boa. Como eu estava no momento? Arrasada, devastada, consternada, e sufocada pelas lágrimas que iam sair a qualquer momento. Meu estado emocional era apenas deplorável. Mas privei a minha filha disso tudo e assenti tentando parecer o mais convincente possível. Ela sorriu e depois de dar o meu beijo, foi falar com o pai, que permanecia quieto atrás de mim. Saí do hall de entrada, e o meu corpo foi atraído imediatamente pelo sofá -
Rafa - Vocês demoraram mesmo, já estava ficando preocupada - procurei por um relógio pela sala, mas lembei que tinha um no meu pulso e me assustei com o horário: 20h50 - Aconteceu alguma coisa? - até tentei falar mas não saia nada e como não respondi o Júnior olhou pra mim, como que pedindo permissão para falar, concordei. A Rafa percebeu a nossa troca de olhares - Dudoca, você não quer ir lá em cima pegar as coisinhas que a gente comprou pra sua mãe ver?
Eduarda - Sim - respondeu entusiasmadíssima - Eu volto rapidinho - olhou pra mim e sorriu -
Rafa - Mas não precisa correr, estou de olho
Eduarda - Tá - riu e foi em direção a escada. Ela subiu e as atenções se voltaram para nós dois. Felizmente o Júnior falou tudo por mim, permaneci calada e à medida que ele ia contando os fatos, eu percebia que a realidade era realmente aquela e as lágrimas começaram a fluir sem dó nem piedade. Rompi em um choro que parecia não ter fim. Queria parar pra Duda não me ver daquele jeito, mas já tinha segurado tanto que não tinha mais controle. A Tia Ná me puxou para o seu colo e chorei ainda mais quando ela disse que também queria fazer o teste de compatibilidade porque... se meu avô soubesse quanto é amado não tinha escondido a doença por tanto tempo. Quando ouvimos os passinhos da Duda nos primeiros degraus da escada, levantei e fui ao banheiro. Teria outra batalha pela frente: conversar com ela, mas preferia que fosse em casa. Lavei o rosto e coloquei na cabeça que não podia, nem queria assustá-la então tinha que aguentar firme um pouco mais. Voltei pra sala e ela mostrou tudo que tinha comprado com a Rafa pra mim e pro Júnior, tentei não me distrair pensando em outras coisas, depois fomos jantar. Quer dizer, minha garganta ainda parecia ter um nó gigantesco, então não desceu nada além de um copo de suco forçado -
Tia Ná - Vocês estão pensando em contar pra ela? - perguntou quando a Duda subiu pra pegar sua bolsinha e o Júnior olhou pra mim -
Neymar - Eu acho melhor contar
Clara - É... estava pensando nisso mesmo
Tia Ná - Ela já está começando a entender tudo que acontece ao seu redor, então é o melhor a fazer. Conta com jeitinho, omitindo apenas o que ela não precisa saber, ou não entenderia de qualquer forma
Clara - Você vai me ajudar, não vai?
Neymar - Claro que vou, meu amor - me abraçou e deu um beijo na minha testa. Estava ciente de que parecia mais uma criança com medo de alguma coisa naquele momento (e realmente estava com medo) mas não me importei. A Duda desceu, nos despedimos e descemos. No caminho pro apê recebi duas mensagens da Manu, uma era uma selfie dela em frente a uma casa enorme e em outra ela dizia que estava ajudando os pais na mudança. Não queria atrapalhar os planos dela, muito menos falar nada por mensagem, então respondi normalmente pra não preocupá-la. Chegamos ao apê rapidinho, a Duda ainda brincou um pouco com o Luck mas como já estava tarde, pedi pra ela trocar de roupa e vestir logo o pijaminha. Eu só tinha tirado o salto e o casaquinho, mas queria muito um banho - Quer falar com ela agora? - ele me tirou do transe em que me encontrava, sentada no sofá com o Luck no colo, olhando pro nada. Pensei sobre a sua pergunta. Quando saí do quarto, deixei-o lendo “as aventuras dos filhotes” pra Duda, um dos seus livros prediletos, então achei que ela já estivesse dormindo, mas pensando bem... seria bom contar logo -
Clara - Quero! - coloquei o Luck no sofá, respirei fundo pela milésima vez no dia e levantei. Fomos para o quarto da minha pequena, ela sorriu ao nos ver entrar e sentar, um de cada lado, da sua pequena cama. Estava com a sua inseparável Minnie nas mãos -
Neymar - Amor, eu e a sua mãe precisamos falar com você e queremos que você preste bastante atenção. Tudo bem?
Eduarda - Tudo bem - fez uma carinha confusa - O que foi?
Neymar - O vovô Marcos está doente
Eduarda - Doente? - sua voz ganhou uma pontinha de tristeza e surpresa -
Neymar - Sim
Eduarda - Por quê? - ele olhou pra mim. Claro que ela ia fazer essa pergunta -
Neymar - Porque... eu não sei, filha. Ninguém sabe. Essas coisas acontecem. Todo mundo pode ficar doente - simplificou e eu fiquei encantada com o seu jeitinho de lidar com ela -
Eduarda - Eu sei, mas por que o biso? O que ele tem? - suspirei pesadamente. O que podia falar pra ela? Estava me sentindo totalmente perdida - A vovó já fez aquele remédio ruim e amargo pra ele? Se ele tomar vai ficar bom rapidinho - não tive como segurar e meus olhos encheram de lágrimas de novo. Ela estava falando dos chás da minha avó. Tão inocente... Quem dera tudo fosse resolvido com um simples chá -
Clara - Infelizmente o chá da vovó não adiantou, amor... por isso que agora ele está no hospital - ela arregalou os olhinhos - Mas ele só vai ficar lá por um tempinho, até ficar bom
Eduarda - E isso vai demorar? - fez uma careta -
Clara - Eu espero muito que não
Eduarda - Mas eu vou poder ir ver ele? - não tinha pensando nisso -
Neymar - Claro. Te levo lá pra você dá um beijo nele - piscou e ela sorriu -
Clara - Isso, mas agora está na de dormir, mocinha - puxei o seu cobertor pra cima e aconcheguei-a. Me inclinei e dei um beijo na sua testa -
Eduarda - Vou pedir pro Papai do Céu cuidar do biso pra ele ficar bom logo, tá mãe? - outra lágrima rolou e ela carinhosamente passou as mãozinhas no meu rosto -
Clara - Faça isso, amor - ela deu um beijo no Júnior também, depois deitou novamente, juntou as mãos e fechou os olhos. Não conseguíamos ouvi-la mas já estávamos emocionados. Eu particularmente acho que alagaria o quarto se escutasse o que ela estava pedindo. Esperamos que ela pegasse no sono, o que não demorou muito e fomos para o meu quarto. Tomei o meu precioso banho depois do Júnior e vesti uma camisa de manga longa dele, tinha o seu cheirinho. Quando deitamos o silêncio parecia... ensurdecedor. O pior de todos, daquele tipo que consome por dentro porque o barulho que faz é cru, duro... real demais. Claro que comecei a chorar. Sabia que quando começasse não ia parar -
Neymar - Você não está sozinha, entendeu? - tentava controlar meus soluços, mas sabia que tinha sido um pergunta retórica - Seu avô também não. E ele vai sair dessa
Clara - Obrigada - murmurei -
Neymar - Está me agradecendo por quê? - levantou o meu rosto e o acariciou, enxugando algumas das minhas lágrimas. Apenas encolhi os ombros pronta para voltar a choramingar. E chorei. Talvez estivesse sendo uma fraca mas isso era a última coisa que importava pra mim, só queria que o dia seguinte chegasse logo. 


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Hello, babys! 
Vocês acabaram com meu emocional, muito obrigada!!

Leitoras novas, sejam sempre muito bem-vidas! <3
Preciso confessar uma coisa seríssima: me derreto muito toda vez que vocês escrevem "ClaMar", tipo, meu sorriso nem cabe no rosto, só pra vocês saberem mesmo. Isso é sério!! 
Agora, em relação aos livros da Clarinha, acho que até agora só cheguei a citar três: o que ela leu vindo para Santos não posso dizer o nome porque acho que não existe, peguei apenas uma mensagem muito linda do Charles Chaplin (se não me engano o título é "Tua Caminhada") e encaixei-a ao capítulo. Tem o da Jessie, sim esse existe! ️ 
 E esse último, do Augusto Cury, "O Colecionador de Lágrimas". Acho que é só, mas me corrijam se eu estiver errada, ok? Ok.
Beijinhos!! 

PS:. Playlist com Maroon 5 e o Mars dedicada à Ju França!